Lista de Poemas

Gente esperta


Numa cidade pequena,
nalgum interior qualquer,
um grupo, sem qualquer pena,
daqueles que ninguém quer,
por certo, se divertia
às custas de um biscateiro,
homem de pouca valia,
que esmolava o dia inteiro...

Era pouca a inteligência,
daquele pobre coitado
e, com diária freqüência,
ao bar ele era chamado.
Já era fato certeiro
a oferta que lhe faziam;
lhe ofereciam dinheiro,
mas uma escolha pediam.

Duas moedas por vez,
lhe eram oferecidas.
A escolha que sempre fez
pois não eram parecidas,
(tinha a grande pouca monta
e a pequena mais valia),
mas para ele o que conta?
Pelo tamanho escolhia.

A maior valia menos,
mas ele pegava aquela
e todos riam, serenos,
já sabendo da mazela.
Mas um dia um camarada
chamou-o e perguntou:
– Você nunca notou nada,
na moeda que pegou?

Você nunca percebeu
que seu valor é menor?
– Sei sim, ele respondeu,
pondo um olhar ao redor;
muito menos ela vale,
cinco vezes na verdade,
mas a menos que me cale
e esqueça a minha vontade

de escolher a mais valiosa,
acaba-se a brincadeira
a turma fica furiosa...
Escolho então de primeira
a que vale menos, sim,
pois ao menos, diariamente,
eles entregam pra mim
uma moeda, um presente.

Que se pode concluir
dessa história tão comum?
Não se pode deduzir
e à toa fazer zum-zum,
que é tolo quem mais parece.
Nem sempre será tão certo
alguém pensar que conhece;
o sujeito era é esperto...

Quanta vantagem tiravam
do tolo? Faça um juízo!
Nenhuma, porém se achavam,
por certo donos de siso.
Alem disso, interessante,
eis um fato a se notar,
quem quiser maior montante,
pode sem nada ficar.

Outra coisa pra pensar
para refletir bastante:
podemos ignorar
o que pensa o semelhante
sobre nós e estarmos bem.
Ainda que outros não façam
o juízo que convém,
opiniões não desgraçam;

mais importa é o que nós somos.
Pode ser que alguém capaz
não demonstre, não supomos,
quem sabe até se lhe apraz
parecer ignorante
diante de outro bem tolo,
que faz pose, é arrogante,
porém nulo, sem miolo...

Nilza Azzi #cordel

(Baseado em texto de Arnaldo Jabor: “Pessoas Inteligentes”.)
63

Ser flor...

ser flor
e nada ser antes de abrir-me
como se o imo revelado
ainda guardasse o pólen
para abelhas que passeiam
carregadas de amarelo

nilza azzi
41

Tenho medo

tenho medo

tenho medo de ti como de um rio
cuja profundeza não conheço
medo das águas agitadas e escuras
da correnteza que escorrega sobre as pedras
e dos caminhos longínquos e perdidos

tenho medo de ti, dos teus segredos
das tuas noites solitárias, dos teus ermos
da inconstância que me assusta os sonhos
da tua força sem medidas sobre o tempo que vacila
tenho medo da tua sombra sobre mim

tenho medo de ti como de um lago
dessa calma sempre atenta de águas claras
da grandiosidade do céu sobre as montanhas
vendo a pequenez do barco sobre as águas
os limites do horizonte ao fim da tarde

tenho medo de ti como de entrar no mar
quando as ondas me puxam para o fundo 
mas atraída pelo impulso das marolas
busco o prazer de navegar nesse teu mundo

nilza azzi
28

Lava-me

lava-me e me enxuga com teus véus
água que ainda não conhece o sal
mansa, límpida, e então hidrata-me

escorre sobre mim e leva peso e sal
para os mares donde eu vim um dia
em teu caminho certo, desce à praia

lava-me, água doce das nascentes
e deixa nos meus olhos o frescor
e os respingos da pródiga inocência

nilza azzi
44

Passeio

A caminhar na praça ao fim da tarde,
a alimentar os pássaros com milho, 
eu sinto e sensação de ser covarde,
porque naquele espaço, só, eu brilho

junto à pequena fonte onde eles bebem.
Eu brilho à luz do sol, manhã ao meio, 
num canto do jardim, revivo um éden, 
nas alegrias simples de um passeio,

colhendo aqui e ali verbos gentis, 
alguns substantivos, bem precisos,
e afago interjeições que dizem ai!

No lago ainda resiste a flor de lis, 
junto ao perfume forte dos narcisos
e a flor de magnólia que ali cai.

Nilza Azzi (in: Tempo-Será)
28

Ciranda


Uma casa com varanda
bem grande, no comprimento,
protegida contra o vento,
onde o sossego comanda;
onde a faina é sempre branda.
Debaixo desse frescor,
a conversa ao sol se pôr...
Pouco longe, um galinheiro,
laranjeira é bom poleiro,
numa casa do interior.

Se na frente tem varanda,
tem alpendre grande, ao fundo,
descortina-se outro mundo.
O relógio ali não manda;
do verdor, sai a ciranda...
Muita fruta a seu dispor;
galinheiro, sim senhor!
Não que fácil seja a trilha,
quando o sol falha e não brilha,
numa casa do interior.

Tem vasinhos na janela
com cuidado combinados;
tem crochê nos cortinados,
a paisagem tão singela:
— Que coisa mais linda, aquela!
A riqueza vem da cor
branca e azul, em esplendor.
Tem a água da nascente,
no filtro... Que diferente,
numa casa do interior.

Tem imã de geladeira
e um cesto para a colheita:
(de feira, nem se suspeita).
A limpeza é de primeira,
de domingo a sexta-feira.
Já num sábado, ao dispor,
recebe o amigo que for...
E, nesse viver sereno,
quem passa recebe aceno,
numa casa do interior...

Nilza Azzi
51

Excessos

Adiante o imenso vão vazio,
o facho, de tão forte, cega,
teu beijo, em mim, é apenas falta
do teu calor e a alma apela,

ante a cruel certeza infame,
de um coração que ainda ama,

contar de mim, contei estrelas,
o meu penar jamais acaba;
caminho rente das sarjetas,

meio inclinadas, traiçoeiras,
amontoado de poeiras.

Nilza Azzi

#retranca
41

noite

que coisa triste
é quando a noite 
perde seu brilho

deixa vazios
nos vãos dos braços
e cai silente

é morte e corta
os véus da alma
é vão silêncio

nilza azzi
65

Anauê, Krexu (Cretchu)


Certo dia, conheci abaetê,
entre os brilhos da formosa airumã, 
quando ainda não nascera um novo oirã,
e crescente, ia subindo airequecê...

Aprumado, vou saindo da carioca
se um caboclo chega e diz baixo:-Anauê!
Muito antes do começo de aracê,
lá na ocara chega quem saiu da oca.

Os carinhos, eu relembro, da cunhã
os sussurros em seu doce abanheém
e não quero ter que ouvir nhenhenhém...
Como é bom rolar por esse ybytatã!

Eu me sirvo da tigela de açaí, 
depois cuido de plantar uma juçara.
Bem pertinho, vou ouvindo nhambiquara,
que me aponta ao longe o belo ybacoby.

Não há mais escuridão, porque yami
foi expulsa lá nos lados de araxá.
De partida, levo junto o meu puçá;
sem demora me encontrei com meu guri.

Vou pisando no capim, o aguapé
colherei, porém não antes de virã.
Ao voltar celebraremos... Anacã!
Boa festa tem presença de avaré!

Animado vou tocando maracá;
trago as honras de um valente guarini,
que chegou, glorioso, vem de anomati
e só quer rever, feliz, seu doce obá!

Mbyci (Bartira)

*exercício poético em que as rimas são vocábulos do tupi-guarani
93

O luar...

O luar da madrugada, no céu limpo,
que clareia pela sala o chão de terra,
as tristezas de minh'alma, ele descerra:
− lua branca, só tu sabes o que sinto...

Nilza Azzi
51

Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!