Lista de Poemas
Crenças
Diz-se que tudo que é demais enjoa,
então, do amor eu quero ter distância,
de forma que eu me afogue nesta ânsia
e saiba amar, tão leve, qual garoa
que vem do céu e o beija suave e mansa.
Ah, quem me dera fosse sempre boa,
essa emoção, e nunca fosse breve,
como a ilusão que a tudo circunscreve.
E, se a minha alegria dura pouco,
eu, por ser pobre, peço-te uma esmola:
– Vem compreender o sentimento louco
que a alma inteira, pouco a pouco esfola,
e, assim agindo, eu não sinta, tampouco,
a indiferença que me desconsola...
Que no vazio intenso desta hora
caiba um verão que chega e vai embora.
Se, no entanto, o sol nasce para todos,
vou guardar alguns raios com cuidado,
evitar sucumbir aos vis engodos,
e manter esse amor mui bem guardado:
– A pureza de um lírio sobre o lodo,
é a vitória de um ser sobre o seu fado...
E quando um dia, o amor exigir mais,
que apenas eu perceba seus sinais.
E saiba amar, tal qual uma garoa
que cai do céu, mas desce sempre mansa.
Nilza Azzi
então, do amor eu quero ter distância,
de forma que eu me afogue nesta ânsia
e saiba amar, tão leve, qual garoa
que vem do céu e o beija suave e mansa.
Ah, quem me dera fosse sempre boa,
essa emoção, e nunca fosse breve,
como a ilusão que a tudo circunscreve.
E, se a minha alegria dura pouco,
eu, por ser pobre, peço-te uma esmola:
– Vem compreender o sentimento louco
que a alma inteira, pouco a pouco esfola,
e, assim agindo, eu não sinta, tampouco,
a indiferença que me desconsola...
Que no vazio intenso desta hora
caiba um verão que chega e vai embora.
Se, no entanto, o sol nasce para todos,
vou guardar alguns raios com cuidado,
evitar sucumbir aos vis engodos,
e manter esse amor mui bem guardado:
– A pureza de um lírio sobre o lodo,
é a vitória de um ser sobre o seu fado...
E quando um dia, o amor exigir mais,
que apenas eu perceba seus sinais.
E saiba amar, tal qual uma garoa
que cai do céu, mas desce sempre mansa.
Nilza Azzi
44
Ainda, um gato amarelo
Suzana pegou seu gato
foi pro fundo do quintal
e pensou: − Não... não faz mal
que o gato seja amarelo.
Seu pelo vale um libelo
mas eu defendo essa cor
que lembra o Sol e o Verão
e a solidão vai embora,
quando em sua companhia
passeio entre os canteiros
a olhar as margaridas.
O gato, sempre sabido,
entendia bem Suzana
e cochichou: − Desencana,
o mundo é mesmo intrigante!
Nilza Azzi
foi pro fundo do quintal
e pensou: − Não... não faz mal
que o gato seja amarelo.
Seu pelo vale um libelo
mas eu defendo essa cor
que lembra o Sol e o Verão
e a solidão vai embora,
quando em sua companhia
passeio entre os canteiros
a olhar as margaridas.
O gato, sempre sabido,
entendia bem Suzana
e cochichou: − Desencana,
o mundo é mesmo intrigante!
Nilza Azzi
38
Chuva graúda
Cai chuva grossa, como o desespero,
que rói por dentro e traz desassossego,
como o trovão que nunca vem primeiro,
que manda o raio e nos envolve em medo,
até se ouvir o estrondo verdadeiro.
É temporal que assusta tarde ou cedo;
o vento forte é sempre um exagero
que causa estrago e deixa o mundo quedo.
Quem sabe a mim a chuva, assim, revela,
na fúria estranha e louca igual a ela...
Nilza Azzi
que rói por dentro e traz desassossego,
como o trovão que nunca vem primeiro,
que manda o raio e nos envolve em medo,
até se ouvir o estrondo verdadeiro.
É temporal que assusta tarde ou cedo;
o vento forte é sempre um exagero
que causa estrago e deixa o mundo quedo.
Quem sabe a mim a chuva, assim, revela,
na fúria estranha e louca igual a ela...
Nilza Azzi
36
Chuva de beijos
Se eu fosse beijar teu rosto,
tal chuva (uma alegoria!),
te olharia e, isto posto,
por onde eu começaria?
Pela testa, lá no alto,
pela raiz dos cabelos;
não chegaria de assalto,
deslizaria em desvelos...
Sentiria a tua pele
e desfaria a tensão;
seguiria o que me impele,
como chuva de verão.
Lavaria os olhos teus
das tristezas e seria,
como o fim de algum adeus,
arco-íris e alegria...
E qual gota se eterniza
cristalina e vacilante,
beleza clara e precisa
suspensa no breve instante,
banharia o rosto inteiro
com meus beijos, feito pingos
espalhados nos outeiros
− a poesia dos domingos!
Da pontinha do nariz,
olharia o precipício
da tua boca que diz:
-Vem! Te ofereço o início;
a porta da minha alma
e, do meu corpo, o caminho.
− Vem! E me beija com calma,
traze o sonho que adivinho!
Nilza Azzi
tal chuva (uma alegoria!),
te olharia e, isto posto,
por onde eu começaria?
Pela testa, lá no alto,
pela raiz dos cabelos;
não chegaria de assalto,
deslizaria em desvelos...
Sentiria a tua pele
e desfaria a tensão;
seguiria o que me impele,
como chuva de verão.
Lavaria os olhos teus
das tristezas e seria,
como o fim de algum adeus,
arco-íris e alegria...
E qual gota se eterniza
cristalina e vacilante,
beleza clara e precisa
suspensa no breve instante,
banharia o rosto inteiro
com meus beijos, feito pingos
espalhados nos outeiros
− a poesia dos domingos!
Da pontinha do nariz,
olharia o precipício
da tua boca que diz:
-Vem! Te ofereço o início;
a porta da minha alma
e, do meu corpo, o caminho.
− Vem! E me beija com calma,
traze o sonho que adivinho!
Nilza Azzi
63
Vocabulário
A tua volta, a lua, o rio frio...
O paraíso em que vivi aéreo
era o Saara, o meu mundo vazio,
a minha aorta, em que corre o mistério.
Não foi ciúme a causa do arrepio,
ou a lembrança daquele impropério.
Velho baú – o meu olhar desvio,
pois um segredo é sempre um caso sério.
À crua luz do Sol, eu descaído,
pela baía a praia vai deserta,
uma embaúba em prata mais além...
Aos que descreem tudo é permitido
perdoo então a indiferença aberta.
− Um caapora me olha com desdém.
Nilza Azzi
O paraíso em que vivi aéreo
era o Saara, o meu mundo vazio,
a minha aorta, em que corre o mistério.
Não foi ciúme a causa do arrepio,
ou a lembrança daquele impropério.
Velho baú – o meu olhar desvio,
pois um segredo é sempre um caso sério.
À crua luz do Sol, eu descaído,
pela baía a praia vai deserta,
uma embaúba em prata mais além...
Aos que descreem tudo é permitido
perdoo então a indiferença aberta.
− Um caapora me olha com desdém.
Nilza Azzi
41
Vaticínio
Se pudesse, nas palavras, derrubar-me,
como o faz a alma sobre um ser humano,
transformá-las qual o Verbo feito carne,
libertá-las do tom áspero e profano,
de tal forma a dar-lhes glória, encanto e charme...
E trouxesse o intenso fogo dos arcanos,
com os anjos nos seus carros a puxar-me,
concebendo um velho anseio soberano;
se tal dom assim tivesse, eu, poetisa,
qual semente espalharia em meu espaço,
no compasso deste mundo que escurece?
Diz meu estro que, a seu ver, nada divisa,
sem receio de abalar-me o ser escasso:
– Tu que és pó ousas sonhar com tal benesse!?
Nilza Azzi
como o faz a alma sobre um ser humano,
transformá-las qual o Verbo feito carne,
libertá-las do tom áspero e profano,
de tal forma a dar-lhes glória, encanto e charme...
E trouxesse o intenso fogo dos arcanos,
com os anjos nos seus carros a puxar-me,
concebendo um velho anseio soberano;
se tal dom assim tivesse, eu, poetisa,
qual semente espalharia em meu espaço,
no compasso deste mundo que escurece?
Diz meu estro que, a seu ver, nada divisa,
sem receio de abalar-me o ser escasso:
– Tu que és pó ousas sonhar com tal benesse!?
Nilza Azzi
25
Conversa com a Lua
Eu converso com a Lua,
perdida a vagar no céu.
Ela procura uma rua
e ilumina, rompe o véu
da neblina, fina ainda,
e deixa passar seus raios.
Essa visagem é linda!
Faço os primeiros ensaios
de um dueto ao luar;
a lua e eu a dançar.
A luz suave acompanha
os passos da minha dança
e a cena à frente ganha
nuances de semelhança
com um quadro surreal.
Ó Lua, só tu e eu
sabemos o que é vagar,
nessa noite sem igual.
Ó Lua, a noite escondeu
o que estive a procurar.
Nilza Azzi
57
Em espelho
Desenhava teu nome
a bico de pena
letra por letra
(na época do nanquim)
e a caligrafia
tinha contornos precisos
como se o amor
coubesse em definições
Nilza Azzi
35
Há...
Há um céu azul, além do azul
nos lúbricos caminhos da ventura
algures, nas alturas do eu perdido
do espanto e do não-ser...
Há zunidos estranhos e sem sentido
nos bosques quietos, recônditos
onde liberdade não é uma palavra
e nada pode ser chamado de loucura
lá, onde o amado planta sonhos
que florescerão no tempo certo
Há um mar profundo, além do mar
no desatino das viagens cegas
ao largo dos pesados continentes
em pacíficas e ensolaradas ilhas
de pureza e de segredos...
Há falésias afagadas pelas ondas
e murmúrios desse mar
nas entranhas dos rochedos
onde o que se guarda é poesia
na mais pura das misturas
Há um precipício, um largo precipício
na ebulição do desespero criador
e nesse centro tudo brilha e tudo morre
Nilza Azzi
42
Versos brancos
A cal, o giz, o alvaiade, o gesso,
instâncias da matéria a fazer arte;
o branco que dispõe a sua parte,
por todos eles tenho muito apreço.
A cal higieniza e ao céu comparte,
revira nuvens brancas pelo avesso;
o gesso, modelado, enquanto espesso,
acaba por deixar belo arremate.
Pintar com alvaiade é muito prático:
o velho ganha ares de impecável;
em congas é eficaz e pragmático...
Porém, o giz faz tudo memorável,
bastão predestinado a uso didático,
riscava sobre o quadro um bem estável.
Nilza Azzi
instâncias da matéria a fazer arte;
o branco que dispõe a sua parte,
por todos eles tenho muito apreço.
A cal higieniza e ao céu comparte,
revira nuvens brancas pelo avesso;
o gesso, modelado, enquanto espesso,
acaba por deixar belo arremate.
Pintar com alvaiade é muito prático:
o velho ganha ares de impecável;
em congas é eficaz e pragmático...
Porém, o giz faz tudo memorável,
bastão predestinado a uso didático,
riscava sobre o quadro um bem estável.
Nilza Azzi
36
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!