Lista de Poemas

Luto

Luto porque não sei fazer outra coisa,
e porque trago no meu peito, luto.

Luto porque a palavra aprisionada
devolve a minha poesia ao luto.

Luto, estendendo a minha luta ao mundo,
ao mesmo mundo que me deixa em luto.

Luto que já se estende por uma eternidade,
e mesmo sem saber porque, eu luto.

Nilza Azzi
55

a trilha das palavras

se nas reviravoltas me cansei das luas
e se dos girassóis já se perdeu o encanto
é que uma primavera foi embora um dia
e nunca num verão eu soube o que era amar

pintei minha loucura em cor bem transparente
deixei no céu o adeus sem mesmo refletir
nos braços que partiram já não choro mais

se os restos de um poema são de cor brilhante
e a trilha das palavras vem do pensamento
além do imaginário tine a realidade
certeira e mais cruel do que qualquer inferno

mas se numa recusa há sempre uma esperança
repousam vinho e mel nos campos semeados

nilza azzi
58

Escopo

Todo jovem precisa de uma espada,
para poder tornar-se um bom guerreiro
e vencer o combate verdadeiro,
e libertar a alma aprisionada.

Porém, antes precisa de um canteiro,
num jardim secreto, em luz dourada,
onde cultive flores para a amada,
a figura ideal, sonho primeiro...

E a senhora que vive no castelo
sabe o quanto a batalha é necessária,
para que o homem siga em frente, aprenda

o que dentro de si tem de mais belo
e assim possa cumprir o itinerário,
no caminho que vai da Lei às lendas.

Nilza Azzi
61

Ferida

Quando acordei meu sonho estava ali,
com ele um velho amor que revivi.
Quimeras vezes doces, vezes puras,
rascunhos de futuras desventuras.

Carrego um sofrimento, não por ti,
mas pela reclusão... Não consegui
sair do pesadelo. As leis são duras!
— Têm garras, vêm ferir as criaturas...

Há muito já esqueci qualquer sorriso,
de abraços e carinhos nem preciso.
Sentir calor e força é o que conforta,

mas, à felicidade, eu abro a porta,
permito que se vá. Eis-me vencida!
― Real é a crueldade da ferida.

Nilza Azzi
37

Engano

Quisera desse amor colher os frutos,
porém o meu passado me condena
a ter esta existência tão pequena,
destino dos bastardos e corruptos.

Se há dor, a desejei bem mais amena
e os medos, menos fortes, menos brutos!
Da paz, só desconheço os atributos;
ao longe, um só sorriso não me acena...

Vegeto nesse mundo sem ter vez...
A sombra que me segue é tão feroz
(desejos, sentimentos abstratos).

A vida me enganou, jamais desfez
seu  truque, pois carrego o meu algoz
−  A culpa da inocência dos meus atos!

Nilza Azzi
42

Entre nós

Eramos dois, a sós, naquele quarto,
apenas tu e eu e uma certeza:
– a  sensação de um tempo em que já fartos,
as cartas, espalhamos sobre a mesa.

Na mesa eram valores que reparto,
com expressão banal, sem sutileza,
as águas derramadas nesse parto,
a  dor dessa tortura ainda acesa.

Se tu eras o filho que eu não tive,
a estrada a desbocar em um declive,
a guerra, desbancando a minha paz,

já eu, enquanto exemplo da desdita,
sentia em mim a culpa infinita
de até não conseguir amar-te mais.

Nilza Azzi

33

Estupor

E não teria riso, espanto ou graça,
o amor em meu modelo predileto,
repleto do desejo que devassa,
doçura incontrolável e sem veto;

e não seria um jogo sem trapaça,
não fosse a natureza desse afeto,
intensa na alegria que me abraça
e abala o mundo interno tão quieto.

E não teria o céu brilhos distantes,
se para tanto não houvesse antes 
matéria nos espaços siderais. 

Assim, meu bem querer, o amor se faz
da força da emoção e, sem engano, 
é graça, é riso, é espanto cotidiano.

Nilza Azzi
41

Um cheiro de excitação


O teu beijo tem o gosto da água fresca
e o teu cheiro vem cheio de feromônios,
quais pequeninos demônios que chegam
e incendeiam meus sentidos.
Sou mais que ouvidos e olfato,
sou um rio com seus fluídos...
O teu cheiro me entontece
me embriaga e me fascina.
É química que alucina,
o teu perfume 
que vem pelos poros:
não é água de colônia, 
nem loção após o banho,
não é ganho artificial.
É teu odor natural
embebido de desejo, que eu farejo
nos tecidos, na toalha, na extensão da tua pele,
no teu corpo por inteiro.

Nilza Azzi
51

Dança

A lua brilha cheia e assim me acorda
e faz dançarem sombras no meu quarto,
e vara as venezianas pela borda:
–  com ela, meu sonhar, então reparto.

Disperso o indesejável dessa horda,
enquanto os anjos, num sorriso farto,
ajudam-me a escolher o que descarto,
e brincam ao luar que ali transborda.

E quando as sombras dançam na parede,
minh'alma me confessa que tem sede
de tudo que de ti não sabe ainda...

O amor é sentimento que não finda,
profundo como a noite em que, sozinha,
entre essas sombras, só encontro a minha.

Nilza Azzi

 


37

Fábula

... E não foi fácil responder que não,
que não queria teu amor pra mim!
Mas não havia mesmo solução,
morreu bem na garganta aquele sim.

Se sonho, ó meu amado, com venturas
que, ao certo, viveria nos teus braços,
decerto, o que mais vale é o que perdura,
num mundo de carinhos tão escassos.

Há trilhas isoladas, solitárias,
contudo a chuva lava as nossas mágoas
e o mundo, renovado, se revela...

No bosque quieto das araucárias,
sementes, que esperaram pelas águas,
germinam ao vencer medo e procela.

Nilza Azzi

41

Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!