Reserva de domínio
O mar é azul e branco, transparente,
na mata, o verde brilha com vigor.
Não há agente externo a se interpor:
− A rude natureza não consente.
A ilha tem segredos a dispor,
a flora é variegada, diferente
daquela que recobre o continente:
− A fauna ali procria sem temor.
Falésias em embates com as ondas,
as praias de uma areia branca e fina,
conchinhas delicadas e redondas...
Olhar a natureza nos ensina
a perceber em nós perpétuas rondas,
seladas pela mesma cromatina.
Nilza Azzi
Versos brancos
A cal, o giz, o alvaiade, o gesso,
instâncias da matéria a fazer arte;
o branco que dispõe a sua parte,
por todos eles tenho muito apreço.
A cal higieniza e ao céu comparte,
revira nuvens brancas pelo avesso;
o gesso, modelado, enquanto espesso,
acaba por deixar belo arremate.
Pintar com alvaiade é muito prático:
o velho ganha ares de impecável;
em congas é eficaz e pragmático...
Porém, o giz faz tudo memorável,
bastão predestinado a uso didático,
riscava sobre o quadro um bem estável.
Nilza Azzi
Poema enrolado
E fica assim o dito por não dito
e o que acredito não mais tenha crédito
e o que se crê não seja pelo mérito,
pois quem merece já nasceu bendito
e não precisa, então de um analgésico,
para conter um coração aflito,
porque o amor é tudo que permito,
na condição de ser de fato inédito,
de compreender os ritmos do rito
e não viver apenas no pretérito,
ter um presente refinado e ético,
mostrar que o mundo é um lugar bonito
e sem perder e sem ganhar também,
eu tenho dito, em terra de ninguém...
Nilza Azzi
O choro do céu
Se eu permitisse à chuva que chorava
por sobre a terra a dor do céu ferido
e percebesse haver algum sentido
na solidão – e fosse eu mais brava
e enfrentasse a fera – se movido
por minha dor, o céu soltasse a trava
e desse a mim aquilo que negava
e descobrisse um mundo colorido,
se dessa luz, apenas uma gota
um pouco de alegria respingasse
sobre o tecido desta vida rota,
que outra impressão poria sobre a face!
O temporal, a fúria, a voz marota
traz mais perigo, quanto mais não passe.
Nilza Azzi
Ouro dos tolos
Notar as ilusões, apenas destrutivas,
e nas feridas dor, sentir, pungente, atroz,
mas não perder a vez, seguir sozinho após
já não ter voz ativa, enquanto apenas vivas...
Fugir do sofrimento e derrotar o algoz;
o lume é traiçoeiro e assim, manter vigília,
na trilha enevoada em que, ao longe, brilha
a nova realidade, além, das almas sós.
E não foi diferente, outrora tu sonhavas...
Se davas ao teu sonho, espaço pra ser forte,
(tolices de quem ama e tem a alma pura)
é força que ele usava, ao socorrer as bravas
batalhas em que a vida, em dívida co’a morte,
deixava um gosto amargo, em uma noite escura.
Nilza Azzi
Primícias
Jamais deixei de amar Adão, perfeito,
o homem ideal, puro e sincero;
o doce companheiro, o que mais quero,
de quem posso cuidar do melhor jeito.
Aquele que em meus braços sempre estreito,
enquanto deslizamos num bolero,
e os mimos são maiores do que espero;
enfim, o meu parceiro, por direito.
É ele que me deixa satisfeita,
preenche a minha vida com afeto,
entrega-se da forma mais singela.
À noite, em minha cama, ele se deita
e sabe amar de um modo bem direto;
um modo que o recato não revela.
Nilza Azzi
Migalhas poéticas
Sou um cisco da luz, fragmento ou migalha,
uma lágrima anã do negro firmamento;
sou poeira, quiçá, que o forte vento espalha,
nos confins desse azul, não me julgo a contento.
Não sou nem mesmo a chuva, a martelar na calha,
e menos sou o mar, poder e movimento:
– da rocha faz areia e sem cessar trabalha –
na praia breve bolha, ali mal me sustento.
Num plano que é imenso, a ponto de infinito,
sou fóton sem ter par, vagando pelo espaço.
Habito, tão pequena, os vastos universos,
sem entender porque o mundo é tão bonito.
Se não tenho grandeza em nada do que faço,
o meu querer espalho, em migalhas de versos.
Nilza Azzi
Passagem
No descampado extenso e verdejante,
uma donzela segue rumo à fonte.
Vai a buscar a água que sacia,
um passo imemorial, usado antes.
Vem, no sentido oposto, um viajante,
embaralhando as linhas do destino
e, no transverso cruza os passos dela,
sobre a relva marcada do caminho.
Trás os vergéis anônimos, os montes,
sobra do outro lado um oceano.
Dele, num dia antigo, a vida veio:
a Providência a fez tão colorida!
Passagem, já sem as marcas do começo:
– O céu, esse mar virado pelo avesso!
Nilza Azzi
Migração
Nos leitos em que se deita minha canoa,
nas águas pouco profundas, deveras calmas,
navegam alienadas diversas almas:
– A vida nessas paragens já não é boa.
Nas linhas que desenharam a minha palma,
no curso desse remanso tudo destoa
e o canto repete em ecos a mesma loa:
– À margem do sentimento, a dor se espalma.
Nos sonhos, onde flutuam desejos tristes
e a capa da realidade não vê futuro,
estranho, por meus sentidos, tudo que existe.
À falta de algo mais belo, intenso e puro
a sombra, parada ao lado, a tudo assiste:
– Resvalo no meu murmúrio e a esconjuro.
Nilza Azzi
Quietude
O céu guardou as luzes cintilantes,
o mar, as suas conchas sob a areia.
A mata viu o Sol como era antes,
no início deste mundo que clareia.
A Terra reduziu alguns instantes
seu giro e a rotação que voluteia
não traz alterações mirabolantes.
A Lua ainda nos mostra a face cheia.
A jovem, quando encontra o namorado,
espera que ele seja delicado
e entenda os seus desejos mais secretos.
As flores, portadoras de sementes,
atraem os insetos sencientes
– meus olhos permanecem mais quietos.
Nilza Azzi