Lista de Poemas
Aprendi...
Aprendi a chorar cedo demais,
e a sorrir comecei já bem mais tarde,
entre os dois, já nenhum me satisfaz,
pois prefiro um silêncio sem alarde.
Nilza Azzi
e a sorrir comecei já bem mais tarde,
entre os dois, já nenhum me satisfaz,
pois prefiro um silêncio sem alarde.
Nilza Azzi
44
De um baú...
De um baú, bem lá do fundo,
tirei uma pedra branca,
mas descobri, num segundo,
que o tal baú não tem tranca.
Co'a pedra fiz um anel
que tinha as cores do céu,
quando refletia a luz...
O anel ficou no meu dedo
e, quando ele não reluz,
não sei porque, sinto medo.
Nilza Azzi
tirei uma pedra branca,
mas descobri, num segundo,
que o tal baú não tem tranca.
Co'a pedra fiz um anel
que tinha as cores do céu,
quando refletia a luz...
O anel ficou no meu dedo
e, quando ele não reluz,
não sei porque, sinto medo.
Nilza Azzi
34
Sensações de Inverno
No inverno desolado, a cada dia,
o tempo escoa lento e rigoroso,
entanto, se a coberta é bem macia,
encontro na estação, deleite e gozo.
Se acordo cedo, a névoa delicia
confere graça ao campo, inda brumoso,
e o chocolate quente é uma alegria;
reconfortante, além de delicioso...
E quando à tarde, espio da janela
o fim que mais e mais, já não se arreda,
nenhuma sensação é como aquela;
no azul do esquecimento a dor se hospeda,
o dia chega ao termo e nos revela
gentil, no firmamento, um sol em queda.
Nilza Azzi
66
Arranjos cósmicos
Quase notei, o vento no meu rosto,
uma emoção guardada só pra mim,
embora fosse um mimo já suposto.
Recordação de um tempo sem ter fim
invade a alma com grande doçura,
deixando um leve cheiro de jasmim.
Onde, no tempo, tua essência pura
passou por mim para falar de amor?
A imensidão testemunhou a jura,
unindo o céu completo em luz e cor.
Lendas distantes, calor envolvente;
o imemorial jorra avassalador,
fazendo a estrada sempre diferente,
embora brilhe nessa mesma luz.
Rolam as águas vindas das vertentes,
nascem segredos, bardo que seduz...
A nova aurora guarda o seu segredo;
nunca abandona a quem lhe faça jus.
Depois da esquina, da dobra do medo,
o coração só quer saber de amar
como sinal que ―seja tarde ou cedo,
o mundo vai se desacelerar.
Sonhar enfim com encontrar guarida,
ter no universo, um único lugar,
na fonte certa, a água preferida.
Nilza Azzi #terzarima
50
Impressões
Essa forma liquefeita
se me escorre,
tal recuo das marés.
Deixa conchas cintilantes
– na areia esponja –
bem debaixo dos meus pés,
as casquinhas já vazias...
Esses mundos submersos
meu terreno,
as escarpas abissais,
os taludes traiçoeiros escorregam
amplitudes naturais.
Quanto mais eu trago ao mundo
mais palavras,
mais realço as profundezas.
Veladuras de metais,
esse choque de texturas
não explica a cena, o quadro;
deixa apenas impressões...
Nilza Azzi
se me escorre,
tal recuo das marés.
Deixa conchas cintilantes
– na areia esponja –
bem debaixo dos meus pés,
as casquinhas já vazias...
Esses mundos submersos
meu terreno,
as escarpas abissais,
os taludes traiçoeiros escorregam
amplitudes naturais.
Quanto mais eu trago ao mundo
mais palavras,
mais realço as profundezas.
Veladuras de metais,
esse choque de texturas
não explica a cena, o quadro;
deixa apenas impressões...
Nilza Azzi
68
Acaso
Quisera acreditar em mim, a poetisa!
É um nome tão formoso e creio que cai bem,
mas sou mulher que, hoje, o chão das Letras, pisa
e imprime à sua arte, a força que não tem.
Mas para tal mister, há que ser mais precisa
e confiar em si – vencer todo desdém –
fazer do seu labor a última divisa.
Na busca do mais belo, espaço de ir além!
E bem quando a tristeza espalha mais raízes,
e quando qualquer fé escapa e vai embora,
mais forte é o seu verso, os ditos mais felizes
registra em seu poema e quase é a senhora
da dor e da alegria... E as raras cicatrizes
cura n'água salgada – as lágrimas que chora.
Nilza Azzi
É um nome tão formoso e creio que cai bem,
mas sou mulher que, hoje, o chão das Letras, pisa
e imprime à sua arte, a força que não tem.
Mas para tal mister, há que ser mais precisa
e confiar em si – vencer todo desdém –
fazer do seu labor a última divisa.
Na busca do mais belo, espaço de ir além!
E bem quando a tristeza espalha mais raízes,
e quando qualquer fé escapa e vai embora,
mais forte é o seu verso, os ditos mais felizes
registra em seu poema e quase é a senhora
da dor e da alegria... E as raras cicatrizes
cura n'água salgada – as lágrimas que chora.
Nilza Azzi
78
Narração
Caminhando para o sul
Percebem-se margaridas
Num dia de céu azul
Giovanni, ali na descida
E o cão de pelo amarelo
Contente, feliz da vida.
Era um dia tão singelo
Tudo estava em seu lugar
A lua era quase um elo
Mas a bola quis rolar
E desceu ladeira afora
O gato pôs-se a miar
A pipa seguiu a aurora
Mas o balão foi chegando
O caminhão tinha escora
E aguentou ‘té não sei quando...
Quem se assustou foi a rosa!
Mas a cena examinando
A vida vibra formosa.
Nilza Azzi #terzarima
Percebem-se margaridas
Num dia de céu azul
Giovanni, ali na descida
E o cão de pelo amarelo
Contente, feliz da vida.
Era um dia tão singelo
Tudo estava em seu lugar
A lua era quase um elo
Mas a bola quis rolar
E desceu ladeira afora
O gato pôs-se a miar
A pipa seguiu a aurora
Mas o balão foi chegando
O caminhão tinha escora
E aguentou ‘té não sei quando...
Quem se assustou foi a rosa!
Mas a cena examinando
A vida vibra formosa.
Nilza Azzi #terzarima
27
Queimada
Pus fogo na floresta dos meus sonhos
e nem salvei as aves, borboletas;
deixei que os dias fossem mais tristonhos.
Joguei meus velhos trastes na sarjeta
e, num mergulho fundo no meu luto,
comprei pra mim um traje violeta
e fui viver no fundo de um reduto,
na parte mais escura do meu eu,
nas neves de um inverno absoluto.
Um dia, entanto, o novo aconteceu:
notei alguns pontinhos bem brilhantes,
constantes nessa abóbada de breu.
Os pontos pareciam mil diamantes,
não eram uniformes, mas variados,
em tons como jamais eu vira antes,
e foram preenchendo vários lados,
daquilo que sonhara ser eu mesma,
até chegar aos núcleos mais velados.
Em folhas, empilhadas feito resma,
nas faces, nas camadas superpostas ,
a vida, dividida – a alma – fez-ma...
Então lembrei do mundo às minhas costas,
perfeito, nos meus sonhos mais antigos,
queimei por fim ideias decompostas
e consenti que amar tem seus perigos...
Nilza Azzi #terzarima
e nem salvei as aves, borboletas;
deixei que os dias fossem mais tristonhos.
Joguei meus velhos trastes na sarjeta
e, num mergulho fundo no meu luto,
comprei pra mim um traje violeta
e fui viver no fundo de um reduto,
na parte mais escura do meu eu,
nas neves de um inverno absoluto.
Um dia, entanto, o novo aconteceu:
notei alguns pontinhos bem brilhantes,
constantes nessa abóbada de breu.
Os pontos pareciam mil diamantes,
não eram uniformes, mas variados,
em tons como jamais eu vira antes,
e foram preenchendo vários lados,
daquilo que sonhara ser eu mesma,
até chegar aos núcleos mais velados.
Em folhas, empilhadas feito resma,
nas faces, nas camadas superpostas ,
a vida, dividida – a alma – fez-ma...
Então lembrei do mundo às minhas costas,
perfeito, nos meus sonhos mais antigos,
queimei por fim ideias decompostas
e consenti que amar tem seus perigos...
Nilza Azzi #terzarima
55
Propósito
Escancarar as portas e janelas
e deixar que o bolor se vá embora;
que chegue o sol e traga nessa hora,
coisas mais desejáveis e mais belas.
Meu amor, se teu beijo me demora,
mas em preces, à noite, por mim velas,
as certezas que trazes são aquelas
que perdi; pelas quais minh'alma implora.
E quando a aurora vem, desconhecida,
e deita brilho e cores pela vida,
beber a luz inteira que ela espalha...
Vencer toda manhã essa batalha,
seguir nesse caminho, passo a passo,
e acreditar na força do que faço!
Nilza Azzi
e deixar que o bolor se vá embora;
que chegue o sol e traga nessa hora,
coisas mais desejáveis e mais belas.
Meu amor, se teu beijo me demora,
mas em preces, à noite, por mim velas,
as certezas que trazes são aquelas
que perdi; pelas quais minh'alma implora.
E quando a aurora vem, desconhecida,
e deita brilho e cores pela vida,
beber a luz inteira que ela espalha...
Vencer toda manhã essa batalha,
seguir nesse caminho, passo a passo,
e acreditar na força do que faço!
Nilza Azzi
62
Nós
Contrariamente ao que diz o poeta, não é a constatação da realidade que a humanidade sente como insuportável;
é a luz ofuscante da perfeição exemplar. (George Steiner – Passions Impunies).
Tu me acreditas, mas sou mentira.
Tu me duvidas? Sou verdadeiro.
Vasto mergulho... A mente delira!
E vou adiante, sem cativeiro.
Tu vens a mim e dons eu concedo,
abro-te as portas de outras esferas,
porém não caias no engano ledo:
– não mais serás o mesmo que eras...
Se em mim procuras a fantasia,
da realidade, negas a herança.
Bem mais perturba e te extasia
a perfeição que nunca se alcança.
Espelho opaco frente ao porvir,
tua presença é meu refletir...
Nilza Azzi
52
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!