Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

611

Anauê, Krexu (Cretchu)


Certo dia, conheci abaetê,
entre os brilhos da formosa airumã, 
quando ainda não nascera um novo oirã,
e crescente, ia subindo airequecê...

Aprumado, vou saindo da carioca
se um caboclo chega e diz baixo:-Anauê!
Muito antes do começo de aracê,
lá na ocara chega quem saiu da oca.

Os carinhos, eu relembro, da cunhã
os sussurros em seu doce abanheém
e não quero ter que ouvir nhenhenhém...
Como é bom rolar por esse ybytatã!

Eu me sirvo da tigela de açaí, 
depois cuido de plantar uma juçara.
Bem pertinho, vou ouvindo nhambiquara,
que me aponta ao longe o belo ybacoby.

Não há mais escuridão, porque yami
foi expulsa lá nos lados de araxá.
De partida, levo junto o meu puçá;
sem demora me encontrei com meu guri.

Vou pisando no capim, o aguapé
colherei, porém não antes de virã.
Ao voltar celebraremos... Anacã!
Boa festa tem presença de avaré!

Animado vou tocando maracá;
trago as honras de um valente guarini,
que chegou, glorioso, vem de anomati
e só quer rever, feliz, seu doce obá!

Mbyci (Bartira)

*exercício poético em que as rimas são vocábulos do tupi-guarani
99

Aprendi...

Aprendi a chorar cedo demais,
e a sorrir comecei já bem mais tarde,
entre os dois, já nenhum me satisfaz,
pois prefiro um silêncio sem alarde.

Nilza Azzi
54

Impressões

Essa forma liquefeita
se me escorre,
tal recuo das marés.
Deixa conchas cintilantes
– na areia esponja – 
bem debaixo dos meus pés,
as casquinhas já vazias...
Esses mundos submersos
meu terreno,
as escarpas abissais,
os taludes traiçoeiros escorregam
amplitudes naturais.
Quanto mais eu trago ao mundo
mais palavras,
mais realço as profundezas.
Veladuras de metais,
esse choque de texturas
não explica a cena, o quadro;
deixa apenas impressões...

Nilza Azzi
77

Sensações de Inverno


No inverno desolado, a cada dia,
o tempo escoa lento e rigoroso,
entanto, se a coberta é bem macia,
encontro na estação, deleite e gozo.

Se acordo cedo, a névoa delicia
confere graça ao campo, inda brumoso,
e o chocolate quente é uma alegria; 
reconfortante, além de delicioso...  

E quando à tarde, espio da janela 
o fim que mais e mais, já não se arreda,
nenhuma sensação é como aquela;             

no azul do esquecimento a dor se hospeda,
o dia chega ao termo e nos revela
gentil, no firmamento, um sol em queda.

Nilza Azzi
73

Arranjos cósmicos


Quase notei, o vento no meu rosto,
uma emoção guardada só pra mim,
embora fosse um mimo já suposto.
 
Recordação de um tempo sem ter fim
invade a alma com grande doçura,
deixando um leve cheiro de jasmim.
 
Onde, no tempo, tua essência pura
passou por mim para falar de amor?
A imensidão testemunhou a jura,
 
unindo o céu completo em luz e cor.
Lendas distantes, calor envolvente;
o imemorial jorra avassalador,
 
fazendo a estrada sempre diferente,
embora brilhe nessa mesma luz.
Rolam as águas vindas das vertentes,
 
nascem segredos, bardo que seduz...
A nova aurora guarda o seu segredo;
nunca abandona a quem lhe faça jus.
 
Depois da esquina, da dobra do medo,
o coração só quer saber de amar
como sinal que ―seja tarde ou cedo,
 
o mundo vai se desacelerar.
Sonhar enfim com encontrar guarida,
ter no universo, um único lugar,
 
na fonte certa, a água preferida.

Nilza Azzi #terzarima
59

Acaso

Quisera acreditar em mim, a poetisa!
É um nome tão formoso e creio que cai bem,
mas sou mulher que, hoje, o chão das Letras, pisa
e imprime à sua arte, a força que não tem.

Mas para tal mister, há que ser mais precisa
e confiar em si – vencer todo desdém –
fazer do seu labor a última divisa.
Na busca do mais belo, espaço de ir além!

E bem quando a tristeza espalha mais raízes,
e quando qualquer fé escapa e vai embora,
mais forte é o seu verso, os ditos mais felizes

registra em seu poema e quase é a senhora
da dor e da alegria... E as raras cicatrizes
cura n'água salgada – as lágrimas que chora.

Nilza Azzi
86

Narração

Caminhando para o sul
Percebem-se margaridas
Num dia de céu azul

Giovanni, ali na descida
E o cão de pelo amarelo
Contente, feliz da vida.

Era um dia tão singelo
Tudo estava em seu lugar
A lua era quase um elo

Mas a bola quis rolar
E desceu ladeira afora
O gato pôs-se a miar

A pipa seguiu a aurora
Mas o balão foi chegando
O caminhão tinha escora

E aguentou ‘té não sei quando...
Quem se assustou foi a rosa!
Mas a cena examinando

A vida vibra formosa.

Nilza Azzi  #terzarima
34

Pobre palavra

La vai a palavra solteira,
na feira fazer seu sucesso.
Procura parceiro e, faceira,
esquece na bolsa o ingresso...

A pobre, por mais que se queira,
não tem condições, eu confesso,
de achar casamento e se esgueira,
correndo pra mim, mas impeço.

Se a veste que usa é tão bela,
o seu conteúdo é banal,
e todos perguntam por ela,

por seu denotar principal,
embora desmaie, amarela,
parece, em essência, normal...

Nilza Azzi
41

Queimada

Pus fogo na floresta dos meus sonhos
e nem salvei  as aves, borboletas;
deixei que os dias fossem mais tristonhos.

Joguei meus velhos trastes na sarjeta
e, num mergulho fundo no meu luto,
comprei pra mim um traje violeta

e fui  viver no fundo de um reduto,
na parte mais escura do meu eu,
nas neves de um inverno absoluto.

Um dia, entanto, o novo aconteceu:
notei alguns pontinhos bem brilhantes,
constantes nessa abóbada de breu.

Os pontos pareciam mil diamantes,
não eram uniformes, mas variados,
em tons como jamais eu vira antes,

e foram preenchendo vários lados,
daquilo que sonhara ser eu mesma,
até chegar aos núcleos mais velados.

Em folhas, empilhadas feito resma,
nas faces, nas camadas superpostas ,
a vida, dividida – a  alma – fez-ma...

Então lembrei do mundo às minhas costas,
perfeito, nos meus sonhos mais antigos,
queimei por fim ideias decompostas

e consenti que amar tem seus perigos...

Nilza Azzi  #terzarima

 
65

Propósito

Escancarar as portas e janelas
e deixar que o bolor se vá embora;
que chegue o sol e traga nessa hora,
coisas mais desejáveis e mais belas.

Meu amor, se teu beijo me demora,
mas em preces, à noite, por mim velas,
as certezas que trazes são aquelas
que perdi; pelas quais minh'alma implora.

E quando a aurora vem, desconhecida,
e deita brilho e cores pela vida,
beber a luz inteira que ela espalha...

Vencer toda manhã essa batalha,
seguir nesse caminho, passo a passo,
e acreditar na força do que faço!

Nilza Azzi
69

Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!