Lista de Poemas

Compasso

Há um momento em que cabe ao coração
a calma que precede a descoberta,
um tempo entre dormente e meio alerta,
aquele em que se acerta a pulsação...

É fato que a razão grita que não,
pois essa nunca foi a escolha certa!
Mas lá no coração a dor aperta,
não há como escapar à tentação.

Nem sempre entendo bem esse compasso,
vacilo, entre o que devo e o que faço,
não sei meu amanhã no que dará...

Há horas em que a calma regenera,
em outras, a ferida faz-me a fera,
na jaula, a caminhar pra lá e pra cá.

Nilza Azzi

 


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Retrato

Traz a gravata azul, sobre a camisa branca;
o terno, em tom escuro, é sóbrio e elegante
e pode-se entrever, na paz do seu semblante,
a força singular que o espírito alavanca.

A voz se sobressai e mostra o quanto é franca,
a sua inspiração e o grau de seu talante
voltado para o bem — um dom — e isso garante
discurso natural, que aplausos sempre arranca.

Embora a foto seja a forma irrevelada,
pois sobre o ser real, nos conta pouco ou nada,
detalhes da aparência e os trajes de um senhor,

— uma figura humana, envolta em seu mistério —
compõe em seu conjunto, um quadro sedutor,
retrato varonil, de um coração etéreo.

Nilza Azzi
12

Solidão


A antiga solidão, a que me atenho
e que gosta de mim, sem compaixão,
que enruga a testa e faz franzir o cenho,
eu não a quero junto a mim, oh, não!

Por conhecer os campos donde eu venho,
tira vantagem desta condição
e o meu esforço, lúcido e ferrenho,
não dá em nada, como nunca dão

minhas desculpas, para afugentá-la.
Bem instalada, neste quarto e sala,
meu coração, pequeno e confrangido,

não deixa a mim a escolha de ser só,
porque a presença dela cria um nó
ao preencher meu mundo sem sentido.

Nilza Azzi
22

Sírios

As minhas palavras são redes 
e pescam as vossas mentiras. 
São malhas, mas jamais as vedes 
porque, à volta, o mar se revira. 

As minhas palavras não ledes 
pois arderam todas na pira, 
― ah, se delas tivésseis sede! ― 
Velho poço embalde transpira 

água pura, vertida aos poucos, 
entre sons sibilantes, roucos, 
no silêncio de uma caverna. 

 Sentinelas dançam, lampírios
deixam rastros, seus brilhos sírios. 
― A verdade quer ser eterna. 

Nilza Azzi
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Transformação

Um dia, eu me tornei a água que bebias
e pratiquei ser fonte, a saciar-te, pura;
em torno da nascente, apenas alegrias:
− a festa do querer é bela, enquanto dura.

Um dia, apenas um, eu fui a criatura
que, em mera repressão, negou-te o que sorvias
e, sim, a vida é má, é fato que se apura,
porque a dor preenche a luz e são vadias

as formas do prazer: − amores são volúveis...
Sofro. Não posso mais querer-te sem regresso,
fugiu a minha fé na nossa intimidade,

porém é fato, é certo, a dor intensa invade
meu ser que te deseja, em nível que não meço;
nem sempre são na água, os nossos ais, solúveis.

Nilza Azzi
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Revelação


O que me dói mais fundo, com certeza,

no mundo da incerteza dos sentidos,
saber que a fome não faz gentileza
e torna a todos mais embrutecidos.

O que machuca a alma como um cravo
e escravo dos sentidos torna o corpo,
saber que incerto do saber que travo,
por certo deixarei o mundo, morto.

O que em vão desespera a má virtude,
um fato mais que certo, é a maldade
que atua devagar, mas tudo invade.

E nunca tenha eu cá convicções,
ao crer que em toda vida há finitude.
Que a cada decisão, decerto, eu mude.

Nilza Azzi
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Reminiscência


Pela manhã, os campos são mais belos,
a brisa é fresca e o sol ainda não arde.
O dia cresce, vai fazendo alarde
e sob o céu, a vida tece anelos.

Meio do dia! Justo para a tarde,
lá vai o tempo  − faço meus castelos.
Assisto ao longe rápidos duelos;
não vejo em mim razão de ser covarde.

Boca da noite! Súbito, o poente,
a luz recolhe a sua cor dourada:
− Minha janela já contempla a Lua.

Quiçá amanhã, no leito indiferente,
venha a lembrar do quanto tu me agradas,
−  entanto uma saudade se insinua.

Nilza Azzi
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Revendo as açucenas

Já não semeio flores nos canteiros
de rosas, ao raiar das madrugadas;
procuro por caminhos verdadeiros
e terras com visão mais elevada.

Se a luta recrudesce nos primeiros;
os últimos verão a derrocada,
a quebra dos esforços verdadeiros
e a honra que perece, como um nada.

Nas palmas e nos lírios... quanta glória
nos campos, em que crescem espontâneos,
e o branco sem pudor dessas camélias.

Descubro que a esperança já está velha
e tenta superar os desenganos;
remonta à decisão, já peremptória.

Nilza Azzi
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Selo

À tarde, quando o Outono bate à porta
e o vento sopra baixo, agita as folhas,
se vens falar de amor, a mim não tolhas,
nem faças dessa via a rua tort
na qual eu vá seguir sem ter perdão.
Onas vestes mais charmosas, ou nos mantos
que aquecem corpos... Quero a ti, então,
a fonte mais real que traz prazer
à vida interna, ao mundo azul do centro,
às formas tão intensas, quando adentro
a inércia frágil, própria a todo ser.

Mas, caro, não me beije à luz de velas,
Se o nosso amor, de fato, tu não selas...

Nilza Azzi
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Sobre essa...

Caí sobre esta terra, um dia desses,
da abertura que Deus deixou pra mim,
nesse azul, desse céu que não tem fim,
e busquei, desde então, meus interesses.

Este chão que me acolhe fez-me assim,
criatura que a todos entendesse,
mas não sei de outro tipo como esse
que não olha pra baixo – aéreo, enfim.

É que a velha lembrança dos azuis,
a saudade dos tempos em que fui,
para além, desse espaço, na quimera,

poeira de uma estrela – se eu pudera! –
gera em mim essa eterna nostalgia
que não cedo e por nada cederia.

Nilza Azzi

 


 
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Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!