Revelação
O que me dói mais fundo, com certeza,
no mundo da incerteza dos sentidos,
saber que a fome não faz gentileza
e torna a todos mais embrutecidos.
O que machuca a alma como um cravo
e escravo dos sentidos torna o corpo,
saber que incerto do saber que travo,
por certo deixarei o mundo, morto.
O que em vão desespera a má virtude,
um fato mais que certo, é a maldade
que atua devagar, mas tudo invade.
E nunca tenha eu cá convicções,
ao crer que em toda vida há finitude.
Que a cada decisão, decerto, eu mude.
Nilza Azzi
Ribalta
Pobre a alma que vagueia sem roteiro,
sem parceiro para ser seu ombro amigo,
traz consigo a solidão mais descabida
e duvida das trapaças do destino...
Os fantasmas vislumbrados vão velozes;
não há vozes que lhe sejam familiares
e os pesares, que carrega sobre os ombros,
são assombros já sem peso, são deslizes.
Não me avise destas ruas sem saída,
nem tolhida, seja a escolha que professo,
pois o excesso de opressão deixou-me louco!
Faço pouco, mas coloco o ser completo,
no trajeto por cumprir que ainda me falta
e a ribalta exibe um drama triste e nobre.
Nilza Azzi
Reminiscência
Pela manhã, os campos são mais belos,
a brisa é fresca e o sol ainda não arde.
O dia cresce, vai fazendo alarde
e sob o céu, a vida tece anelos.
Meio do dia! Justo para a tarde,
lá vai o tempo − faço meus castelos.
Assisto ao longe rápidos duelos;
não vejo em mim razão de ser covarde.
Boca da noite! Súbito, o poente,
a luz recolhe a sua cor dourada:
− Minha janela já contempla a Lua.
Quiçá amanhã, no leito indiferente,
venha a lembrar do quanto tu me agradas,
− entanto uma saudade se insinua.
Nilza Azzi
Selo
À tarde, quando o Outono bate à porta
e o vento sopra baixo, agita as folhas,
se vens falar de amor, a mim não tolhas,
nem faças dessa via a rua tort
na qual eu vá seguir sem ter perdão.
Onas vestes mais charmosas, ou nos mantos
que aquecem corpos... Quero a ti, então,
a fonte mais real que traz prazer
à vida interna, ao mundo azul do centro,
às formas tão intensas, quando adentro
a inércia frágil, própria a todo ser.
Mas, caro, não me beije à luz de velas,
Se o nosso amor, de fato, tu não selas...
Nilza Azzi
Vaticínio
Se pudesse, nas palavras, derrubar-me,
como o faz a alma sobre um ser humano,
transformá-las qual o Verbo feito carne,
libertá-las do tom áspero e profano,
de tal forma a dar-lhes glória, encanto e charme...
E trouxesse o intenso fogo dos arcanos,
com os anjos nos seus carros a puxar-me,
concebendo um velho anseio soberano;
se tal dom assim tivesse, eu, poetisa,
qual semente espalharia em meu espaço,
no compasso deste mundo que escurece?
Diz meu estro que, a seu ver, nada divisa,
sem receio de abalar-me o ser escasso:
– Tu que és pó ousas sonhar com tal benesse!?
Nilza Azzi
Sal
Um dia, ela soprou ao meu ouvido
segredos, que guardara com cuidado,
de quem cura um tesouro que é sagrado
e traz em si cantares escondidos.
Parou, por algum tempo, lado a lado,
comigo, mas, depois, ah, que perigo,
largou-me só. Confesso: — Não consigo
livrar-me desse laço bem atado.
Procuro a bela dama em todo canto,
sonhando que me queira um outro tanto
e volte a estar comigo (eu bem queria!).
Porém no meu dizer, viva a poesia,
presença e atração tão natural,
que põe na minha vida o doce e o sal.
Nilza Azzi
Compasso
Há um momento em que cabe ao coração
a calma que precede a descoberta,
um tempo entre dormente e meio alerta,
aquele em que se acerta a pulsação...
É fato que a razão grita que não,
pois essa nunca foi a escolha certa!
Mas lá no coração a dor aperta,
não há como escapar à tentação.
Nem sempre entendo bem esse compasso,
vacilo, entre o que devo e o que faço,
não sei meu amanhã no que dará...
Há horas em que a calma regenera,
em outras, a ferida faz-me a fera,
na jaula, a caminhar pra lá e pra cá.
Nilza Azzi
Solidão
A antiga solidão, a que me atenho
e que gosta de mim, sem compaixão,
que enruga a testa e faz franzir o cenho,
eu não a quero junto a mim, oh, não!
Por conhecer os campos donde eu venho,
tira vantagem desta condição
e o meu esforço, lúcido e ferrenho,
não dá em nada, como nunca dão
minhas desculpas, para afugentá-la.
Bem instalada, neste quarto e sala,
meu coração, pequeno e confrangido,
não deixa a mim a escolha de ser só,
porque a presença dela cria um nó
ao preencher meu mundo sem sentido.
Nilza Azzi
Retrato
Traz a gravata azul, sobre a camisa branca;
o terno, em tom escuro, é sóbrio e elegante
e pode-se entrever, na paz do seu semblante,
a força singular que o espírito alavanca.
A voz se sobressai e mostra o quanto é franca,
a sua inspiração e o grau de seu talante
voltado para o bem — um dom — e isso garante
discurso natural, que aplausos sempre arranca.
Embora a foto seja a forma irrevelada,
pois sobre o ser real, nos conta pouco ou nada,
detalhes da aparência e os trajes de um senhor,
— uma figura humana, envolta em seu mistério —
compõe em seu conjunto, um quadro sedutor,
retrato varonil, de um coração etéreo.
Nilza Azzi
Sírios
As minhas palavras são redes
e pescam as vossas mentiras.
São malhas, mas jamais as vedes
porque, à volta, o mar se revira.
As minhas palavras não ledes
pois arderam todas na pira,
― ah, se delas tivésseis sede! ―
Velho poço embalde transpira
água pura, vertida aos poucos,
entre sons sibilantes, roucos,
no silêncio de uma caverna.
Sentinelas dançam, lampírios
deixam rastros, seus brilhos sírios.
― A verdade quer ser eterna.
Nilza Azzi