partidas
voa bem longe e deixa
a minha alma confusa
abre as asas com vontade
olha a terra das alturas
bebe da aragem fresca
viaja o céu infinito
vai pelo espaço azulado
onde a beleza te acusa
de intrepidez e ousadia
e colhe algumas estrelas
atrás dessas nuvens tolas
para bordar teus lençóis
segue livre e sem escolta
mas lembra de mim e volta
nilza azzi
Ainda, um gato amarelo
Suzana pegou seu gato
foi pro fundo do quintal
e pensou: − Não... não faz mal
que o gato seja amarelo.
Seu pelo vale um libelo
mas eu defendo essa cor
que lembra o Sol e o Verão
e a solidão vai embora,
quando em sua companhia
passeio entre os canteiros
a olhar as margaridas.
O gato, sempre sabido,
entendia bem Suzana
e cochichou: − Desencana,
o mundo é mesmo intrigante!
Nilza Azzi
Faz de conta
Faz de conta
que o dia acordou cedo,
enquanto as fadas riam no jardim
e a escada em caracol
levava àquele chão de pedras brancas
e logo adiante, aquela rua ensolarada
fazia resplender essa alvorada,
plena de luz e de belezas tantas.
Que a caixa de bombons
soltava sons fininhos e pausados
e a bailarina usava
saia de seda e um corselete azul.
E, na mesa, um tabuleiro de xadrez,
o baile começava... a uma só vez,
os pares deslizavam no salão.
Que o som vinha do vento
das flores, aves, sinos e cascatas;
as pausas, dos silêncios pelas matas,
das noites deslizando rumo ao sol.
As cores espalhadas, meus chicletes,
formavam o arco-íris no horizonte...
Bebia em fontes de água geladinha
― De um lado saltitava a amarelinha,
do outro, havia pipas contra o céu.
Que a caixa das bonecas
era o coreto em festa para mim...
e a trepadeira, toda branquinha em flores de jasmim,
era soberba ― deixava aromas pelo ar.
Que esse era o mundo certo pra brincar,
mundo de sonhos, sem começo ou fim.
Mas não gravei nenhum registro dessa longa história,
que lá ficou, porém, nalgum cantinho disso que é memória.
Na invenção do tempo, que vale por ouro,
a construção do sonho não tem mais lugar...
A salvo esse momento,
em que a verdade era o que eu queria,
eu chamo o sentimento,
mas só responde esta alegoria...
E a trepadeira, toda branquinha em flores de jasmim,
revolve aromas doces pelo ar
lembra de um mundo certo pra brincar,
mundo de sonhos, sem começo ou fim.
Nilza Azzi
Crenças
Diz-se que tudo que é demais enjoa,
então, do amor eu quero ter distância,
de forma que eu me afogue nesta ânsia
e saiba amar, tão leve, qual garoa
que vem do céu e o beija suave e mansa.
Ah, quem me dera fosse sempre boa,
essa emoção, e nunca fosse breve,
como a ilusão que a tudo circunscreve.
E, se a minha alegria dura pouco,
eu, por ser pobre, peço-te uma esmola:
– Vem compreender o sentimento louco
que a alma inteira, pouco a pouco esfola,
e, assim agindo, eu não sinta, tampouco,
a indiferença que me desconsola...
Que no vazio intenso desta hora
caiba um verão que chega e vai embora.
Se, no entanto, o sol nasce para todos,
vou guardar alguns raios com cuidado,
evitar sucumbir aos vis engodos,
e manter esse amor mui bem guardado:
– A pureza de um lírio sobre o lodo,
é a vitória de um ser sobre o seu fado...
E quando um dia, o amor exigir mais,
que apenas eu perceba seus sinais.
E saiba amar, tal qual uma garoa
que cai do céu, mas desce sempre mansa.
Nilza Azzi
Chuva graúda
Cai chuva grossa, como o desespero,
que rói por dentro e traz desassossego,
como o trovão que nunca vem primeiro,
que manda o raio e nos envolve em medo,
até se ouvir o estrondo verdadeiro.
É temporal que assusta tarde ou cedo;
o vento forte é sempre um exagero
que causa estrago e deixa o mundo quedo.
Quem sabe a mim a chuva, assim, revela,
na fúria estranha e louca igual a ela...
Nilza Azzi
Conversa com a Lua
Eu converso com a Lua,
perdida a vagar no céu.
Ela procura uma rua
e ilumina, rompe o véu
da neblina, fina ainda,
e deixa passar seus raios.
Essa visagem é linda!
Faço os primeiros ensaios
de um dueto ao luar;
a lua e eu a dançar.
A luz suave acompanha
os passos da minha dança
e a cena à frente ganha
nuances de semelhança
com um quadro surreal.
Ó Lua, só tu e eu
sabemos o que é vagar,
nessa noite sem igual.
Ó Lua, a noite escondeu
o que estive a procurar.
Nilza Azzi
flash
na verdade
a violência das águas
produz energia
se corressem mansas
seria apenas o escuro
nilza azzi
Há...
Há um céu azul, além do azul
nos lúbricos caminhos da ventura
algures, nas alturas do eu perdido
do espanto e do não-ser...
Há zunidos estranhos e sem sentido
nos bosques quietos, recônditos
onde liberdade não é uma palavra
e nada pode ser chamado de loucura
lá, onde o amado planta sonhos
que florescerão no tempo certo
Há um mar profundo, além do mar
no desatino das viagens cegas
ao largo dos pesados continentes
em pacíficas e ensolaradas ilhas
de pureza e de segredos...
Há falésias afagadas pelas ondas
e murmúrios desse mar
nas entranhas dos rochedos
onde o que se guarda é poesia
na mais pura das misturas
Há um precipício, um largo precipício
na ebulição do desespero criador
e nesse centro tudo brilha e tudo morre
Nilza Azzi
Desapontos
O ponto aponta o espanto do fim
e deixa perguntas suspensas.
Com o ar quente dos meus pulmões,
sussurrei palavras ao teu ouvido.
Quisera convencer-te
de que o amor é quente, como palavras sopradas
saindo de dentro da vida pulsante.
Desde que o mundo era para mim pequeno,
conversava com vidraças embaçadas em dias frios:
talvez já sonhasse contigo...
Porém, de nenhum desses trens expressos
desceste ao meu encontro.
Claro, certa vez houve aquele bilhete prematuro;
papel amarelado que passou do tempo de um contato.
Um dia acreditei que o Vento Norte
era um terrível feiticeiro, capaz de levar embora o meu desejo;
aquele que eu colocara em palavras desenhadas,
mas ele soprou sobre o papel branco
e sujou meu vestido de domingo.
Desde que o mundo foi tão vasto que te levou para longe,
paro no meio da chuva
e na solidão do vidro embaçado do meu carro
digo palavras que não podem alcançar-te.
Nilza Azzi
Terra nova
Eu não suporto ver a terra seca
sem umidade, sem sinal de vida;
poeira inútil dentro da ampulheta,
qual matéria inorgânica e perdida.
Coisa mais linda, quando a terra escura
está molhada e vibra, colorida;
mostra sinais de alguma criatura,
por mínima que seja e uma formiga
ou lagarta passeia, enquanto dura
seu tempo de sair ao sol, ao céu,
em busca de um bocado de alimento,
sem que uma ave a leve ao beleléu...
A secura da terra é-me um tormento
e minh’alma acredita que sem água,
o coração também sofre sedento;
nem mesmo irá chorar, verter a mágoa
e lamentar o mal de estar sozinho,
porque, se há dor, um dia ela deságua.
Mas quando lembro a força do carinho
que posso ter e vejo esse deserto,
onde sem água, triste e só, caminho,
apenas quero, um dia, estar mais perto
da nascente translúcida e sonora,
onde o sonho não seja mais incerto,
mas verdadeiro a cada nova aurora.
Nilza Azzi