Lista de Poemas

Duvido que você saiba

Duvido que você saiba
me explicar o que aqui fiz.
Se o texto, com seus segredos,
sumiu, diante do nariz,
ou ficou no vão dos dedos.
Quero ver você agora
vir salvar-me dos meus medos!

Duvido que você saiba
o que eu senti agora.
Quando jorra o chafariz,
a lágrima se evapora,
mesmo se nos faz feliz?
Quero ver você agora
escapar por esse triz!

Duvido que você saiba
ler piada sem sorrir.
Se um quarto é inteiro
quando é feito pra dormir,
deter fogo sem aceiro...
Quero ver você agora,
contar tempo sem dinheiro!

Duvido que você saiba
cortar a água com faca,
tirar o leite das pedras,
onde encontrar uma paca,
porque uma nuvem empedra...
Quero ver você agora
achar onde o vento medra!

Duvido que você saiba
que não morre uma amizade,
nem mesmo quando se crê
que tempo mata a saudade
daquilo que não se vê...
Quero ver você agora
entender o que aqui lê!

Duvido que você saiba
viver em ilha deserta
e ainda achar alguém
na hora e medida certa
e não duvidar de ninguém...
Quero ver você agora
trocar tostão por vintém!

Nilza Azzi

 
53

Fratura


Partiu-se a porcelana em mil pedaços,
a bela estatueta, o bibelô...
A vida também tem vários fracassos
e assim, nossa amizade não durou.

Distâncias separaram nossos passos,
findou-se aquele jogo de ioiô...
Os bens da criatura são escassos,
é fato e a natureza o revelou.

Com força inabalável e segura
desfez-se a esperteza desse engodo,
porque sou bem difícil de enganar.

Sinais, os pressenti, peguei no ar,
suspeitos,  a passar por mim a rodo,
e assim foi-se a quimera, um dia pura.

Nilza Azzi
47

Dimensões


A fina linha azul que envolve a Terra,
nos limites de nossa atmosfera,
diz: — tudo sob o céu, calor encerra —
e, na medida exata, o reverbera.

A água, condensada sobre a serra,
traz chuva e faz florir a primavera.
Despenca a cachoeira, o lago cerra,
a neve envolve o Sul em luz cinérea.

Em torno de Saturno, antelucano,
Titã nos lembra a Terra primordial,
com líquido num ciclo correlato.

Num mundo penso, hostil , nuvem é fato.
Nos polos, muito gelo. — Sobre o vau,
há mares , lagos, rios — de metano.

Nilza Azzi

57

Aqueles dias


Tenho dias  
em que se perdem  
todas as minhas guias  
e apenas desejo  
aquele dia  
fora do tempo  
do calendário maia  

Fere-me a sensação sufocante  
dos dias afundados no tempo  
em que a ampulheta cósmica  
escorre além de banais suposições  

Alguns dias como eu queria  
que fossem bolhas  
sem amanhã  

Nilza Azzi
46

Encanto quebrado


"São onze e meia da noite, /e eu quero ficar contigo.
Quero menos paciência /e um pouco mais de loucura..." 
(Balada das Onze e Meia)
Joaquim Pessoa


Essa eterna meia hora  

em que as regras são quebradas.  
Esse tempo de loucura  
permitido pelas fadas...  
Entre a meia e a noite inteira,  
eu quero ficar contigo.

Pois com menos paciência,  
de decência, um pouco menos,  
já não se ouvem os galos,  
só temos a nossa estrada.  
Entre a meia e a noite inteira  
me puxas pelos cabelos  
e eu quero ficar contigo.

Entre a meia e a noite inteira,  
Lua cheia nos lençóis  
e, na nossa carruagem,  
escolha do coração,  
sempre clara é essa imagem  
tão distante da razão.  
E nesses trinta minutos,  
eu quero ficar contigo.

Os nossos corpos são frutos,  
mantenho os olhos enxutos.  
Chorar o encanto quebrado,  
o espanto e talvez o olvido,  
contanto que eu vá embora,  
são onze e meia da noite,  
é coisa de meia hora.  
Será que vais encontrar  
o cristal ali esquecido?


Nilza Azzi
 
65

Abalo


Nada pode provocar-me a lucidez,
mesmo quando resisto ao convite
do caminho que me afasta de ti...
A poesia esvaziou-se de palavras
e nesse vácuo
não há mais o que temer.

Assusta-me o risco de não poder mais
não conseguir chegar ao lugar
onde repousa a tua alma
e aguentar a solidão...
Deixo-me apenas escapar
do que não sou
pois não há valor no mundo trivial.

O mapa do tesouro foi perdido
e cada voz se abala
nas histórias que viveu.
Difícil e perigoso
é o caminho que me afasta de ti,
mas ainda encontro fadas nos regatos
e seres da natureza junto às fontes.

Nilza Azzi
72

elipse


aqui nas profundezas em que vivo
a dor me basta e nada mais preciso

os mares são escuros e vazios
e neles já não desembocam rios

a chuva doce sobre a superfície
não mata o sal e crer nisso é sandice

o sol que esquenta a crista destas águas
não chega ao fundo nem derrete as mágoas

a lua que já produziu poesia
é massa morta e sonhos já não cria

se o sonho é a vil matéria da esperança
a vida sem sentido em mim descansa

nilza azzi
51

Questões sem razão


Quem diz que a mim pertence a linha do destino
e as formas que traçou na estrada do meu ser?
Quem diz se a vida é minha ou se virá a ser;
não sei do meu viver, com ele eu nunca atino.
E a falta que me faz o amor... Sem jamais ter,
de além do meu jardim, a luz que descortino?
Se nunca mais floresce o sonho genuíno
da súbita paixão que o corpo faz ferver,
o que buscar além da solidão eterna?
Nem mesmo sei qual seja a fé que me governa...

Nilza Azzi
46

Temporal


Nuvens grossas cinzentas
poeira no ar e ciscos
o vento levanta

O ar abafado pesa
o céu caminha até mim
mais e mais baixo

Ouço o farfalhar das folhas,
ecos de sons desastrosos 
as aves já se esconderam
chega a escuridão 

O vento aperta o passo
aproxima-se o som dos trovões
procuro um abrigo 
resta-me pouco tempo

Nilza Azzi
64

Pobre


Um coração de pedra  
uma alma líquida  
medra um sofrimento  
nesta vida insípida  
escorreguei na chuva  
a voz se foi num susto  
e o custo disso é alto  
é estranho ao conhecer  
a casa do outro lado  
e o lago silencioso  

Nilza Azzi
41

Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!