Fascínios
Em face a borboletas e corujas,
escolho as borboletas, por que não?
As borboletas, co'as patinhas sujas
de pólen, entre as flores, sempre são
presenças delicadas, são beleza.
Encantam todos, sempre uma atração,
as borboletas, leves, indefesas...
Nilza Azzi
Excessos
Adiante o imenso vão vazio,
o facho, de tão forte, cega,
teu beijo, em mim, é apenas falta
do teu calor e a alma apela,
ante a cruel certeza infame,
de um coração que ainda ama,
contar de mim, contei estrelas,
o meu penar jamais acaba;
caminho rente das sarjetas,
meio inclinadas, traiçoeiras,
amontoado de poeiras.
Nilza Azzi
#retranca
Lava-me
lava-me e me enxuga com teus véus
água que ainda não conhece o sal
mansa, límpida, e então hidrata-me
escorre sobre mim e leva peso e sal
para os mares donde eu vim um dia
em teu caminho certo, desce à praia
lava-me, água doce das nascentes
e deixa nos meus olhos o frescor
e os respingos da pródiga inocência
nilza azzi
A trova
A trova é uma arte antiga,
tão simples e encantadora;
de trovar não se fatiga
a minh’alma trovadora...
Nilza Azzi
Luar do sertão
O luar do sertão deixa bem claro
que a cidade é um mundo muito escuro
e a verdade do fato, lhe asseguro,
põe certeza na frase que declaro.
No longínquo sertão, o ar é puro;
na cidade, a pureza é algo raro...
Lá na mata, o animal usa seu faro,
mas não tem garantias de futuro.
Mergulhados vivemos no elemento,
– entre as fases que o globo atravessa –
nos diversos problemas desta esfera.
No sertão, o processo se acelera,
os sintomas aumentam bem depressa,
e o luar vive estranho, macilento.
Nilza Azzi
Passeio
A caminhar na praça ao fim da tarde,
a alimentar os pássaros com milho,
eu sinto e sensação de ser covarde,
porque naquele espaço, só, eu brilho
junto à pequena fonte onde eles bebem.
Eu brilho à luz do sol, manhã ao meio,
num canto do jardim, revivo um éden,
nas alegrias simples de um passeio,
colhendo aqui e ali verbos gentis,
alguns substantivos, bem precisos,
e afago interjeições que dizem ai!
No lago ainda resiste a flor de lis,
junto ao perfume forte dos narcisos
e a flor de magnólia que ali cai.
Nilza Azzi (in: Tempo-Será)
noite
que coisa triste
é quando a noite
perde seu brilho
deixa vazios
nos vãos dos braços
e cai silente
é morte e corta
os véus da alma
é vão silêncio
nilza azzi
Aprendi...
Aprendi a chorar cedo demais,
e a sorrir comecei já bem mais tarde,
entre os dois, já nenhum me satisfaz,
pois prefiro um silêncio sem alarde.
Nilza Azzi
De um baú...
De um baú, bem lá do fundo,
tirei uma pedra branca,
mas descobri, num segundo,
que o tal baú não tem tranca.
Co'a pedra fiz um anel
que tinha as cores do céu,
quando refletia a luz...
O anel ficou no meu dedo
e, quando ele não reluz,
não sei porque, sinto medo.
Nilza Azzi
Ciranda
Uma casa com varanda
bem grande, no comprimento,
protegida contra o vento,
onde o sossego comanda;
onde a faina é sempre branda.
Debaixo desse frescor,
a conversa ao sol se pôr...
Pouco longe, um galinheiro,
laranjeira é bom poleiro,
numa casa do interior.
Se na frente tem varanda,
tem alpendre grande, ao fundo,
descortina-se outro mundo.
O relógio ali não manda;
do verdor, sai a ciranda...
Muita fruta a seu dispor;
galinheiro, sim senhor!
Não que fácil seja a trilha,
quando o sol falha e não brilha,
numa casa do interior.
Tem vasinhos na janela
com cuidado combinados;
tem crochê nos cortinados,
a paisagem tão singela:
— Que coisa mais linda, aquela!
A riqueza vem da cor
branca e azul, em esplendor.
Tem a água da nascente,
no filtro... Que diferente,
numa casa do interior.
Tem imã de geladeira
e um cesto para a colheita:
(de feira, nem se suspeita).
A limpeza é de primeira,
de domingo a sexta-feira.
Já num sábado, ao dispor,
recebe o amigo que for...
E, nesse viver sereno,
quem passa recebe aceno,
numa casa do interior...
Nilza Azzi