Nilza_Azzi

Nilza_Azzi

Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

n. 0000-00-00

Perfil
85 706 Visualizações

Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
Ler poema completo

Poemas

611

Refletores


Caminhar até à face mais verdadeira
e desvestir a última fantasia,
tirar máscaras e máscaras, sem fim.
Descer fundo na alma, baixar degraus,
onde não há mais luz a refletir,
imagens distorcidas, realidades,
despir véus e véus, entrever outros mais.

Caminhar pela Casa da Vida
e ver-me alta, magra, nariz distorcido,
incapaz de farejar o rumo certo,
olhos arregalados, boca torta,
incapaz, ante o chamado das palavras.
Cabelos espichados, orelhas tão grandes,
sem acuidade para ouvir a voz de Deus.

Caminhar, me perder no labirinto,
bater contra as faces enganosas,
ao supor ter caminhado em linha reta.
Sentir na fronte o empecilho da cegueira,
fitar, fitar a pupila dos meus olhos
− e ver-me sem resposta.

Amedrontada, voltar à superfície,
olhar pra fora, buscar revelações
das cores, sons, vozes da Natureza.
Atenta, misturar-me aos animais e plantas...
Ser uma abelha a recolher o néctar,
ou a formiga a percorrer a trilha,
ver-me urubu, a engolir carniça,
voar, condor, a devorar alturas,
animal livre, cavalgar os campos,
canário triste, dentro da gaiola.

Tornar-me flor, a exalar perfume,
tronco, aceitar o corte que me abala,
sem queixa, viga, a sustentar o teto.
Seguir rasteira, inocular venenos,
percorrer os miolos das florestas,
bicho-preguiça, descansar a eternidade.

Saltar da árvore, quebrar todos os espelhos,
E, sem respostas, prosseguir, a caminhar...

Nilza Azzi
64

Espaço sagrado

Um canto em mim, eu reservei, desde pequena,
e ali guardei tudo de bom, que à vida trouxe
(a minha alma) e disfarcei a minha pena,
pra proteger do mundo insano a parte doce,

o bem sagrado. Terei eu alguma essência,
a depurar, neste viver equivocado?
Guardei pra ti o bem maior, a excelência,
a poesia, a alegria, a voz do bardo.

Mas tu não chegas, o Olimpo fica longe,
como Abelardo pode ser, sejas um monge,
e  Heloísa só te ama porque quer.

Se num passado estivemos lado a lado,
na imagem pura desse espaço consagrado,
és o meu homem e eu sou tua mulher.

Nilza Azzi
64

Extrato


Ele passava todo dia
junto ao pé onde ela crescera
e amadurecia
vestindo um sorriso inerte
usufruía da sombra
contemplava a paisagem
riscava o tronco sem cuidado
apalpava os frutos, exigente
depois partia como viera
nunca se deu a cuidados
nada deixava de si,
além de um ex-trato

Ela buscava nos canais alguma seiva
e mesmo com pouco alimento ia sendo
a reunião do melhor que em si havia
mas de nada adiantava
travava na boca
amarga e intragável

Mas num desses dias de verão
chegou seu momento
e foi colhida e prensada
refinada e estilada
e desde então deram-lhe
o rótulo de poesia extralírica

Nilza Azzi
42

Amor sagrado

 “L’amour est ta dernière chance.
        Il n'y a vraiment rien d'autre
        sur la terre pour t'y retenir."
                          ( Aragon)
                                     (O amor é sua oportunidade final.
                                      Na verdade, nada mais existe
                                      para prendê-lo à Terra.)


Ao começar, a minha voz já anuncia,
amo as palavras, elas são meu alimento.
E amo amar, viver de amor, porém comento
que, com certeza, meu amor traz alegria ...

Mas, se o amor dá sempre o tom do que é real,
então eu amo, amo sempre, mesmo quando
estou desperta, ou mesmo, quando estou sonhando.
Às vezes sim, às vezes não. Isso é normal.

Assim desvela a realidade do viver,
o que aparece no exterior é tão somente,
da vida interna, só uma ponta pertinente,
ao vasto mundo que faz parte do meu ser.

Pois o alimento mais profundo, esse, retive-o,
é o bem sagrado, o bem restrito, o indizível.

Nilza Azzi


69

Ah! Mares

Entre os lençóis azuis da tua cama,
nos unimos de forma tão intensa,
que o sol quis apagar sua presença
e dar lugar ao fogo de quem ama.

E o teu prazer é pura recompensa
ao meu afago, fonte dessa chama,
de tal desejo, que teu ser reclama
igual fervor e nada em mim dispensa.

Nas sucessivas ondas desse mar,
em que nadamos juntos, e tão fundo,
tu és o comandante do meu mundo.

Se eu sou a ilha para o teu descanso,
és sempre a praia para a qual avanço,
mulher selvagem, para te abrasar.

Nilza Azzi
68

Dispensável

Eu não preciso que você me ame,
nas tardes de verão ensolaradas...
O Sol bem me amará, sem que reclame,
embora talvez deixe algumas sardas.
Eu não preciso que você me ame,
se é primavera e o ar me beija doce.
Além, nos campos, flores em enxame
são sempre luz. São mesmo antes que fosse
a imensidão azul, gélido inverno
e o ar já frio, rude e fustigante.
Se os polos são o lar do gelo eterno,
por mim, faz-se completo o meu instante.

Mas chega o outono e as flores viram frutos,
a voz da passarada refestela
e brilham estes meus olhos enxutos,
se bem que a minha rua seja aquela
na qual você não passa há muito tempo,
porque será o amor sempre impreciso.


Nilza Azzi
84

Ecos


A rosa cala
a flor exala
a luz abala
a dor resvala.

A fêmea sabe
a dor que cabe
e dá à luz
a cruz do tempo.

A tessitura
da teia fina
feita em ternura
brilha, ilumina.

nilza azzi
68

poeira

é noite
chove
e o cheiro
de poeira
só faz
lembrar
que um dia
serei pó

depois da chuva
a lua
vem faceira
e eu choro
quieta
a dor
de ser tão só

nilza azzi
73

Terra nova

Eu não suporto ver a terra seca
sem umidade, sem sinal de vida;
poeira inútil dentro da ampulheta,

qual matéria inorgânica e perdida.
Coisa mais linda, quando a terra escura
está molhada e vibra, colorida;

mostra sinais de alguma criatura,
por mínima que seja e uma formiga
ou lagarta passeia, enquanto dura

seu tempo de sair ao sol, ao céu,
em busca de um bocado de alimento,
sem que uma ave a leve ao beleléu...

A secura da terra é-me um tormento
e minh’alma acredita que sem água,
o coração também sofre sedento;

nem mesmo irá chorar, verter a mágoa
e lamentar o mal de estar sozinho,
porque, se há dor, um dia ela deságua.

Mas quando lembro a força do carinho
que posso ter e vejo esse deserto,
onde sem água, triste e só, caminho,

apenas quero, um dia, estar mais perto
da nascente translúcida e sonora,
onde o sonho não seja mais incerto,

mas verdadeiro a cada nova aurora.

Nilza Azzi
36

As vozes da floresta

Já no princípio soprava a brisa; o vento
beijava os brotos mais tenros na floresta
e o sussurro da folhagem, calmo, lento,
perpassava o meu caminho, em meio desta
profusão de odores, sons, que experimento.
A flora abriga a poesia e manifesta,
sem voz alguma, a beleza mais perfeita:
– A luz da tarde é uma noiva que se enfeita

No calor, enquanto as folhas guardam sumos,
o cheiro evapora e sobe. Nessa altura,
com meu cão adiante, novos sons reúno;
comprovo o sabor de uma fruta madura.
O ar parado, pesado e mais soturno
reforça por fim o vazio... Quem procura
saber quanto é dura essa trilha tão negra?
O chão mais crestado não segue uma regra.

Vem o outono. Tudo estala em luz cinérea;
galhos quebram, quando secos, sem função,
e no chão compõem a cama de matéria,
num ruído quase nulo, em razão
do processo que penetra a terra e fere-a,
preparando-a para as neves que virão.
Onde piso, já não deixo mais pegadas:
– folhas caem – a conversa está eivada.

Quando a neve pesa firme sobre as copas,
sobre os galhos, cria um tempo amortecido
e seguindo, inda uma vez, a mesma rota,
o silêncio é poesia sem ruído.
Folha a folha, o choro dela se desloca;
no meu imo, dor escura consolido.
Vários ciclos tem a senda e, afinal,
na floresta vivem juntos bem e mal.

Nilza Azzi
#sextina real
84

Comentários (4)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!