Ser flor...
ser flor
e nada ser antes de abrir-me
como se o imo revelado
ainda guardasse o pólen
para abelhas que passeiam
carregadas de amarelo
nilza azzi
Vazios
Eu tenho as mãos geladas, olhos baços,
sem ti, o mundo, inerte, perde o viço
e a vida se desfaz num tom mortiço;
sem ti, tudo me escapa, faltam laços...
Os dias vão e vêm, e nem por isso
serão os meus desejos, mais escassos,
nas horas que me escapam aos pedaços,
sem graça, pois me falta o teu feitiço.
A noite chega cheia de arrepios,
mas sonho que divido a minha cama
contigo, que teu corpo por mim clama,
porém meu leito assoma em seus vazios
e sem o teu calor, não tenho nada:
— A noite é uma esperança esfarrapada.
Nilza Azzi
Fascínios
Em face a borboletas e corujas,
escolho as borboletas, por que não?
As borboletas, co'as patinhas sujas
de pólen, entre as flores, sempre são
presenças delicadas, são beleza.
Encantam todos, sempre uma atração,
as borboletas, leves, indefesas...
Nilza Azzi
Testamento
Em bela caligrafia,
registro minhas previsões
para um futuro sem rima.
À margem, anoto, a esmo,
observações sem sentido
sobre o meu poema barato.
Imprimo o mata-borrão
e tenho cópia em espelho...
Escolho um velho envelope,
guardo o papel bem dobrado,
derreto o lacre na chama
e selo o vão conteúdo.
Marco a data de abertura,
num feriado do futuro...
Coço a pinta no nariz
e caço a velha vassoura
que nem sei onde ficou.
Nilza |Azzi
No limiar da natureza
(“Se é de metal, minha visão atina
e ao pedregulho mais comum eu canto.” — Bento Ferraz)
Percorro as poucas ruas do meu bairro, as casas que contornam labirintos,os muros, pelo musgo escuro, tintos, as portas e janelas de madeira,um gato que aparece e já se esgueira, a velha que me espia da janela,a jovem sorridente e muito bela, e tudo que provoca algum espanto,se é natural, minha visão atinae o pedregulho mais comum eu canto,porque, se a natureza me convida,não posso desprezar o seu chamado.No mundo, eu não me sinto deslocado, meu bairro é sempre cheio de surpresase posso descobrir muitas belezas, apenas, ao dobrar qualquer esquina:Se é natural, minha visão atinae o pedregulho mais comum eu cantoe, assim, a cada pedra eu amo tanto,pois pedras também guardam sutilezase nada do que vejo é permanente...As nuvens condensadas pelo céu, os pássaros, em súbito escarcéu,acabam por gravar-se na retina.Se é natural, minha visão atinae o pedregulho mais comum eu canto...Meu canto almeja ser um acalanto, qual música suave das esferas, os sons que já vararam tantas eras,ou mesmo o próprio Verbo sacrossanto!Quem dera que o meu canto fosse ouvido,tal fosse uma verdade cristalina!Se é natural, minha visão atinae o pedregulho mais comum eu canto,assim evito apenas que o meu pranto, vertido por tristezas inconfessas, percorra as muitas ruas e travessasdo bairro onde nasci, faz algum tempoe os sonhos que deixei no calçamentoe a paz sejam reais, e não promessas...À paz, a inteligência se destina!Se é natural, minha visão atinae o pedregulho mais comum eu canto.A pedra não tem vida e, entretanto,não causa nenhum mal ao semelhante.Inerte, seu valor é mais constante,que aquele do mais mísero animal.Afeito a fazer bem, só faz o mal,e atinge com furor seu semelhante,esquece que o Amor é dom vital.Nilza Azzi
#poema com mote migrante
Eu tenho
Eu tenho as mãos geladas, olhos baços,
sem ti, o mundo é inerte, perde o viço
e a vida se desfaz num tom mortiço;
sem ti, tudo me escapa, faltam laços...
Nilza Azzi
(... to be continued)
A trova
A trova é uma arte antiga,
tão simples e encantadora;
de trovar não se fatiga
a minh’alma trovadora...
Nilza Azzi
Sexo legal
quero sexo
ali na hora da vontade
sem luxo
na força da natureza
e se o bucho cresce
e me aparecem os meninos
o destino que eles têm
na cidade
pode ser um descaminho
mas no cantinho onde vivo
quando eles pegam idade
são os braços que me ajudam
a pôr comida na mesa
nilza azzi
Se essa lua...
se essa lua, se essa lua fosse minha
eu pedia, eu pedia pra entregar
lá na rua onde existe uma casinha
que seria mais bonita 'inda ao luar
nilza azzi
Ah, que saudade
Ah, que saudade eu tenho das palavras
que a voz se me embargou e, assim, não disse,
pois se perderam, longe, em outras lavras
foram reverberar minha sandice...
Nilza Azzi