Pequenas questões
O que será...
o que será poético mesmo sem ter metro
e mesmo ainda que lhe falte rima
a lua, as estrelas, uma flor, o arco-íris
o sentimento que me escreve
o escrever a desvendar as emoções
ou será essa vontade de saber por que existo nesse mundo
um vazio nas entranhas
uma voz
um saber sem palavras repetidas pelas pautas e entrelinhas
a poeira ao sol
cristais de gelo, folhas orvalhadas, manhãs com neblina
a garoa de São Paulo
minhas lágrimas
o chão de um deserto depois da chuva
as nuvens do céu a alterar as formas que eu invento
um sorriso...
O que será dessa estátua de sal em que tornei o meu reflexo
um grito ou uma súplica
uma vontade de fazer valer o proibido
Nilza Azzi
Silêncio
Há calma! E se nenhuma ave canta,
e morre na garganta o canto meu,
as folhas não se mexem por espanto.
Perdeu-se a voz do amor e então se grave,
nas bolhas que esse vácuo emudeceu,
a ausência e a condição não desejada
e nada, nada mesmo, eu sei que nada,
da atroz separação trará consolo.
Se o dolo de uma espera sem resposta,
não pode a mim trazer mais nenhum mal,
quisera o bom silêncio da quimera...
Sacode a minha alma em sobressalto
aquela voz que, incauta, inda procuro
no silêncio, tão escuro, de minh’alma.
Nilza Azzi
Garoa
Esse frio desde cedo, desde ontem,
desde sempre... gela os ossos a doer.
O cinza por sobre o sol,
neblina constante e densa,
a cidade encantada, adormecida,
desabitada de vida aparente.
Névoas correm com o vento,trocam de lugar,
mas não se dispersam, em seu passeio
sobre os contornos difusos de uma ou outra cor,
mas logo retorna o mundo oculto,
que à visão desconforta,
quase desolação.
Adivinha-se em segredo,
cada vida ali presente,
resguardada pela névoa.
Gotas delicadas, pequenas
carícias leves, geladas,
descem suavemente do céu.
Nilza Azzi
Descartes
O incomensurável espanto
gastar-se em êxtase e contemplação
um universo não cabe num poema
nem em anos contados aos bilhões
sejam máquinas ou mentes humanas
quanto a notar a harmonia das galáxias
guardar o sagrado...
Finito no tempo é o que pensam
o universal conterá em seus limites
todos os universos
mas sempre haverá poesia
Nilza Azzi
Prece
Leva, além da luz que envolve a alma,
passos que deixei atrás de mim;
leva embora a dor que não se acalma,
tudo que há de falso ou de ruim.
Leva a sensação de incompletude
toda incompreensão e crueldade,
leva a solidão, pois amiúde
ela se aproxima e não se evade.
Deixa apenas força, por favor,
o suficiente para ir adiante.
Deixa o sonho vivo, bom Pastor,
abençoa a ovelha vacilante.
Quando o dia finda e anoitece,
leve o vento, a Ti, a minha prece!
Nilza Azzi
Aqueles dias
Tenho dias
em que se perdem
todas as minhas guias
e apenas desejo
aquele dia
fora do tempo
do calendário maia
Fere-me a sensação sufocante
dos dias afundados no tempo
em que a ampulheta cósmica
escorre além de banais suposições
Alguns dias como eu queria
que fossem bolhas
sem amanhã
Nilza Azzi
Id
De onde sairão os pensamentos fortes
que vencerão as mortes além da lousa fria
se as luas derrubadas nas montanhas
não mais terão o encanto
da perene luz vadia?
Dos velhos lobos que uivavam nas campinas
já não ressoam mais as vozes estranhas.
Das formas tamanhas e espectrais
os muitos barcos no cais
restarão apenas sombras inofensivas
e a lembrança enevoada das gradivas
fenecerá com seu último espanto.
Se não chega para tanto, a primavera desistiu talvez...
Entre os absurdos e as auroras existiria um mundo, ou sonhei?
Se não há lei que torne a realidade menos cruel
desisto de esperar, deponho a pena.
Deuses dos desertos visitados
falam dos pecados e fujo em pânico.
Sem céu a clarear-me a nova estrada
a equivocada estrela no horizonte
some sem que aponte campos verdes ou florestas
e as pequenas flores da giestas caem ao chão sem sentido
sem mesmo aspirar-lhes o perfume
qualquer criatura mais sensível.
Debruço-me sobre o precipício das vaidades
e a vertigem atinge onde me alcança.
Perdeu-se uma criança que já não tinha medo
e a experiência de morrer apenas começou...
Nilza Azzi
Duvido que você saiba
Duvido que você saiba
me explicar o que aqui fiz.
Se o texto, com seus segredos,
sumiu, diante do nariz,
ou ficou no vão dos dedos.
Quero ver você agora
vir salvar-me dos meus medos!
Duvido que você saiba
o que eu senti agora.
Quando jorra o chafariz,
a lágrima se evapora,
mesmo se nos faz feliz?
Quero ver você agora
escapar por esse triz!
Duvido que você saiba
ler piada sem sorrir.
Se um quarto é inteiro
quando é feito pra dormir,
deter fogo sem aceiro...
Quero ver você agora,
contar tempo sem dinheiro!
Duvido que você saiba
cortar a água com faca,
tirar o leite das pedras,
onde encontrar uma paca,
porque uma nuvem empedra...
Quero ver você agora
achar onde o vento medra!
Duvido que você saiba
que não morre uma amizade,
nem mesmo quando se crê
que tempo mata a saudade
daquilo que não se vê...
Quero ver você agora
entender o que aqui lê!
Duvido que você saiba
viver em ilha deserta
e ainda achar alguém
na hora e medida certa
e não duvidar de ninguém...
Quero ver você agora
trocar tostão por vintém!
Nilza Azzi
luzes
já cedo acordou Lucinda
bem antes do sol surgir
na barriga leva ainda
o filho que irá parir
as dores da vida brinda
qual bebesse um elixir
não chega o sol ao nadir
e a tarefa dá por finda
coseu uma peça linda
um cueiro de zefir...
nilza azzi
Assim foi que chorei...
"No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho"
(Carlos Drummond de Andrade)
No meio do caminho estava elae não era a pedra, era a palavrafoi quando tudo deixou de ser simplese o meu horizonte escureceuA palavra não era a pedranem o caminho do meioera o meio e o caminhoera o meio do caminhoera tudo que se viaNão havia como desviarimpossível um ar de indiferençauma simulação de que não viNão! Prosseguir sem enfrentá-lanem pensar, nem sequer uma chancede agir como a água e contornarpassar ao lado, assobiando baixosem um ai ou mesmo um arrepio...Era o obstáculo realo reconhecimento de que escarneciada natural forma de dizer-seainda assim pensei em algum truquea forma mais banal de soluçãoPensei em dar um salto, ultrapassara sua arrogância, o desacatoporém aquela força intimidou-medesisti do trajeto bloqueadoSe não puder vencê-la, dizem todos...Juntei-me à palavra atravessadadeixei crescer o nó pela gargantae rolei em regato vida aforaNilza Azzi