Lista de Poemas

O amanhã


Como dizia Scarlet na tarde,
terra nas mãos e lágrimas na face,
vem novo dia, enquanto nos céus arde,
de novo, o sol, e nada há que não passe.

Nilza Azzi
29

A força de uma estrela

"A noite acendeu as estrelas porque
tinha medo da própria escuridão".
Mário Quintana

Um dia, o céu abriu o seu baú de cores
e dele se evadiu um astro, inda pequeno,
que percorreu o espaço em manto de sereno,
banhado pelo amor das bênçãos superiores

e veio a aumentar a luz do lar terreno...
De estirpe varonil, por graça dos Senhores,
cresceu com galhardia e adquiriu valores,
fulgiu com sua estrela e construiu seu reino.

Fadado a liderar, correto em seu papel,
enfrenta sem temor a sua própria luta,
acata esse poder, inato e necessário,

e sabe ser amigo, esplêndido e fiel.
Que a luz do coração cintile resoluta,
desejo com carinho, em seu aniversário!

Nilza Azzi
52

A pira do amor


Tomou a si manter acesa a chama,
velar o Amor, ferir a velha norma,
ao transpassar a margem soberana
e transgredir as regras tolas, mornas.

A solidão quer luz e tece o drama,
na  pira acesa, astuta plataforma!
A confissão de eterno nos engana
e o que partiu, inteiro não retorna.

Assim, Cupido tem nas suas flechas
a ponta ardente, que nos fere a carne
e sempre acerta o alvo que elegeu.

Em meu destino, sempre que as desfecha,
atinge o alvo (não posso salvar-me!)
e acende em mim o amor que é todo seu.

Nilza Azzi

65

Esquecimento


Quis fazer uma quadra perfeita
ancorada nas regras reais.
Quando o Sol no horizonte se deita
os teus braços me trazem a  paz.

Quis fazer, mas perdi a receita,
não sei mais como quadra se faz
– se depende das linhas estreitas
ou da pausa que encerra os finais.

Sem receita, meu verso capenga
e não sabe por onde caminha,
vai perdido, banal ladainha.

Este verso que agora definha,
acabou por virar lenga-lenga,
abatido, uma peça molenga.

Nilza Azzi




 
48

Fina estampa


Foi a mentira seu estandarte,
mas é a verdade o que o incomoda.
Quando o egoísmo entra na roda,
falha o juízo sempre e dessarte,

se fabricar mitos é moda,
parece fácil, quase uma arte.
Só não percebe tal disparate,
algum otário que, nessa, roda.

De fato a vida imita a novela
e chega-se a crer no mal impune
– da personagem, mal falo dela.

O bom sujeito parece imune,
mas tem perfil de um tagarela,
sério sinal de seu mau costume.

Nilza Azzi
43

Abelha


Qual abelha da flor, querer-te-ia
doce, meu doce amor, de tal doçura,
que o mel que eu fabricasse fosse pura
delícia ao paladar, fosse iguaria,

inesgotável  fonte de ternura,
e assim, chegar-me a ti, dia após dia,
supondo que esse amor recriaria
a luz que minha alma inda procura...

Então a cor dourada do meu mundo,
em si traria um brilho esplandecente
─ a força criadora de uma aurora.

Mas isso é ilusão, sonho infecundo,
é voz de um sentimento que não mente,
mas baila ─ diz adeus  ─ e vai embora!

Nilza Azzi
37

Transparências


A libélula voava tonta à beira do lago,
inocente, sem suspeitar de qualquer perigo.
O ar já continha em si um peso vago
e a água refletia apurado brilho.
Na calma da campina, em meio à floresta,
os insetos noturnos, um mundo à parte...
Às margens do largo rio era manifesta
a justa da divisão do que se reparte.
Havia ali um quê de tempo suspenso
e as palmas contra o azul mal se balouçavam...
A lua seria cheia, a maré sem vento
e havia o homem perfeito que me amava.

Mas tempos são pouco firmes e mudam sempre,
transformam em poucas horas a paisagem.
O que soprava no alto, ora sopra rente,
e aos saltos, a forma elástica estica a imagem.
É certo que a solidão pode ser benquista,
se a forma de se entender conduzir ao nada,
se a luta pelas certezas que se conquista
transpassar a iridescência da alma alada.

Nilza Azzi
34

Nostalgia

Perdi meu amor, é verdade,
num trem que há muito partiu.
Comigo resta a saudade
da aventura que vivemos,
dos banhos de cachoeira,
dos passeios pela praia,
da conversa sem sentido,
naquele banco da praça...

Lá foi meu amor num trem
que partiu há muito tempo
e meus olhos já cansaram
de perscrutar o vazio,
aquela curva do rio
que hoje lembra o nosso adeus.

Nilza Azzi
38

Passado


Debrucei-me sobre as minhas incertezas
todas presas por um fio, meio suspensas
como contas de um colar, as minhas crenças
a vacilar labaredas mal acesas...

Depois me ergui, enfrentando indiferenças,
sem entender bem o vão das sutilezas...
Guardei num susto as palavras todas presas
e desdenhei de aventuras mais intensas.

Enfim parti à procura de outros ares,
para enfrentar a pressão que cresce farta,
além  da  dor, sem sinais particulares...

Atrás de mim não imprimo qualquer marca,
jamais espero que um dia tu me ampares,
nessa esperança, minh’alma não embarca.

Nilza Azzi
11

O Mistério do nada

extraí, do nada, o menos um
um zero e uma fração do infinito
que é nada, sendo tudo em dimensões
vazias, exteriores, estrangeiras

fiz poesia do nada misterioso
do abismo dos espaços estelares
das formas sem limites ou fronteiras

extraí do nada irrevelado
o sumo do sagrado e do profano
de mundos silenciosos, isolados
que me dão sede de beijar a tua boca

nilza azzi
44

Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!