Lista de Poemas
Velha toada
As flores que vi na estrada
toldaram meus pensamentos,
não deixaram sobrar nada
atrás dos meus passos lentos.
Na praia vivo do vento
que sopra vindo do mar;
em terra, mas que tormento,
jamais paro de pensar.
Entre flores, ventos, ondas,
desisto de procurar;
não acho quem me responda
quantos peixes tem o mar.
Meu amor, na maré cheia,
catei conchas, persegui
caranguejos pela areia,
mas não te encontrei ali.
Foi nos ares da montanha
que encontrei alguma paz;
o silêncio me acompanha:
pensar, já não penso mais.
Nilza Azzi
toldaram meus pensamentos,
não deixaram sobrar nada
atrás dos meus passos lentos.
Na praia vivo do vento
que sopra vindo do mar;
em terra, mas que tormento,
jamais paro de pensar.
Entre flores, ventos, ondas,
desisto de procurar;
não acho quem me responda
quantos peixes tem o mar.
Meu amor, na maré cheia,
catei conchas, persegui
caranguejos pela areia,
mas não te encontrei ali.
Foi nos ares da montanha
que encontrei alguma paz;
o silêncio me acompanha:
pensar, já não penso mais.
Nilza Azzi
101
Safra antiga
Do seio de Deméter a fartura
depende da semente e cada grão
brotado é uma seara já madura,
oferta aos ceifadores que virão.
Perséfone acompanha seu marido
e desce às profundezas... Chora a terra!
O inverno deixa o mundo comprimido
e um branco vasto e puro se descerra.
Porém, na primavera, ela retorna
ao lar da deusa Ceres, linda e pura.
Florescem campos, vales, e a bigorna
trabalha admirável armadura.
A força produtiva, o alento pródigo,
suspenso no recesso, ausente a filha,
Deméter, ressarcida, entrega o código
e assim a safra d’ouro ao sol rebrilha.
Nilza Azzi
depende da semente e cada grão
brotado é uma seara já madura,
oferta aos ceifadores que virão.
Perséfone acompanha seu marido
e desce às profundezas... Chora a terra!
O inverno deixa o mundo comprimido
e um branco vasto e puro se descerra.
Porém, na primavera, ela retorna
ao lar da deusa Ceres, linda e pura.
Florescem campos, vales, e a bigorna
trabalha admirável armadura.
A força produtiva, o alento pródigo,
suspenso no recesso, ausente a filha,
Deméter, ressarcida, entrega o código
e assim a safra d’ouro ao sol rebrilha.
Nilza Azzi
87
Emoção
Inventei a paixão quando cheguei ali,
na janela da alcova. A copa, o cambuci,
as flores sensuais, o ambiente de sonho.
Um pedaço de céu que a cortina mostrava,
a sagrada impressão dos amores perpétuos
e meu corpo fremente a palpitar por ti.
As loucuras que fiz... Depois horas mansas,
o tempo de fruir do teu abraço quieto.
Na lembrança ficou, aquela flor sedosa
e a luz do teu olhar, meu doce colibri.
Nilza Azzi
#ghazel
na janela da alcova. A copa, o cambuci,
as flores sensuais, o ambiente de sonho.
Um pedaço de céu que a cortina mostrava,
a sagrada impressão dos amores perpétuos
e meu corpo fremente a palpitar por ti.
As loucuras que fiz... Depois horas mansas,
o tempo de fruir do teu abraço quieto.
Na lembrança ficou, aquela flor sedosa
e a luz do teu olhar, meu doce colibri.
Nilza Azzi
#ghazel
82
Madrigal das margaridas
No verde dos canteiros, surgem os botões
que vão tomando forma, esticam sua haste
e deixam ver o branco, em tímido contraste.
Passeiam joaninhas, buscam os pulgões,
numa colônia imensa, parecem milhões...
Nem mesmo água de fumo, nada há que os devaste!
É deixar que algum tempo passe e os afaste...
Passeio diariamente a olhar esses canteiros
e um dia percebo que se abrem os primeiros
botões, cuja pureza envolve o amarelo,
num branco petalado, em torno do miolo.
Depois é um mar gentil de flores espalhadas;
esqueça o bem-me-quer... Isso é papel de tolo!
Nilza Azzi
que vão tomando forma, esticam sua haste
e deixam ver o branco, em tímido contraste.
Passeiam joaninhas, buscam os pulgões,
numa colônia imensa, parecem milhões...
Nem mesmo água de fumo, nada há que os devaste!
É deixar que algum tempo passe e os afaste...
Passeio diariamente a olhar esses canteiros
e um dia percebo que se abrem os primeiros
botões, cuja pureza envolve o amarelo,
num branco petalado, em torno do miolo.
Depois é um mar gentil de flores espalhadas;
esqueça o bem-me-quer... Isso é papel de tolo!
Nilza Azzi
70
Reverso de amor
Não foi contigo que ficaram os meus rastros,
porque vivemos uma história sem fronteiras
e, sem perigo de prisões, sobrou-me a glória,
mas entre os faustos do prazer me fazes falta.
Chega de assalto esta saudade e me convence,
de que retalhos de emoção deitam-se fora,
para não termos despertada na memória,
a dor profunda pelas nossas despedidas!
Se em meus guardados eu conservo os teus papéis
e remexendo uma gaveta eu encontrei,
pelo contrário, uma lembrança que deixaste,
em nossas vidas o reverso aconteceu.
Ao nada foi-se a impressão que em ti deixei,
porque hoje habitas qualquer mundo indecifrável.
E quanto a mim, não tive a sorte que sonhei,
pois da matéria desses sonhos incorretos,
componho as frases que ficaram por dizer
e se palpita o inviolável coração,
não saberia se razão há para tanto.
Não sem espanto, nos teus braços eu deixei
a expressão mais verdadeira do que sou
e agora vou, nesse meu passo sem sentido,
mais uma vez guardar retalhos coloridos.
Nilza Azzi
83
Rua
Num caminho diferente
Passeiam gentes e sonhos
Estes são muito concretos
Aqueles totalmente aéreos
Ninguém encontra conversa
A rua é vasta e desocupada
E no fim é tudo igual
Nilza Azzi
72
Modulações
Houve um dia, nas brumas que se foram
em que acreditei no que compunha
num sonho destemido
a desfilar palavras cruas
portando uma bandeira
Nesse passado estranho havia a forma
num bastar-se, num ser talvez completo
algum sinal de uma entidade confiável
um momento em que as juras
deveriam jamais ser enunciadas.
Esse estereótipo de fundo tão complexo
nunca dirá do que me vai por dentro
ou de tuas confusões inevitáveis
das dores do percurso, a linha vã
sem fim e sem propósito palpável
Na lágrima perdida o ar escuta
apenas o soluço, o vago balbuciar
não há mais no que crer
nem mesmo o signo
é digno...
Nilza Azzi
em que acreditei no que compunha
num sonho destemido
a desfilar palavras cruas
portando uma bandeira
Nesse passado estranho havia a forma
num bastar-se, num ser talvez completo
algum sinal de uma entidade confiável
um momento em que as juras
deveriam jamais ser enunciadas.
Esse estereótipo de fundo tão complexo
nunca dirá do que me vai por dentro
ou de tuas confusões inevitáveis
das dores do percurso, a linha vã
sem fim e sem propósito palpável
Na lágrima perdida o ar escuta
apenas o soluço, o vago balbuciar
não há mais no que crer
nem mesmo o signo
é digno...
Nilza Azzi
80
Fonte
o meu desejo por você vem das águas primordiais,
porque lá, um dia, estivemos em comunhão,
partilhamos a graça de um só coração
e flutuamos, em êxtase, qual feto
que desconhece em seu destino
uma separação!
o meu desejo por você
vem do barro de que fomos feitos
ao emergir da águas para os céus,
onde o ar suavemente nos secou
e o fogo nos forneceu impulso,
para que pudéssemos carregar
cada qual, o nosso próprio Ser,
insuspeita ainda a dor da Queda,
a saudade de nossa inocência...
então, quando irrompe,
meu desejo brota, poro por poro,
em gotas d’água cintilantes!
eu me molho por você,
como um cântaro saturado,
que não pode mais conter
a umidade transbordante.
em meu desejo por você,
eu, líquida, sou fonte única
a matar a sua sede;
sou lembrança das origens,
na memória resguardada.
sereia de canto mágico
aguardo em águas amenas,
mas a intenção, não duvide,
é levá-lo a nadar comigo,
eterno mar abissal!
Nilza Azzi
porque lá, um dia, estivemos em comunhão,
partilhamos a graça de um só coração
e flutuamos, em êxtase, qual feto
que desconhece em seu destino
uma separação!
o meu desejo por você
vem do barro de que fomos feitos
ao emergir da águas para os céus,
onde o ar suavemente nos secou
e o fogo nos forneceu impulso,
para que pudéssemos carregar
cada qual, o nosso próprio Ser,
insuspeita ainda a dor da Queda,
a saudade de nossa inocência...
então, quando irrompe,
meu desejo brota, poro por poro,
em gotas d’água cintilantes!
eu me molho por você,
como um cântaro saturado,
que não pode mais conter
a umidade transbordante.
em meu desejo por você,
eu, líquida, sou fonte única
a matar a sua sede;
sou lembrança das origens,
na memória resguardada.
sereia de canto mágico
aguardo em águas amenas,
mas a intenção, não duvide,
é levá-lo a nadar comigo,
eterno mar abissal!
Nilza Azzi
78
Luar do sertão
O luar do sertão deixa bem claro
que a cidade é um mundo muito escuro
e a verdade do fato, lhe asseguro,
põe certeza na frase que declaro.
No longínquo sertão, o ar é puro;
na cidade, a pureza é algo raro...
Lá na mata, o animal usa seu faro,
mas não tem garantias de futuro.
Mergulhados vivemos no elemento,
– entre as fases que o globo atravessa –
nos diversos problemas desta esfera.
No sertão, o processo se acelera,
os sintomas aumentam bem depressa,
e o luar vive estranho, macilento.
Nilza Azzi
que a cidade é um mundo muito escuro
e a verdade do fato, lhe asseguro,
põe certeza na frase que declaro.
No longínquo sertão, o ar é puro;
na cidade, a pureza é algo raro...
Lá na mata, o animal usa seu faro,
mas não tem garantias de futuro.
Mergulhados vivemos no elemento,
– entre as fases que o globo atravessa –
nos diversos problemas desta esfera.
No sertão, o processo se acelera,
os sintomas aumentam bem depressa,
e o luar vive estranho, macilento.
Nilza Azzi
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Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!