Refletores
Caminhar até à face mais verdadeira
e desvestir a última fantasia,
tirar máscaras e máscaras, sem fim.
Descer fundo na alma, baixar degraus,
onde não há mais luz a refletir,
imagens distorcidas, realidades,
despir véus e véus, entrever outros mais.
Caminhar pela Casa da Vida
e ver-me alta, magra, nariz distorcido,
incapaz de farejar o rumo certo,
olhos arregalados, boca torta,
incapaz, ante o chamado das palavras.
Cabelos espichados, orelhas tão grandes,
sem acuidade para ouvir a voz de Deus.
Caminhar, me perder no labirinto,
bater contra as faces enganosas,
ao supor ter caminhado em linha reta.
Sentir na fronte o empecilho da cegueira,
fitar, fitar a pupila dos meus olhos
− e ver-me sem resposta.
Amedrontada, voltar à superfície,
olhar pra fora, buscar revelações
das cores, sons, vozes da Natureza.
Atenta, misturar-me aos animais e plantas...
Ser uma abelha a recolher o néctar,
ou a formiga a percorrer a trilha,
ver-me urubu, a engolir carniça,
voar, condor, a devorar alturas,
animal livre, cavalgar os campos,
canário triste, dentro da gaiola.
Tornar-me flor, a exalar perfume,
tronco, aceitar o corte que me abala,
sem queixa, viga, a sustentar o teto.
Seguir rasteira, inocular venenos,
percorrer os miolos das florestas,
bicho-preguiça, descansar a eternidade.
Saltar da árvore, quebrar todos os espelhos,
E, sem respostas, prosseguir, a caminhar...
Nilza Azzi
Espaço sagrado
Um canto em mim, eu reservei, desde pequena,
e ali guardei tudo de bom, que à vida trouxe
(a minha alma) e disfarcei a minha pena,
pra proteger do mundo insano a parte doce,
o bem sagrado. Terei eu alguma essência,
a depurar, neste viver equivocado?
Guardei pra ti o bem maior, a excelência,
a poesia, a alegria, a voz do bardo.
Mas tu não chegas, o Olimpo fica longe,
como Abelardo pode ser, sejas um monge,
e Heloísa só te ama porque quer.
Se num passado estivemos lado a lado,
na imagem pura desse espaço consagrado,
és o meu homem e eu sou tua mulher.
Nilza Azzi
Extrato
Ele passava todo dia
junto ao pé onde ela crescera
e amadurecia
vestindo um sorriso inerte
usufruía da sombra
contemplava a paisagem
riscava o tronco sem cuidado
apalpava os frutos, exigente
depois partia como viera
nunca se deu a cuidados
nada deixava de si,
além de um ex-trato
Ela buscava nos canais alguma seiva
e mesmo com pouco alimento ia sendo
a reunião do melhor que em si havia
mas de nada adiantava
travava na boca
amarga e intragável
Mas num desses dias de verão
chegou seu momento
e foi colhida e prensada
refinada e estilada
e desde então deram-lhe
o rótulo de poesia extralírica
Nilza Azzi
Amor sagrado
“L’amour est ta dernière chance.
Il n'y a vraiment rien d'autre
sur la terre pour t'y retenir."
( Aragon)
(O amor é sua oportunidade final.
Na verdade, nada mais existe
para prendê-lo à Terra.)
Ao começar, a minha voz já anuncia,
amo as palavras, elas são meu alimento.
E amo amar, viver de amor, porém comento
que, com certeza, meu amor traz alegria ...
Mas, se o amor dá sempre o tom do que é real,
então eu amo, amo sempre, mesmo quando
estou desperta, ou mesmo, quando estou sonhando.
Às vezes sim, às vezes não. Isso é normal.
Assim desvela a realidade do viver,
o que aparece no exterior é tão somente,
da vida interna, só uma ponta pertinente,
ao vasto mundo que faz parte do meu ser.
Pois o alimento mais profundo, esse, retive-o,
é o bem sagrado, o bem restrito, o indizível.
Nilza Azzi
Ah! Mares
Entre os lençóis azuis da tua cama,
nos unimos de forma tão intensa,
que o sol quis apagar sua presença
e dar lugar ao fogo de quem ama.
E o teu prazer é pura recompensa
ao meu afago, fonte dessa chama,
de tal desejo, que teu ser reclama
igual fervor e nada em mim dispensa.
Nas sucessivas ondas desse mar,
em que nadamos juntos, e tão fundo,
tu és o comandante do meu mundo.
Se eu sou a ilha para o teu descanso,
és sempre a praia para a qual avanço,
mulher selvagem, para te abrasar.
Nilza Azzi
Dispensável
Eu não preciso que você me ame,
nas tardes de verão ensolaradas...
O Sol bem me amará, sem que reclame,
embora talvez deixe algumas sardas.
Eu não preciso que você me ame,
se é primavera e o ar me beija doce.
Além, nos campos, flores em enxame
são sempre luz. São mesmo antes que fosse
a imensidão azul, gélido inverno
e o ar já frio, rude e fustigante.
Se os polos são o lar do gelo eterno,
por mim, faz-se completo o meu instante.
Mas chega o outono e as flores viram frutos,
a voz da passarada refestela
e brilham estes meus olhos enxutos,
se bem que a minha rua seja aquela
na qual você não passa há muito tempo,
porque será o amor sempre impreciso.
Nilza Azzi
Ecos
A rosa cala
a flor exala
a luz abala
a dor resvala.
A fêmea sabe
a dor que cabe
e dá à luz
a cruz do tempo.
A tessitura
da teia fina
feita em ternura
brilha, ilumina.
nilza azzi
poeira
é noite
chove
e o cheiro
de poeira
só faz
lembrar
que um dia
serei pó
depois da chuva
a lua
vem faceira
e eu choro
quieta
a dor
de ser tão só
nilza azzi
Terra nova
Eu não suporto ver a terra seca
sem umidade, sem sinal de vida;
poeira inútil dentro da ampulheta,
qual matéria inorgânica e perdida.
Coisa mais linda, quando a terra escura
está molhada e vibra, colorida;
mostra sinais de alguma criatura,
por mínima que seja e uma formiga
ou lagarta passeia, enquanto dura
seu tempo de sair ao sol, ao céu,
em busca de um bocado de alimento,
sem que uma ave a leve ao beleléu...
A secura da terra é-me um tormento
e minh’alma acredita que sem água,
o coração também sofre sedento;
nem mesmo irá chorar, verter a mágoa
e lamentar o mal de estar sozinho,
porque, se há dor, um dia ela deságua.
Mas quando lembro a força do carinho
que posso ter e vejo esse deserto,
onde sem água, triste e só, caminho,
apenas quero, um dia, estar mais perto
da nascente translúcida e sonora,
onde o sonho não seja mais incerto,
mas verdadeiro a cada nova aurora.
Nilza Azzi
As vozes da floresta
Já no princípio soprava a brisa; o vento
beijava os brotos mais tenros na floresta
e o sussurro da folhagem, calmo, lento,
perpassava o meu caminho, em meio desta
profusão de odores, sons, que experimento.
A flora abriga a poesia e manifesta,
sem voz alguma, a beleza mais perfeita:
– A luz da tarde é uma noiva que se enfeita
No calor, enquanto as folhas guardam sumos,
o cheiro evapora e sobe. Nessa altura,
com meu cão adiante, novos sons reúno;
comprovo o sabor de uma fruta madura.
O ar parado, pesado e mais soturno
reforça por fim o vazio... Quem procura
saber quanto é dura essa trilha tão negra?
O chão mais crestado não segue uma regra.
Vem o outono. Tudo estala em luz cinérea;
galhos quebram, quando secos, sem função,
e no chão compõem a cama de matéria,
num ruído quase nulo, em razão
do processo que penetra a terra e fere-a,
preparando-a para as neves que virão.
Onde piso, já não deixo mais pegadas:
– folhas caem – a conversa está eivada.
Quando a neve pesa firme sobre as copas,
sobre os galhos, cria um tempo amortecido
e seguindo, inda uma vez, a mesma rota,
o silêncio é poesia sem ruído.
Folha a folha, o choro dela se desloca;
no meu imo, dor escura consolido.
Vários ciclos tem a senda e, afinal,
na floresta vivem juntos bem e mal.
Nilza Azzi
#sextina real