Fada
Ao ouvir essa voz, gentil, cortês,
entre mil guardarei no mais secreto,
no local onde a luz então se fez
e, ao cegar-me, deixou-me sem afeto.
Essa voz murmurou, dizendo assim:
–Se é um falso brilhante, quem repara?
Nessa dança, que apenas cabe a mim,
no “bandeide” nem pense, ó minha cara
a criança, ao crescer, terá seus calos...
Destruí meus fantasmas, sobra então,
um vazio, onde mora apenas nada.
Se há coragem, então venha tomá-los,
os espaços e esqueça o que dirão.
Traga junto uma estrela, minha fada.
Nilza Azzi
Abelha
Qual abelha da flor, querer-te-ia
doce, meu doce amor, de tal doçura,
que o mel que eu fabricasse fosse pura
delícia ao paladar, fosse iguaria,
inesgotável fonte de ternura,
e assim, chegar-me a ti, dia após dia,
supondo que esse amor recriaria
a luz que minha alma inda procura...
Então a cor dourada do meu mundo,
em si traria um brilho esplandecente
─ a força criadora de uma aurora.
Mas isso é ilusão, sonho infecundo,
é voz de um sentimento que não mente,
mas baila ─ diz adeus ─ e vai embora!
Nilza Azzi
Atrás do vento
Agosto já vai longe e eu cansei de esperar...
Enquanto setembro com jeito e com graça,
desdobra-se em flores por tudo que passa
e o vento carrega os perfumes, e o ar
recende as fragrâncias sutis, entrelaça,
juntando buquês, num só e mesmo lugar,
carrego comigo a missão de juntar
as flores diversas que encontro na praça.
Nilza Azzi
Passado
Debrucei-me sobre as minhas incertezas
todas presas por um fio, meio suspensas
como contas de um colar, as minhas crenças
a vacilar labaredas mal acesas...
Depois me ergui, enfrentando indiferenças,
sem entender bem o vão das sutilezas...
Guardei num susto as palavras todas presas
e desdenhei de aventuras mais intensas.
Enfim parti à procura de outros ares,
para enfrentar a pressão que cresce farta,
além da dor, sem sinais particulares...
Atrás de mim não imprimo qualquer marca,
jamais espero que um dia tu me ampares,
nessa esperança, minh’alma não embarca.
Nilza Azzi
O amanhã
Como dizia Scarlet na tarde,
terra nas mãos e lágrimas na face,
vem novo dia, enquanto nos céus arde,
de novo, o sol, e nada há que não passe.
Nilza Azzi
Esquecimento
Quis fazer uma quadra perfeita
ancorada nas regras reais.
Quando o Sol no horizonte se deita
os teus braços me trazem a paz.
Quis fazer, mas perdi a receita,
não sei mais como quadra se faz
– se depende das linhas estreitas
ou da pausa que encerra os finais.
Sem receita, meu verso capenga
e não sabe por onde caminha,
vai perdido, banal ladainha.
Este verso que agora definha,
acabou por virar lenga-lenga,
abatido, uma peça molenga.
Nilza Azzi
Sensação
passou a pata
pousou o pássaro
voou o tigre pela savana
bebeu a água qualquer girafa
quicou o Sol sobre a montanha
terra africana, bruta, selvagem
nilza azzi
O Mistério do nada
extraí, do nada, o menos um
um zero e uma fração do infinito
que é nada, sendo tudo em dimensões
vazias, exteriores, estrangeiras
fiz poesia do nada misterioso
do abismo dos espaços estelares
das formas sem limites ou fronteiras
extraí do nada irrevelado
o sumo do sagrado e do profano
de mundos silenciosos, isolados
que me dão sede de beijar a tua boca
nilza azzi
Transparências
A libélula voava tonta à beira do lago,
inocente, sem suspeitar de qualquer perigo.
O ar já continha em si um peso vago
e a água refletia apurado brilho.
Na calma da campina, em meio à floresta,
os insetos noturnos, um mundo à parte...
Às margens do largo rio era manifesta
a justa da divisão do que se reparte.
Havia ali um quê de tempo suspenso
e as palmas contra o azul mal se balouçavam...
A lua seria cheia, a maré sem vento
e havia o homem perfeito que me amava.
Mas tempos são pouco firmes e mudam sempre,
transformam em poucas horas a paisagem.
O que soprava no alto, ora sopra rente,
e aos saltos, a forma elástica estica a imagem.
É certo que a solidão pode ser benquista,
se a forma de se entender conduzir ao nada,
se a luta pelas certezas que se conquista
transpassar a iridescência da alma alada.
Nilza Azzi
Nostalgia
Perdi meu amor, é verdade,
num trem que há muito partiu.
Comigo resta a saudade
da aventura que vivemos,
dos banhos de cachoeira,
dos passeios pela praia,
da conversa sem sentido,
naquele banco da praça...
Lá foi meu amor num trem
que partiu há muito tempo
e meus olhos já cansaram
de perscrutar o vazio,
aquela curva do rio
que hoje lembra o nosso adeus.
Nilza Azzi