Lista de Poemas
Segredo
... E displicente disse a juventude:
– Se tudo quero, tudo posso e faço!
Não receio o cansaço a que se alude,
a vida inteira posso ter nos braços.
Disse a velhice – Fiz tudo que pude...
São metas diferentes que ora traço
e nessas metas nada mais é rude,
pois hoje evito a dor e o embaraço.
Beijou a juventude em plena face,
sorriu e foi embora, sem deixar
que a outra em tal sorriso reparasse.
Sobrou à juventude, em seu lugar,
a vontade, o ardor, o afã do enlace
e à velhice, um segredo singular.
Nilza Azzi
– Se tudo quero, tudo posso e faço!
Não receio o cansaço a que se alude,
a vida inteira posso ter nos braços.
Disse a velhice – Fiz tudo que pude...
São metas diferentes que ora traço
e nessas metas nada mais é rude,
pois hoje evito a dor e o embaraço.
Beijou a juventude em plena face,
sorriu e foi embora, sem deixar
que a outra em tal sorriso reparasse.
Sobrou à juventude, em seu lugar,
a vontade, o ardor, o afã do enlace
e à velhice, um segredo singular.
Nilza Azzi
59
Selfie
Prossigo a minha estrada, no correr dos dias,
a tudo indiferente, sem tristeza ou festa.
A folha de papel é tudo que me resta,
encher com meus rascunhos as linhas vazias.
Não sei imaginar mais que proeza é esta,
buscar dissolução das formas arredias
e nestes meus rabiscos esquecer das guias
e da sabedoria que o passado atesta.
Seguir sem vãs lembranças, recriar a lida,
erguer a cada passo o pé da caminhada,
pisar a nova estrada sem saber de nada...
Um gesto que desfia a ilusão perdida
e ajusta o contratempo de qualquer percalço
– um modo de escrever inútil, tolo, falso!
Nilza Azzi
a tudo indiferente, sem tristeza ou festa.
A folha de papel é tudo que me resta,
encher com meus rascunhos as linhas vazias.
Não sei imaginar mais que proeza é esta,
buscar dissolução das formas arredias
e nestes meus rabiscos esquecer das guias
e da sabedoria que o passado atesta.
Seguir sem vãs lembranças, recriar a lida,
erguer a cada passo o pé da caminhada,
pisar a nova estrada sem saber de nada...
Um gesto que desfia a ilusão perdida
e ajusta o contratempo de qualquer percalço
– um modo de escrever inútil, tolo, falso!
Nilza Azzi
42
Eras
Eras entre os amores, preferido,
à noite o raio de luar, e o sol
que dava ao dia o brilho e o sentido,
da primavera, o encanto do arrebol,
e, também, eras música ao ouvido...
Contigo o encanto e a cor da natureza,
o livro aberto que nunca foi lido,
eterna dúvida e pouca certeza,
a clara solidão do meu caminho,
a rota, o desatino do meu rumo
e a frouxa gratuidade das quimeras.
Se o teu melhor segredo eu adivinho,
as dores do abandono enfim assumo,
em face da alegria de outras eras.
Nilza Azzi
à noite o raio de luar, e o sol
que dava ao dia o brilho e o sentido,
da primavera, o encanto do arrebol,
e, também, eras música ao ouvido...
Contigo o encanto e a cor da natureza,
o livro aberto que nunca foi lido,
eterna dúvida e pouca certeza,
a clara solidão do meu caminho,
a rota, o desatino do meu rumo
e a frouxa gratuidade das quimeras.
Se o teu melhor segredo eu adivinho,
as dores do abandono enfim assumo,
em face da alegria de outras eras.
Nilza Azzi
50
Fascínio
Quando, da tua boca que fascina,
bebo desse desejo que me aquece,
tenho ciência desta minha sina,
de ser mulher, sem merecer benesse,
pois teu poder viril tem toxinas,
às quais eu não resisto, nem com prece.
Com parte na fraqueza feminina,
eu sou o dia claro que anoitece.
Padeço dessa ausência que há de mim,
e nela me transformas, sem que eu queira,
nesse vulcão que abriga fogo e lava.
Eu morro em teu abraço como escrava,
como se fosse coisa corriqueira
alçar-me à erupção que leva ao fim.
Nilza Azzi
bebo desse desejo que me aquece,
tenho ciência desta minha sina,
de ser mulher, sem merecer benesse,
pois teu poder viril tem toxinas,
às quais eu não resisto, nem com prece.
Com parte na fraqueza feminina,
eu sou o dia claro que anoitece.
Padeço dessa ausência que há de mim,
e nela me transformas, sem que eu queira,
nesse vulcão que abriga fogo e lava.
Eu morro em teu abraço como escrava,
como se fosse coisa corriqueira
alçar-me à erupção que leva ao fim.
Nilza Azzi
22
Desgaste
Perder-te trouxe a dor que ainda me pega,
no meio desta angústia tola e cega.
Foi como aquela tela que se apaga:
o filme terminou e morre a vaga.
A dor nos faz crescer, alguém alega,
mas choro sempre foi demais piegas.
O risco, conferido pela adaga,
traduz – aqui se faz, aqui se paga...
Na testa permanece aquela ruga,
a lágrima escapou, um lenço enxuga,
murmuro minha prece – quieta – rogo.
O corpo, então, contrito feito viga,
prossigo, cônscia – sei que ninguém liga –
e a fome de viver me assalta logo.
Nilza Azzi
no meio desta angústia tola e cega.
Foi como aquela tela que se apaga:
o filme terminou e morre a vaga.
A dor nos faz crescer, alguém alega,
mas choro sempre foi demais piegas.
O risco, conferido pela adaga,
traduz – aqui se faz, aqui se paga...
Na testa permanece aquela ruga,
a lágrima escapou, um lenço enxuga,
murmuro minha prece – quieta – rogo.
O corpo, então, contrito feito viga,
prossigo, cônscia – sei que ninguém liga –
e a fome de viver me assalta logo.
Nilza Azzi
21
Cultivares
Quando, da sutilíssima assertiva,
os raios espalhados forem claros
e assim da nossa alma o desamparo,
menor, após a luz que a faz mais viva.
Quando for revelado o fato raro
de que a fé traz a força conclusiva
e assim, já não houver a recidiva
do mal, porque deixou de ter amparo.
Talvez, ao ver a linha, o homem cruze-a
e chegue a conhecer outras paragens,
cultive um bom jardim e, com cuidado,
prepare o coração para a parúsia.
Talvez reaja à luz... Assim reagem,
os girassóis, num campo cultivado.
Nilza Azzi
os raios espalhados forem claros
e assim da nossa alma o desamparo,
menor, após a luz que a faz mais viva.
Quando for revelado o fato raro
de que a fé traz a força conclusiva
e assim, já não houver a recidiva
do mal, porque deixou de ter amparo.
Talvez, ao ver a linha, o homem cruze-a
e chegue a conhecer outras paragens,
cultive um bom jardim e, com cuidado,
prepare o coração para a parúsia.
Talvez reaja à luz... Assim reagem,
os girassóis, num campo cultivado.
Nilza Azzi
47
Porto
Quando Augusto sorriu, foi o bastante...
– Armadilha de amor – fez-me cativa!
Do seu beijo, bebi doce saliva,
sem querer me perdi. Fui mais adiante.
No frescor das manhãs de Sol radiante,
a caminho da escola, eu, sempre viva,
era a mulher fatal, a eterna diva,
era enfim sedutora, embora infante.
Quando Augusto partiu, sem mais aviso,
restou-me suportar a triste história,
sofrer, sentir a alma merencória.
Mas não vou dar a mão á palmatória.
É só saber poupar e ter juízo...
– Nas terras d’além-mar, um dia piso!
Nilza Azzi
26
Negação
O vento sopra baixo e faz tremer as folhas,
o tempo está suspenso e aponta a transição,
a luz também declina, as horas lentas vão...
Procuro o teu afeto. Espero que me acolhas.
A tarde é morna, o Sol sumiu naquele vão,
o vento sopra o céu, as nuvens formam bolhas
e logo mais o quarto enluará e, então,
meu canto largo ao vento. Espero que o recolhas.
Mas não, não quero isso, a Lua me aconselha
a contemplar no céu a estrela mais vermelha,
a entender que o sonho é construído assim,
na pretensão rasteira e o meu repúdio à guerra,
porque, se a solidão, qualquer mortal desterra,
jamais aceito a posse — é força estranha a mim!
Nilza Azzi
41
Na vã desilusão
Na vã desilusão, na dura pena,
o mundo nem me acena e a dor invade
o vão onde me escondo, onde se encena...
Num palco sem plateia, sou metade.
Perfeita ribanceira: – Eis a falena!
Crimeia, onde ficaste? Qual maldade
disfarça o torpe mal, em luz serena;
subir nesse telhado, pois, quem há de?
Noviça em corredores estendidos,
caminha e vai deixando seus ruídos,
manchando esse silêncio necessário.
Partículas ou ondas, corolário...
A vida e as alternâncias! Vá! Encare-o!
– É seu fantasma! E o medo, assim, serena.
Nilza Azzi
36
Chave
Quero novos caminhos para mim;
terra selvagem, bruta, primordial,
um verde que não deixe ver seu fim,
um mundo, onde nada é tal e qual...
As flores de perfume sem igual,
o canto celestial dos serafins,
o cheiro familiar do meu quintal,
detalhes sobre a fonte de onde vim.
Num bosque onde jamais vão me encontrar
habita a solidão... A paz ofusca
e faz do meu saber o meu fracasso.
Porém, se abro a trilha com meu braço,
quero cobrir de véus o céu da busca,
guardar algum mistério no que faço.
Nilza Azzi
terra selvagem, bruta, primordial,
um verde que não deixe ver seu fim,
um mundo, onde nada é tal e qual...
As flores de perfume sem igual,
o canto celestial dos serafins,
o cheiro familiar do meu quintal,
detalhes sobre a fonte de onde vim.
Num bosque onde jamais vão me encontrar
habita a solidão... A paz ofusca
e faz do meu saber o meu fracasso.
Porém, se abro a trilha com meu braço,
quero cobrir de véus o céu da busca,
guardar algum mistério no que faço.
Nilza Azzi
38
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!