Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

611

Id

De onde sairão os pensamentos fortes
que vencerão as mortes além da lousa fria
se as luas derrubadas nas montanhas
não mais terão o encanto
da perene luz vadia?

Dos velhos lobos que uivavam nas campinas
já não ressoam mais as vozes estranhas.

Das formas tamanhas e espectrais
os muitos barcos no cais
restarão apenas sombras inofensivas
e a lembrança enevoada das gradivas
fenecerá com seu último espanto.

Se não chega para tanto, a primavera desistiu talvez...
Entre os absurdos e as auroras existiria um mundo, ou sonhei?

Se não há lei que torne a realidade menos cruel
desisto de esperar, deponho a pena.

Deuses dos desertos visitados
falam dos pecados e fujo em pânico.

Sem céu a clarear-me a nova estrada
a equivocada estrela no horizonte
some sem que aponte campos verdes ou florestas
e as pequenas flores da giestas caem ao chão sem sentido
sem mesmo aspirar-lhes o perfume
qualquer criatura mais sensível.

Debruço-me sobre o precipício das vaidades
e a vertigem atinge onde me alcança.
Perdeu-se uma criança que já não tinha medo
e a experiência de morrer apenas começou...

Nilza Azzi
80

Prece


Leva, além da luz que envolve a alma,
passos que deixei atrás de mim;
leva embora a dor que não se acalma,
tudo que há de falso ou de ruim.

Leva a sensação de incompletude
toda incompreensão e crueldade,
leva a solidão, pois amiúde
ela se aproxima e não se evade.

Deixa apenas força, por favor,
o suficiente para ir adiante.
Deixa o sonho vivo, bom Pastor,
abençoa a ovelha vacilante.

Quando o dia finda e anoitece,
leve o vento, a Ti, a minha prece!

Nilza Azzi
51

Se


Se, quando eu amei, venceu-me o susto,
foi no teu olhar que eu me perdi,
tal se não vivesse mais aqui,
mas na sombra do teu corpo augusto,
tal se o céu se achasse bem ali,
naquele teu abraço em que me ajusto.

Nilza Azzi
43

Expediente


Espanto
não o mesmo de sempre
ou a dor mais antiga
antes o caminho do sonho
límpida esperança das manhãs
nuvens flocadas e brancas
sem prenúncio de tormenta

Súbito
não porque fosse feliz
muito mais por ser real
a vida escorre
amo sem palavras
de um fervor inconfessável
por trás dos meus ombros
os verbos clamam por vez
no silêncio das doçuras primitivas
a maldade atravessa
aquém dos meus limites
não soubesse o desejado
quisera-te sempre
mas luzes estrangeiras
levaram-te em carruagens

Catacrese
atordoadas e sem jeito
ajeitam-se em filas
palavras nascedouras
a fonte verte o líquido
límpido e correto
nada é inocente
num poema reescrito

Nilza Azzi
46

Órfã


Hoje o mundo jaz, de um modo tão pequeno,
que eu me vejo só, em meu jardim secreto.
Sei, de pai e mãe, o que é perder o afeto;
sei o que é um adeus – quisera sofrer menos!

Herdo esta ilusão de um ninho mais seleto,
pleno de prazer, tão cálido e sereno,
que não sei viver distante desse reino.
Faço a minha lei; governo por decreto.

Meu casulo, enfim, é o berço em que, dormente,
tenho em minhas mãos o sonho da semente
e meu coração, que desconhece o medo,

segue a procurar a terra prometida.
Ao que chegue a vez, escolho uma saída:
– tens, ó solidão, um gosto amargo e azedo.

Nilza Azzi
47

Pequenas questões


O que será...

o que será poético mesmo sem ter metro  
e mesmo ainda que lhe falte rima  
a lua, as estrelas, uma flor, o arco-íris  
o sentimento que me escreve  
o escrever a desvendar as emoções  
ou será essa vontade de saber por que existo nesse mundo  
um vazio nas entranhas  
uma voz  
um saber sem palavras repetidas pelas pautas e entrelinhas  
a poeira ao sol  
cristais de gelo, folhas orvalhadas, manhãs com neblina  
a garoa de São Paulo  
minhas lágrimas  
o chão de um deserto depois da chuva  
as nuvens do céu a alterar as formas que eu invento  
um sorriso...  

O que será dessa estátua de sal em que tornei o meu reflexo  
um grito ou uma súplica  
uma vontade de fazer valer o proibido  

Nilza Azzi
70

Silêncio


Há calma! E se nenhuma ave canta,
e morre na garganta o canto meu,
as folhas não se mexem por espanto.
Perdeu-se a voz do amor e então se grave,

nas bolhas que esse vácuo emudeceu,
a ausência e a condição não desejada
e nada, nada mesmo, eu sei que nada,
da atroz separação trará consolo.

Se o dolo de uma espera sem resposta,
não pode a mim trazer mais nenhum mal,
quisera o bom silêncio da quimera...

Sacode a minha alma em sobressalto
aquela voz que, incauta, inda procuro
no silêncio, tão escuro, de minh’alma.

Nilza Azzi
19

Escuna

Terza rima, inspirada no curta de animação "Bottle", de Kirsten Lepore

Havia o grande mar entre nós dois,

também havia o amor e seus mistérios;
um mar imenso, vasto e forte, pois...

Havia a diferença de hemisférios
e toda a solidão dessa lacuna; 
a dor da ausência e vários medos sérios.

Mas, bem na praia, erguia-se uma duna
e, dela se avistava, no horizonte,
as velas promissoras de uma escuna.

Acima da distância, havia a ponte.

Nilza Azz

69

Reverso


Como ela pode assim ignorar-me,
não perceber do quanto sou capaz
e resistir à força do meu charme?
Essa mulher tem muito orgulho, mas

antes que note, ou que dispare o alarme,
conhecerá a dor, não terá paz.
Mesmo que um dia venha a odiar-me,
irei em frente, sem voltar atrás.

Toda vingança é doce e eu sei disso;
que pouco a pouco ela perca o viço
e, já sem forças, dobre-se a meus pés...

E assim que a vir, vencida e submissa,
serei senhor de todas as delícias,
ao lhe dizer enfim: − Tu nada és!


Nilza Azzi
95

Dimensões


A fina linha azul que envolve a Terra,
nos limites de nossa atmosfera,
diz: — tudo sob o céu, calor encerra —
e, na medida exata, o reverbera.

A água, condensada sobre a serra,
traz chuva e faz florir a primavera.
Despenca a cachoeira, o lago cerra,
a neve envolve o Sul em luz cinérea.

Em torno de Saturno, antelucano,
Titã nos lembra a Terra primordial,
com líquido num ciclo correlato.

Num mundo penso, hostil , nuvem é fato.
Nos polos, muito gelo. — Sobre o vau,
há mares , lagos, rios — de metano.

Nilza Azzi

68

Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!