Lista de Poemas
Duvido que você saiba
Duvido que você saiba
me explicar o que aqui fiz.
Se o texto, com seus segredos,
sumiu, diante do nariz,
ou ficou no vão dos dedos.
Quero ver você agora
vir salvar-me dos meus medos!
Duvido que você saiba
o que eu senti agora.
Quando jorra o chafariz,
a lágrima se evapora,
mesmo se nos faz feliz?
Quero ver você agora
escapar por esse triz!
Duvido que você saiba
ler piada sem sorrir.
Se um quarto é inteiro
quando é feito pra dormir,
deter fogo sem aceiro...
Quero ver você agora,
contar tempo sem dinheiro!
Duvido que você saiba
cortar a água com faca,
tirar o leite das pedras,
onde encontrar uma paca,
porque uma nuvem empedra...
Quero ver você agora
achar onde o vento medra!
Duvido que você saiba
que não morre uma amizade,
nem mesmo quando se crê
que tempo mata a saudade
daquilo que não se vê...
Quero ver você agora
entender o que aqui lê!
Duvido que você saiba
viver em ilha deserta
e ainda achar alguém
na hora e medida certa
e não duvidar de ninguém...
Quero ver você agora
trocar tostão por vintém!
Nilza Azzi
me explicar o que aqui fiz.
Se o texto, com seus segredos,
sumiu, diante do nariz,
ou ficou no vão dos dedos.
Quero ver você agora
vir salvar-me dos meus medos!
Duvido que você saiba
o que eu senti agora.
Quando jorra o chafariz,
a lágrima se evapora,
mesmo se nos faz feliz?
Quero ver você agora
escapar por esse triz!
Duvido que você saiba
ler piada sem sorrir.
Se um quarto é inteiro
quando é feito pra dormir,
deter fogo sem aceiro...
Quero ver você agora,
contar tempo sem dinheiro!
Duvido que você saiba
cortar a água com faca,
tirar o leite das pedras,
onde encontrar uma paca,
porque uma nuvem empedra...
Quero ver você agora
achar onde o vento medra!
Duvido que você saiba
que não morre uma amizade,
nem mesmo quando se crê
que tempo mata a saudade
daquilo que não se vê...
Quero ver você agora
entender o que aqui lê!
Duvido que você saiba
viver em ilha deserta
e ainda achar alguém
na hora e medida certa
e não duvidar de ninguém...
Quero ver você agora
trocar tostão por vintém!
Nilza Azzi
53
Fratura
Partiu-se a porcelana em mil pedaços,
a bela estatueta, o bibelô...
A vida também tem vários fracassos
e assim, nossa amizade não durou.
Distâncias separaram nossos passos,
findou-se aquele jogo de ioiô...
Os bens da criatura são escassos,
é fato e a natureza o revelou.
Com força inabalável e segura
desfez-se a esperteza desse engodo,
porque sou bem difícil de enganar.
Sinais, os pressenti, peguei no ar,
suspeitos, a passar por mim a rodo,
e assim foi-se a quimera, um dia pura.
Nilza Azzi
47
Dimensões
A fina linha azul que envolve a Terra,
nos limites de nossa atmosfera,
diz: — tudo sob o céu, calor encerra —
e, na medida exata, o reverbera.
A água, condensada sobre a serra,
traz chuva e faz florir a primavera.
Despenca a cachoeira, o lago cerra,
a neve envolve o Sul em luz cinérea.
Em torno de Saturno, antelucano,
Titã nos lembra a Terra primordial,
com líquido num ciclo correlato.
Num mundo penso, hostil , nuvem é fato.
Nos polos, muito gelo. — Sobre o vau,
há mares , lagos, rios — de metano.
Nilza Azzi
57
Aqueles dias
Tenho dias
em que se perdem
todas as minhas guias
e apenas desejo
aquele dia
fora do tempo
do calendário maia
Fere-me a sensação sufocante
dos dias afundados no tempo
em que a ampulheta cósmica
escorre além de banais suposições
Alguns dias como eu queria
que fossem bolhas
sem amanhã
Nilza Azzi
46
Encanto quebrado
"São onze e meia da noite, /e eu quero ficar contigo.
Quero menos paciência /e um pouco mais de loucura..."
(Balada das Onze e Meia)
Joaquim Pessoa
Quero menos paciência /e um pouco mais de loucura..."
(Balada das Onze e Meia)
Joaquim Pessoa
Essa eterna meia hora
em que as regras são quebradas.
Esse tempo de loucura
permitido pelas fadas...
Entre a meia e a noite inteira,
eu quero ficar contigo.
Pois com menos paciência,
de decência, um pouco menos,
já não se ouvem os galos,
só temos a nossa estrada.
Entre a meia e a noite inteira
me puxas pelos cabelos
e eu quero ficar contigo.
Entre a meia e a noite inteira,
Lua cheia nos lençóis
e, na nossa carruagem,
escolha do coração,
sempre clara é essa imagem
tão distante da razão.
E nesses trinta minutos,
eu quero ficar contigo.
Os nossos corpos são frutos,
mantenho os olhos enxutos.
Chorar o encanto quebrado,
o espanto e talvez o olvido,
contanto que eu vá embora,
são onze e meia da noite,
é coisa de meia hora.
Será que vais encontrar
o cristal ali esquecido?
Nilza Azzi
65
Abalo
Nada pode provocar-me a lucidez,
mesmo quando resisto ao convite
do caminho que me afasta de ti...
A poesia esvaziou-se de palavras
e nesse vácuo
não há mais o que temer.
Assusta-me o risco de não poder mais
não conseguir chegar ao lugar
onde repousa a tua alma
e aguentar a solidão...
Deixo-me apenas escapar
do que não sou
pois não há valor no mundo trivial.
O mapa do tesouro foi perdido
e cada voz se abala
nas histórias que viveu.
Difícil e perigoso
é o caminho que me afasta de ti,
mas ainda encontro fadas nos regatos
e seres da natureza junto às fontes.
Nilza Azzi
72
elipse
aqui nas profundezas em que vivo
a dor me basta e nada mais preciso
os mares são escuros e vazios
e neles já não desembocam rios
a chuva doce sobre a superfície
não mata o sal e crer nisso é sandice
o sol que esquenta a crista destas águas
não chega ao fundo nem derrete as mágoas
a lua que já produziu poesia
é massa morta e sonhos já não cria
se o sonho é a vil matéria da esperança
a vida sem sentido em mim descansa
nilza azzi
51
Questões sem razão
Quem diz que a mim pertence a linha do destino
e as formas que traçou na estrada do meu ser?
Quem diz se a vida é minha ou se virá a ser;
não sei do meu viver, com ele eu nunca atino.
E a falta que me faz o amor... Sem jamais ter,
de além do meu jardim, a luz que descortino?
Se nunca mais floresce o sonho genuíno
da súbita paixão que o corpo faz ferver,
o que buscar além da solidão eterna?
Nem mesmo sei qual seja a fé que me governa...
Nilza Azzi
46
Temporal
Nuvens grossas cinzentas
poeira no ar e ciscos
o vento levanta
O ar abafado pesa
o céu caminha até mim
mais e mais baixo
Ouço o farfalhar das folhas,
ecos de sons desastrosos
as aves já se esconderam
chega a escuridão
O vento aperta o passo
aproxima-se o som dos trovões
procuro um abrigo
resta-me pouco tempo
Nilza Azzi
64
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!