Lista de Poemas
Espiral
Quando tudo me parece sem graça
giro em círculos de tédio transitório
mas nunca volto ao ponto de partida
vou sempre mais longe alargando as distâncias
e o centro, o eixo, sobra apenas
como breve referência.
A vida vai subindo em graus
em curvas ascendentes
a morte vai descendo na contracorrente
nada se toca nesses caminhos
que embora próximos são tão contrários.
Quando tudo me parece sem sentido
não há poesia que me satisfaça
não acho graça nessa nobre arte
as palavras são cruéis, duras e secas
o gosto da verdade é amargo e...
não existe poesia ao sul da minha mente.
Nilza Azzi
giro em círculos de tédio transitório
mas nunca volto ao ponto de partida
vou sempre mais longe alargando as distâncias
e o centro, o eixo, sobra apenas
como breve referência.
A vida vai subindo em graus
em curvas ascendentes
a morte vai descendo na contracorrente
nada se toca nesses caminhos
que embora próximos são tão contrários.
Quando tudo me parece sem sentido
não há poesia que me satisfaça
não acho graça nessa nobre arte
as palavras são cruéis, duras e secas
o gosto da verdade é amargo e...
não existe poesia ao sul da minha mente.
Nilza Azzi
36
partidas
voa bem longe e deixa
a minha alma confusa
abre as asas com vontade
olha a terra das alturas
bebe da aragem fresca
viaja o céu infinito
vai pelo espaço azulado
onde a beleza te acusa
de intrepidez e ousadia
e colhe algumas estrelas
atrás dessas nuvens tolas
para bordar teus lençóis
segue livre e sem escolta
mas lembra de mim e volta
nilza azzi
a minha alma confusa
abre as asas com vontade
olha a terra das alturas
bebe da aragem fresca
viaja o céu infinito
vai pelo espaço azulado
onde a beleza te acusa
de intrepidez e ousadia
e colhe algumas estrelas
atrás dessas nuvens tolas
para bordar teus lençóis
segue livre e sem escolta
mas lembra de mim e volta
nilza azzi
44
Ah! Mares
Entre os lençóis azuis da tua cama,
nos unimos de forma tão intensa,
que o sol quis apagar sua presença
e dar lugar ao fogo de quem ama.
E o teu prazer é pura recompensa
ao meu afago, fonte dessa chama,
de tal desejo, que teu ser reclama
igual fervor e nada em mim dispensa.
Nas sucessivas ondas desse mar,
em que nadamos juntos, e tão fundo,
tu és o comandante do meu mundo.
Se eu sou a ilha para o teu descanso,
és sempre a praia para a qual avanço,
mulher selvagem, para te abrasar.
Nilza Azzi
nos unimos de forma tão intensa,
que o sol quis apagar sua presença
e dar lugar ao fogo de quem ama.
E o teu prazer é pura recompensa
ao meu afago, fonte dessa chama,
de tal desejo, que teu ser reclama
igual fervor e nada em mim dispensa.
Nas sucessivas ondas desse mar,
em que nadamos juntos, e tão fundo,
tu és o comandante do meu mundo.
Se eu sou a ilha para o teu descanso,
és sempre a praia para a qual avanço,
mulher selvagem, para te abrasar.
Nilza Azzi
55
Frieza
Na poesia das madrugadas me ofereces,
sem sol, palavras emboloradas.
Qualquer vida real, inatingível,escapa.
Onde vive o pastor dos dias verdes,
roupas no varal, vento fresco,
juventude das flores, frutos sumarentos?
Trago-te em raios de luar, luzes néon,
bosques nevoentos, corações partidos,
laços desfeitos... e solidão, perfídia.
Montanhas sumiram no ventre do planeta,
solo, plano horizonte sempre além... além.
O lago, em que banhas o corpo excelso,
é fonte que concede perfeição. Hesito
ante a fragrância estonteante ao teu redor, ante
desdobramentos espelhados nessas águas míticas.
Quero beber da fecundidade sempre pródiga;
voltas a mim o frio do teu olhar indiferente.
Nilza Azzi
sem sol, palavras emboloradas.
Qualquer vida real, inatingível,escapa.
Onde vive o pastor dos dias verdes,
roupas no varal, vento fresco,
juventude das flores, frutos sumarentos?
Trago-te em raios de luar, luzes néon,
bosques nevoentos, corações partidos,
laços desfeitos... e solidão, perfídia.
Montanhas sumiram no ventre do planeta,
solo, plano horizonte sempre além... além.
O lago, em que banhas o corpo excelso,
é fonte que concede perfeição. Hesito
ante a fragrância estonteante ao teu redor, ante
desdobramentos espelhados nessas águas míticas.
Quero beber da fecundidade sempre pródiga;
voltas a mim o frio do teu olhar indiferente.
Nilza Azzi
37
Faz de conta
Faz de conta
que o dia acordou cedo,
enquanto as fadas riam no jardim
e a escada em caracol
levava àquele chão de pedras brancas
e logo adiante, aquela rua ensolarada
fazia resplender essa alvorada,
plena de luz e de belezas tantas.
Que a caixa de bombons
soltava sons fininhos e pausados
e a bailarina usava
saia de seda e um corselete azul.
E, na mesa, um tabuleiro de xadrez,
o baile começava... a uma só vez,
os pares deslizavam no salão.
Que o som vinha do vento
das flores, aves, sinos e cascatas;
as pausas, dos silêncios pelas matas,
das noites deslizando rumo ao sol.
As cores espalhadas, meus chicletes,
formavam o arco-íris no horizonte...
Bebia em fontes de água geladinha
― De um lado saltitava a amarelinha,
do outro, havia pipas contra o céu.
Que a caixa das bonecas
era o coreto em festa para mim...
e a trepadeira, toda branquinha em flores de jasmim,
era soberba ― deixava aromas pelo ar.
Que esse era o mundo certo pra brincar,
mundo de sonhos, sem começo ou fim.
Mas não gravei nenhum registro dessa longa história,
que lá ficou, porém, nalgum cantinho disso que é memória.
Na invenção do tempo, que vale por ouro,
a construção do sonho não tem mais lugar...
A salvo esse momento,
em que a verdade era o que eu queria,
eu chamo o sentimento,
mas só responde esta alegoria...
E a trepadeira, toda branquinha em flores de jasmim,
revolve aromas doces pelo ar
lembra de um mundo certo pra brincar,
mundo de sonhos, sem começo ou fim.
Nilza Azzi
que o dia acordou cedo,
enquanto as fadas riam no jardim
e a escada em caracol
levava àquele chão de pedras brancas
e logo adiante, aquela rua ensolarada
fazia resplender essa alvorada,
plena de luz e de belezas tantas.
Que a caixa de bombons
soltava sons fininhos e pausados
e a bailarina usava
saia de seda e um corselete azul.
E, na mesa, um tabuleiro de xadrez,
o baile começava... a uma só vez,
os pares deslizavam no salão.
Que o som vinha do vento
das flores, aves, sinos e cascatas;
as pausas, dos silêncios pelas matas,
das noites deslizando rumo ao sol.
As cores espalhadas, meus chicletes,
formavam o arco-íris no horizonte...
Bebia em fontes de água geladinha
― De um lado saltitava a amarelinha,
do outro, havia pipas contra o céu.
Que a caixa das bonecas
era o coreto em festa para mim...
e a trepadeira, toda branquinha em flores de jasmim,
era soberba ― deixava aromas pelo ar.
Que esse era o mundo certo pra brincar,
mundo de sonhos, sem começo ou fim.
Mas não gravei nenhum registro dessa longa história,
que lá ficou, porém, nalgum cantinho disso que é memória.
Na invenção do tempo, que vale por ouro,
a construção do sonho não tem mais lugar...
A salvo esse momento,
em que a verdade era o que eu queria,
eu chamo o sentimento,
mas só responde esta alegoria...
E a trepadeira, toda branquinha em flores de jasmim,
revolve aromas doces pelo ar
lembra de um mundo certo pra brincar,
mundo de sonhos, sem começo ou fim.
Nilza Azzi
27
Desapontos
O ponto aponta o espanto do fim
e deixa perguntas suspensas.
Com o ar quente dos meus pulmões,
sussurrei palavras ao teu ouvido.
Quisera convencer-te
de que o amor é quente, como palavras sopradas
saindo de dentro da vida pulsante.
Desde que o mundo era para mim pequeno,
conversava com vidraças embaçadas em dias frios:
talvez já sonhasse contigo...
Porém, de nenhum desses trens expressos
desceste ao meu encontro.
Claro, certa vez houve aquele bilhete prematuro;
papel amarelado que passou do tempo de um contato.
Um dia acreditei que o Vento Norte
era um terrível feiticeiro, capaz de levar embora o meu desejo;
aquele que eu colocara em palavras desenhadas,
mas ele soprou sobre o papel branco
e sujou meu vestido de domingo.
Desde que o mundo foi tão vasto que te levou para longe,
paro no meio da chuva
e na solidão do vidro embaçado do meu carro
digo palavras que não podem alcançar-te.
Nilza Azzi
e deixa perguntas suspensas.
Com o ar quente dos meus pulmões,
sussurrei palavras ao teu ouvido.
Quisera convencer-te
de que o amor é quente, como palavras sopradas
saindo de dentro da vida pulsante.
Desde que o mundo era para mim pequeno,
conversava com vidraças embaçadas em dias frios:
talvez já sonhasse contigo...
Porém, de nenhum desses trens expressos
desceste ao meu encontro.
Claro, certa vez houve aquele bilhete prematuro;
papel amarelado que passou do tempo de um contato.
Um dia acreditei que o Vento Norte
era um terrível feiticeiro, capaz de levar embora o meu desejo;
aquele que eu colocara em palavras desenhadas,
mas ele soprou sobre o papel branco
e sujou meu vestido de domingo.
Desde que o mundo foi tão vasto que te levou para longe,
paro no meio da chuva
e na solidão do vidro embaçado do meu carro
digo palavras que não podem alcançar-te.
Nilza Azzi
32
Vapores
A Lua derrubou-se pelas matas
e a vida, ali presente, em rebuliço,
mostrou que as criaturas, mesmo as fracas,
repetem seu papel eterno e, nisso,
em tudo, o fato é novo, embora igual...
As noites já beberam muitas luas,
mil sóis fazem do sonho algo real
– não há verdade eterna, minha ou tua.
Nas névoas pretensiosas do futuro,
nos ares deslizantes do passado,
o canto do planeta é claro-escuro;
o encanto de seu par, privilegiado.
No brilho desses raios sempre etéreos,
o bosque guarda cheiros e mistérios.
Nilza Azzi
e a vida, ali presente, em rebuliço,
mostrou que as criaturas, mesmo as fracas,
repetem seu papel eterno e, nisso,
em tudo, o fato é novo, embora igual...
As noites já beberam muitas luas,
mil sóis fazem do sonho algo real
– não há verdade eterna, minha ou tua.
Nas névoas pretensiosas do futuro,
nos ares deslizantes do passado,
o canto do planeta é claro-escuro;
o encanto de seu par, privilegiado.
No brilho desses raios sempre etéreos,
o bosque guarda cheiros e mistérios.
Nilza Azzi
32
Ao sabor da brisa
Nas manhãs mais puras,
quando o dia ainda não foi corrompido,
murmuro algum segredo ao teu ouvido.
O orvalho ainda se aquece
nas flores das goiabeiras,
que migraram para as ruas de meu bairro.
Teu olhar azul
põe em mim doce moldura;
o céu dá sentido às copas das paineiras.
Nessas manhãs em que parece outono,
e o vento apenas beija folhas verdes,
é que me pergunto, sem querer,
o que é a cor...
Um tijolo grita
de um muro qualquer
— Já não sou mais o barro natural!
Mais perto de mim,
três letras dançam no ar sereno
e pedem abrigo até a primavera.
Há uma pausa breve —
o vento ainda passeia
e vai levando pra bem longe
toda angústia que há em mim.
Enquanto toca, o sino faz tilintar as pedras,
vai dizendo — Acorda! — e ouve
o som dessa harmonia ao teu redor.
Um cachorro late ao longe;
tu me tomas pela mão.
É quando me pergunto sem querer:
— O que é o amor?
Nilza Azzi
quando o dia ainda não foi corrompido,
murmuro algum segredo ao teu ouvido.
O orvalho ainda se aquece
nas flores das goiabeiras,
que migraram para as ruas de meu bairro.
Teu olhar azul
põe em mim doce moldura;
o céu dá sentido às copas das paineiras.
Nessas manhãs em que parece outono,
e o vento apenas beija folhas verdes,
é que me pergunto, sem querer,
o que é a cor...
Um tijolo grita
de um muro qualquer
— Já não sou mais o barro natural!
Mais perto de mim,
três letras dançam no ar sereno
e pedem abrigo até a primavera.
Há uma pausa breve —
o vento ainda passeia
e vai levando pra bem longe
toda angústia que há em mim.
Enquanto toca, o sino faz tilintar as pedras,
vai dizendo — Acorda! — e ouve
o som dessa harmonia ao teu redor.
Um cachorro late ao longe;
tu me tomas pela mão.
É quando me pergunto sem querer:
— O que é o amor?
Nilza Azzi
83
flash
na verdade
a violência das águas
produz energia
se corressem mansas
seria apenas o escuro
nilza azzi
50
Vacilar
Talvez eu passe pelas ruas que passeias
e nem perceba algum sinal dos passos teus.
Talvez o sangue que me corre pelas veias
já não se altere quando lembro nosso adeus.
Vejo as aranhas a tecerem suas teias;
chega um inseto, distraído, ao coliseu,
e se debate, sem jamais vencer as peias.
― Ai quem me dera escapulir dos laços meus!
Se devo ao Sol que iluminou nosso caminho,
e que passeia solitário pelo céu,
essa ilusão de ter um tempo à minha frente,
é que ele mostra a realidade diferente:
Semeia em mim a crença num amor fiel
― um contrassenso ― uma falácia onde chapinho...
Nilza Azzi
e nem perceba algum sinal dos passos teus.
Talvez o sangue que me corre pelas veias
já não se altere quando lembro nosso adeus.
Vejo as aranhas a tecerem suas teias;
chega um inseto, distraído, ao coliseu,
e se debate, sem jamais vencer as peias.
― Ai quem me dera escapulir dos laços meus!
Se devo ao Sol que iluminou nosso caminho,
e que passeia solitário pelo céu,
essa ilusão de ter um tempo à minha frente,
é que ele mostra a realidade diferente:
Semeia em mim a crença num amor fiel
― um contrassenso ― uma falácia onde chapinho...
Nilza Azzi
34
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!