Luto
Luto porque não sei fazer outra coisa,
e porque trago no meu peito, luto.
Luto porque a palavra aprisionada
devolve a minha poesia ao luto.
Luto, estendendo a minha luta ao mundo,
ao mesmo mundo que me deixa em luto.
Luto que já se estende por uma eternidade,
e mesmo sem saber porque, eu luto.
Nilza Azzi
Oh, Minas Gerais
Mas que saudade das tardes de Minas,
do céu vermelho, no horizonte aberto,
da capital traçada (tudo perto!)
naquelas ruas de grandes esquinas.
Não sei porque, aqui neste deserto,
abençoado por garoas finas,
quando contemplo as mais verdes campinas,
vem-me à lembrança o teu relevo incerto...
Ondulações de verde aveludado,
ficando azuis, nos longes do céu vário,
ali onde o Sol termina o itinerário
e o que era hoje já virou passado.
Daquele jeito bom de ser mineiro,
sinto saudade e não sou o primeiro.
Nilza Azzi
Janela para o poente
Pela janela aberta, vai o pensamento,
olhando a paisagem, mas não se detém
na árvore, na flor, no pássaro, em ninguém,
em busca do meu sonho, aquele que acalento...
E nessa mesma tela há força, estou ciente,
pois ela põe no ar a visão de um portal.
Ao longe iluminado, o brilho é sempre igual,
no ar avermelhado dessa tarde ardente.
Se dentro do ambiente, instala-se a penumbra,
lá fora ainda há luz, em brilhos de quermesse.
Difusos os contornos, já não se vislumbra
nenhuma ave no céu. O escuro, lento, desce...
E o fio da minguante, em prata risca o céu,
enquanto o sol se vai e a alma fica, ao léu.
Nilza Azzi
Perfil da manhã
Varou pela porta a luz da manhã,
correu pelo chão, beijou as cortinas,
destacou a cor do velho divã,
fez brilhar os grãos da poeira fina.
Lá fora o jardim no muro termina,
o orvalho ainda cobre a grama e uma vã
promessa de paz anima as esquinas...
Um gato amarelo atrai uma fã.
O dia se anima e ganha outro impulso,
o Sol lá no céu é só um astro avulso
e reina senhor dos seres que anima.
A vida no chão, a matéria-prima,
desfruta a energia e torna-se ativa:
– Confina no acaso e na tentativa.
Nilza Azzi
Por fás e por nefas
Pudesse eu compreender tua presença,
parcela dos meus sonhos, hoje em dia,
poria luz intensa e colorido
por tudo ao meu redor, sem pensar mais.
Procuro passo a passo a solução,
perfaço do meu verso, a longa estrada,
mas a palavra já se vai sem me levar.
Nilza Azzi
Novos caminhos
Caminhos que segui, não por acaso,
em todos fui deixando as minhas marcas.
Às vezes as venturas foram parcas,
mas tudo que tu vives serve de azo
a que vás navegar em outras barcas...
A dores que vivi, não extravaso
à toa. Guardo a todas sem descaso,
não quero alimentar as vãs fuzarcas
—viver já não tem sido um mar de rosas!
Um céu que prenuncia o frio de agosto,
não deixa ver caírem meteoritos...
As esperanças movem os aflitos,
enquanto atrás do espaço do Sol posto,
o cinza ganha cores mais formosas.
Nilza Azzi
Nuvens
O tempo andava estranho, inquietante,
parado, com um peso assaz fatal
e olhando para o céu, a todo instante,
a cor que eu vislumbrava era anormal.
― São coisas do verão, alguém garante,
fazendo um comentário bem banal,
falando ao meu ouvido, num rompante,
num tom de voz que só me deixou mal.
Mas vence a natureza! É poderosa
e prova ― nessa vida tudo muda,
sem precisar de nós, nenhuma ajuda.
Ao meu redor a vida se aveluda,
pois de repente vejo-me ditosa,
numa nuvem de pétalas de rosa!
Nilza Azzi
Opacidade
Qual mariposas, que atraídas pela luz,
largam no ar o pó dourado de suas asas,
vencer a inércia neste jogo me reduz
à forma frágil dessa névoa em que me atrasas,
à fina areia onde escorrem águas rasas..
E se esse brilho de teus olhos não conduz
todo meu ser a consumir-se feito brasas,
isso é porque, ao teu calor, não faço jus.
Porque tu és forte para mim que tanto quis
desses amores que permitem evitar
o que é banal, que é rotineiro, que é vulgar.
Mas tua força é incapaz da suavidade
que reconhece o potencial de uma mulher
ainda inocente, mas que entende do que quer.
Nilza Azzi
Ninhos
Migrante, ao alçar voo e ir embora,
− nem sempre enfrenta inverno tenebroso −
pode a ave, achar água e repouso
e cantar todo o dia, desde a aurora.
— Na terra das palmeiras, quanto gozo —
a água das nascentes, quando aflora,
é pura e vai descendo, sem demora,
a mata mostra um verde estrepitoso.
Há ninhos que recebem todo ano
os bandos que retornam da jornada
e enfrentam o bulício quotidiano,
à força da energia acumulada.
A quietude é o que impera no altiplano,
mas há mais alimento na baixada.
Nilza Azzi
Ferida
Quando acordei meu sonho estava ali,
com ele um velho amor que revivi.
Quimeras vezes doces, vezes puras,
rascunhos de futuras desventuras.
Carrego um sofrimento, não por ti,
mas pela reclusão... Não consegui
sair do pesadelo. As leis são duras!
— Têm garras, vêm ferir as criaturas...
Há muito já esqueci qualquer sorriso,
de abraços e carinhos nem preciso.
Sentir calor e força é o que conforta,
mas, à felicidade, eu abro a porta,
permito que se vá. Eis-me vencida!
― Real é a crueldade da ferida.
Nilza Azzi