Pacto
Eu te amei, num vazio inexistente,
amei a folha em branco, que encontrei.
Amei como uma puta ao seu cliente,
sem medo de ferir nenhuma lei.
E sei que procurei ser eficiente,
nas formas desse amar. Eu me apliquei!
E, sob aquele foco e aquela lente,
nos palcos do meu leito, foste rei.
Ah! Vozes desta parca lucidez,
o confronto titânico das eras
reduz a nada, a escolha que se fez.
Despojos pelo campo das quimeras
indicam que se foram de uma vez,
as pautas, que a seu tempo, eram sinceras.
Nilza Azzi
Nilza Azzi
Miscelânea
Fora da tampa, o meu amor por ti,
pois do comum das massas vou distante.
Teu rastro eu sigo alegre, sempre adiante:
― A amar assim, jamais eu me atrevi!
E se eu passasse a régua e, num rompante,
andasse no caminho que escolhi,
ao teu redor, seria um colibri,
num voo atordoado e delirante.
Beijar-te-ia os pés, a fronte a face,
em busca da doçura que extravasa,
até fazer só minha, a tua casa.
Depois, talvez aos pés de Deus pousasse
e Lhe fizesse apenas um pedido,
que amar tivesse um tempo indefinido.
Nilza Azzi
O singular plural
Despencam águas claras das vertentes.
É ilusão o que nos move, é sonho?
Espanto abominável, mal medonho,
destinos controversos, diferentes...
O céu exibe o cinza, o tom tristonho,
e nunca são os fatos permanentes.
Presságios! Neles não creem os crentes,
mas fé em tal descrença jamais ponho.
Não há em fonte alguma a clara voz
do som que atravessou o temporal.
O lago deixará a calma após
a fúria de algum vento ocasional.
O alívio da verdade cabe a nós
no encontro singular, talvez plural.
Nilza Azzi
Oh, Minas Gerais
Mas que saudade das tardes de Minas,
do céu vermelho, no horizonte aberto,
da capital traçada (tudo perto!)
naquelas ruas de grandes esquinas.
Não sei porque, aqui neste deserto,
abençoado por garoas finas,
quando contemplo as mais verdes campinas,
vem-me à lembrança o teu relevo incerto...
Ondulações de verde aveludado,
ficando azuis, nos longes do céu vário,
ali onde o Sol termina o itinerário
e o que era hoje já virou passado.
Daquele jeito bom de ser mineiro,
sinto saudade e não sou o primeiro.
Nilza Azzi
Ninhos
Migrante, ao alçar voo e ir embora,
− nem sempre enfrenta inverno tenebroso −
pode a ave, achar água e repouso
e cantar todo o dia, desde a aurora.
— Na terra das palmeiras, quanto gozo —
a água das nascentes, quando aflora,
é pura e vai descendo, sem demora,
a mata mostra um verde estrepitoso.
Há ninhos que recebem todo ano
os bandos que retornam da jornada
e enfrentam o bulício quotidiano,
à força da energia acumulada.
A quietude é o que impera no altiplano,
mas há mais alimento na baixada.
Nilza Azzi
Os pastores
Ia o velho pastor por uma estrada,
no rumo sem razão do seu caminho.
Esquecera da ovelha desgarrada:
− O rebanho, um detalhe comezinho.
E pelos vales, pelos montes, nada
podia desviá-lo... Ele, sozinho,
olhava a vastidão desamparada,
sem chances de voltar ao velho ninho.
No rumo oposto vinha uma pastora,
de uma simplicidade sedutora,
um toque de poesia ao seu redor...
Se cada qual a própria cruz levava,
a força que os sustinha, embora brava,
não fez de sua vida algo melhor.
Nilza Azzi
Novos caminhos
Caminhos que segui, não por acaso,
em todos fui deixando as minhas marcas.
Às vezes as venturas foram parcas,
mas tudo que tu vives serve de azo
a que vás navegar em outras barcas...
A dores que vivi, não extravaso
à toa. Guardo a todas sem descaso,
não quero alimentar as vãs fuzarcas
—viver já não tem sido um mar de rosas!
Um céu que prenuncia o frio de agosto,
não deixa ver caírem meteoritos...
As esperanças movem os aflitos,
enquanto atrás do espaço do Sol posto,
o cinza ganha cores mais formosas.
Nilza Azzi
Opacidade
Qual mariposas, que atraídas pela luz,
largam no ar o pó dourado de suas asas,
vencer a inércia neste jogo me reduz
à forma frágil dessa névoa em que me atrasas,
à fina areia onde escorrem águas rasas..
E se esse brilho de teus olhos não conduz
todo meu ser a consumir-se feito brasas,
isso é porque, ao teu calor, não faço jus.
Porque tu és forte para mim que tanto quis
desses amores que permitem evitar
o que é banal, que é rotineiro, que é vulgar.
Mas tua força é incapaz da suavidade
que reconhece o potencial de uma mulher
ainda inocente, mas que entende do que quer.
Nilza Azzi
Desvio
Oh, amor entre os amores
quem me dera não pensasse
não tivesse à frente as dores,
esperanças ou vontades,
tristezas, longas saudades...
Quem me dera, nessas tardes
meio longas, meio frias
não sentisse solidão,
nem tivesse as mãos vazias,
em gestos vagos ao ar,
quem me dera não chorar.
Oh, amor entre essas flores
coloridas pelos campos,
à noite esses pirilampos,
no dia o calor do sol
não encontro distração.
Quem me dera, doce amor
doce encanto, minha luz,
não sentisse a solidão
nem sentisse tua ausência,
em meu olhar vago ao longe,
nos vazios do lugar.
Nilza Azzi
Escopo
Todo jovem precisa de uma espada,
para poder tornar-se um bom guerreiro
e vencer o combate verdadeiro,
e libertar a alma aprisionada.
Porém, antes precisa de um canteiro,
num jardim secreto, em luz dourada,
onde cultive flores para a amada,
a figura ideal, sonho primeiro...
E a senhora que vive no castelo
sabe o quanto a batalha é necessária,
para que o homem siga em frente, aprenda
o que dentro de si tem de mais belo
e assim possa cumprir o itinerário,
no caminho que vai da Lei às lendas.
Nilza Azzi