Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

611

Eras

Eras entre os amores, preferido,
à noite o raio de luar, e o sol
que dava ao dia o brilho e o sentido,
da primavera, o encanto do arrebol,

e, também, eras música ao ouvido...
Contigo o encanto e a cor da natureza,
o livro aberto que nunca foi lido,
eterna dúvida e pouca certeza,

a clara solidão do meu caminho,
a rota, o desatino do meu rumo
e a frouxa gratuidade das quimeras.

Se o teu melhor segredo eu adivinho,
as dores do abandono enfim assumo,
em face da alegria de outras eras.

Nilza Azzi
59

Atropelo

Nunca me amou, aquele que dissera
que me amaria sempre. – Foi um sonho!
Visão que traz a luz da primavera,
no entanto passa e deixa um frio medonho.

Mas não existe amor –  e sou sincera! –
de uma ilusão as dúvidas exponho...
Porém a dor, a fibra nos tempera,
para enfrentar truísmos enfadonhos.

E quando vejo um par de namorados
estico a vista, procurando ao certo
outras questões para entreter a mente.

Enquanto a vida segue surdamente,
o coração espia, chega perto,
solta um suspiro e morre asfixiado.

Nilza Azzi

43

Por fás e por nefas


Pudesse eu compreender tua presença,
parcela dos meus sonhos, hoje em dia,
poria luz intensa e colorido
por tudo ao meu redor, sem pensar mais.
Procuro passo a passo a solução,
perfaço do meu verso, a longa estrada,
mas a palavra já se vai sem me levar.

Nilza Azzi
36

Dança

A lua brilha cheia e assim me acorda
e faz dançarem sombras no meu quarto,
e vara as venezianas pela borda:
–  com ela, meu sonhar, então reparto.

Disperso o indesejável dessa horda,
enquanto os anjos, num sorriso farto,
ajudam-me a escolher o que descarto,
e brincam ao luar que ali transborda.

E quando as sombras dançam na parede,
minh'alma me confessa que tem sede
de tudo que de ti não sabe ainda...

O amor é sentimento que não finda,
profundo como a noite em que, sozinha,
entre essas sombras, só encontro a minha.

Nilza Azzi

 


46

Juízos

Não me tenho assim por coisa à toa,
sem vontade, carente e sem defesa,
pois essa avaliação de mim destoa;
mantenho sempre uma intenção coesa.

Também não penso que seja tão boa;
de meu valor não posso dar certeza!
A minha voz provoca e atordoa,
quando não cuido de mantê-la presa.

De mim, melhor é não fazer juízo
ora sou água, e a natureza atesta,
ora sou ar e passo pelas frestas...

Por ser mulher, meu mundo é impreciso:
meus sentimentos são intensos, fortes,
no mais das vezes, não me entrego à sorte!

Nilza Azzi
44

Porto


Quando Augusto sorriu, foi o bastante...
– Armadilha de amor – fez-me  cativa!
Do seu beijo, bebi doce saliva,
sem querer me perdi. Fui mais adiante.

No frescor das manhãs de Sol radiante,
a caminho da escola, eu, sempre viva,
era a mulher fatal, a eterna diva,
era enfim sedutora, embora infante.

Quando Augusto partiu, sem mais aviso,
restou-me suportar a triste história,
sofrer, sentir a alma merencória.

Mas não vou dar a mão á palmatória.
É só saber poupar e ter juízo...
– Nas terras d’além-mar, um dia piso!

Nilza Azzi
35

Cultivares

Quando, da sutilíssima assertiva,
os raios espalhados forem claros
e assim da nossa alma o desamparo,
menor, após a luz que a faz mais viva.

Quando for revelado o fato raro
de que a fé traz a força conclusiva
e assim,  já não houver a recidiva
do mal, porque deixou de ter amparo.

Talvez, ao ver a linha, o homem cruze-a
e chegue a conhecer outras paragens,
cultive um bom jardim e, com cuidado,

prepare o coração para a parúsia.
Talvez reaja à luz... Assim reagem,
os girassóis, num campo cultivado.

Nilza Azzi

 
56

Na vã desilusão


Na vã desilusão, na dura pena,
o mundo nem me acena e a dor invade
o vão onde me escondo, onde se encena...
Num palco sem plateia, sou metade.

Perfeita ribanceira: – Eis a falena!
Crimeia, onde ficaste? Qual maldade
disfarça o torpe mal, em luz serena;
subir nesse telhado, pois, quem há de?

Noviça em corredores estendidos,
caminha e vai deixando seus ruídos,
manchando esse silêncio necessário.

Partículas ou ondas, corolário...
A vida e as alternâncias! Vá! Encare-o!
– É seu fantasma! E o medo, assim, serena.

Nilza Azzi


46

Chave

Quero novos caminhos para mim;
terra selvagem, bruta, primordial,
um verde que não deixe ver seu fim,
um mundo, onde nada é tal e qual...

As flores de perfume sem igual,
o canto celestial dos serafins,
o cheiro familiar do meu quintal,
detalhes sobre a fonte de onde vim.

Num bosque onde jamais vão me encontrar
habita a solidão...  A paz ofusca
e faz do meu saber o meu fracasso.

Porém, se abro a trilha com meu braço,
quero cobrir de véus o céu da busca,
guardar algum mistério no que faço.

Nilza Azzi

 

47

Cruela

Assim ao acaso, pousei noutros ninhos,
esperto chupim, deles fiz o meu lar.
Criei meus filhotes, sem nenhum trabalho;
quebrei o meu galho, fiz crescer a prole.

Não é nada mole criar filho alheio,
mas nunca receio e consigo meu tento.
E vão meus rebentos crescendo saudáveis,
sou sábia coruja; olho os meus filhotinhos...

Nasci passarinho, mas vivo folgada
e até dou risada do tal tico-tico,
pois o pobrezinho tem parca visão.

Seu bom coração me socorre no apuro,
mantendo seguro meu ovo estrangeiro,
que marca presença nesse ninho raso.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!