Crenças
Diz-se que tudo que é demais enjoa,
então, do amor eu quero ter distância,
de forma que eu me afogue nesta ânsia
e saiba amar, tão leve, qual garoa
que vem do céu e o beija suave e mansa.
Ah, quem me dera fosse sempre boa,
essa emoção, e nunca fosse breve,
como a ilusão que a tudo circunscreve.
E, se a minha alegria dura pouco,
eu, por ser pobre, peço-te uma esmola:
– Vem compreender o sentimento louco
que a alma inteira, pouco a pouco esfola,
e, assim agindo, eu não sinta, tampouco,
a indiferença que me desconsola...
Que no vazio intenso desta hora
caiba um verão que chega e vai embora.
Se, no entanto, o sol nasce para todos,
vou guardar alguns raios com cuidado,
evitar sucumbir aos vis engodos,
e manter esse amor mui bem guardado:
– A pureza de um lírio sobre o lodo,
é a vitória de um ser sobre o seu fado...
E quando um dia, o amor exigir mais,
que apenas eu perceba seus sinais.
E saiba amar, tal qual uma garoa
que cai do céu, mas desce sempre mansa.
Nilza Azzi
Espiral
Quando tudo me parece sem graça
giro em círculos de tédio transitório
mas nunca volto ao ponto de partida
vou sempre mais longe alargando as distâncias
e o centro, o eixo, sobra apenas
como breve referência.
A vida vai subindo em graus
em curvas ascendentes
a morte vai descendo na contracorrente
nada se toca nesses caminhos
que embora próximos são tão contrários.
Quando tudo me parece sem sentido
não há poesia que me satisfaça
não acho graça nessa nobre arte
as palavras são cruéis, duras e secas
o gosto da verdade é amargo e...
não existe poesia ao sul da minha mente.
Nilza Azzi
Vocabulário
A tua volta, a lua, o rio frio...
O paraíso em que vivi aéreo
era o Saara, o meu mundo vazio,
a minha aorta, em que corre o mistério.
Não foi ciúme a causa do arrepio,
ou a lembrança daquele impropério.
Velho baú – o meu olhar desvio,
pois um segredo é sempre um caso sério.
À crua luz do Sol, eu descaído,
pela baía a praia vai deserta,
uma embaúba em prata mais além...
Aos que descreem tudo é permitido
perdoo então a indiferença aberta.
− Um caapora me olha com desdém.
Nilza Azzi
Vacilar
Talvez eu passe pelas ruas que passeias
e nem perceba algum sinal dos passos teus.
Talvez o sangue que me corre pelas veias
já não se altere quando lembro nosso adeus.
Vejo as aranhas a tecerem suas teias;
chega um inseto, distraído, ao coliseu,
e se debate, sem jamais vencer as peias.
― Ai quem me dera escapulir dos laços meus!
Se devo ao Sol que iluminou nosso caminho,
e que passeia solitário pelo céu,
essa ilusão de ter um tempo à minha frente,
é que ele mostra a realidade diferente:
Semeia em mim a crença num amor fiel
― um contrassenso ― uma falácia onde chapinho...
Nilza Azzi
Vapores
A Lua derrubou-se pelas matas
e a vida, ali presente, em rebuliço,
mostrou que as criaturas, mesmo as fracas,
repetem seu papel eterno e, nisso,
em tudo, o fato é novo, embora igual...
As noites já beberam muitas luas,
mil sóis fazem do sonho algo real
– não há verdade eterna, minha ou tua.
Nas névoas pretensiosas do futuro,
nos ares deslizantes do passado,
o canto do planeta é claro-escuro;
o encanto de seu par, privilegiado.
No brilho desses raios sempre etéreos,
o bosque guarda cheiros e mistérios.
Nilza Azzi
Transformação
Um dia, eu me tornei a água que bebias
e pratiquei ser fonte, a saciar-te, pura;
em torno da nascente, apenas alegrias:
− a festa do querer é bela, enquanto dura.
Um dia, apenas um, eu fui a criatura
que, em mera repressão, negou-te o que sorvias
e, sim, a vida é má, é fato que se apura,
porque a dor preenche a luz e são vadias
as formas do prazer: − amores são volúveis...
Sofro. Não posso mais querer-te sem regresso,
fugiu a minha fé na nossa intimidade,
porém é fato, é certo, a dor intensa invade
meu ser que te deseja, em nível que não meço;
nem sempre são na água, os nossos ais, solúveis.
Nilza Azzi
Conversa com a Lua
Eu converso com a Lua,
perdida a vagar no céu.
Ela procura uma rua
e ilumina, rompe o véu
da neblina, fina ainda,
e deixa passar seus raios.
Essa visagem é linda!
Faço os primeiros ensaios
de um dueto ao luar;
a lua e eu a dançar.
A luz suave acompanha
os passos da minha dança
e a cena à frente ganha
nuances de semelhança
com um quadro surreal.
Ó Lua, só tu e eu
sabemos o que é vagar,
nessa noite sem igual.
Ó Lua, a noite escondeu
o que estive a procurar.
Nilza Azzi
Há...
Há um céu azul, além do azul
nos lúbricos caminhos da ventura
algures, nas alturas do eu perdido
do espanto e do não-ser...
Há zunidos estranhos e sem sentido
nos bosques quietos, recônditos
onde liberdade não é uma palavra
e nada pode ser chamado de loucura
lá, onde o amado planta sonhos
que florescerão no tempo certo
Há um mar profundo, além do mar
no desatino das viagens cegas
ao largo dos pesados continentes
em pacíficas e ensolaradas ilhas
de pureza e de segredos...
Há falésias afagadas pelas ondas
e murmúrios desse mar
nas entranhas dos rochedos
onde o que se guarda é poesia
na mais pura das misturas
Há um precipício, um largo precipício
na ebulição do desespero criador
e nesse centro tudo brilha e tudo morre
Nilza Azzi
Ela escrevia assim
Tenho as palavras à mão,
mas não sei lidar com elas...
Sem meu estro, sou apenas
extravagante impressão.
Num espaço sem fronteiras,
abeira-me a solidão.
Nestes versos me desfaço;
deixo manchas no papel,
mas meu céu é sempre baço.
Sim, disfarço nas medidas,
em loucuras, contrassenso;
repenso tudo outra vez.
Vou queimando as letras todas,
em cortinas de fumaça
e ultrapassa-me a vontade
de essa verdade esconder.
Toda terra tem seu sol;
toda lua, a poesia,
mas meu dia, sem farol,
é maldade sem sentido.
Corto o verbo; não olvido...
Ah! Teimosa poesia
vai e fala mal de mim:
– Ela escrevia assim... vazia...
(inocente desse amor)
gastou-se, sem me esquecer.
Nilza Azzi
Vaticínio
Se pudesse, nas palavras, derrubar-me,
como o faz a alma sobre um ser humano,
transformá-las qual o Verbo feito carne,
libertá-las do tom áspero e profano,
de tal forma a dar-lhes glória, encanto e charme...
E trouxesse o intenso fogo dos arcanos,
com os anjos nos seus carros a puxar-me,
concebendo um velho anseio soberano;
se tal dom assim tivesse, eu, poetisa,
qual semente espalharia em meu espaço,
no compasso deste mundo que escurece?
Diz meu estro que, a seu ver, nada divisa,
sem receio de abalar-me o ser escasso:
– Tu que és pó ousas sonhar com tal benesse!?
Nilza Azzi