Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
A fina linha azul que envolve a Terra, nos limites de nossa atmosfera, diz: — tudo sob o céu, calor encerra — e, na medida exata, o reverbera.
A água, condensada sobre a serra, traz chuva e faz florir a primavera. Despenca a cachoeira, o lago cerra, a neve envolve o Sul em luz cinérea.
Em torno de Saturno, antelucano, Titã nos lembra a Terra primordial, com líquido num ciclo correlato.
Num mundo penso, hostil , nuvem é fato. Nos polos, muito gelo. — Sobre o vau, há mares , lagos, rios — de metano.
Nilza Azzi
63
Sequelas
Num dia, consumiram-se os sorrisos e a terra não mais viu as primaveras, as aves não cantaram mais, deveras, soltavam pios roucos, imprecisos...
E logo após, o céu tornou severas as cores dos poentes... Indecisos, nos campos, silenciaram-se os avisos – a vida remontava às velhas eras.
Era uma cena estranha e sem sentido, o mundo escuro não sabia a luz, em nada havia o brilho que seduz.
A dor de um coração desvanecido, pairava sobre os campos nevoentos, inertes, silenciosos e sem ventos.
Nilza Azzi
51
Esperanças
Navega um veleiro, por rumos incertos, em busca de praias selvagens, tranquilas, perdidas nas ilhas, bem longe das vilas, nas águas azuis desses mares desertos, ausente, o sinal de que tempo encoberto prometa a beleza do dia toldar. As aves em bando desenham no ar sinais sinuosos tão cheios de graça e conchas e pedras, que a água entrelaça , faíscam na areia do fundo do mar.
Sem rota traçada, ao sabor das correntes, entrega sem medo o caminho a seguir, e vive o momento, sem qualquer porvir. Por mares bravios, mais do que transparentes, já foi seu percurso, ao sol mais ardente, sem muita esperança de um porto alcançar, a indiferença das águas sulcar, até que, cansado de tantos naufrágios, ousou desdenhar todo e qualquer presságio e quis saber mais dos encantos do mar.
Assim somos nós! Com os nossos talentos e, sem descansar, nós seguimos adiante, entre ondas e vagas da vida inconstante. Nascidos, já somos expostos ao tempo, num mundo difícil, assaz violento, buscamos, sem trégua, a alma aplicar à vida empenhada no ato de amar... Quem dera uma ilha de Paz nos aguarde e ali nos acolha, antes que seja tarde, o Amor, a galope, na beira do mar!
Nilza Azzi(10/05/2019)
50
Escuna
Terza rima, inspirada no curta de animação "Bottle", de Kirsten Lepore
Havia o grande mar entre nós dois, também havia o amor e seus mistérios; um mar imenso, vasto e forte, pois...
Havia a diferença de hemisférios e toda a solidão dessa lacuna; a dor da ausência e vários medos sérios.
Mas, bem na praia, erguia-se uma duna e, dela se avistava, no horizonte, as velas promissoras de uma escuna.
Acima da distância, havia a ponte.
Nilza Azz
65
Tempestade
O mar bramia em fúria; em todo lado, o vento levantava a areia fina... Um ar, perdido em bruma, esbranquiçado, como se a hora fosse vespertina, o céu pesado em cinza (que pecado!) a chuva a fustigar uma ruína. E veio a tempestade, força viva, varreu a praia inteira e, foi embora. Depois o sol ressurge e o dia aviva as luzes do nascente e faz-se aurora!
Nilza Azzi
504
Marina
Senti como se o céu de azul intenso conversasse comigo e, confidente, soubesse dos detalhes do que penso, do turbilhão que habita minha mente.
À mão, em tal lugar, sequer um lenço, para salvar os olhos de uma enchente. Na busca de aplacar o gesto tenso, simulo o olhar vazio, num ponto ausente.
Nenhuma nuvem mancha o céu e a vida emerge da paisagem colorida, que some no horizonte, junto ao mar.
Contudo exista calma no ambiente, a dor não me abandona e, sutilmente, em ondas vai doendo devagar...
Nilza Azzi
517
A fita
Puseste bela fita no cabelo, rosada, contra o negro dos teus cachos... Depois, tu desdenhaste o meu desvelo: – Menina, de mim fazes o diacho!
Então foi tudo fita e atropelo, viraste, de cabeça para baixo, as pontas dessas fitas. Que novelo! No meio dessas fitas não relaxo...
E desse olhar maroto que me fita, entendo que me amarras com teu jeito. E fazes o que fazes tão direito,
que já não sei se a tira delicada atrai o meu olhar, ou se é cilada a fita que te torna mais bonita.
Nilza Azzi
273
Da tristeza
Tenho uma dor, antiga como a vida, se tem um nome, deve ser Tristeza. Já vim ao mundo, dela acometida, antes que a minha alma fosse acesa.
Para deixar de estar assim perdida, na solidão, em meio às incertezas, fiz contra a deusa súbita investida: – Tornei-me alegre (estúpida proeza!).
E nesta vida, onde há pouco e tanto, de uma alegria que persiste breve, de uma tristeza que nunca prescreve,
a alegria envolve-me à vontade, mas é tristeza o que da alma evade e vem amalgamar-se ao meu espanto.
Nilza Azzi
183
Fracasso
Eu já não tenho um coração comigo: faz muito tempo que ele foi embora. No seu lugar, tudo que vejo agora é uma ausência cheia de perigos. Houvesse a alma e eu não a teria, porque perdida estive para tudo e só herdei este silêncio mudo. – Sou uma sombra estúpida e vazia e na ilusão de ser o que não sou sobra uma vida que não há em mim... Vida sem rumo, que não chega ao fim, mas que tampouco se concretizou.
Sem coração, não sei compor um verso, sem alma, então, o sonho é mais perverso.
Nilza Azzi
45
Infinito
Esse engenho que roda enquanto gira e, ao girar, faz rodar tudo ao redor, e carrega no centro o rei maior, queima sempre e sem fim, a imensa pira.
Esse fogo sustém um pormenor, é uma força infinita e nunca expira, entrelaça nas alças de safira, a existência do grande e do menor.
Entre os sóis que constelam seu trajeto e as esferas, de suma quididade, em si mesmo, ei-lo único e completo...
Infinito, do qual nada se evade, guarda tudo o que há de mais secreto, vai e vem, detentor que é da Vontade!