Lista de Poemas
Bambu
Essa forma que existe e que é de fato
um ato impreciso e coerente
confirma que paguei, foi bem barato
o preço pela graça do presente.
O centro do episódio, esse eu relato,
nas formas de um evento delinquente,
chegou de mim bem perto e pago o pato,
enquanto essa poeira não se assente.
Suzana abusou da confiança
que nela sempre tive, e da amizade...
Soprou aos quatro ventos que sou má.
Porém, não há verdade e se é que a há,
na certa, nova dúvida me invade:
− Bambu, se sopra o vento, ele balança?
Nilza Azzi
54
Leituras
Procura-me, perdida nos teus olhos,
no momento em que a chama atinge o pico,
e verás que sorrio e não me entendes,
porque tu nada sabes do infinito.
Vem a mim nos jardins e nos pomares,
vê que exulto entretida no trabalho
e os meus ares dirão que estou feliz
— Poderás entrever restos de sonhos.
Se a caminho da praia tu me encontras,
nos olhares perdidos bailam luzes
— sutilezas do mar enchendo os ares —
as verdades de ser fecham-se em conchas.
Ao entrares na casa sombreada,
no silêncio das tardes protegida,
tenho um livro nas mãos, um mundo posto
e não podes decifrar este sorriso.
Procura-me, se chego da viagem
e despejo a bagagem pela cama,
Pois, se volto, a saudade me venceu
— Nada sabes das lendas de quem ama.
Nilza Azzi
47
Belas
E repousam em paz as belas-letras,
no seu mundo quieto e sem furor,
entre as sombras escusas das mutretas,
que as vontades humanas vêm dispor.
Ao sabor do que a sorte lhes retira,
sem o prisma mais caro ao seu valor,
submetem-se ao fogo dessa pira,
desprovidas de um vate protetor.
Mas se a Deusa no átrio se admira,
é que tem seu olhar além do agora
rechaça o insustável da mentira,
que nem sempre revela onde mora.
Alma, encanto gentil, polichinelo,
entre um fundo de cartas, amarelo.
Nilza Azzi
no seu mundo quieto e sem furor,
entre as sombras escusas das mutretas,
que as vontades humanas vêm dispor.
Ao sabor do que a sorte lhes retira,
sem o prisma mais caro ao seu valor,
submetem-se ao fogo dessa pira,
desprovidas de um vate protetor.
Mas se a Deusa no átrio se admira,
é que tem seu olhar além do agora
rechaça o insustável da mentira,
que nem sempre revela onde mora.
Alma, encanto gentil, polichinelo,
entre um fundo de cartas, amarelo.
Nilza Azzi
41
Silêncio
Há calma! E se nenhuma ave canta,
e morre na garganta o canto meu,
as folhas não se mexem por espanto.
Perdeu-se a voz do amor e então se grave,
nas bolhas que esse vácuo emudeceu,
a ausência e a condição não desejada
e nada, nada mesmo, eu sei que nada,
da atroz separação trará consolo.
Se o dolo de uma espera sem resposta,
não pode a mim trazer mais nenhum mal,
quisera o bom silêncio da quimera...
Sacode a minha alma em sobressalto
aquela voz que, incauta, inda procuro
no silêncio, tão escuro, de minh’alma.
Nilza Azzi
11
O vento e a noite
É noite no deserto, a areia dorme fria,
as sombras do luar escorrem pelas dunas,
a brisa vai soprando os grãos em tal quantia,
que a forma do lugar com nada se coaduna.
A abóbada celeste é bela e contraria
a enorme solidão e a sensação diurna
do sol, cuja inclemência e falta de empatia
são mais que uma ameaça e a vida, uma lacuna.
E o vento que segreda aos grãos, em tom suave,
respostas que roubou das asas de uma ave,
refresca ainda mais a senda e o viajante
nem chega a conceber, no entorno delirante,
o quanto o tal segredo o livra do perigo
e, em triste confusão, conversa, a sós, consigo.
Nilza Azzi
54
Expediente
Espanto
não o mesmo de sempre
ou a dor mais antiga
antes o caminho do sonho
límpida esperança das manhãs
nuvens flocadas e brancas
sem prenúncio de tormenta
Súbito
não porque fosse feliz
muito mais por ser real
a vida escorre
amo sem palavras
de um fervor inconfessável
por trás dos meus ombros
os verbos clamam por vez
no silêncio das doçuras primitivas
a maldade atravessa
aquém dos meus limites
não soubesse o desejado
quisera-te sempre
mas luzes estrangeiras
levaram-te em carruagens
Catacrese
atordoadas e sem jeito
ajeitam-se em filas
palavras nascedouras
a fonte verte o líquido
límpido e correto
nada é inocente
num poema reescrito
Nilza Azzi
34
Devaneio
A esquina do meu desejo
hospeda bela roseira...
Quando vejo os seus botões,
quase prontos a se abrir,
reparo que um céu azul
lhes dá contraste perfeito.
Porém mais além da curva,
depois da velha porteira,
o campo suspira ao vento
e a saudade é verdadeira.
Nilza Azzi
17
Se
Se, quando eu amei, venceu-me o susto,
foi no teu olhar que eu me perdi,
tal se não vivesse mais aqui,
mas na sombra do teu corpo augusto,
tal se o céu se achasse bem ali,
naquele teu abraço em que me ajusto.
Nilza Azzi
33
Prece
Leva, além da luz que envolve a alma,
passos que deixei atrás de mim;
leva embora a dor que não se acalma,
tudo que há de falso ou de ruim.
Leva a sensação de incompletude
toda incompreensão e crueldade,
leva a solidão, pois amiúde
ela se aproxima e não se evade.
Deixa apenas força, por favor,
o suficiente para ir adiante.
Deixa o sonho vivo, bom Pastor,
abençoa a ovelha vacilante.
Quando o dia finda e anoitece,
leve o vento, a Ti, a minha prece!
Nilza Azzi
39
Garoa
Esse frio desde cedo, desde ontem,
desde sempre... gela os ossos a doer.
O cinza por sobre o sol,
neblina constante e densa,
a cidade encantada, adormecida,
desabitada de vida aparente.
Névoas correm com o vento,trocam de lugar,
mas não se dispersam, em seu passeio
sobre os contornos difusos de uma ou outra cor,
mas logo retorna o mundo oculto,
que à visão desconforta,
quase desolação.
Adivinha-se em segredo,
cada vida ali presente,
resguardada pela névoa.
Gotas delicadas, pequenas
carícias leves, geladas,
descem suavemente do céu.
Nilza Azzi
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Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!