Nilza_Azzi

Nilza_Azzi

Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

n. 0000-00-00

Perfil
85 015 Visualizações

Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
Ler poema completo

Poemas

543

Contrassenso


E te contar que eu já te amei
embora o amor tão silencioso
antecedesse em seu começo
ao que o destino a mim dispôs

tornasse fato o meu tormento
visto que amor é contrassenso

... e te contar que um arrepio
ainda vive sobre os poros
da alma inteira em seu vazio

como se fosse indiferente
ao coração o que ele sente.

Nilza Azzi
158

Ribalta


Pobre alma que vagueia sem roteiro,
sem parceiro para ser seu ombro amigo,
traz consigo a solidão mais descabida
e duvida das trapaças do destino...

Os fantasmas vislumbrados vão velozes;
não há vozes que lhe sejam familiares
e os pesares, que carrega sobre os ombros,
são assombros já sem peso, são deslizes.

Não me avise destas ruas sem saída,
nem tolhida, seja a escolha que professo,
pois o excesso de opressão deixou-me louco!

Faço pouco, mas coloco o ser completo,
no trajeto por cumprir que ainda me falta
e a ribalta acolhe o público mais nobre.

Nilza Azzi
205

Quase



Eras de quase certezas  
espantos e sabores  
e falta de intenção

Eras ombro e colo
festa e arrebatamento  
antes do vazio

Heras pelos muros  
a repetir auroras  
como se quase fossem  

Nilza Azzi
178

Pequenas questões


O que será...

o que será poético mesmo sem ter metro  
e mesmo ainda que lhe falte rima  
a lua, as estrelas, uma flor, o arco-íris  
o sentimento que me escreve  
o escrever a desvendar as emoções  
ou será essa vontade de saber por que existo nesse mundo  
um vazio nas entranhas  
uma voz  
um saber sem palavras repetidas pelas pautas e entrelinhas  
a poeira ao sol  
cristais de gelo, folhas orvalhadas, manhãs com neblina  
a garoa de São Paulo  
minhas lágrimas  
o chão de um deserto depois da chuva  
as nuvens do céu a alterar as formas que eu invento  
um sorriso...  

O que será dessa estátua de sal em que tornei o meu reflexo  
um grito ou uma súplica  
uma vontade de fazer valer o proibido  

Nilza Azzi
65

Temporal


Nuvens grossas cinzentas
poeira no ar e ciscos
o vento levanta

O ar abafado pesa
o céu caminha até mim
mais e mais baixo

Ouço o farfalhar das folhas,
ecos de sons desastrosos 
as aves já se esconderam
chega a escuridão 

O vento aperta o passo
aproxima-se o som dos trovões
procuro um abrigo 
resta-me pouco tempo

Nilza Azzi
70

Chuvisco


Tome-se o cinza claro
e faça-se dele um céu bem alto
escondendo atrás das nuvens
a alegria do azul.
Depois sopre-se um vento
medianamente fraco
para soltar algumas gotas
que passem rapidamente

Nilza Azzi
212

Garoa


Esse frio desde cedo, desde ontem, 
desde sempre... gela os ossos a doer.
O cinza por sobre o sol,
neblina constante e densa,
a cidade encantada, adormecida,
desabitada de vida aparente.

Névoas correm com o vento,trocam de lugar,
mas não se dispersam, em seu passeio
sobre os contornos difusos de uma ou outra cor,
mas logo retorna o mundo oculto,
que à visão desconforta,
quase desolação.

Adivinha-se em segredo, 
cada vida ali presente, 
resguardada pela névoa.

Gotas delicadas, pequenas
carícias leves, geladas,
descem suavemente do céu.

Nilza Azzi
54

Id

De onde sairão os pensamentos fortes
que vencerão as mortes além da lousa fria
se as luas derrubadas nas montanhas
não mais terão o encanto
da perene luz vadia?

Dos velhos lobos que uivavam nas campinas
já não ressoam mais as vozes estranhas.

Das formas tamanhas e espectrais
os muitos barcos no cais
restarão apenas sombras inofensivas
e a lembrança enevoada das gradivas
fenecerá com seu último espanto.

Se não chega para tanto, a primavera desistiu talvez...
Entre os absurdos e as auroras existiria um mundo, ou sonhei?

Se não há lei que torne a realidade menos cruel
desisto de esperar, deponho a pena.

Deuses dos desertos visitados
falam dos pecados e fujo em pânico.

Sem céu a clarear-me a nova estrada
a equivocada estrela no horizonte
some sem que aponte campos verdes ou florestas
e as pequenas flores da giestas caem ao chão sem sentido
sem mesmo aspirar-lhes o perfume
qualquer criatura mais sensível.

Debruço-me sobre o precipício das vaidades
e a vertigem atinge onde me alcança.
Perdeu-se uma criança que já não tinha medo
e a experiência de morrer apenas começou...

Nilza Azzi
73

A penas


Era uma pluma leve como a pena;
era uma pena dura de roer.
Era uma agressão forte que depena,
feita a bico de pena, por prazer.

Era uma linha a dirigir a pena,
era uma pena inútil, sem saber.
Era uma pauta rica, ainda em cena,
a leve pluma, além do mesmo ser.

Era uma pena de ave, morta ao lado,
era o pio do filhote abandonado,
no apelo por alguma intervenção.

Era bem como as coisas todas são:
efêmeras, penosas, passageiras.
– As penas voam leves, sem fronteiras.

Nilza Azzi
426

Morreres


Se eu tiver que morrer ao meio-dia,
que o sol se esconda e a chuva seja fria
e que eu vá jazer longe daqui,
no mar azul, que há muito eu escolhi.

E assim meu pó não saiba mais quem é,
se areia, sal, se espuma ou mesmo até
alguma conta, em que participei
da formação da esfera, branca ou grei.

Se eu tiver que morrer à meia-noite,
que o vento encrespe e forte seja o açoite
das ondas, sobre as rochas das falésias...

E as minhas poucas cinzas, ele asperge-as,
o mar revolto, a um céu indiferente,
na cor banal de um último poente...

Nilza Azzi

 
179

Comentários (4)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!