Desvario
Neste céu sem estrelas da cidade,
quando o manto noturno se entristece
e no azul não mais cabe a menor prece,
a tristeza me assombra e mais me invade.
Tudo é como se aqui já não houvesse
um sinal de amplidão, de liberdade,
e nos fosse negado essa benesse,
de espantar uma dor que não se evade.
E sem ter o que olhar, o que colher;
esperanças de mundos infinitos,
perco em minha garganta qualquer grito.
É um peso, um ensaio de morrer,
uma angústia que cala em minha boca,
quando a noite me deixa meio louca.
Nilza Azzi
Canto escuro
Perene aquela dor, e aparecia,
conforme uma tristeza, colorida
das cores desbotadas desta vida,
sem graça, sem prazer, sem alegria.
A trégua nunca vem e nos traz paz,
porém se tudo passa, a dor também
e, mesmo, nesta terra de ninguém,
nenhuma das escusas satisfaz.
O medo mais guardado tinha forma
das noites sem luar. Era tremendo!
E, desde os velhos tempos, vinha sendo
o vácuo poderoso que transtorna.
Inútil esconder, negar seu nome,
— a praga nos devasta e nos consome.
Nilza Azzi
Gala
O silêncio conversa a sós comigo,
conhece a voz que sabe, mas se cala.
As luas giram roucas, sem perigo,
enfeitam-se as estrelas para a gala.
O céu, de um brilho tolo e muito antigo,
esquece a pertinência de uma escala
e diz: – A imensidão é meu castigo!
E a vida, haverá meios de imitá-la?
Aquém dessa cortina de poeira,
a cósmica poeira trás o espaço,
instila-se um vazio estranho e denso.
Persigo uma palavra – ela se esgueira.
Remendo a sombra nua do que faço
e sorvo a inanição de um mundo denso.
Nilza Azzi
Segredo
... E displicente disse a juventude:
– Se tudo quero, tudo posso e faço!
Não receio o cansaço a que se alude,
a vida inteira posso ter nos braços.
Disse a velhice – Fiz tudo que pude...
São metas diferentes que ora traço
e nessas metas nada mais é rude,
pois hoje evito a dor e o embaraço.
Beijou a juventude em plena face,
sorriu e foi embora, sem deixar
que a outra em tal sorriso reparasse.
Sobrou à juventude, em seu lugar,
a vontade, o ardor, o afã do enlace
e à velhice, um segredo singular.
Nilza Azzi
Selfie
Prossigo a minha estrada, no correr dos dias,
a tudo indiferente, sem tristeza ou festa.
A folha de papel é tudo que me resta,
encher com meus rascunhos as linhas vazias.
Não sei imaginar mais que proeza é esta,
buscar dissolução das formas arredias
e nestes meus rabiscos esquecer das guias
e da sabedoria que o passado atesta.
Seguir sem vãs lembranças, recriar a lida,
erguer a cada passo o pé da caminhada,
pisar a nova estrada sem saber de nada...
Um gesto que desfia a ilusão perdida
e ajusta o contratempo de qualquer percalço
– um modo de escrever inútil, tolo, falso!
Nilza Azzi
Solução de continuidade
Caiu no chão, espatifou de vez,
fez-se em mil cacos, nada sobrou dela;
foram-se as flores da blusa amarela,
foi-se o colar de contas, sem porquês.
Nem mesmo houve um óleo-sobre-tela
que eternizasse a face dessa Inês...
Qualquer olhar, senhor de lucidez,
perceberia que morta ela era.
E, uma vez morta, Inês, mais nada havia
da tal boneca que ela fora um dia
e, como tal, brinquedo e nada mais.
Um acidente... tudo se desfaz...
e a vida segue como sempre foi
− primeiro o carro e depois os bois.
Nilza Azzi
Dupla-face
Meu coração é uma rocha esburacada:
– em cada nicho, uma ausência que faz falta.
Se algum detalhe importante se ressalta,
são as lembranças de quem, cruzando a estrada,
logo partiu, mas deixou-me a sua marca.
Meu coração é um canteiro em floração
e cada flor, que ali brota, é com razão,
fundamental ao conjunto que ele abarca.
É dupla-face o que eu trago no meu peito:
– um coração pelo avesso e, por direito,
apaixonado, amoroso e, sim, completo.
E nesse estofo as nuances que coleto,
de quem perpassa essas vias, são presentes,
presença ímpar – valores permanentes.
Nilza Azzi
Nilza Azzi
a trilha das palavras
se nas reviravoltas me cansei das luas
e se dos girassóis já se perdeu o encanto
é que uma primavera foi embora um dia
e nunca num verão eu soube o que era amar
pintei minha loucura em cor bem transparente
deixei no céu o adeus sem mesmo refletir
nos braços que partiram já não choro mais
se os restos de um poema são de cor brilhante
e a trilha das palavras vem do pensamento
além do imaginário tine a realidade
certeira e mais cruel do que qualquer inferno
mas se numa recusa há sempre uma esperança
repousam vinho e mel nos campos semeados
nilza azzi
Janela para o poente
Pela janela aberta, vai o pensamento,
olhando a paisagem, mas não se detém
na árvore, na flor, no pássaro, em ninguém,
em busca do meu sonho, aquele que acalento...
E nessa mesma tela há força, estou ciente,
pois ela põe no ar a visão de um portal.
Ao longe iluminado, o brilho é sempre igual,
no ar avermelhado dessa tarde ardente.
Se dentro do ambiente, instala-se a penumbra,
lá fora ainda há luz, em brilhos de quermesse.
Difusos os contornos, já não se vislumbra
nenhuma ave no céu. O escuro, lento, desce...
E o fio da minguante, em prata risca o céu,
enquanto o sol se vai e a alma fica, ao léu.
Nilza Azzi
Estupor
E não teria riso, espanto ou graça,
o amor em meu modelo predileto,
repleto do desejo que devassa,
doçura incontrolável e sem veto;
e não seria um jogo sem trapaça,
não fosse a natureza desse afeto,
intensa na alegria que me abraça
e abala o mundo interno tão quieto.
E não teria o céu brilhos distantes,
se para tanto não houvesse antes
matéria nos espaços siderais.
Assim, meu bem querer, o amor se faz
da força da emoção e, sem engano,
é graça, é riso, é espanto cotidiano.
Nilza Azzi