Lista de Poemas

Vazios

Eu tenho as mãos geladas, olhos baços,
sem ti, o mundo, inerte, perde o viço
e a vida se desfaz num tom mortiço;
sem ti, tudo me escapa, faltam laços...

Os dias vão e vêm, e nem por isso
serão os meus desejos, mais escassos,
nas horas que me escapam aos pedaços,
sem graça, pois me falta o teu feitiço.

A noite chega cheia de arrepios,
mas sonho que divido a minha cama
contigo, que teu corpo por mim clama,

porém meu leito assoma em seus vazios
e sem o teu calor, não tenho nada:
— A noite é uma esperança esfarrapada.

Nilza Azzi
51

Fascínios

Em face a borboletas e corujas,
escolho as borboletas, por que não?
As borboletas, co'as patinhas sujas

de pólen, entre as flores, sempre são
presenças delicadas, são beleza.
Encantam todos, sempre uma atração,

as borboletas, leves, indefesas...

Nilza Azzi
26

Testamento

Em bela caligrafia,
registro minhas previsões
para um futuro sem rima.
À margem, anoto, a esmo,
observações sem sentido
sobre o meu poema barato.
Imprimo o mata-borrão
e tenho cópia em espelho...
Escolho um velho envelope,
guardo o papel bem dobrado,
derreto o lacre na chama
e selo o vão conteúdo.
Marco a data de abertura,
num feriado do futuro...
Coço a pinta no nariz
e caço a velha vassoura
que nem sei onde ficou.

Nilza |Azzi
39

Verão

Fez xixi aqui, mijou ali, marcou lá adiante,
o cãozinho atravessou a praça
indiferente ao sol...

Balançava a cauda erguida,
orgulho de macho,
ao sumir do outro lado
na direção do bar do Sei lá... (argh!)

Nilza Azzi
37

Sexo legal

quero sexo
ali na hora da vontade
sem luxo
na força da natureza
e se o bucho cresce
e me aparecem os meninos
o destino que eles têm
na cidade 
pode ser um descaminho
mas no cantinho onde vivo
quando eles pegam idade
são os braços que me ajudam
a pôr comida na mesa

nilza azzi
36

Ah, que saudade

Ah, que saudade eu tenho das palavras
que a voz se me embargou e, assim, não disse,
pois se perderam, longe, em outras lavras
foram reverberar minha sandice...

Nilza Azzi
49

Se essa lua...

se essa lua, se essa lua fosse minha
eu pedia, eu pedia pra entregar
lá na rua onde existe uma casinha
que seria mais bonita 'inda ao luar

nilza azzi
30

Vou pra Jabuticabal

Vou pra *Jabuticabal
– vou colher jabuticaba –
escolher em qual quintal
a fruta nunca se acaba.
Gosto de manga com sal;
pode ser verde, a goiaba,
desde que não faça mal,
eu como e não fico braba,
mas em Jabuticabal,
sou pajé da minha taba.

Nilza Azzi

*Jabuticabal: cidade do interior de SP
92

No limiar da natureza

(“Se é de metal, minha visão atina
e ao pedregulho mais comum eu canto.” — Bento Ferraz)

Percorro as poucas ruas do meu bairro, 
as casas que contornam labirintos,
os muros, pelo musgo escuro, tintos, 
as portas e janelas de madeira,
um gato que aparece e já se esgueira, 
a velha que me espia da janela,
a jovem sorridente e muito bela, 
e tudo que provoca algum espanto,
se é natural, minha visão atina
e o pedregulho mais comum eu canto,

porque, se a natureza me convida,
não posso desprezar o seu chamado.
No mundo, eu não me sinto deslocado, 
meu bairro é sempre cheio de surpresas
e posso descobrir muitas belezas, 
apenas, ao dobrar qualquer esquina:
Se é natural, minha visão atina
e o pedregulho mais comum eu canto
e, assim, a cada pedra eu amo tanto,
pois pedras também guardam sutilezas

e nada do que vejo é permanente...
As nuvens condensadas pelo céu, 
os pássaros, em súbito escarcéu,
acabam por gravar-se na retina.
Se é natural, minha visão atina
e o pedregulho mais comum eu canto...
Meu canto almeja ser um acalanto, 
qual música suave das esferas, 
os sons que já vararam tantas eras,
ou mesmo o próprio Verbo sacrossanto!

Quem dera que o meu canto fosse ouvido,
tal fosse uma verdade cristalina!
Se é natural, minha visão atina
e o pedregulho mais comum eu canto,
assim evito apenas que o meu pranto, 
vertido por tristezas inconfessas, 
percorra as muitas ruas e travessas
do bairro onde nasci, faz algum tempo
e os sonhos que deixei no calçamento
e a paz sejam reais, e não promessas...

À paz, a inteligência se destina!
Se é natural, minha visão atina
e o pedregulho mais comum eu canto.
A pedra não tem vida e, entretanto,
não causa nenhum mal ao semelhante.
Inerte, seu valor é mais constante,
que aquele do mais mísero animal.
Afeito a fazer bem, só faz o mal,
e atinge com furor seu semelhante,
esquece que o Amor é dom vital.

Nilza Azzi 

#poema com mote migrante
24

A trova


A trova é uma arte antiga, 

tão simples e encantadora;
de trovar não se fatiga
a minh’alma trovadora...

Nilza Azzi
42

Comentários (4)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!