Fonte
o meu desejo por você vem das águas primordiais,
porque lá, um dia, estivemos em comunhão,
partilhamos a graça de um só coração
e flutuamos, em êxtase, qual feto
que desconhece em seu destino
uma separação!
o meu desejo por você
vem do barro de que fomos feitos
ao emergir da águas para os céus,
onde o ar suavemente nos secou
e o fogo nos forneceu impulso,
para que pudéssemos carregar
cada qual, o nosso próprio Ser,
insuspeita ainda a dor da Queda,
a saudade de nossa inocência...
então, quando irrompe,
meu desejo brota, poro por poro,
em gotas d’água cintilantes!
eu me molho por você,
como um cântaro saturado,
que não pode mais conter
a umidade transbordante.
em meu desejo por você,
eu, líquida, sou fonte única
a matar a sua sede;
sou lembrança das origens,
na memória resguardada.
sereia de canto mágico
aguardo em águas amenas,
mas a intenção, não duvide,
é levá-lo a nadar comigo,
eterno mar abissal!
Nilza Azzi
Madrigal das margaridas
No verde dos canteiros, surgem os botões
que vão tomando forma, esticam sua haste
e deixam ver o branco, em tímido contraste.
Passeiam joaninhas, buscam os pulgões,
numa colônia imensa, parecem milhões...
Nem mesmo água de fumo, nada há que os devaste!
É deixar que algum tempo passe e os afaste...
Passeio diariamente a olhar esses canteiros
e um dia percebo que se abrem os primeiros
botões, cuja pureza envolve o amarelo,
num branco petalado, em torno do miolo.
Depois é um mar gentil de flores espalhadas;
esqueça o bem-me-quer... Isso é papel de tolo!
Nilza Azzi
Primavera ardente
A tarde estava quente e seca
o ar pesava sobre a Terra,
havia um coração ferido,
nos termos qua a razão alerta,
as nuvens combinavam cinzas
com esta dor que existe em mim,
os sorrisos não afloravam,
o olhar mantinha-se triste,
morava o horizonte distante;
na atmosfera tudo para;
logo a tempestade dispara.
Nilza Azzi
#retranca
Ondas
A onda que afoga meu ser em tristeza,
por nada se explica e em nada começa.
Engole meus sonhos, tranquila e sem pressa,
e afunda no abismo, minh’alma indefesa.
É um mundo perdido que a dor atravessa,
e nele não sobra nem luz, nem beleza.
Somente a saudade é que ali vive presa
a quando esta vida era sempre promessa.
Mas dizem que o mar, devolvendo às areias,
qualquer corpo estranho, em marés, quando cheias,
promove a limpeza das águas... Decerto,
mais limpa é a praia, em lugar mais deserto,
e as ondas que vêm e que vão, sobretudo,
não podem roubar-me a coragem... E eu mudo!
Nilza Azzi
Modulações
Houve um dia, nas brumas que se foram
em que acreditei no que compunha
num sonho destemido
a desfilar palavras cruas
portando uma bandeira
Nesse passado estranho havia a forma
num bastar-se, num ser talvez completo
algum sinal de uma entidade confiável
um momento em que as juras
deveriam jamais ser enunciadas.
Esse estereótipo de fundo tão complexo
nunca dirá do que me vai por dentro
ou de tuas confusões inevitáveis
das dores do percurso, a linha vã
sem fim e sem propósito palpável
Na lágrima perdida o ar escuta
apenas o soluço, o vago balbuciar
não há mais no que crer
nem mesmo o signo
é digno...
Nilza Azzi
Sangria
Dentre essas formas mortais, restos que eu vejo,
estranha luz que se apaga e não retorna,
como a tinta descascada de azulejo
nos mostra uma tela insípida e sem forma,
as tristezas, que suporto, e não confesso,
têm resíduos poderosos, resistentes,
pois no fundo de minh’alma, no recesso,
é impossível de se achar, mesmo com lentes,
alguma causa real que as justifique.
Se as mantenho ali contidas por um dique,
muitas vezes não parece que consigo...
Da precária segurança eu sinto medo;
sempre há fendas mal vedadas, um perigo.
Então choro – essa sangria eu me concedo.
Nilza Azzi
Rua
Num caminho diferente
Passeiam gentes e sonhos
Estes são muito concretos
Aqueles totalmente aéreos
Ninguém encontra conversa
A rua é vasta e desocupada
E no fim é tudo igual
Nilza Azzi
Sexo legal
quero sexo
ali na hora da vontade
sem luxo
na força da natureza
e se o bucho cresce
e me aparecem os meninos
o destino que eles têm
na cidade
pode ser um descaminho
mas no cantinho onde vivo
quando eles pegam idade
são os braços que me ajudam
a pôr comida na mesa
nilza azzi
Verão
Fez xixi aqui, mijou ali, marcou lá adiante,
o cãozinho atravessou a praça
indiferente ao sol...
Balançava a cauda erguida,
orgulho de macho,
ao sumir do outro lado
na direção do bar do Sei lá... (argh!)
Nilza Azzi
Velha toada
As flores que vi na estrada
toldaram meus pensamentos,
não deixaram sobrar nada
atrás dos meus passos lentos.
Na praia vivo do vento
que sopra vindo do mar;
em terra, mas que tormento,
jamais paro de pensar.
Entre flores, ventos, ondas,
desisto de procurar;
não acho quem me responda
quantos peixes tem o mar.
Meu amor, na maré cheia,
catei conchas, persegui
caranguejos pela areia,
mas não te encontrei ali.
Foi nos ares da montanha
que encontrei alguma paz;
o silêncio me acompanha:
pensar, já não penso mais.
Nilza Azzi