Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Quando você foi embora, naquela tarde de abril, bem notei pela demora, o modo como sorriu,
que nem tudo o que foi dito, era a verdade completa. Ficou algo, eu acredito, sem dizer e que me afeta
até hoje; coisas minhas. Leituras dos gestos, seus, são sinais nas entrelinhas, nas pautas daquele adeus.
Nilza Azzi
515
Indiferença
Os mouros que à costa vêm, assustam como ninguém e nos ameaçam todos... Se a notícia soa falsa, tem poder e o temor alça bem mais alto do que aos godos. Mas se é só espalhafato, se não passa de boato, a chegada dessa gente só me deixa indiferente.
Nilza Azzi
184
Matriz
Ah, não fosse em vão, quem sabe até feliz, sem o teu amor viver a triste vida. Ter a diretriz correta da partida, mas perder o siso e a meta que se quis.
Ah, se fosse amor a escolha preferida e não mais pusesse em mim, a dor raiz, pois, se por um triz, a luz não mais bendiz, sobra-me afinal buscar nova guarida.
Guarda o coração, matriz do amor que tive; sem qualquer razão, persiste esta lembrança, qual a ferro e fogo, em mim fosse gravada.
Mas no fundo sei que não adianta nada... Este meu presente é lúcido e me lança sempre e sempre além – além desse declive.
Nilza Azzi
81
Gato
Eu me apaixonei por ti, entreguei meu coração, porém tu disseste um não, à prova que eu te pedi. Tu não me amas de fato, como eu pensei que me amasse. Sei bem que tu és um gato, mas só vejo em tua face, um olhar vago, abstrato.
Nilza Azzi
176
Corpos
Uma estrada começa e termina, ou emenda e assim vai embora. Uma rua se dobra na esquina; o horizonte, essa quebra devora.
Com estradas se faz uma rede que se espalha por todo lugar. Se uma rua termina em parede, é preciso virar e voltar...
Essa estrada infinita que eu sigo é teu corpo, o caminho, a viagem que me leva aos confins do meu ser;
é o espaço que pode conter nossas almas enquanto interagem, pela carne, na qual têm abrigo.
Nilza Azzi
57
Estranha
A rima fácil, eis a tentação, falácia traiçoeira, assim concluo. Palavras escorregam pelo vão dos vagos pensamentos, um recuo
da forma que não tem explicação. Quem quer o bom labor rejeita o duo, no fluxo perfeito e sem senão da estranha poesia em que flutuo.
Há algo, no meu imo, que incomoda e busca certo alívio por caminhos, desvios de uma estrada clara e ampla.
Na luta por livrar-me desta roda, a alma parte em busca de moinhos e o verso perde o brilho e já descamba.
Nilza Azzi
58
Labaredas mal acesas
Debrucei-me sobre as minhas incertezas todas presas por um fio, meio suspensas como contas de um colar, as minhas crenças a vacilar labaredas mal acesas...
Depois me ergui, enfrentando indiferenças, sem entender bem o vão das sutilezas... Guardei num susto as palavras todas presas e desdenhei de aventuras mais intensas.
Enfim parti à procura de outros ares, para enfrentar a pressão que cresce farta, além da dor, sem sinais particulares...
Atrás de mim não imprimo qualquer marca... Jamais espero que um dia tu me ampares, nessa esperança, minh’alma não embarca.
Nilza Azzi
46
Ocupação
Há sempre um embate entre o traço e o espaço cada movimento sobre o papel, a tela requer o direito da apropriação.
nilza azzi
45
Mistura apreciável
A Lua que passeia pela estrada qual fada com varinha de condão no chão deixa pegadas luminosas e a rosas ganham cores momentâneas.
O Sol que ferve a areia do deserto decerto faz viver as criaturas promove uma mistura apreciável a vida ainda mantém o seu recado.
Ao lado o mar recua e ainda avança a dança das certezas mais quiméricas acesas vão estrelas pelo cosmos.
A foz nos diz que o rio um dia acaba a taba ainda existe alegórica em triste fragmento de incertezas.
Nilza Azzi
30
Descompasso
Na Via-Láctea, ela é apenas um pontinho entre os zilhões de corpos no vazio do Espaço. Ao contemplá-la, deste modo, eu adivinho: o ser humano que ali vive é tolo e lasso.
Não foi capaz de conservá-la, em bom compasso, e do ambiente, só retira, comezinho, por egoísmo e interesse, um erro crasso, na exploração, sempre quer mais um bocadinho.
Entre os segredos que carrega inda consigo, ela revela pouco a pouco do perigo, das atitudes predatórias, tão marcantes.
Um dia, a calma do planeta irá cessar e as aflições, pelo calor que está no ar,