O Mistério do nada
extraí, do nada, o menos um
um zero e uma fração do infinito
que é nada, sendo tudo em dimensões
vazias, exteriores, estrangeiras
fiz poesia do nada misterioso
do abismo dos espaços estelares
das formas sem limites ou fronteiras
extraí do nada irrevelado
o sumo do sagrado e do profano
de mundos silenciosos, isolados
que me dão sede de beijar a tua boca
nilza azzi
Nostalgia
Perdi meu amor, é verdade,
num trem que há muito partiu.
Comigo resta a saudade
da aventura que vivemos,
dos banhos de cachoeira,
dos passeios pela praia,
da conversa sem sentido,
naquele banco da praça...
Lá foi meu amor num trem
que partiu há muito tempo
e meus olhos já cansaram
de perscrutar o vazio,
aquela curva do rio
que hoje lembra o nosso adeus.
Nilza Azzi
lembranças
quando me apaixonei
o mundo apagou-se ao meu redor
e só ganhava cores quando estavas por perto
quando me apaixonei
as palavras perderam o sentido
e a única língua importante era a que falavas
em sonhos te envolvi
cada cuidado, cada escolha
tudo que fazia era pela vontade de ser bela aos teus olhos
em desejos me abismei
em descobrir mistérios me envolvi
ao querer mergulhar nos teus olhos negros memoráveis
as horas só valiam partilhadas
o sentido e a razão eram-me nada
e tua camisa azul entreaberta me fazia sonhar com teus mamilos
os sonhos só me valiam por tua voz
quando falavas era o canto enternecido
e as ideias semelhantes sobre a vida era tudo que importava
quando me apaixonei
tua presença ao meu lado era dádiva
eras o homem mais completo que eu jamais conhecera
quando me apaixonei
seria capaz de desfazer-me de mim mesma
para que o mundo fosse a liberdade que entendias
...e soube o que era a dor
a certeza da duração impossível
as feridas que trazíamos em nossas almas tristes
nilza azzi
Velha toada
As flores que vi na estrada
toldaram meus pensamentos,
não deixaram sobrar nada
atrás dos meus passos lentos.
Na praia vivo do vento
que sopra vindo do mar;
em terra, mas que tormento,
jamais paro de pensar.
Entre flores, ventos, ondas,
desisto de procurar;
não acho quem me responda
quantos peixes tem o mar.
Meu amor, na maré cheia,
catei conchas, persegui
caranguejos pela areia,
mas não te encontrei ali.
Foi nos ares da montanha
que encontrei alguma paz;
o silêncio me acompanha:
pensar, já não penso mais.
Nilza Azzi
Reverso de amor
Não foi contigo que ficaram os meus rastros,
porque vivemos uma história sem fronteiras
e, sem perigo de prisões, sobrou-me a glória,
mas entre os faustos do prazer me fazes falta.
Chega de assalto esta saudade e me convence,
de que retalhos de emoção deitam-se fora,
para não termos despertada na memória,
a dor profunda pelas nossas despedidas!
Se em meus guardados eu conservo os teus papéis
e remexendo uma gaveta eu encontrei,
pelo contrário, uma lembrança que deixaste,
em nossas vidas o reverso aconteceu.
Ao nada foi-se a impressão que em ti deixei,
porque hoje habitas qualquer mundo indecifrável.
E quanto a mim, não tive a sorte que sonhei,
pois da matéria desses sonhos incorretos,
componho as frases que ficaram por dizer
e se palpita o inviolável coração,
não saberia se razão há para tanto.
Não sem espanto, nos teus braços eu deixei
a expressão mais verdadeira do que sou
e agora vou, nesse meu passo sem sentido,
mais uma vez guardar retalhos coloridos.
Nilza Azzi
Ondas
A onda que afoga meu ser em tristeza,
por nada se explica e em nada começa.
Engole meus sonhos, tranquila e sem pressa,
e afunda no abismo, minh’alma indefesa.
É um mundo perdido que a dor atravessa,
e nele não sobra nem luz, nem beleza.
Somente a saudade é que ali vive presa
a quando esta vida era sempre promessa.
Mas dizem que o mar, devolvendo às areias,
qualquer corpo estranho, em marés, quando cheias,
promove a limpeza das águas... Decerto,
mais limpa é a praia, em lugar mais deserto,
e as ondas que vêm e que vão, sobretudo,
não podem roubar-me a coragem... E eu mudo!
Nilza Azzi
Safra antiga
Do seio de Deméter a fartura
depende da semente e cada grão
brotado é uma seara já madura,
oferta aos ceifadores que virão.
Perséfone acompanha seu marido
e desce às profundezas... Chora a terra!
O inverno deixa o mundo comprimido
e um branco vasto e puro se descerra.
Porém, na primavera, ela retorna
ao lar da deusa Ceres, linda e pura.
Florescem campos, vales, e a bigorna
trabalha admirável armadura.
A força produtiva, o alento pródigo,
suspenso no recesso, ausente a filha,
Deméter, ressarcida, entrega o código
e assim a safra d’ouro ao sol rebrilha.
Nilza Azzi
Madrigal das margaridas
No verde dos canteiros, surgem os botões
que vão tomando forma, esticam sua haste
e deixam ver o branco, em tímido contraste.
Passeiam joaninhas, buscam os pulgões,
numa colônia imensa, parecem milhões...
Nem mesmo água de fumo, nada há que os devaste!
É deixar que algum tempo passe e os afaste...
Passeio diariamente a olhar esses canteiros
e um dia percebo que se abrem os primeiros
botões, cuja pureza envolve o amarelo,
num branco petalado, em torno do miolo.
Depois é um mar gentil de flores espalhadas;
esqueça o bem-me-quer... Isso é papel de tolo!
Nilza Azzi
Primavera ardente
A tarde estava quente e seca
o ar pesava sobre a Terra,
havia um coração ferido,
nos termos qua a razão alerta,
as nuvens combinavam cinzas
com esta dor que existe em mim,
os sorrisos não afloravam,
o olhar mantinha-se triste,
morava o horizonte distante;
na atmosfera tudo para;
logo a tempestade dispara.
Nilza Azzi
#retranca
Rua
Num caminho diferente
Passeiam gentes e sonhos
Estes são muito concretos
Aqueles totalmente aéreos
Ninguém encontra conversa
A rua é vasta e desocupada
E no fim é tudo igual
Nilza Azzi