Natividades
O amor é feito amor,
num dia.
Mesmo sem esperança,
a alegria brota.
Sete crianças,
numa praia de areia
branca,
convidavam
para a festa
de seus sete anos...
Tudo era a carícia calma
do sol no corpo
e a sagração da vida
ali mesmo se fazia.
Sete vezes sete,
é curta a espera,
quando o amor
torna-se amor sem tempo
e pronto!
Nilza Azzi
metáfora
ó límpida água
que espirra
asperge
borrifa
orvalha
e respinga
ó água tão pura
que hidrata
escorre
lava
e repara
ó água tão fresca
que é gozo
afago
carícia
alegria
e folguedo
as penas molhadas
os gritos, os jatos
a bênção do banho
nilza azzi
Belas
E repousam em paz as belas-letras,
no seu mundo quieto e sem furor,
entre as sombras escusas das mutretas,
que as vontades humanas vêm dispor.
Ao sabor do que a sorte lhes retira,
sem o prisma mais caro ao seu valor,
submetem-se ao fogo dessa pira,
desprovidas de um vate protetor.
Mas se a Deusa no átrio se admira,
é que tem seu olhar além do agora
rechaça o insustável da mentira,
que nem sempre revela onde mora.
Alma, encanto gentil, polichinelo,
entre um fundo de cartas, amarelo.
Nilza Azzi
A pedra
Nas manhãs que descem pelo espaço nuas,
com as vestes claras, cada dia uma,
a neblina some, leve como espuma.
– Na tragédia cósmica, o princípio atua.
Se nada é eterno, nada resta, em suma,
tudo chega ao fim e ali se desvirtua,
quanta insipidez expõe a forma crua!
A verdade dói! – Dói como nenhuma...
É nos vãos da noite que o mau sonho medra.
É da inquietude, feita de suspense,
essa coalisão de tais palavras tolas.
Pobres das ideias, de quem ousa expô-las!
Bem melhor fugir das teses em que pense
essa massa inútil, próxima da pedra.
Nilza Azzi
elipse
aqui nas profundezas em que vivo
a dor me basta e nada mais preciso
os mares são escuros e vazios
e neles já não desembocam rios
a chuva doce sobre a superfície
não mata o sal e crer nisso é sandice
o sol que esquenta a crista destas águas
não chega ao fundo nem derrete as mágoas
a lua que já produziu poesia
é massa morta e sonhos já não cria
se o sonho é a vil matéria da esperança
a vida sem sentido em mim descansa
nilza azzi
Viés
olho os teus poemas
com olhos de través
cortando as palavras
num viés bem comprido
num mergulho indefeso
nos jogos de sentido
barco sem leme
entre luas e corujas
e mares e pontes
e o coração que treme
nilza azzi
Leituras
Procura-me, perdida nos teus olhos,
no momento em que a chama atinge o pico,
e verás que sorrio e não me entendes,
porque tu nada sabes do infinito.
Vem a mim nos jardins e nos pomares,
vê que exulto entretida no trabalho
e os meus ares dirão que estou feliz
— Poderás entrever restos de sonhos.
Se a caminho da praia tu me encontras,
nos olhares perdidos bailam luzes
— sutilezas do mar enchendo os ares —
as verdades de ser fecham-se em conchas.
Ao entrares na casa sombreada,
no silêncio das tardes protegida,
tenho um livro nas mãos, um mundo posto
e não podes decifrar este sorriso.
Procura-me, se chego da viagem
e despejo a bagagem pela cama,
Pois, se volto, a saudade me venceu
— Nada sabes das lendas de quem ama.
Nilza Azzi
Abalo
Nada pode provocar-me a lucidez,
mesmo quando resisto ao convite
do caminho que me afasta de ti...
A poesia esvaziou-se de palavras
e nesse vácuo
não há mais o que temer.
Assusta-me o risco de não poder mais
não conseguir chegar ao lugar
onde repousa a tua alma
e aguentar a solidão...
Deixo-me apenas escapar
do que não sou
pois não há valor no mundo trivial.
O mapa do tesouro foi perdido
e cada voz se abala
nas histórias que viveu.
Difícil e perigoso
é o caminho que me afasta de ti,
mas ainda encontro fadas nos regatos
e seres da natureza junto às fontes.
Nilza Azzi
stripper
brilha uma luz
ecoa um som que chega quase sem sentido
por todo o bar o som das vozes emudece
a perfeição da dançarina é irreal
contém a glória de um segredo inviolado
mas muitas palmas e assobios requisitam
que tire logo alguma peça
uma por vez
embora saiba o que ao final terá perdido
ela começa o ritual que já conhece
bem calmamente, então, começa a se despir
sabendo os truques que entretém uma plateia
e não revela nada além do que não quer
a maquiagem que recobre a sua face
mantém o rosto impassível nessa máscara
no frenesi que vai seguindo há quase luta
uma disputa por um tempo prolongado
mas afinal o jogo acaba e resta ao palco
um corpo frágil infeliz e quase nu
e uma verdade disfarçada em cada gesto
nilza azzi
luzes
já cedo acordou Lucinda
bem antes do sol surgir
na barriga leva ainda
o filho que irá parir
as dores da vida brinda
qual bebesse um elixir
não chega o sol ao nadir
e a tarefa dá por finda
coseu uma peça linda
um cueiro de zefir...
nilza azzi