Lista de Poemas

Primícias

Jamais deixei de amar Adão, perfeito,
o homem ideal, puro e sincero;
o doce companheiro, o que mais quero,
de quem posso cuidar do melhor jeito.

Aquele que em meus braços sempre estreito,
enquanto deslizamos num bolero,
e os mimos são maiores do que espero;
enfim, o meu parceiro, por direito.

É ele que me deixa satisfeita,
preenche a minha vida com afeto,
entrega-se da forma mais singela.

À noite, em minha cama, ele se deita
e sabe amar de um modo bem direto;
um modo que o recato não revela.

Nilza Azzi

62

Tristeza de outono

Tarde de Outono! Tristes são os ares
que ainda não choraram minha mágoa,
inchados pela dor que não deságua,
são  nuvens por demais irregulares.
Contemplo o horizonte, essa miragem,
percebo o cintilar de algumas luzes.
– Na linha divisória, me seduzes!
As brumas com as luzes interagem.
A vida esvaziou-se nesse enlevo
e jaz numa quietude de si mesma.
A voz desse silêncio que em mim esma
reflete um sentimento tão primevo.

O homem quer o que há de mais escasso
– prefere a flor que nasce no penhasco.

Nilza Azzi
37

Sobre o salto

A pedra que rolava a cachoeira
e tinha logo abaixo o seu final
sabia que o perigo era real,
mas quis a sua chance derradeira.

Podia aquela queda ser fatal,
quem sabe espatifar-se na ribeira
no lodo sucumbir, ser prisioneira,
decerto esse podia ser seu mal...

Contudo, já cansara do planalto,
de ver tudo do alto, diariamente,
pairar no precipício, em sobressalto.

Sonhava ver futuro no presente
e tinha essa dureza do basalto
que cai, mas não se parte e nada sente.

Nilza Azzi
37

Passagem

No descampado extenso e verdejante,
uma donzela segue rumo à fonte.
Vai a buscar a água que sacia,
um passo imemorial, usado antes.
Vem, no sentido oposto, um viajante,
embaralhando as linhas do destino
e, no transverso cruza os passos dela,
sobre a relva marcada do caminho.
Trás os vergéis anônimos,  os montes,
sobra do outro lado um oceano.
Dele, num dia antigo, a vida veio:
a Providência a fez tão colorida!

Passagem, já sem as marcas do começo:
– O céu, esse mar virado pelo avesso!

Nilza Azzi
22

Opacidade

Qual mariposas, que atraídas pela luz,
largam no ar o pó dourado de suas asas,
vencer a inércia neste jogo me reduz
à forma frágil dessa névoa em que me atrasas,

à fina areia onde escorrem águas rasas..
E se esse brilho de teus olhos não conduz
todo meu ser a consumir-se feito brasas,
isso é porque, ao teu calor, não faço jus.

Porque tu és forte para mim que tanto quis
desses amores que permitem evitar
o que é banal, que é rotineiro, que é vulgar.

Mas tua força é incapaz da suavidade
que reconhece o potencial de uma mulher
ainda inocente, mas que entende do que quer.

Nilza Azzi
30

Novos caminhos

Caminhos que segui, não por acaso,
em todos fui deixando as minhas marcas.
Às vezes as venturas foram parcas,
mas tudo que tu vives serve de azo

a que vás navegar em outras barcas...
A dores que vivi, não extravaso
à toa. Guardo a todas sem descaso,
não quero alimentar as vãs fuzarcas

—viver já não tem sido um mar de rosas!
Um céu que prenuncia o frio de agosto,
não deixa ver caírem meteoritos...

As esperanças movem os aflitos,
enquanto atrás do espaço do Sol posto,
o cinza ganha cores mais formosas.

Nilza Azzi
49

Primavera


Então é primavera e eu nem sei
o inverno todo, onde se escondeu,
nem onde foi parar o anseio meu
– nova estação na vida e nova lei.

No mundo, a natureza  é um himeneu,
por todo lado o amor impera e, rei,
comanda mais belezas que sonhei
– nova estação que a alma recebeu!

Só sei que choveu cedo e lavou tudo,
levou embora aquele frio agudo;
deixou doce frescor, suavidade...

O inverno ficará só na saudade
do chocolate quente e da lareira.
Bem-vinda, enfim, a bela jardineira!

Nilza Azzi

 

 

48

O eterno tema

Era você num raio de luar,
no brilho vacilante de uma estrela...
Era você, mas não podia vê-la
na inútil transparência navegar.

Como a centelha a mergulhar no mar,
sim, era ele e o medo de perdê-la
na substância da neblina e pela
insensatez de quem não sabe amar.

A impermanência de uma nuvem torta,
desfeita pelo vento, desconforta
o olhar que não entende essa paisagem.

As lentes mal focadas não reagem
ao mundo da ilusão e dos mistérios,
à fonte dos desejos deletérios.

Nilza Azzi
 
49

Migalhas poéticas

Sou um cisco da luz, fragmento ou migalha,
uma lágrima anã do negro firmamento;
sou poeira, quiçá, que o forte vento espalha,
nos confins desse azul, não me julgo a contento.

Não sou nem mesmo a chuva, a martelar na calha,
e menos sou o mar, poder e movimento:
– da rocha faz areia e sem cessar trabalha –
na praia breve bolha, ali mal me sustento.

Num plano que é imenso, a ponto de infinito,
sou fóton sem ter par, vagando pelo espaço.
Habito, tão pequena, os vastos universos,

sem entender porque o mundo é tão bonito.
Se não tenho grandeza em nada do que faço,
o meu querer espalho, em migalhas de versos.

Nilza Azzi
38

Mercado de ilusões

Vive o homem num mar de sentimentos,
a confundir amores e paixões,
a fazer das paixões o seu tormento
e dos amores, leque de ilusões.

Quando viveu de amores, já um cento,
fez das paixões inúteis ligações,
devota aos seus propósitos isentos
o respingo de suas libações.

No entanto, por rotina, cada espécie
entrega ao mundo a prole, seus rebentos
e assim se desenrola esse novelo.

Mas sofre, a minha alma, por não tê-lo,
o coração, por atos desatentos,
salvo do mal da luta que inda tece.

Nilza Azzi
52

Comentários (4)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!