Nilza_Azzi

Nilza_Azzi

Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

n. 0000-00-00

Perfil
85 414 Visualizações

Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
Ler poema completo

Poemas

611

Pequenas questões


O que será...

o que será poético mesmo sem ter metro  
e mesmo ainda que lhe falte rima  
a lua, as estrelas, uma flor, o arco-íris  
o sentimento que me escreve  
o escrever a desvendar as emoções  
ou será essa vontade de saber por que existo nesse mundo  
um vazio nas entranhas  
uma voz  
um saber sem palavras repetidas pelas pautas e entrelinhas  
a poeira ao sol  
cristais de gelo, folhas orvalhadas, manhãs com neblina  
a garoa de São Paulo  
minhas lágrimas  
o chão de um deserto depois da chuva  
as nuvens do céu a alterar as formas que eu invento  
um sorriso...  

O que será dessa estátua de sal em que tornei o meu reflexo  
um grito ou uma súplica  
uma vontade de fazer valer o proibido  

Nilza Azzi
66

Silêncio


Há calma! E se nenhuma ave canta,
e morre na garganta o canto meu,
as folhas não se mexem por espanto.
Perdeu-se a voz do amor e então se grave,

nas bolhas que esse vácuo emudeceu,
a ausência e a condição não desejada
e nada, nada mesmo, eu sei que nada,
da atroz separação trará consolo.

Se o dolo de uma espera sem resposta,
não pode a mim trazer mais nenhum mal,
quisera o bom silêncio da quimera...

Sacode a minha alma em sobressalto
aquela voz que, incauta, inda procuro
no silêncio, tão escuro, de minh’alma.

Nilza Azzi
18

Garoa


Esse frio desde cedo, desde ontem, 
desde sempre... gela os ossos a doer.
O cinza por sobre o sol,
neblina constante e densa,
a cidade encantada, adormecida,
desabitada de vida aparente.

Névoas correm com o vento,trocam de lugar,
mas não se dispersam, em seu passeio
sobre os contornos difusos de uma ou outra cor,
mas logo retorna o mundo oculto,
que à visão desconforta,
quase desolação.

Adivinha-se em segredo, 
cada vida ali presente, 
resguardada pela névoa.

Gotas delicadas, pequenas
carícias leves, geladas,
descem suavemente do céu.

Nilza Azzi
56

Descartes


O incomensurável espanto
gastar-se em êxtase e contemplação
um universo não cabe num poema
nem em anos contados aos bilhões
sejam máquinas ou mentes humanas
quanto a notar a harmonia das galáxias
guardar o sagrado...

Finito no tempo é o que pensam
o universal conterá em seus limites
todos os universos
mas sempre haverá poesia

Nilza Azzi
31

Prece


Leva, além da luz que envolve a alma,
passos que deixei atrás de mim;
leva embora a dor que não se acalma,
tudo que há de falso ou de ruim.

Leva a sensação de incompletude
toda incompreensão e crueldade,
leva a solidão, pois amiúde
ela se aproxima e não se evade.

Deixa apenas força, por favor,
o suficiente para ir adiante.
Deixa o sonho vivo, bom Pastor,
abençoa a ovelha vacilante.

Quando o dia finda e anoitece,
leve o vento, a Ti, a minha prece!

Nilza Azzi
49

Aqueles dias


Tenho dias  
em que se perdem  
todas as minhas guias  
e apenas desejo  
aquele dia  
fora do tempo  
do calendário maia  

Fere-me a sensação sufocante  
dos dias afundados no tempo  
em que a ampulheta cósmica  
escorre além de banais suposições  

Alguns dias como eu queria  
que fossem bolhas  
sem amanhã  

Nilza Azzi
54

Id

De onde sairão os pensamentos fortes
que vencerão as mortes além da lousa fria
se as luas derrubadas nas montanhas
não mais terão o encanto
da perene luz vadia?

Dos velhos lobos que uivavam nas campinas
já não ressoam mais as vozes estranhas.

Das formas tamanhas e espectrais
os muitos barcos no cais
restarão apenas sombras inofensivas
e a lembrança enevoada das gradivas
fenecerá com seu último espanto.

Se não chega para tanto, a primavera desistiu talvez...
Entre os absurdos e as auroras existiria um mundo, ou sonhei?

Se não há lei que torne a realidade menos cruel
desisto de esperar, deponho a pena.

Deuses dos desertos visitados
falam dos pecados e fujo em pânico.

Sem céu a clarear-me a nova estrada
a equivocada estrela no horizonte
some sem que aponte campos verdes ou florestas
e as pequenas flores da giestas caem ao chão sem sentido
sem mesmo aspirar-lhes o perfume
qualquer criatura mais sensível.

Debruço-me sobre o precipício das vaidades
e a vertigem atinge onde me alcança.
Perdeu-se uma criança que já não tinha medo
e a experiência de morrer apenas começou...

Nilza Azzi
75

Duvido que você saiba

Duvido que você saiba
me explicar o que aqui fiz.
Se o texto, com seus segredos,
sumiu, diante do nariz,
ou ficou no vão dos dedos.
Quero ver você agora
vir salvar-me dos meus medos!

Duvido que você saiba
o que eu senti agora.
Quando jorra o chafariz,
a lágrima se evapora,
mesmo se nos faz feliz?
Quero ver você agora
escapar por esse triz!

Duvido que você saiba
ler piada sem sorrir.
Se um quarto é inteiro
quando é feito pra dormir,
deter fogo sem aceiro...
Quero ver você agora,
contar tempo sem dinheiro!

Duvido que você saiba
cortar a água com faca,
tirar o leite das pedras,
onde encontrar uma paca,
porque uma nuvem empedra...
Quero ver você agora
achar onde o vento medra!

Duvido que você saiba
que não morre uma amizade,
nem mesmo quando se crê
que tempo mata a saudade
daquilo que não se vê...
Quero ver você agora
entender o que aqui lê!

Duvido que você saiba
viver em ilha deserta
e ainda achar alguém
na hora e medida certa
e não duvidar de ninguém...
Quero ver você agora
trocar tostão por vintém!

Nilza Azzi

 
63

luzes


já cedo acordou Lucinda
bem antes do sol surgir
na barriga leva ainda
o filho que irá parir
as dores da vida brinda
qual bebesse um elixir

não chega o sol ao nadir
e a tarefa dá por finda
coseu uma peça linda
um cueiro de zefir...

nilza azzi
43

Assim foi que chorei...

"No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho"
(Carlos Drummond de Andrade)


No meio do caminho estava ela
e não era a pedra, era a palavra
foi quando tudo deixou de ser simples
e o meu horizonte escureceu

A palavra não era a pedra
nem o caminho do meio
era o meio e o caminho
era o meio do caminho
era tudo que se via

Não havia como desviar
impossível um ar de indiferença
uma simulação de que não vi

Não! Prosseguir sem enfrentá-la
nem pensar, nem sequer uma chance
de agir como a água e contornar
passar ao lado, assobiando baixo
sem um ai ou mesmo um arrepio...

Era o obstáculo real
o reconhecimento de que escarnecia
da natural forma de dizer-se
ainda assim pensei em algum truque
a forma mais banal de solução

Pensei em dar um salto, ultrapassar
a sua arrogância, o desacato
porém aquela força intimidou-me
desisti do trajeto bloqueado

Se não puder vencê-la, dizem todos...

Juntei-me à palavra atravessada
deixei crescer o nó pela garganta
e rolei em regato vida afora


Nilza Azzi
97

Comentários (4)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!