Sobre essa...
Caí sobre esta terra, um dia desses,
da abertura que Deus deixou pra mim,
nesse azul, desse céu que não tem fim,
e busquei, desde então, meus interesses.
Este chão que me acolhe fez-me assim,
criatura que a todos entendesse,
mas não sei de outro tipo como esse
que não olha pra baixo – aéreo, enfim.
É que a velha lembrança dos azuis,
a saudade dos tempos em que fui,
para além, desse espaço, na quimera,
poeira de uma estrela – se eu pudera! –
gera em mim essa eterna nostalgia
que não cedo e por nada cederia.
Nilza Azzi
Vacilar
Talvez eu passe pelas ruas que passeias
e nem perceba algum sinal dos passos teus.
Talvez o sangue que me corre pelas veias
já não se altere quando lembro nosso adeus.
Vejo as aranhas a tecerem suas teias;
chega um inseto, distraído, ao coliseu,
e se debate, sem jamais vencer as peias.
― Ai quem me dera escapulir dos laços meus!
Se devo ao Sol que iluminou nosso caminho,
e que passeia solitário pelo céu,
essa ilusão de ter um tempo à minha frente,
é que ele mostra a realidade diferente:
Semeia em mim a crença num amor fiel
― um contrassenso ― uma falácia onde chapinho...
Nilza Azzi
Tristeza de outono
Tarde de Outono! Tristes são os ares
que ainda não choraram minha mágoa,
inchados pela dor que não deságua,
são nuvens por demais irregulares.
Contemplo o horizonte, essa miragem,
percebo o cintilar de algumas luzes.
– Na linha divisória, me seduzes!
As brumas com as luzes interagem.
A vida esvaziou-se nesse enlevo
e jaz numa quietude de si mesma.
A voz desse silêncio que em mim esma
reflete um sentimento tão primevo.
O homem quer o que há de mais escasso
– prefere a flor que nasce no penhasco.
Nilza Azzi
Revendo as açucenas
Já não semeio flores nos canteiros
de rosas, ao raiar das madrugadas;
procuro por caminhos verdadeiros
e terras com visão mais elevada.
Se a luta recrudesce nos primeiros;
os últimos verão a derrocada,
a quebra dos esforços verdadeiros
e a honra que perece, como um nada.
Nas palmas e nos lírios... quanta glória
nos campos, em que crescem espontâneos,
e o branco sem pudor dessas camélias.
Descubro que a esperança já está velha
e tenta superar os desenganos;
remonta à decisão, já peremptória.
Nilza Azzi
Sobrevida
Percorrer o campo vasto das palavras,
ter surpresas breves, sem sair da linha.
Entender as formas de expressão mais bravas,
perceber sem susto o quanto são daninhas
a indiferença e a força com que cravas,
na matéria instável feita de entrelinhas,
a forte ironia que me torna escrava
deste sofrimento, das tristezas minhas.
Esquecer que o Verbo foi antes da Luz
e temer que amar nos roube a lucidez,
mas tecer a teia além desse horizonte...
Enterrar no limbo aquilo que reduz
e comunicar ao mundo de uma vez:
− Sobrevive a voz (tão bem como era ontem).
Nilza Azzi
Vapores
A Lua derrubou-se pelas matas
e a vida, ali presente, em rebuliço,
mostrou que as criaturas, mesmo as fracas,
repetem seu papel eterno e, nisso,
em tudo, o fato é novo, embora igual...
As noites já beberam muitas luas,
mil sóis fazem do sonho algo real
– não há verdade eterna, minha ou tua.
Nas névoas pretensiosas do futuro,
nos ares deslizantes do passado,
o canto do planeta é claro-escuro;
o encanto de seu par, privilegiado.
No brilho desses raios sempre etéreos,
o bosque guarda cheiros e mistérios.
Nilza Azzi
Forrageira
Na raiz da tua ausência habita a desventura,
um espaço sucedâneo, em que a dor perfilha.
Faz-se abismo sem limite, estende-se armadilha,
negro charco onde desliza, além da terra escura.
Se nos campos do passado, andei por essa trilha,
reconheço, intermitente, a linha mais escura.
Não sabendo onde andar, busquei tua ternura,
mas, soberbo, me deixaste – a forrageira ervilha.
Com a falta que me faz a palma de um abraço,
eu preencho a composteira e grande esforço faço,
pra viver sem esse amor, ao qual me dei inteira.
É verdade que a colheita enfeita qualquer feira,
mas, daquela sementeira, herdei meu embaraço
e do pobre coração, as fibras despedaço.
Nilza Azzi
Sobre o salto
A pedra que rolava a cachoeira
e tinha logo abaixo o seu final
sabia que o perigo era real,
mas quis a sua chance derradeira.
Podia aquela queda ser fatal,
quem sabe espatifar-se na ribeira
no lodo sucumbir, ser prisioneira,
decerto esse podia ser seu mal...
Contudo, já cansara do planalto,
de ver tudo do alto, diariamente,
pairar no precipício, em sobressalto.
Sonhava ver futuro no presente
e tinha essa dureza do basalto
que cai, mas não se parte e nada sente.
Nilza Azzi
Seca
A tarde chega ao fim; uma cigarra canta.
O vento leste traz no sopro alguma ajuda,
refresca esse calor, mas quase nada muda,
em relação ao mal estanque na garganta.
Choveu a tarde inteira; a chuva foi miúda.
As folhas derrubou em quantidade – e tanta!
Uma sibipiruna inteira está desnuda,
pois vai vestir a cor dourada que ataranta.
Enquanto não vem água, as plantas, por seu lado,
como último recurso e apelo por socorro,
exibem sem pudor um luxo desvairado:
são flores a explodir o colorido em jorros
– um meio de angariar olhares e cuidados –
na calma do jardim, por tudo que percorro.
Nilza Azzi
Transformação
Um dia, eu me tornei a água que bebias
e pratiquei ser fonte, a saciar-te, pura;
em torno da nascente, apenas alegrias:
− a festa do querer é bela, enquanto dura.
Um dia, apenas um, eu fui a criatura
que, em mera repressão, negou-te o que sorvias
e, sim, a vida é má, é fato que se apura,
porque a dor preenche a luz e são vadias
as formas do prazer: − amores são volúveis...
Sofro. Não posso mais querer-te sem regresso,
fugiu a minha fé na nossa intimidade,
porém é fato, é certo, a dor intensa invade
meu ser que te deseja, em nível que não meço;
nem sempre são na água, os nossos ais, solúveis.
Nilza Azzi