Lista de Poemas

Ecos


A rosa cala
a flor exala
a luz abala
a dor resvala.

A fêmea sabe
a dor que cabe
e dá à luz
a cruz do tempo.

A tessitura
da teia fina
feita em ternura
brilha, ilumina.

nilza azzi
60

Dispensável

Eu não preciso que você me ame,
nas tardes de verão ensolaradas...
O Sol bem me amará, sem que reclame,
embora talvez deixe algumas sardas.
Eu não preciso que você me ame,
se é primavera e o ar me beija doce.
Além, nos campos, flores em enxame
são sempre luz. São mesmo antes que fosse
a imensidão azul, gélido inverno
e o ar já frio, rude e fustigante.
Se os polos são o lar do gelo eterno,
por mim, faz-se completo o meu instante.

Mas chega o outono e as flores viram frutos,
a voz da passarada refestela
e brilham estes meus olhos enxutos,
se bem que a minha rua seja aquela
na qual você não passa há muito tempo,
porque será o amor sempre impreciso.


Nilza Azzi
74

Sophia


Um fio vermelho tingia o horizonte,
enquanto Sophia bordava serena.
No bosque encantado havia rumores
               e a luz dos amores,
                          além das falenas.

A deusa fiel ao saber inerente,
fazia das linhas tecidas, apenas
exemplos de histórias, de escolhas antigas,
                       das velhas cantigas
                                    e das cantilenas.

Sophia era sábia ao usar as palavras,
mas não mais podia aguentar suas penas.
Assim, por desejo do Um, ânsia vasta,
               dos deuses se afasta,
                        mas busca ser plena.

Rever este mito me faz bem à alma
– a profundidade do fato me acena –
entendo essa angústia que sempre me habita
                       e a minha desdita,
                                      já não vale a pena.

Nilza Azzi
52

Quando Susana

Quando Susana saiu
para o abraço da rua vazia
foi espanto
o que varou seu coração
e, sim, foi medo
o que empurrou seu passo adiante
no espaço sem ecos
que apenas refletia a cor da chuva
na curva distante do céu

nilza azzi
30

Sol


Me bate o coração, tão loucamente;
pressente ter perdido o seu compasso...
E o traço de um eletro já enlouquece
qualquer especialista de plantão.

Padece desse mal crasso e frequente,
irracional de alguns amantes,
bem antes que lhes surja algum juízo;
perece e já nem sabe o que era antes.

Às vezes até para (arritmia!),
assusta o portador de uma extra-sístole,
pois tal é o descontrole que lhe causas...
Nas pausas, és um sol em minha mente!

Nilza Azzi
26

Amar livremente


Pode o amor trazer prisão (insensatez),
se não for compreendido, mas releve.
Pretendido como posse e privilégio,
            pode parecer régio,
               mas vai-se... É tão breve!

É possível criar laços por amor,
porém cabe a nós cumprir o que se deve,
que é rompê-los, desfazê-los sem porquês:
                          isso faz de uma vez
                              com que ele se eleve.

Salve o amor que torna livre. Paraíso
é viver sem egoísmo e me faz leve.
Traz ventura especial amor assim,
             pois liberto de mim,
                em minh’alma se inscreve.


Nilza Azzi
51

vida

o que dizer dessa festa
tão selvagem
que mistura e confunde
coragem e covardia
e coloca assim juntos
o joio e o trigo
não tão indistintos
nem tão emaranhados
diante do olhar adormecido
que desperta quando chega o dia!

nilza azzi
41

As vozes da floresta

Já no princípio soprava a brisa; o vento
beijava os brotos mais tenros na floresta
e o sussurro da folhagem, calmo, lento,
perpassava o meu caminho, em meio desta
profusão de odores, sons, que experimento.
A flora abriga a poesia e manifesta,
sem voz alguma, a beleza mais perfeita:
– A luz da tarde é uma noiva que se enfeita

No calor, enquanto as folhas guardam sumos,
o cheiro evapora e sobe. Nessa altura,
com meu cão adiante, novos sons reúno;
comprovo o sabor de uma fruta madura.
O ar parado, pesado e mais soturno
reforça por fim o vazio... Quem procura
saber quanto é dura essa trilha tão negra?
O chão mais crestado não segue uma regra.

Vem o outono. Tudo estala em luz cinérea;
galhos quebram, quando secos, sem função,
e no chão compõem a cama de matéria,
num ruído quase nulo, em razão
do processo que penetra a terra e fere-a,
preparando-a para as neves que virão.
Onde piso, já não deixo mais pegadas:
– folhas caem – a conversa está eivada.

Quando a neve pesa firme sobre as copas,
sobre os galhos, cria um tempo amortecido
e seguindo, inda uma vez, a mesma rota,
o silêncio é poesia sem ruído.
Folha a folha, o choro dela se desloca;
no meu imo, dor escura consolido.
Vários ciclos tem a senda e, afinal,
na floresta vivem juntos bem e mal.

Nilza Azzi
#sextina real
71

Visita

Quando, nas madrugadas, o silêncio
da minha sala enche o espaço mudo,
do céu escuro, dos confins extensos,
surgem fantasmas, sombras de veludo,
a evolar-se pelo ar, como os incensos.
A forma transparente envolve tudo
num halo triste; cobre o mundo denso.

Seria a poesia quem visita,
vestida de mistérios, de segredos,
a solidão eterna da alma aflita?
Tão doce, faz brilhar meus olhos quedos,
a sílfide atraente, assim bendita,
que afasta para longe os velhos medos
e traz a inspiração, e eleva, e agita...

Temente de que o dia a leve embora,
fecho as janelas, logo apago a luz,
cerro meus olhos, repudio a aurora,
pois a visão da deusa me seduz.
Busco as palavras, pois ela me escora;
à  sua bênção quero fazer jus
e escrevo versos, como o faço agora.

Nilza Azzi
27

Terra nova

Eu não suporto ver a terra seca
sem umidade, sem sinal de vida;
poeira inútil dentro da ampulheta,

qual matéria inorgânica e perdida.
Coisa mais linda, quando a terra escura
está molhada e vibra, colorida;

mostra sinais de alguma criatura,
por mínima que seja e uma formiga
ou lagarta passeia, enquanto dura

seu tempo de sair ao sol, ao céu,
em busca de um bocado de alimento,
sem que uma ave a leve ao beleléu...

A secura da terra é-me um tormento
e minh’alma acredita que sem água,
o coração também sofre sedento;

nem mesmo irá chorar, verter a mágoa
e lamentar o mal de estar sozinho,
porque, se há dor, um dia ela deságua.

Mas quando lembro a força do carinho
que posso ter e vejo esse deserto,
onde sem água, triste e só, caminho,

apenas quero, um dia, estar mais perto
da nascente translúcida e sonora,
onde o sonho não seja mais incerto,

mas verdadeiro a cada nova aurora.

Nilza Azzi
25

Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!