Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
E te contar que eu já te amei embora o amor tão silencioso antecedesse em seu começo ao que o destino a mim dispôs
tornasse fato o meu tormento visto que amor é contrassenso
... e te contar que um arrepio ainda vive sobre os poros da alma inteira em seu vazio
como se fosse indiferente ao coração o que ele sente.
Nilza Azzi
158
Ribalta
Pobre alma que vagueia sem roteiro, sem parceiro para ser seu ombro amigo, traz consigo a solidão mais descabida e duvida das trapaças do destino...
Os fantasmas vislumbrados vão velozes; não há vozes que lhe sejam familiares e os pesares, que carrega sobre os ombros, são assombros já sem peso, são deslizes.
Não me avise destas ruas sem saída, nem tolhida, seja a escolha que professo, pois o excesso de opressão deixou-me louco!
Faço pouco, mas coloco o ser completo, no trajeto por cumprir que ainda me falta e a ribalta acolhe o público mais nobre.
Nilza Azzi
205
Quase
Eras de quase certezas espantos e sabores e falta de intenção
Eras ombro e colo festa e arrebatamento antes do vazio
Heras pelos muros a repetir auroras como se quase fossem
Nilza Azzi
178
Pequenas questões
O que será...
o que será poético mesmo sem ter metro e mesmo ainda que lhe falte rima a lua, as estrelas, uma flor, o arco-íris o sentimento que me escreve o escrever a desvendar as emoções ou será essa vontade de saber por que existo nesse mundo um vazio nas entranhas uma voz um saber sem palavras repetidas pelas pautas e entrelinhas a poeira ao sol cristais de gelo, folhas orvalhadas, manhãs com neblina a garoa de São Paulo minhas lágrimas o chão de um deserto depois da chuva as nuvens do céu a alterar as formas que eu invento um sorriso...
O que será dessa estátua de sal em que tornei o meu reflexo um grito ou uma súplica uma vontade de fazer valer o proibido
Nilza Azzi
65
Temporal
Nuvens grossas cinzentas poeira no ar e ciscos o vento levanta
O ar abafado pesa o céu caminha até mim mais e mais baixo
Ouço o farfalhar das folhas, ecos de sons desastrosos as aves já se esconderam chega a escuridão
O vento aperta o passo aproxima-se o som dos trovões procuro um abrigo resta-me pouco tempo
Nilza Azzi
70
Chuvisco
Tome-se o cinza claro e faça-se dele um céu bem alto escondendo atrás das nuvens a alegria do azul. Depois sopre-se um vento medianamente fraco para soltar algumas gotas que passem rapidamente
Nilza Azzi
212
Garoa
Esse frio desde cedo, desde ontem, desde sempre... gela os ossos a doer. O cinza por sobre o sol, neblina constante e densa, a cidade encantada, adormecida, desabitada de vida aparente.
Névoas correm com o vento,trocam de lugar, mas não se dispersam, em seu passeio sobre os contornos difusos de uma ou outra cor, mas logo retorna o mundo oculto, que à visão desconforta, quase desolação.
Adivinha-se em segredo, cada vida ali presente, resguardada pela névoa.
Gotas delicadas, pequenas carícias leves, geladas, descem suavemente do céu.
Nilza Azzi
54
Id
De onde sairão os pensamentos fortes que vencerão as mortes além da lousa fria se as luas derrubadas nas montanhas não mais terão o encanto da perene luz vadia?
Dos velhos lobos que uivavam nas campinas já não ressoam mais as vozes estranhas.
Das formas tamanhas e espectrais os muitos barcos no cais restarão apenas sombras inofensivas e a lembrança enevoada das gradivas fenecerá com seu último espanto.
Se não chega para tanto, a primavera desistiu talvez... Entre os absurdos e as auroras existiria um mundo, ou sonhei?
Se não há lei que torne a realidade menos cruel desisto de esperar, deponho a pena.
Deuses dos desertos visitados falam dos pecados e fujo em pânico.
Sem céu a clarear-me a nova estrada a equivocada estrela no horizonte some sem que aponte campos verdes ou florestas e as pequenas flores da giestas caem ao chão sem sentido sem mesmo aspirar-lhes o perfume qualquer criatura mais sensível.
Debruço-me sobre o precipício das vaidades e a vertigem atinge onde me alcança. Perdeu-se uma criança que já não tinha medo e a experiência de morrer apenas começou...
Nilza Azzi
73
A penas
Era uma pluma leve como a pena; era uma pena dura de roer. Era uma agressão forte que depena, feita a bico de pena, por prazer.
Era uma linha a dirigir a pena, era uma pena inútil, sem saber. Era uma pauta rica, ainda em cena, a leve pluma, além do mesmo ser.
Era uma pena de ave, morta ao lado, era o pio do filhote abandonado, no apelo por alguma intervenção.
Era bem como as coisas todas são: efêmeras, penosas, passageiras. – As penas voam leves, sem fronteiras.
Nilza Azzi
426
Morreres
Se eu tiver que morrer ao meio-dia, que o sol se esconda e a chuva seja fria e que eu vá jazer longe daqui, no mar azul, que há muito eu escolhi.
E assim meu pó não saiba mais quem é, se areia, sal, se espuma ou mesmo até alguma conta, em que participei da formação da esfera, branca ou grei.
Se eu tiver que morrer à meia-noite, que o vento encrespe e forte seja o açoite das ondas, sobre as rochas das falésias...
E as minhas poucas cinzas, ele asperge-as, o mar revolto, a um céu indiferente, na cor banal de um último poente...