Lista de Poemas
Pobre palavra
La vai a palavra solteira,
na feira fazer seu sucesso.
Procura parceiro e, faceira,
esquece na bolsa o ingresso...
A pobre, por mais que se queira,
não tem condições, eu confesso,
de achar casamento e se esgueira,
correndo pra mim, mas impeço.
Se a veste que usa é tão bela,
o seu conteúdo é banal,
e todos perguntam por ela,
por seu denotar principal,
embora desmaie, amarela,
parece, em essência, normal...
Nilza Azzi
na feira fazer seu sucesso.
Procura parceiro e, faceira,
esquece na bolsa o ingresso...
A pobre, por mais que se queira,
não tem condições, eu confesso,
de achar casamento e se esgueira,
correndo pra mim, mas impeço.
Se a veste que usa é tão bela,
o seu conteúdo é banal,
e todos perguntam por ela,
por seu denotar principal,
embora desmaie, amarela,
parece, em essência, normal...
Nilza Azzi
33
Moto contínuo
Vive em mim o mesmo amor; mesma saudade
vem seguir-me nesses tempos de tristeza
e não cabe ao coração, não, com certeza,
rechaçar a solidão que ora lhe invade.
Dessas horas quase mortas, arrecade,
a minh’alma os bons bocados que aprecia
de ventura dolorida, de piedade,
não por si, mas pelo mal de todo dia.
E não deixe de viver, embora grude,
nas cortinas de seu rosto a imagem tola,
aparência de quem não sabe o que quer.
Entre os fardos de viver e ser mulher,
entre as lutas a que a vida ousou expô-la,
seja fria ante a verdade eterna e rude.
Nilza Azzi
vem seguir-me nesses tempos de tristeza
e não cabe ao coração, não, com certeza,
rechaçar a solidão que ora lhe invade.
Dessas horas quase mortas, arrecade,
a minh’alma os bons bocados que aprecia
de ventura dolorida, de piedade,
não por si, mas pelo mal de todo dia.
E não deixe de viver, embora grude,
nas cortinas de seu rosto a imagem tola,
aparência de quem não sabe o que quer.
Entre os fardos de viver e ser mulher,
entre as lutas a que a vida ousou expô-la,
seja fria ante a verdade eterna e rude.
Nilza Azzi
32
Laços
Caminhada rumo aos céus,
momento do nada.
Sem definição a nos unir,
morre minha vida ao longe.
Invade-me a força do teu ser.
Esmoreço. Entrego minha morte.
Incita-me o amor.
Reconheço razão no prosseguir...
À criança assustada, a mão,
um olhar. A voz muda
determina a liberdade.
Me apago.
Teus pés, pegadas fortes, beijo
e choro em solidão.
Afagos tentam suprimir
cansaço longo (com esmero).
Sei a despedida a aprender.
Sempre possibilidade
novo laço. Amar e desatar.
Nilza Azzi
momento do nada.
Sem definição a nos unir,
morre minha vida ao longe.
Invade-me a força do teu ser.
Esmoreço. Entrego minha morte.
Incita-me o amor.
Reconheço razão no prosseguir...
À criança assustada, a mão,
um olhar. A voz muda
determina a liberdade.
Me apago.
Teus pés, pegadas fortes, beijo
e choro em solidão.
Afagos tentam suprimir
cansaço longo (com esmero).
Sei a despedida a aprender.
Sempre possibilidade
novo laço. Amar e desatar.
Nilza Azzi
43
Amor sagrado
“L’amour est ta dernière chance.
Il n'y a vraiment rien d'autre
sur la terre pour t'y retenir."
( Aragon)
(O amor é sua oportunidade final.
Na verdade, nada mais existe
para prendê-lo à Terra.)
Ao começar, a minha voz já anuncia,
amo as palavras, elas são meu alimento.
E amo amar, viver de amor, porém comento
que, com certeza, meu amor traz alegria ...
Mas, se o amor dá sempre o tom do que é real,
então eu amo, amo sempre, mesmo quando
estou desperta, ou mesmo, quando estou sonhando.
Às vezes sim, às vezes não. Isso é normal.
Assim desvela a realidade do viver,
o que aparece no exterior é tão somente,
da vida interna, só uma ponta pertinente,
ao vasto mundo que faz parte do meu ser.
Pois o alimento mais profundo, esse, retive-o,
é o bem sagrado, o bem restrito, o indizível.
Nilza Azzi
Il n'y a vraiment rien d'autre
sur la terre pour t'y retenir."
( Aragon)
(O amor é sua oportunidade final.
Na verdade, nada mais existe
para prendê-lo à Terra.)
Ao começar, a minha voz já anuncia,
amo as palavras, elas são meu alimento.
E amo amar, viver de amor, porém comento
que, com certeza, meu amor traz alegria ...
Mas, se o amor dá sempre o tom do que é real,
então eu amo, amo sempre, mesmo quando
estou desperta, ou mesmo, quando estou sonhando.
Às vezes sim, às vezes não. Isso é normal.
Assim desvela a realidade do viver,
o que aparece no exterior é tão somente,
da vida interna, só uma ponta pertinente,
ao vasto mundo que faz parte do meu ser.
Pois o alimento mais profundo, esse, retive-o,
é o bem sagrado, o bem restrito, o indizível.
Nilza Azzi
58
Extrato
Ele passava todo dia
junto ao pé onde ela crescera
e amadurecia
vestindo um sorriso inerte
usufruía da sombra
contemplava a paisagem
riscava o tronco sem cuidado
apalpava os frutos, exigente
depois partia como viera
nunca se deu a cuidados
nada deixava de si,
além de um ex-trato
Ela buscava nos canais alguma seiva
e mesmo com pouco alimento ia sendo
a reunião do melhor que em si havia
mas de nada adiantava
travava na boca
amarga e intragável
Mas num desses dias de verão
chegou seu momento
e foi colhida e prensada
refinada e estilada
e desde então deram-lhe
o rótulo de poesia extralírica
Nilza Azzi
31
Quando...
Quando chove, e a chuva manda,
um ar fresco, limpo e úmido,
leio um livro na varanda,
enquanto me olhas, tímido.
Nilza Azzi
um ar fresco, limpo e úmido,
leio um livro na varanda,
enquanto me olhas, tímido.
Nilza Azzi
30
Refletores
Caminhar até à face mais verdadeira
e desvestir a última fantasia,
tirar máscaras e máscaras, sem fim.
Descer fundo na alma, baixar degraus,
onde não há mais luz a refletir,
imagens distorcidas, realidades,
despir véus e véus, entrever outros mais.
Caminhar pela Casa da Vida
e ver-me alta, magra, nariz distorcido,
incapaz de farejar o rumo certo,
olhos arregalados, boca torta,
incapaz, ante o chamado das palavras.
Cabelos espichados, orelhas tão grandes,
sem acuidade para ouvir a voz de Deus.
Caminhar, me perder no labirinto,
bater contra as faces enganosas,
ao supor ter caminhado em linha reta.
Sentir na fronte o empecilho da cegueira,
fitar, fitar a pupila dos meus olhos
− e ver-me sem resposta.
Amedrontada, voltar à superfície,
olhar pra fora, buscar revelações
das cores, sons, vozes da Natureza.
Atenta, misturar-me aos animais e plantas...
Ser uma abelha a recolher o néctar,
ou a formiga a percorrer a trilha,
ver-me urubu, a engolir carniça,
voar, condor, a devorar alturas,
animal livre, cavalgar os campos,
canário triste, dentro da gaiola.
Tornar-me flor, a exalar perfume,
tronco, aceitar o corte que me abala,
sem queixa, viga, a sustentar o teto.
Seguir rasteira, inocular venenos,
percorrer os miolos das florestas,
bicho-preguiça, descansar a eternidade.
Saltar da árvore, quebrar todos os espelhos,
E, sem respostas, prosseguir, a caminhar...
Nilza Azzi
54
Espaço sagrado
Um canto em mim, eu reservei, desde pequena,
e ali guardei tudo de bom, que à vida trouxe
(a minha alma) e disfarcei a minha pena,
pra proteger do mundo insano a parte doce,
o bem sagrado. Terei eu alguma essência,
a depurar, neste viver equivocado?
Guardei pra ti o bem maior, a excelência,
a poesia, a alegria, a voz do bardo.
Mas tu não chegas, o Olimpo fica longe,
como Abelardo pode ser, sejas um monge,
e Heloísa só te ama porque quer.
Se num passado estivemos lado a lado,
na imagem pura desse espaço consagrado,
és o meu homem e eu sou tua mulher.
Nilza Azzi
e ali guardei tudo de bom, que à vida trouxe
(a minha alma) e disfarcei a minha pena,
pra proteger do mundo insano a parte doce,
o bem sagrado. Terei eu alguma essência,
a depurar, neste viver equivocado?
Guardei pra ti o bem maior, a excelência,
a poesia, a alegria, a voz do bardo.
Mas tu não chegas, o Olimpo fica longe,
como Abelardo pode ser, sejas um monge,
e Heloísa só te ama porque quer.
Se num passado estivemos lado a lado,
na imagem pura desse espaço consagrado,
és o meu homem e eu sou tua mulher.
Nilza Azzi
53
Flores
Vou compor um ramalhete
Com flores do meu amor
Desisti, vão sem bilhete
Apenas aroma e cor
Não vou mandar entregar
Nem mesmo escolhi um cartão
Prefiro eu mesma levar
Vão da minha pra tua mão
E no palco de minh'alma
Onde a faina tem efeito
A primeira que se espalma
O antúrio é o eleito
Diz ele da tua fé
Cumprir a lei do serviço
De uma entrega que assim é
Um divino compromisso
Em seguida o girassol
Flor de grande intensidade
Da manhã ao arrebol
Fala sobre a dualidade
A camélia é aquela
Que ensina pelo exemplo
Não se toca em flor tão bela
Respeita-se como um templo
Vai também maracujá
Já entre nós exaltada
Unindo os lados que há
Na identidade apartada
Magnólia e açucena
Pelo perfume que exalam
Da verdade sempre plena
E da confiança falam
Hibiscos em várias cores
Chamado da existência
A vivermos os amores
Cuidar da sobrevivência
Um mandacaru colhido
Nos albores da manhã
Coloquei sem alarido
Por mostrar da alma o afã
Orquídeas, singelas, raras
Trazem noção da unidade
Por todas as vidas caras
Busca da fraternidade
E finalmente vêm rosas
Rosas todas, cores mil
Das singelas às pomposas
dizem do amor mais gentil
Nilza Azzi
Com flores do meu amor
Desisti, vão sem bilhete
Apenas aroma e cor
Não vou mandar entregar
Nem mesmo escolhi um cartão
Prefiro eu mesma levar
Vão da minha pra tua mão
E no palco de minh'alma
Onde a faina tem efeito
A primeira que se espalma
O antúrio é o eleito
Diz ele da tua fé
Cumprir a lei do serviço
De uma entrega que assim é
Um divino compromisso
Em seguida o girassol
Flor de grande intensidade
Da manhã ao arrebol
Fala sobre a dualidade
A camélia é aquela
Que ensina pelo exemplo
Não se toca em flor tão bela
Respeita-se como um templo
Vai também maracujá
Já entre nós exaltada
Unindo os lados que há
Na identidade apartada
Magnólia e açucena
Pelo perfume que exalam
Da verdade sempre plena
E da confiança falam
Hibiscos em várias cores
Chamado da existência
A vivermos os amores
Cuidar da sobrevivência
Um mandacaru colhido
Nos albores da manhã
Coloquei sem alarido
Por mostrar da alma o afã
Orquídeas, singelas, raras
Trazem noção da unidade
Por todas as vidas caras
Busca da fraternidade
E finalmente vêm rosas
Rosas todas, cores mil
Das singelas às pomposas
dizem do amor mais gentil
Nilza Azzi
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Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!