Lista de Poemas
Nuvens
O tempo andava estranho, inquietante,
parado, com um peso assaz fatal
e olhando para o céu, a todo instante,
a cor que eu vislumbrava era anormal.
― São coisas do verão, alguém garante,
fazendo um comentário bem banal,
falando ao meu ouvido, num rompante,
num tom de voz que só me deixou mal.
Mas vence a natureza! É poderosa
e prova ― nessa vida tudo muda,
sem precisar de nós, nenhuma ajuda.
Ao meu redor a vida se aveluda,
pois de repente vejo-me ditosa,
numa nuvem de pétalas de rosa!
Nilza Azzi
parado, com um peso assaz fatal
e olhando para o céu, a todo instante,
a cor que eu vislumbrava era anormal.
― São coisas do verão, alguém garante,
fazendo um comentário bem banal,
falando ao meu ouvido, num rompante,
num tom de voz que só me deixou mal.
Mas vence a natureza! É poderosa
e prova ― nessa vida tudo muda,
sem precisar de nós, nenhuma ajuda.
Ao meu redor a vida se aveluda,
pois de repente vejo-me ditosa,
numa nuvem de pétalas de rosa!
Nilza Azzi
36
Perfil da manhã
Varou pela porta a luz da manhã,
correu pelo chão, beijou as cortinas,
destacou a cor do velho divã,
fez brilhar os grãos da poeira fina.
Lá fora o jardim no muro termina,
o orvalho ainda cobre a grama e uma vã
promessa de paz anima as esquinas...
Um gato amarelo atrai uma fã.
O dia se anima e ganha outro impulso,
o Sol lá no céu é só um astro avulso
e reina senhor dos seres que anima.
A vida no chão, a matéria-prima,
desfruta a energia e torna-se ativa:
– Confina no acaso e na tentativa.
Nilza Azzi
correu pelo chão, beijou as cortinas,
destacou a cor do velho divã,
fez brilhar os grãos da poeira fina.
Lá fora o jardim no muro termina,
o orvalho ainda cobre a grama e uma vã
promessa de paz anima as esquinas...
Um gato amarelo atrai uma fã.
O dia se anima e ganha outro impulso,
o Sol lá no céu é só um astro avulso
e reina senhor dos seres que anima.
A vida no chão, a matéria-prima,
desfruta a energia e torna-se ativa:
– Confina no acaso e na tentativa.
Nilza Azzi
61
Passado
Debrucei-me sobre as minhas incertezas,
todas presas por um fio, meio suspensas,
como contas de um colar, as minhas crenças,
a vacilar labaredas mal acesas...
Depois me ergui, enfrentando indiferenças,
sem entender bem o vão das sutilezas...
Guardei num susto as palavras todas presas
e desdenhei de aventuras mais intensas.
Enfim parti à procura de outros ares,
para enfrentar a pressão que a tudo abarca,
além da dor, sem sinais particulares...
Atrás de mim, não imprimo qualquer marca,
jamais espero que um dia tu me ampares,
nessa esperança, minh’alma não embarca.
Nilza Azzi
todas presas por um fio, meio suspensas,
como contas de um colar, as minhas crenças,
a vacilar labaredas mal acesas...
Depois me ergui, enfrentando indiferenças,
sem entender bem o vão das sutilezas...
Guardei num susto as palavras todas presas
e desdenhei de aventuras mais intensas.
Enfim parti à procura de outros ares,
para enfrentar a pressão que a tudo abarca,
além da dor, sem sinais particulares...
Atrás de mim, não imprimo qualquer marca,
jamais espero que um dia tu me ampares,
nessa esperança, minh’alma não embarca.
Nilza Azzi
19
Ouro dos tolos
Notar as ilusões, apenas destrutivas,
e nas feridas dor, sentir, pungente, atroz,
mas não perder a vez, seguir sozinho após
já não ter voz ativa, enquanto apenas vivas...
Fugir do sofrimento e derrotar o algoz;
o lume é traiçoeiro e assim, manter vigília,
na trilha enevoada em que, ao longe, brilha
a nova realidade, além, das almas sós.
E não foi diferente, outrora tu sonhavas...
Se davas ao teu sonho, espaço pra ser forte,
(tolices de quem ama e tem a alma pura)
é força que ele usava, ao socorrer as bravas
batalhas em que a vida, em dívida co’a morte,
deixava um gosto amargo, em uma noite escura.
Nilza Azzi
e nas feridas dor, sentir, pungente, atroz,
mas não perder a vez, seguir sozinho após
já não ter voz ativa, enquanto apenas vivas...
Fugir do sofrimento e derrotar o algoz;
o lume é traiçoeiro e assim, manter vigília,
na trilha enevoada em que, ao longe, brilha
a nova realidade, além, das almas sós.
E não foi diferente, outrora tu sonhavas...
Se davas ao teu sonho, espaço pra ser forte,
(tolices de quem ama e tem a alma pura)
é força que ele usava, ao socorrer as bravas
batalhas em que a vida, em dívida co’a morte,
deixava um gosto amargo, em uma noite escura.
Nilza Azzi
39
João e Maria revisitado
Passou por mim num sopro, quase nada,
foi parar bem longe da visão.
Guardava em si a cor da madrugada
e o cheiro bom das chuvas de verão...
Um dia ressurgiu na minha estrada,
já decidido a ter meu coração,
e me deixou surpresa e atordoada,
assim, fui incapaz de dizer não.
Ele era o mundo e todo seu mistério,
senhor de um reino vasto e circular,
onde encontrei nobreza e conteúdo.
Nem sempre era pra ser levado a sério.
Era-me necessário, como o ar...
– Ele era o meu poema sobretudo.
Nilza Azzi
foi parar bem longe da visão.
Guardava em si a cor da madrugada
e o cheiro bom das chuvas de verão...
Um dia ressurgiu na minha estrada,
já decidido a ter meu coração,
e me deixou surpresa e atordoada,
assim, fui incapaz de dizer não.
Ele era o mundo e todo seu mistério,
senhor de um reino vasto e circular,
onde encontrei nobreza e conteúdo.
Nem sempre era pra ser levado a sério.
Era-me necessário, como o ar...
– Ele era o meu poema sobretudo.
Nilza Azzi
39
Janela para o poente
Pela janela aberta, vai o pensamento,
olhando a paisagem, mas não se detém
na árvore, na flor, no pássaro, em ninguém,
em busca do meu sonho, aquele que acalento...
E nessa mesma tela há força, estou ciente,
pois ela põe no ar a visão de um portal.
Ao longe iluminado, o brilho é sempre igual,
no ar avermelhado dessa tarde ardente.
Se dentro do ambiente, instala-se a penumbra,
lá fora ainda há luz, em brilhos de quermesse.
Difusos os contornos, já não se vislumbra
nenhuma ave no céu. O escuro, lento, desce...
E o fio da minguante, em prata risca o céu,
enquanto o sol se vai e a alma fica, ao léu.
Nilza Azzi
olhando a paisagem, mas não se detém
na árvore, na flor, no pássaro, em ninguém,
em busca do meu sonho, aquele que acalento...
E nessa mesma tela há força, estou ciente,
pois ela põe no ar a visão de um portal.
Ao longe iluminado, o brilho é sempre igual,
no ar avermelhado dessa tarde ardente.
Se dentro do ambiente, instala-se a penumbra,
lá fora ainda há luz, em brilhos de quermesse.
Difusos os contornos, já não se vislumbra
nenhuma ave no céu. O escuro, lento, desce...
E o fio da minguante, em prata risca o céu,
enquanto o sol se vai e a alma fica, ao léu.
Nilza Azzi
41
Miscelânea
Fora da tampa, o meu amor por ti,
pois do comum das massas vou distante.
Teu rastro eu sigo alegre, sempre adiante:
― A amar assim, jamais eu me atrevi!
E se eu passasse a régua e, num rompante,
andasse no caminho que escolhi,
ao teu redor, seria um colibri,
num voo atordoado e delirante.
Beijar-te-ia os pés, a fronte a face,
em busca da doçura que extravasa,
até fazer só minha, a tua casa.
Depois, talvez aos pés de Deus pousasse
e Lhe fizesse apenas um pedido,
que amar tivesse um tempo indefinido.
Nilza Azzi
pois do comum das massas vou distante.
Teu rastro eu sigo alegre, sempre adiante:
― A amar assim, jamais eu me atrevi!
E se eu passasse a régua e, num rompante,
andasse no caminho que escolhi,
ao teu redor, seria um colibri,
num voo atordoado e delirante.
Beijar-te-ia os pés, a fronte a face,
em busca da doçura que extravasa,
até fazer só minha, a tua casa.
Depois, talvez aos pés de Deus pousasse
e Lhe fizesse apenas um pedido,
que amar tivesse um tempo indefinido.
Nilza Azzi
25
O choro do céu
Se eu permitisse à chuva que chorava
por sobre a terra a dor do céu ferido
e percebesse haver algum sentido
na solidão – e fosse eu mais brava
e enfrentasse a fera – se movido
por minha dor, o céu soltasse a trava
e desse a mim aquilo que negava
e descobrisse um mundo colorido,
se dessa luz, apenas uma gota
um pouco de alegria respingasse
sobre o tecido desta vida rota,
que outra impressão poria sobre a face!
O temporal, a fúria, a voz marota
traz mais perigo, quanto mais não passe.
Nilza Azzi
por sobre a terra a dor do céu ferido
e percebesse haver algum sentido
na solidão – e fosse eu mais brava
e enfrentasse a fera – se movido
por minha dor, o céu soltasse a trava
e desse a mim aquilo que negava
e descobrisse um mundo colorido,
se dessa luz, apenas uma gota
um pouco de alegria respingasse
sobre o tecido desta vida rota,
que outra impressão poria sobre a face!
O temporal, a fúria, a voz marota
traz mais perigo, quanto mais não passe.
Nilza Azzi
99
Ninhos
Migrante, ao alçar voo e ir embora,
− nem sempre enfrenta inverno tenebroso −
pode a ave, achar água e repouso
e cantar todo o dia, desde a aurora.
— Na terra das palmeiras, quanto gozo —
a água das nascentes, quando aflora,
é pura e vai descendo, sem demora,
a mata mostra um verde estrepitoso.
Há ninhos que recebem todo ano
os bandos que retornam da jornada
e enfrentam o bulício quotidiano,
à força da energia acumulada.
A quietude é o que impera no altiplano,
mas há mais alimento na baixada.
Nilza Azzi
− nem sempre enfrenta inverno tenebroso −
pode a ave, achar água e repouso
e cantar todo o dia, desde a aurora.
— Na terra das palmeiras, quanto gozo —
a água das nascentes, quando aflora,
é pura e vai descendo, sem demora,
a mata mostra um verde estrepitoso.
Há ninhos que recebem todo ano
os bandos que retornam da jornada
e enfrentam o bulício quotidiano,
à força da energia acumulada.
A quietude é o que impera no altiplano,
mas há mais alimento na baixada.
Nilza Azzi
23
Juízos
Não me tenho assim por coisa à toa,
sem vontade, carente e sem defesa,
pois essa avaliação de mim destoa;
mantenho sempre uma intenção coesa.
Também não penso que seja tão boa;
de meu valor não posso dar certeza!
A minha voz provoca e atordoa,
quando não cuido de mantê-la presa.
De mim, melhor é não fazer juízo
ora sou água, e a natureza atesta,
ora sou ar e passo pelas frestas...
Por ser mulher, meu mundo é impreciso:
meus sentimentos são intensos, fortes,
no mais das vezes, não me entrego à sorte!
Nilza Azzi
sem vontade, carente e sem defesa,
pois essa avaliação de mim destoa;
mantenho sempre uma intenção coesa.
Também não penso que seja tão boa;
de meu valor não posso dar certeza!
A minha voz provoca e atordoa,
quando não cuido de mantê-la presa.
De mim, melhor é não fazer juízo
ora sou água, e a natureza atesta,
ora sou ar e passo pelas frestas...
Por ser mulher, meu mundo é impreciso:
meus sentimentos são intensos, fortes,
no mais das vezes, não me entrego à sorte!
Nilza Azzi
36
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!