Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Então pintei de verde os meus cabelos, sem saber se acertava em tal emprego; se na guerra e no amor não há sossego, que morra verde o fruto e sem desvelos...
E o verde mar profundo a que me achego, levanta, em verdes ondas, pesadelos que o verde das palmeiras rasga em zelos e tudo se transforma em desapego...
E na verdura insana da floresta, vasculho sem saber se ali inda resta uma esperança, ao menos, a brilhar.
Um vaga-lume o vago verde pisca e, esverdeada, deixa uma faísca e se a loucura é verde eu já não sei.
Nilza Azzi
188
Camuflagem
Ramos, guirlandas, flores em cascata alcatifaram toda a rodovia. Por ela caminhei, cheguei à mata, àquela onde cantava a cotovia.
Toquei, ao alaúde, a serenata, contei segredos, mas não entendia porque meu coração jamais acata a voz que o adverte todo dia.
Há nítidos sinais por toda parte, mas não posso entender essa mensagem – a Lua lá no céu me desconcerta !
Quisera ter nascido mais esperta, agir como os heróis dos filmes agem e ir viver nalgum jardim de Marte.
Nilza Azzi
202
Galáctica
Meu namorado colhe estrelas, tece os ramos que me oferece, azuis clarinhos, cintilantes... Dispõe tapetes só de flores onde estamos, onde sorvemos luz e amor, a cada instante. Sua presença traz ao mundo a cor dourada; faz coração vibrar num sentimento puro. ele é presente, ele é passado, ele é futuro. Meu namorado põe a luz no meu olhar e o mundo faz girar veloz à minha volta; com devoção conduz minh’alma a apreciar a imensidão... Tal qual um raio, ela se solta dessa prisão e, sem temer mais coisa alguma, alcança os sonhos das venturas, uma a uma.
Nilza Azzi
79
Eclipse
Então o sol se pôs e a Poesia foi encontrar a Lua do outro lado, a lua cheia em gêmeos nesse dia, em que terá seu brilho eclipsado.
E lhe diz a Poesia: – Tem cuidado e dá valor à luz que te alumia, pois antes que tivesse, o sol, brilhado, eras escura em céu sem harmonia.
Responde a Lua: – Ah, Poesia, és doce e é por isso que eu gosto de inspirar-te, de somar meu lirismo à tua arte.
... Retoma ainda, quase em um sussurro: – Os vates pelo céu à noite empurro, antes mesmo que o sol, estrela fosse...
Nilza Azzi
480
Desidratação
Destrói o que seria o seu jardim em flor e deixa, em todo espaço, um ar de desencanto... Não há mais alegria e nem perfume. É tanto o mal que prevalece e lhe desbota a cor.
Morreu desde a raiz, a vida desse canto; dos ares da esperança, a dor não vai dispor. Retrato em branco e preto, a forma bicolor revela a emoção, melhor que a cor, garanto.
Contudo, na lembrança, a rosa permanece e o seu perfume apraz à mente desgarrada, do bem que alimentou, da ausente clorofila.
A cena do passado, a imagem que desfila, indica que perdeu vitalidade e nada sobrou daquele amor, lembrança de outra espécie.
Nilza Azzi
51
Derrota
Guardei a minha força, meu tesouro, no castelo secreto, na alma fria; naquele sonho inerte que anuncia: – dos bens, apenas um é duradouro.
E digo, é bem discreta esta alegria, porém tem um sabor imorredouro. Um dia, do crisol, emerge o ouro; previu-se já que assim é que seria.
Na busca por sentido, a vida escoa, na luta entre as forças, claro, opostas, na ânsia de ganhar qualquer pessoa.
Se Atlas leva o mundo em suas costas, sou fraca de uma forma que destoa... Sucumbo à tal tarefa a mim imposta.
Nilza Azzi
53
Dantesco
Havia monstros azuis incandescentes e outros vermelhos, girando ao meu redor. Havia dor, muita dor, nesse ambiente, de um tipo tal que não deve haver pior
e a luz perfeita de um céu indiferente a incidir sobre a pedra do altar-mor. Era o inferno de Dante à minha frente? Era pior que eu pensara e bem maior.
Tornava em bênção a pena mais temida e a sujeição pela espera, num suplício. – Seguir sem fim, condição da prória vida!
Como sofrer fosse um fardo vitalício e aquele horror – um fantasma suicida – uma cilada na estrada, um precipício.
Nilza Azzi
55
Abandono
Hoje abandono o canto da poesia; escolho uma palavra e vou pra farra, ajunto-lhe a segunda, que me esbarra, e uma terceira, ah, quase me fugia...
Em cada esquina, alguma se desgarra atrás de si estende a sombra esguia; samba no pé, desfila a fantasia depois se vai, fazendo uma algazarra.
E a poesia, esse ideal tão nobre, nessas palavras já não se descobre; vistas do avesso, repudia as três.
Quando retorno, não me reconhece e me abandona, tira-me a benesse, e o meu sentido esvai-se de uma vez.
Nilza Azzi
53
A dança cósmica
Convém entrar na dança criativa deste momento, o único presente, e na roda lembrar que assim faz Shiva em movimento eterno, permanente.
E enquanto dança e a natureza aviva, em seu cabelo a forma de um crescente, já conduz outra força, a destrutiva, e tudo volta ao caos de anteriormente.
O mestre, que é senhor do espaço e tempo, e vive em reclusão nos Himalaias, dançando sobre a neve é que ele ensaia
o antigo ritual; nesse entretempo, logo o gelo derrete e um fio esguio d‘água alimenta a vida – e forma um rio.
Nilza Azzi
64
A cartomante
Ela agitou a bola e olhou bem fundo; logo explicou, tudo é ilusão da mente e sei por que é assim, exatamente, é que te opões ao bom e velho mundo.
Tu sofres tanto, quando ninguém sente a solidão e a dor, cada segundo, se nessa opinião eu me aprofundo, é porque és forte, além de renitente.
Mas ninguém leva um fardo além das forças! Se acreditar em Maya leva adiante e nos solapa a paz de cada instante,
mesmo que finjas e a visão distorças, o que o cristal revela, sem embargo, é que essa escolha deixa gosto amargo.