Lista de Poemas
Desfalando
um gato na lua
uma sombra na rua
um palhaço que atua
e a goiaba ainda crua
uma bala de festa
um mosquito na testa
um sagui na floresta
isso é só o que me resta
Nilza Azzi
35
lembranças
quando me apaixonei
o mundo apagou-se ao meu redor
e só ganhava cores quando estavas por perto
quando me apaixonei
as palavras perderam o sentido
e a única língua importante era a que falavas
em sonhos te envolvi
cada cuidado, cada escolha
tudo que fazia era pela vontade de ser bela aos teus olhos
em desejos me abismei
em descobrir mistérios me envolvi
ao querer mergulhar nos teus olhos negros memoráveis
as horas só valiam partilhadas
o sentido e a razão eram-me nada
e tua camisa azul entreaberta me fazia sonhar com teus mamilos
os sonhos só me valiam por tua voz
quando falavas era o canto enternecido
e as ideias semelhantes sobre a vida era tudo que importava
quando me apaixonei
tua presença ao meu lado era dádiva
eras o homem mais completo que eu jamais conhecera
quando me apaixonei
seria capaz de desfazer-me de mim mesma
para que o mundo fosse a liberdade que entendias
...e soube o que era a dor
a certeza da duração impossível
as feridas que trazíamos em nossas almas tristes
nilza azzi
28
Paisagem
a chuva agradável
fininha, constante
envolve a paisagem
na névoa dos pingos
e tudo se torna
suave e disperso
nas brumas da tarde
o dia adormece
nilza azzi
27
Sangria
Dentre essas formas mortais, restos que eu vejo,
estranha luz que se apaga e não retorna,
como a tinta descascada de azulejo
nos mostra uma tela insípida e sem forma,
as tristezas, que suporto, e não confesso,
têm resíduos poderosos, resistentes,
pois no fundo de minh’alma, no recesso,
é impossível de se achar, mesmo com lentes,
alguma causa real que as justifique.
Se as mantenho ali contidas por um dique,
muitas vezes não parece que consigo...
Da precária segurança eu sinto medo;
sempre há fendas mal vedadas, um perigo.
Então choro – essa sangria eu me concedo.
Nilza Azzi
estranha luz que se apaga e não retorna,
como a tinta descascada de azulejo
nos mostra uma tela insípida e sem forma,
as tristezas, que suporto, e não confesso,
têm resíduos poderosos, resistentes,
pois no fundo de minh’alma, no recesso,
é impossível de se achar, mesmo com lentes,
alguma causa real que as justifique.
Se as mantenho ali contidas por um dique,
muitas vezes não parece que consigo...
Da precária segurança eu sinto medo;
sempre há fendas mal vedadas, um perigo.
Então choro – essa sangria eu me concedo.
Nilza Azzi
71
Melancolia
Bruxuleante, percebo a luz de um sonho
a suplantar a dor e o mais medonho
temor... Porque partir dói como espinho
que fere sem aviso, é um mal mesquinho,
é perda bem maior do que suponho.
Inútil conservar uma esperança,
de forças para tanto, não disponho...
Mergulho num viver casual, tristonho,
a ausência de poesia isso afiança.
Nos rumos da fatal melancolia,
a voz da solidão não denuncia
nenhuma das palavras. Já sem eco
o canto das manhãs, pois não componho
poemas sem paixão, apenas peco,
vagando neste ritmo enfadonho,
Bruxuleante, percebo a luz de um sonho.
Nilza Azzi
a suplantar a dor e o mais medonho
temor... Porque partir dói como espinho
que fere sem aviso, é um mal mesquinho,
é perda bem maior do que suponho.
Inútil conservar uma esperança,
de forças para tanto, não disponho...
Mergulho num viver casual, tristonho,
a ausência de poesia isso afiança.
Nos rumos da fatal melancolia,
a voz da solidão não denuncia
nenhuma das palavras. Já sem eco
o canto das manhãs, pois não componho
poemas sem paixão, apenas peco,
vagando neste ritmo enfadonho,
Bruxuleante, percebo a luz de um sonho.
Nilza Azzi
90
Sensação
passou a pata
pousou o pássaro
voou o tigre pela savana
bebeu a água qualquer girafa
quicou o Sol sobre a montanha
terra africana, bruta, selvagem
nilza azzi
pousou o pássaro
voou o tigre pela savana
bebeu a água qualquer girafa
quicou o Sol sobre a montanha
terra africana, bruta, selvagem
nilza azzi
85
Calma
No espelho do lago brilha o luar;
a brisa é suave, o som saudosista.
as flores do Ipê parecem dançar:
um breve amarelo surpreende a vista.
A crista da serra escura refaz
fugaz ligação ao alto e conquista
a calma azulada, o céu em que jaz.
Um bosque à direita mostra a silhueta
e a estrela pequena refulge atrás;
espia a paisagem: − É Vênus, planeta!
Longe, a miragem de um cume ao final
coroa as encostas, úmidas, pretas,
a noite é um fato estranho, irreal!
O orvalho recobre o capim vergado,
ao longe, o barqueiro dirige a nau.
Desvio o olhar, contemplo outro lado.
Esconde a planície um manto sem fim
que de pirilampos vai constelado.
Ares rescendem a cravo e jasmim,
a alma percebe o quanto é pequena!
Não guardo memória, mas sei que assim
passo a integrar o delírio da cena.
Jamais vou saber o que foi que eu fiz,
mas estou aqui e bem vale a pena
ainda que falte base ou raiz...
Nilza Azzi
#terza rima
a brisa é suave, o som saudosista.
as flores do Ipê parecem dançar:
um breve amarelo surpreende a vista.
A crista da serra escura refaz
fugaz ligação ao alto e conquista
a calma azulada, o céu em que jaz.
Um bosque à direita mostra a silhueta
e a estrela pequena refulge atrás;
espia a paisagem: − É Vênus, planeta!
Longe, a miragem de um cume ao final
coroa as encostas, úmidas, pretas,
a noite é um fato estranho, irreal!
O orvalho recobre o capim vergado,
ao longe, o barqueiro dirige a nau.
Desvio o olhar, contemplo outro lado.
Esconde a planície um manto sem fim
que de pirilampos vai constelado.
Ares rescendem a cravo e jasmim,
a alma percebe o quanto é pequena!
Não guardo memória, mas sei que assim
passo a integrar o delírio da cena.
Jamais vou saber o que foi que eu fiz,
mas estou aqui e bem vale a pena
ainda que falte base ou raiz...
Nilza Azzi
#terza rima
111
Desculpa
Amar-te é como ser feliz,
esquecer o peso do fardo,
é quase acreditar ser bom,
o amor, se existe; o amor, se há,
o amor inventado por mim,
ilusão fatal do caminho,
amar-te é quase algo real,
espécie de convencimento,
coisa de poeta sem causa,
sem motivo ou razão de ser
− evasivas do acontecer.
Nilza Azzi
#retranca
68
Ondas
A onda que afoga meu ser em tristeza,
por nada se explica e em nada começa.
Engole meus sonhos, tranquila e sem pressa,
e afunda no abismo, minh’alma indefesa.
É um mundo perdido que a dor atravessa,
e nele não sobra nem luz, nem beleza.
Somente a saudade é que ali vive presa
a quando esta vida era sempre promessa.
Mas dizem que o mar, devolvendo às areias,
qualquer corpo estranho, em marés, quando cheias,
promove a limpeza das águas... Decerto,
mais limpa é a praia, em lugar mais deserto,
e as ondas que vêm e que vão, sobretudo,
não podem roubar-me a coragem... E eu mudo!
Nilza Azzi
por nada se explica e em nada começa.
Engole meus sonhos, tranquila e sem pressa,
e afunda no abismo, minh’alma indefesa.
É um mundo perdido que a dor atravessa,
e nele não sobra nem luz, nem beleza.
Somente a saudade é que ali vive presa
a quando esta vida era sempre promessa.
Mas dizem que o mar, devolvendo às areias,
qualquer corpo estranho, em marés, quando cheias,
promove a limpeza das águas... Decerto,
mais limpa é a praia, em lugar mais deserto,
e as ondas que vêm e que vão, sobretudo,
não podem roubar-me a coragem... E eu mudo!
Nilza Azzi
87
Primavera ardente
A tarde estava quente e seca
o ar pesava sobre a Terra,
havia um coração ferido,
nos termos qua a razão alerta,
as nuvens combinavam cinzas
com esta dor que existe em mim,
os sorrisos não afloravam,
o olhar mantinha-se triste,
morava o horizonte distante;
na atmosfera tudo para;
logo a tempestade dispara.
Nilza Azzi
#retranca
88
Comentários (4)
Iniciar sessão
para publicar um comentário.
Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!