Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

611

Nós

Contrariamente ao que diz o poeta, não é a constatação da realidade que a humanidade sente como insuportável;  
é a luz ofuscante da perfeição exemplar. (George Steiner – Passions   Impunies).

Tu me acreditas, mas sou mentira.
Tu me duvidas? Sou verdadeiro.
Vasto mergulho... A mente delira!
E vou adiante, sem cativeiro.

Tu vens a mim e dons eu concedo,
abro-te as portas de outras esferas,
porém não caias no engano ledo:
– não mais serás o mesmo que eras...

Se em mim procuras a fantasia,
da realidade, negas a herança.
Bem mais perturba e te extasia
a perfeição que nunca se alcança.

Espelho opaco frente ao porvir,
tua presença é meu refletir...

Nilza Azzi
65

Propósito

Escancarar as portas e janelas
e deixar que o bolor se vá embora;
que chegue o sol e traga nessa hora,
coisas mais desejáveis e mais belas.

Meu amor, se teu beijo me demora,
mas em preces, à noite, por mim velas,
as certezas que trazes são aquelas
que perdi; pelas quais minh'alma implora.

E quando a aurora vem, desconhecida,
e deita brilho e cores pela vida,
beber a luz inteira que ela espalha...

Vencer toda manhã essa batalha,
seguir nesse caminho, passo a passo,
e acreditar na força do que faço!

Nilza Azzi
72

Sophia


Um fio vermelho tingia o horizonte,
enquanto Sophia bordava serena.
No bosque encantado havia rumores
               e a luz dos amores,
                          além das falenas.

A deusa fiel ao saber inerente,
fazia das linhas tecidas, apenas
exemplos de histórias, de escolhas antigas,
                       das velhas cantigas
                                    e das cantilenas.

Sophia era sábia ao usar as palavras,
mas não mais podia aguentar suas penas.
Assim, por desejo do Um, ânsia vasta,
               dos deuses se afasta,
                        mas busca ser plena.

Rever este mito me faz bem à alma
– a profundidade do fato me acena –
entendo essa angústia que sempre me habita
                       e a minha desdita,
                                      já não vale a pena.

Nilza Azzi
62

Quando Susana

Quando Susana saiu
para o abraço da rua vazia
foi espanto
o que varou seu coração
e, sim, foi medo
o que empurrou seu passo adiante
no espaço sem ecos
que apenas refletia a cor da chuva
na curva distante do céu

nilza azzi
40

Amar livremente


Pode o amor trazer prisão (insensatez),
se não for compreendido, mas releve.
Pretendido como posse e privilégio,
            pode parecer régio,
               mas vai-se... É tão breve!

É possível criar laços por amor,
porém cabe a nós cumprir o que se deve,
que é rompê-los, desfazê-los sem porquês:
                          isso faz de uma vez
                              com que ele se eleve.

Salve o amor que torna livre. Paraíso
é viver sem egoísmo e me faz leve.
Traz ventura especial amor assim,
             pois liberto de mim,
                em minh’alma se inscreve.


Nilza Azzi
62

Flores

                       Vou compor um ramalhete
                       Com flores do meu amor
                       Desisti, vão sem bilhete
                       Apenas aroma e cor

                       Não vou mandar entregar
                       Nem mesmo escolhi um cartão
                       Prefiro eu mesma levar
                       Vão da minha pra tua mão

                       E no palco de minh'alma
                       Onde a faina tem efeito
                       A primeira que se espalma
                       O antúrio é o eleito

                       Diz ele da tua fé
                       Cumprir a lei do serviço
                       De uma entrega que assim é
                       Um divino compromisso

                       Em seguida o girassol
                       Flor de grande intensidade
                       Da manhã ao arrebol
                       Fala sobre a dualidade

                       A camélia é aquela
                       Que ensina pelo exemplo
                       Não se toca em flor tão bela
                       Respeita-se como um templo

                       Vai também maracujá
                       Já entre nós exaltada
                       Unindo os lados que há
                       Na identidade apartada

                       Magnólia e açucena
                       Pelo perfume que exalam
                       Da verdade sempre plena
                       E da confiança falam

                       Hibiscos em várias cores
                       Chamado da existência
                       A vivermos os amores  
                       Cuidar da sobrevivência

                       Um mandacaru colhido
                       Nos albores da manhã
                       Coloquei sem alarido
                       Por mostrar da alma o afã

                       Orquídeas, singelas, raras
                       Trazem noção da unidade
                       Por todas as vidas caras
                       Busca da fraternidade

                       E finalmente vêm rosas
                       Rosas todas, cores mil
                       Das singelas às pomposas
                       dizem do amor mais gentil

                       Nilza Azzi
71

Laços

Caminhada rumo aos céus,
momento do nada.

Sem definição a nos unir,
morre minha vida ao longe.

Invade-me a força do teu ser.
Esmoreço. Entrego minha morte.
Incita-me o amor.
Reconheço razão no prosseguir...

À criança assustada, a mão,
um olhar. A voz muda
determina a liberdade.
Me apago.

Teus pés, pegadas fortes, beijo
e choro em solidão.
Afagos tentam suprimir
cansaço longo (com esmero).

Sei a despedida a aprender.
Sempre possibilidade
novo laço. Amar e desatar.

Nilza Azzi
50

Sol


Me bate o coração, tão loucamente;
pressente ter perdido o seu compasso...
E o traço de um eletro já enlouquece
qualquer especialista de plantão.

Padece desse mal crasso e frequente,
irracional de alguns amantes,
bem antes que lhes surja algum juízo;
perece e já nem sabe o que era antes.

Às vezes até para (arritmia!),
assusta o portador de uma extra-sístole,
pois tal é o descontrole que lhe causas...
Nas pausas, és um sol em minha mente!

Nilza Azzi
36

Quando...

Quando chove, e a chuva manda,
um ar fresco, limpo e úmido,
leio um livro na varanda,
enquanto me olhas, tímido.

Nilza Azzi
37

vida

o que dizer dessa festa
tão selvagem
que mistura e confunde
coragem e covardia
e coloca assim juntos
o joio e o trigo
não tão indistintos
nem tão emaranhados
diante do olhar adormecido
que desperta quando chega o dia!

nilza azzi
51

Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!