vida
o que dizer dessa festa
tão selvagem
que mistura e confunde
coragem e covardia
e coloca assim juntos
o joio e o trigo
não tão indistintos
nem tão emaranhados
diante do olhar adormecido
que desperta quando chega o dia!
nilza azzi
Dispensável
Eu não preciso que você me ame,
nas tardes de verão ensolaradas...
O Sol bem me amará, sem que reclame,
embora talvez deixe algumas sardas.
Eu não preciso que você me ame,
se é primavera e o ar me beija doce.
Além, nos campos, flores em enxame
são sempre luz. São mesmo antes que fosse
a imensidão azul, gélido inverno
e o ar já frio, rude e fustigante.
Se os polos são o lar do gelo eterno,
por mim, faz-se completo o meu instante.
Mas chega o outono e as flores viram frutos,
a voz da passarada refestela
e brilham estes meus olhos enxutos,
se bem que a minha rua seja aquela
na qual você não passa há muito tempo,
porque será o amor sempre impreciso.
Nilza Azzi
Ecos
A rosa cala
a flor exala
a luz abala
a dor resvala.
A fêmea sabe
a dor que cabe
e dá à luz
a cruz do tempo.
A tessitura
da teia fina
feita em ternura
brilha, ilumina.
nilza azzi
Amar livremente
Pode o amor trazer prisão (insensatez),
se não for compreendido, mas releve.
Pretendido como posse e privilégio,
pode parecer régio,
mas vai-se... É tão breve!
É possível criar laços por amor,
porém cabe a nós cumprir o que se deve,
que é rompê-los, desfazê-los sem porquês:
isso faz de uma vez
com que ele se eleve.
Salve o amor que torna livre. Paraíso
é viver sem egoísmo e me faz leve.
Traz ventura especial amor assim,
pois liberto de mim,
em minh’alma se inscreve.
Nilza Azzi
poeira
é noite
chove
e o cheiro
de poeira
só faz
lembrar
que um dia
serei pó
depois da chuva
a lua
vem faceira
e eu choro
quieta
a dor
de ser tão só
nilza azzi
Quando Susana
Quando Susana saiu
para o abraço da rua vazia
foi espanto
o que varou seu coração
e, sim, foi medo
o que empurrou seu passo adiante
no espaço sem ecos
que apenas refletia a cor da chuva
na curva distante do céu
nilza azzi
Sophia
Um fio vermelho tingia o horizonte,
enquanto Sophia bordava serena.
No bosque encantado havia rumores
e a luz dos amores,
além das falenas.
A deusa fiel ao saber inerente,
fazia das linhas tecidas, apenas
exemplos de histórias, de escolhas antigas,
das velhas cantigas
e das cantilenas.
Sophia era sábia ao usar as palavras,
mas não mais podia aguentar suas penas.
Assim, por desejo do Um, ânsia vasta,
dos deuses se afasta,
mas busca ser plena.
Rever este mito me faz bem à alma
– a profundidade do fato me acena –
entendo essa angústia que sempre me habita
e a minha desdita,
já não vale a pena.
Nilza Azzi
Visita
Quando, nas madrugadas, o silêncio
da minha sala enche o espaço mudo,
do céu escuro, dos confins extensos,
surgem fantasmas, sombras de veludo,
a evolar-se pelo ar, como os incensos.
A forma transparente envolve tudo
num halo triste; cobre o mundo denso.
Seria a poesia quem visita,
vestida de mistérios, de segredos,
a solidão eterna da alma aflita?
Tão doce, faz brilhar meus olhos quedos,
a sílfide atraente, assim bendita,
que afasta para longe os velhos medos
e traz a inspiração, e eleva, e agita...
Temente de que o dia a leve embora,
fecho as janelas, logo apago a luz,
cerro meus olhos, repudio a aurora,
pois a visão da deusa me seduz.
Busco as palavras, pois ela me escora;
à sua bênção quero fazer jus
e escrevo versos, como o faço agora.
Nilza Azzi
Ah! Mares
Entre os lençóis azuis da tua cama,
nos unimos de forma tão intensa,
que o sol quis apagar sua presença
e dar lugar ao fogo de quem ama.
E o teu prazer é pura recompensa
ao meu afago, fonte dessa chama,
de tal desejo, que teu ser reclama
igual fervor e nada em mim dispensa.
Nas sucessivas ondas desse mar,
em que nadamos juntos, e tão fundo,
tu és o comandante do meu mundo.
Se eu sou a ilha para o teu descanso,
és sempre a praia para a qual avanço,
mulher selvagem, para te abrasar.
Nilza Azzi
As vozes da floresta
Já no princípio soprava a brisa; o vento
beijava os brotos mais tenros na floresta
e o sussurro da folhagem, calmo, lento,
perpassava o meu caminho, em meio desta
profusão de odores, sons, que experimento.
A flora abriga a poesia e manifesta,
sem voz alguma, a beleza mais perfeita:
– A luz da tarde é uma noiva que se enfeita
No calor, enquanto as folhas guardam sumos,
o cheiro evapora e sobe. Nessa altura,
com meu cão adiante, novos sons reúno;
comprovo o sabor de uma fruta madura.
O ar parado, pesado e mais soturno
reforça por fim o vazio... Quem procura
saber quanto é dura essa trilha tão negra?
O chão mais crestado não segue uma regra.
Vem o outono. Tudo estala em luz cinérea;
galhos quebram, quando secos, sem função,
e no chão compõem a cama de matéria,
num ruído quase nulo, em razão
do processo que penetra a terra e fere-a,
preparando-a para as neves que virão.
Onde piso, já não deixo mais pegadas:
– folhas caem – a conversa está eivada.
Quando a neve pesa firme sobre as copas,
sobre os galhos, cria um tempo amortecido
e seguindo, inda uma vez, a mesma rota,
o silêncio é poesia sem ruído.
Folha a folha, o choro dela se desloca;
no meu imo, dor escura consolido.
Vários ciclos tem a senda e, afinal,
na floresta vivem juntos bem e mal.
Nilza Azzi
#sextina real