Lista de Poemas

Forrageira

Na raiz da tua ausência habita a desventura,
um espaço sucedâneo, em que a dor perfilha.
Faz-se abismo sem limite, estende-se armadilha,
negro charco onde desliza, além da terra escura.

Se nos campos do passado, andei por essa trilha,
reconheço, intermitente, a linha mais escura.
Não sabendo onde andar, busquei tua ternura,
mas, soberbo, me deixaste  – a  forrageira ervilha.

Com a falta que me faz a palma de um abraço,
eu preencho a composteira e grande esforço faço,
pra viver sem esse amor, ao qual me dei inteira.

É verdade que a colheita enfeita qualquer feira,
mas, daquela sementeira, herdei meu embaraço
e do pobre coração, as fibras despedaço.

Nilza Azzi

 
42

Ela escrevia assim

Tenho as palavras à mão, 
mas não sei lidar com elas...
Sem meu estro, sou apenas 
extravagante impressão.
Num espaço sem fronteiras, 
abeira-me a solidão.
Nestes versos me desfaço; 
deixo manchas no papel,
mas meu céu é sempre baço. 
Sim, disfarço nas medidas,
em loucuras, contrassenso; 
repenso tudo outra vez.
Vou queimando as letras todas, 
em cortinas de fumaça
e ultrapassa-me a vontade 
de essa verdade esconder.
Toda terra tem seu sol; 
toda lua, a poesia,
mas meu dia, sem farol, 
é maldade sem sentido.
Corto o verbo; não olvido... 
Ah! Teimosa poesia
vai e fala mal de mim: 
– Ela escrevia assim... vazia...
(inocente desse amor) 
gastou-se, sem me esquecer.

Nilza Azzi
84

Alma devoluta

Não houve dor nenhuma
e, por que não dizer?
Houve sequer saudade...

Antes houvesse
a força da tristeza
e justificativas para a ausência
que enlouquece os dias
e rouba a qualquer céu
a espessa cor azul
e a qualquer noite
o brilho das estrelas.

Nilza Azzi

 
51

Sobrevida

Percorrer o campo vasto das palavras,
ter surpresas breves, sem sair da linha.
Entender as formas de expressão mais bravas,
perceber sem susto o quanto são daninhas

a indiferença e a força com que cravas,
na matéria instável feita de entrelinhas,
a forte ironia que me torna escrava
deste sofrimento, das tristezas minhas.

Esquecer que o Verbo foi antes da Luz
e temer que amar nos roube a lucidez,
mas tecer a teia além desse horizonte...

Enterrar no limbo aquilo que reduz
e comunicar ao mundo de uma vez:
− Sobrevive a voz (tão bem como era ontem).

Nilza Azzi
20

Seca

A tarde chega ao fim; uma cigarra canta.
O vento leste traz no sopro alguma ajuda,
refresca esse calor, mas quase nada muda,
em relação ao mal estanque na garganta.

Choveu a tarde inteira; a chuva foi miúda.
As folhas derrubou em quantidade –  e tanta! 
Uma sibipiruna inteira está desnuda,
pois vai vestir a cor dourada que ataranta.

Enquanto não vem água, as plantas, por seu lado,
como último recurso e apelo por socorro,
exibem  sem pudor um luxo desvairado:

são flores a explodir o colorido em jorros
–  um meio de angariar olhares e cuidados –
na calma do jardim, por tudo que percorro.

Nilza Azzi

42

Sal

Um dia, ela soprou ao meu ouvido
segredos, que guardara com cuidado,
de quem cura um tesouro que é sagrado
e traz em si cantares escondidos.

Parou, por algum tempo, lado a lado,
comigo, mas, depois, ah, que perigo,
largou-me só. Confesso: — Não consigo
livrar-me desse laço bem atado.

Procuro a bela dama em todo canto,
sonhando que me queira um outro tanto
e volte a estar comigo (eu bem queria!).

Porém no meu dizer, viva a poesia,
presença e atração tão natural,
que põe na minha vida o doce e o sal.

Nilza Azzi
37

Sobre tempestades

Se eu permitisse à chuva que chorava
por sobre a terra a dor do céu ferido
e percebesse haver algum sentido
na solidão – e fosse eu mais brava

e enfrentasse a fera. Se movido
por minha dor, o céu soltasse a trava
e desse a mim aquilo que negava
e descobrisse um mundo colorido...

Se dessa luz, apenas uma gota
um pouco de alegria respingasse,
sobre o tecido desta vida rota,

– que outra impressão poria sobre a face! –
E a chuva choveria mais marota,
até que a dor do céu se abrandasse...

Nilza Azzi
43

Réquiem para um amor

Que não brilhem as palmeiras nas manhãs
e nem cantem sabiás pelos pomares.
E que o ar dissipe tudo que falares,
leve longe as tentativas falsas, vãs,

de fazer-me compreender os teus pesares.
Nossas almas já viveram como irmãs
e tivemos muitas horas campeãs,
mas a vida não tem linhas regulares.

Não soubemos preservar o relevante
e um do outro esquecemos, amiúde...
Se a tristeza é nossa sina doravante,

reconheço que não fiz tudo que pude
pelo amor que cada vez vai mais distante,
por desleixos e por falta de atitude.

Nilza Azzi
26

Ribalta

Pobre a alma que vagueia sem roteiro,
sem parceiro para ser seu ombro amigo,
traz consigo a solidão mais descabida
e duvida das trapaças do destino...

Os fantasmas vislumbrados vão velozes;
não há vozes que lhe sejam familiares
e os pesares, que carrega sobre os ombros,
são assombros já sem peso, são deslizes.

Não me avise destas ruas sem saída,
nem tolhida, seja a escolha que professo,
pois o excesso de opressão deixou-me louco!

Faço pouco, mas coloco o ser completo,
no trajeto por cumprir que ainda me falta
e a ribalta exibe um drama triste e nobre.

Nilza Azzi
13

Reserva de domínio


O mar é azul e branco, transparente,
na mata, o verde brilha com vigor.
Não há agente externo a se interpor:
− A rude natureza não consente.

A ilha tem segredos a dispor,
a flora é variegada, diferente
daquela que recobre o continente:
−  A fauna ali procria sem temor.

Falésias em embates com as ondas,
as praias de uma areia branca e fina,
conchinhas delicadas e redondas...

Olhar a natureza nos ensina
a perceber em nós perpétuas rondas,
seladas pela mesma cromatina.

Nilza Azzi
25

Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!