Barragem
Não foi do teu amor que eu me salvei,
também não foi da pena que deixaste...
O amor quando aparece quer ser lei,
mas flor não se sustenta sem ter haste.
O porto dessa ilha, à qual cheguei,
é abrigo que me poupa do desgaste.
Aqui já não há trono nem há rei,
não há qualquer corrente que me arraste.
As águas são mais calmas. Enseadas
permitem desfrutar de um mar seguro,
repleto de piscinas naturais.
Lembranças permanecem represadas,
contidas com firmeza atrás do muro
e a dor calou, à força, quaisquer ais.
Nilza Azzi
Apuro
Sumir-se enfim, se não existe em nós
mais esperanças de seguir adiante,
mas entender que, por um breve instante,
de um sonho, pôde revelar-se a voz.
Seguir a luz, a esfera delirante,
tocar o céu, perdê-lo logo após
– reconhecer que a dor é mais veloz
e a alegria, o tempo de um flagrante.
Depois saber que nada do que passa
pode alterar a nossa irrelevância,
ou afastar de nós a velha sina...
À ilusão, roubar-lhe a eterna graça,
por relegar ao limbo, o sonho e a ânsia...
Elevar a tristeza à dor mais fina.
Nilza Azzi
Pobre
Um coração de pedra
uma alma líquida
medra um sofrimento
nesta vida insípida
escorreguei na chuva
a voz se foi num susto
e o custo disso é alto
é estranho ao conhecer
a casa do outro lado
e o lago silencioso
Nilza Azzi
Natividades
O amor é feito amor,
num dia.
Mesmo sem esperança,
a alegria brota.
Sete crianças,
numa praia de areia
branca,
convidavam
para a festa
de seus sete anos...
Tudo era a carícia calma
do sol no corpo
e a sagração da vida
ali mesmo se fazia.
Sete vezes sete,
é curta a espera,
quando o amor
torna-se amor sem tempo
e pronto!
Nilza Azzi
Órfã
Hoje o mundo jaz, de um modo tão pequeno,
que eu me vejo só, em meu jardim secreto.
Sei, de pai e mãe, o que é perder o afeto;
sei o que é um adeus – quisera sofrer menos!
Herdo esta ilusão de um ninho mais seleto,
pleno de prazer, tão cálido e sereno,
que não sei viver distante desse reino.
Faço a minha lei; governo por decreto.
Meu casulo, enfim, é o berço em que, dormente,
tenho em minhas mãos o sonho da semente
e meu coração, que desconhece o medo,
segue a procurar a terra prometida.
Ao que chegue a vez, escolho uma saída:
– tens, ó solidão, um gosto amargo e azedo.
Nilza Azzi
Fratura
Partiu-se a porcelana em mil pedaços,
a bela estatueta, o bibelô...
A vida também tem vários fracassos
e assim, nossa amizade não durou.
Distâncias separaram nossos passos,
findou-se aquele jogo de ioiô...
Os bens da criatura são escassos,
é fato e a natureza o revelou.
Com força inabalável e segura
desfez-se a esperteza desse engodo,
porque sou bem difícil de enganar.
Sinais, os pressenti, peguei no ar,
suspeitos, a passar por mim a rodo,
e assim foi-se a quimera, um dia pura.
Nilza Azzi
Abalo
Nada pode provocar-me a lucidez,
mesmo quando resisto ao convite
do caminho que me afasta de ti...
A poesia esvaziou-se de palavras
e nesse vácuo
não há mais o que temer.
Assusta-me o risco de não poder mais
não conseguir chegar ao lugar
onde repousa a tua alma
e aguentar a solidão...
Deixo-me apenas escapar
do que não sou
pois não há valor no mundo trivial.
O mapa do tesouro foi perdido
e cada voz se abala
nas histórias que viveu.
Difícil e perigoso
é o caminho que me afasta de ti,
mas ainda encontro fadas nos regatos
e seres da natureza junto às fontes.
Nilza Azzi
Reverso
Como ela pode assim ignorar-me,
não perceber do quanto sou capaz
e resistir à força do meu charme?
Essa mulher tem muito orgulho, mas
antes que note, ou que dispare o alarme,
conhecerá a dor, não terá paz.
Mesmo que um dia venha a odiar-me,
irei em frente, sem voltar atrás.
Toda vingança é doce e eu sei disso;
que pouco a pouco ela perca o viço
e, já sem forças, dobre-se a meus pés...
E assim que a vir, vencida e submissa,
serei senhor de todas as delícias,
ao lhe dizer enfim: − Tu nada és!
Nilza Azzi
Devaneio
A esquina do meu desejo
hospeda bela roseira...
Quando vejo os seus botões,
quase prontos a se abrir,
reparo que um céu azul
lhes dá contraste perfeito.
Porém mais além da curva,
depois da velha porteira,
o campo suspira ao vento
e a saudade é verdadeira.
Nilza Azzi
Leituras
Procura-me, perdida nos teus olhos,
no momento em que a chama atinge o pico,
e verás que sorrio e não me entendes,
porque tu nada sabes do infinito.
Vem a mim nos jardins e nos pomares,
vê que exulto entretida no trabalho
e os meus ares dirão que estou feliz
— Poderás entrever restos de sonhos.
Se a caminho da praia tu me encontras,
nos olhares perdidos bailam luzes
— sutilezas do mar enchendo os ares —
as verdades de ser fecham-se em conchas.
Ao entrares na casa sombreada,
no silêncio das tardes protegida,
tenho um livro nas mãos, um mundo posto
e não podes decifrar este sorriso.
Procura-me, se chego da viagem
e despejo a bagagem pela cama,
Pois, se volto, a saudade me venceu
— Nada sabes das lendas de quem ama.
Nilza Azzi