A força de uma estrela
"A noite acendeu as estrelas porque
tinha medo da própria escuridão".
Mário Quintana
Um dia, o céu abriu o seu baú de corese dele se evadiu um astro, inda pequeno,que percorreu o espaço em manto de sereno,banhado pelo amor das bênçãos superiorese veio a aumentar a luz do lar terreno...De estirpe varonil, por graça dos Senhores,cresceu com galhardia e adquiriu valores,fulgiu com sua estrela e construiu seu reino.Fadado a liderar, correto em seu papel,enfrenta sem temor a sua própria luta,acata esse poder, inato e necessário,e sabe ser amigo, esplêndido e fiel.Que a luz do coração cintile resoluta,desejo com carinho, em seu aniversário!Nilza Azzi
Atrás do vento
Agosto já vai longe e eu cansei de esperar...
Enquanto setembro com jeito e com graça,
desdobra-se em flores por tudo que passa
e o vento carrega os perfumes, e o ar
recende as fragrâncias sutis, entrelaça,
juntando buquês, num só e mesmo lugar,
carrego comigo a missão de juntar
as flores diversas que encontro na praça.
Nilza Azzi
Esquecimento
Quis fazer uma quadra perfeita
ancorada nas regras reais.
Quando o Sol no horizonte se deita
os teus braços me trazem a paz.
Quis fazer, mas perdi a receita,
não sei mais como quadra se faz
– se depende das linhas estreitas
ou da pausa que encerra os finais.
Sem receita, meu verso capenga
e não sabe por onde caminha,
vai perdido, banal ladainha.
Este verso que agora definha,
acabou por virar lenga-lenga,
abatido, uma peça molenga.
Nilza Azzi
A pira do amor
Tomou a si manter acesa a chama,
velar o Amor, ferir a velha norma,
ao transpassar a margem soberana
e transgredir as regras tolas, mornas.
A solidão quer luz e tece o drama,
na pira acesa, astuta plataforma!
A confissão de eterno nos engana
e o que partiu, inteiro não retorna.
Assim, Cupido tem nas suas flechas
a ponta ardente, que nos fere a carne
e sempre acerta o alvo que elegeu.
Em meu destino, sempre que as desfecha,
atinge o alvo (não posso salvar-me!)
e acende em mim o amor que é todo seu.
Nilza Azzi
Fina estampa
Foi a mentira seu estandarte,
mas é a verdade o que o incomoda.
Quando o egoísmo entra na roda,
falha o juízo sempre e dessarte,
se fabricar mitos é moda,
parece fácil, quase uma arte.
Só não percebe tal disparate,
algum otário que, nessa, roda.
De fato a vida imita a novela
e chega-se a crer no mal impune
– da personagem, mal falo dela.
O bom sujeito parece imune,
mas tem perfil de um tagarela,
sério sinal de seu mau costume.
Nilza Azzi
O amanhã
Como dizia Scarlet na tarde,
terra nas mãos e lágrimas na face,
vem novo dia, enquanto nos céus arde,
de novo, o sol, e nada há que não passe.
Nilza Azzi
Paisagem
a chuva agradável
fininha, constante
envolve a paisagem
na névoa dos pingos
e tudo se torna
suave e disperso
nas brumas da tarde
o dia adormece
nilza azzi
Desfalando
um gato na lua
uma sombra na rua
um palhaço que atua
e a goiaba ainda crua
uma bala de festa
um mosquito na testa
um sagui na floresta
isso é só o que me resta
Nilza Azzi
Passado
Debrucei-me sobre as minhas incertezas
todas presas por um fio, meio suspensas
como contas de um colar, as minhas crenças
a vacilar labaredas mal acesas...
Depois me ergui, enfrentando indiferenças,
sem entender bem o vão das sutilezas...
Guardei num susto as palavras todas presas
e desdenhei de aventuras mais intensas.
Enfim parti à procura de outros ares,
para enfrentar a pressão que cresce farta,
além da dor, sem sinais particulares...
Atrás de mim não imprimo qualquer marca,
jamais espero que um dia tu me ampares,
nessa esperança, minh’alma não embarca.
Nilza Azzi
Transparências
A libélula voava tonta à beira do lago,
inocente, sem suspeitar de qualquer perigo.
O ar já continha em si um peso vago
e a água refletia apurado brilho.
Na calma da campina, em meio à floresta,
os insetos noturnos, um mundo à parte...
Às margens do largo rio era manifesta
a justa da divisão do que se reparte.
Havia ali um quê de tempo suspenso
e as palmas contra o azul mal se balouçavam...
A lua seria cheia, a maré sem vento
e havia o homem perfeito que me amava.
Mas tempos são pouco firmes e mudam sempre,
transformam em poucas horas a paisagem.
O que soprava no alto, ora sopra rente,
e aos saltos, a forma elástica estica a imagem.
É certo que a solidão pode ser benquista,
se a forma de se entender conduzir ao nada,
se a luta pelas certezas que se conquista
transpassar a iridescência da alma alada.
Nilza Azzi