Emoção
Inventei a paixão quando cheguei ali,
na janela da alcova. A copa, o cambuci,
as flores sensuais, o ambiente de sonho.
Um pedaço de céu que a cortina mostrava,
a sagrada impressão dos amores perpétuos
e meu corpo fremente a palpitar por ti.
As loucuras que fiz... Depois horas mansas,
o tempo de fruir do teu abraço quieto.
Na lembrança ficou, aquela flor sedosa
e a luz do teu olhar, meu doce colibri.
Nilza Azzi
#ghazel
Calma
No espelho do lago brilha o luar;
a brisa é suave, o som saudosista.
as flores do Ipê parecem dançar:
um breve amarelo surpreende a vista.
A crista da serra escura refaz
fugaz ligação ao alto e conquista
a calma azulada, o céu em que jaz.
Um bosque à direita mostra a silhueta
e a estrela pequena refulge atrás;
espia a paisagem: − É Vênus, planeta!
Longe, a miragem de um cume ao final
coroa as encostas, úmidas, pretas,
a noite é um fato estranho, irreal!
O orvalho recobre o capim vergado,
ao longe, o barqueiro dirige a nau.
Desvio o olhar, contemplo outro lado.
Esconde a planície um manto sem fim
que de pirilampos vai constelado.
Ares rescendem a cravo e jasmim,
a alma percebe o quanto é pequena!
Não guardo memória, mas sei que assim
passo a integrar o delírio da cena.
Jamais vou saber o que foi que eu fiz,
mas estou aqui e bem vale a pena
ainda que falte base ou raiz...
Nilza Azzi
#terza rima
Melancolia
Bruxuleante, percebo a luz de um sonho
a suplantar a dor e o mais medonho
temor... Porque partir dói como espinho
que fere sem aviso, é um mal mesquinho,
é perda bem maior do que suponho.
Inútil conservar uma esperança,
de forças para tanto, não disponho...
Mergulho num viver casual, tristonho,
a ausência de poesia isso afiança.
Nos rumos da fatal melancolia,
a voz da solidão não denuncia
nenhuma das palavras. Já sem eco
o canto das manhãs, pois não componho
poemas sem paixão, apenas peco,
vagando neste ritmo enfadonho,
Bruxuleante, percebo a luz de um sonho.
Nilza Azzi
Modulações
Houve um dia, nas brumas que se foram
em que acreditei no que compunha
num sonho destemido
a desfilar palavras cruas
portando uma bandeira
Nesse passado estranho havia a forma
num bastar-se, num ser talvez completo
algum sinal de uma entidade confiável
um momento em que as juras
deveriam jamais ser enunciadas.
Esse estereótipo de fundo tão complexo
nunca dirá do que me vai por dentro
ou de tuas confusões inevitáveis
das dores do percurso, a linha vã
sem fim e sem propósito palpável
Na lágrima perdida o ar escuta
apenas o soluço, o vago balbuciar
não há mais no que crer
nem mesmo o signo
é digno...
Nilza Azzi
Sangria
Dentre essas formas mortais, restos que eu vejo,
estranha luz que se apaga e não retorna,
como a tinta descascada de azulejo
nos mostra uma tela insípida e sem forma,
as tristezas, que suporto, e não confesso,
têm resíduos poderosos, resistentes,
pois no fundo de minh’alma, no recesso,
é impossível de se achar, mesmo com lentes,
alguma causa real que as justifique.
Se as mantenho ali contidas por um dique,
muitas vezes não parece que consigo...
Da precária segurança eu sinto medo;
sempre há fendas mal vedadas, um perigo.
Então choro – essa sangria eu me concedo.
Nilza Azzi
Desculpa
Amar-te é como ser feliz,
esquecer o peso do fardo,
é quase acreditar ser bom,
o amor, se existe; o amor, se há,
o amor inventado por mim,
ilusão fatal do caminho,
amar-te é quase algo real,
espécie de convencimento,
coisa de poeta sem causa,
sem motivo ou razão de ser
− evasivas do acontecer.
Nilza Azzi
#retranca
Fonte
o meu desejo por você vem das águas primordiais,
porque lá, um dia, estivemos em comunhão,
partilhamos a graça de um só coração
e flutuamos, em êxtase, qual feto
que desconhece em seu destino
uma separação!
o meu desejo por você
vem do barro de que fomos feitos
ao emergir da águas para os céus,
onde o ar suavemente nos secou
e o fogo nos forneceu impulso,
para que pudéssemos carregar
cada qual, o nosso próprio Ser,
insuspeita ainda a dor da Queda,
a saudade de nossa inocência...
então, quando irrompe,
meu desejo brota, poro por poro,
em gotas d’água cintilantes!
eu me molho por você,
como um cântaro saturado,
que não pode mais conter
a umidade transbordante.
em meu desejo por você,
eu, líquida, sou fonte única
a matar a sua sede;
sou lembrança das origens,
na memória resguardada.
sereia de canto mágico
aguardo em águas amenas,
mas a intenção, não duvide,
é levá-lo a nadar comigo,
eterno mar abissal!
Nilza Azzi
Sensação
passou a pata
pousou o pássaro
voou o tigre pela savana
bebeu a água qualquer girafa
quicou o Sol sobre a montanha
terra africana, bruta, selvagem
nilza azzi
Verão
Fez xixi aqui, mijou ali, marcou lá adiante,
o cãozinho atravessou a praça
indiferente ao sol...
Balançava a cauda erguida,
orgulho de macho,
ao sumir do outro lado
na direção do bar do Sei lá... (argh!)
Nilza Azzi
Gente esperta
Numa cidade pequena,
nalgum interior qualquer,
um grupo, sem qualquer pena,
daqueles que ninguém quer,
por certo, se divertia
às custas de um biscateiro,
homem de pouca valia,
que esmolava o dia inteiro...
Era pouca a inteligência,
daquele pobre coitado
e, com diária freqüência,
ao bar ele era chamado.
Já era fato certeiro
a oferta que lhe faziam;
lhe ofereciam dinheiro,
mas uma escolha pediam.
Duas moedas por vez,
lhe eram oferecidas.
A escolha que sempre fez
pois não eram parecidas,
(tinha a grande pouca monta
e a pequena mais valia),
mas para ele o que conta?
Pelo tamanho escolhia.
A maior valia menos,
mas ele pegava aquela
e todos riam, serenos,
já sabendo da mazela.
Mas um dia um camarada
chamou-o e perguntou:
– Você nunca notou nada,
na moeda que pegou?
Você nunca percebeu
que seu valor é menor?
– Sei sim, ele respondeu,
pondo um olhar ao redor;
muito menos ela vale,
cinco vezes na verdade,
mas a menos que me cale
e esqueça a minha vontade
de escolher a mais valiosa,
acaba-se a brincadeira
a turma fica furiosa...
Escolho então de primeira
a que vale menos, sim,
pois ao menos, diariamente,
eles entregam pra mim
uma moeda, um presente.
Que se pode concluir
dessa história tão comum?
Não se pode deduzir
e à toa fazer zum-zum,
que é tolo quem mais parece.
Nem sempre será tão certo
alguém pensar que conhece;
o sujeito era é esperto...
Quanta vantagem tiravam
do tolo? Faça um juízo!
Nenhuma, porém se achavam,
por certo donos de siso.
Alem disso, interessante,
eis um fato a se notar,
quem quiser maior montante,
pode sem nada ficar.
Outra coisa pra pensar
para refletir bastante:
podemos ignorar
o que pensa o semelhante
sobre nós e estarmos bem.
Ainda que outros não façam
o juízo que convém,
opiniões não desgraçam;
mais importa é o que nós somos.
Pode ser que alguém capaz
não demonstre, não supomos,
quem sabe até se lhe apraz
parecer ignorante
diante de outro bem tolo,
que faz pose, é arrogante,
porém nulo, sem miolo...
Nilza Azzi #cordel
(Baseado em texto de Arnaldo Jabor: “Pessoas Inteligentes”.)