Temporal
Nuvens grossas cinzentas
poeira no ar e ciscos
o vento levanta
O ar abafado pesa
o céu caminha até mim
mais e mais baixo
Ouço o farfalhar das folhas,
ecos de sons desastrosos
as aves já se esconderam
chega a escuridão
O vento aperta o passo
aproxima-se o som dos trovões
procuro um abrigo
resta-me pouco tempo
Nilza Azzi
Passageira
Notei um esquilo, correndo na mata,
a cauda curvada, num 'esse' preciso.
O olhar muito vivo redondo arrebata.
Nos verdes do bosque, mal via seu piso.
Subiu na nogueira e, uma noz entre as patas,
passou a comer, sem sinal nem aviso...
A vida ao redor, descansava pacata,
os galhos dançavam ao vento indeciso.
Assim a paixão, emoção passageira,
é cena fugaz na paisagem da vida,
um parco alimento das nossas vontades
e marca perene da dor tão primeira.
A força mais forte, no tempo esquecida,
fatal ilusão, que nos mata e se evade.
Nilza Azzi
Pobre
Um coração de pedra
uma alma líquida
medra um sofrimento
nesta vida insípida
escorreguei na chuva
a voz se foi num susto
e o custo disso é alto
é estranho ao conhecer
a casa do outro lado
e o lago silencioso
Nilza Azzi
Fracasso
Eu já não tenho um coração comigo:
faz muito tempo que ele foi embora.
No seu lugar, tudo que vejo agora
é uma ausência cheia de perigos.
Houvesse a alma e eu não a teria,
porque perdida estive para tudo
e só herdei este silêncio mudo.
– Sou uma sombra estúpida e vazia
e na ilusão de ser o que não sou
sobra uma vida que não há em mim...
Vida sem rumo, que não chega ao fim,
mas que tampouco se concretizou.
Sem coração, não sei compor um verso,
sem alma, então, o sonho é mais perverso.
Nilza Azzi
Cogito
Veio a Lua ao meu quintal,
enquanto o Sol foi dormir...
Viu meus sonhos no varal
e, de mim, pôs-se a sorrir:
― O que fazem, pendurados,
os teus sonhos ao sereno?
―Quero tê-los orvalhados,
todos livres de veneno.
― Que venenos podem ter,
os sonhos de um sonhador?
― A ilusão que faz sofrer
e pode matar o amor!
Nilza Azzi
Luzes vacilantes
Estava o Sol atrás das nuvens escondido,
enquanto a noite além dos montes ia embora...
Iria o dia enfim surgir a qualquer hora,
trazendo a luz e o afã das aves – o alarido!
Estava a Lua, após a noite, mais senhora
dos céus azuis, porque de mim só tem ouvido
o suspirar que vem de um sonho colorido,
em que reverberou a tua voz sonora.
O espaço que mantém a Lua e o Sol distantes
– o mesmo em que a voar, a mente te procura –
conserva-me à mercê do que não sonhei antes...
E sobra então o dom, amada criatura,
de conhecer tão bem as luzes vacilantes,
as variações gentis – do amor, a voz mais pura.
Nilza Azzi
É um poema!
Nasceu sorrindo e nem lhe dei um tapa!
Logo ele quis engatinhar sem mim...
Se não me cuido, lá vai ele, escapa,
mas, se me deixa cedo, isso é meu fim.
Recém-nascido, gosto de mimá-lo,
em mil cuidados, sempre me desvelo
porque depois que parte, num estalo,
entre nós dois, se rompe qualquer elo.
É meu poema, meu rebento, e é tal
minha alegria quando vem à luz,
como se fosse d’alma a doce voz.
Também parece que é tão natural,
quando o concebo a ideia já reluz,
porém, nos cabe pouco tempo a sós...
Nilza Azzi
Fantasia
Ouvindo um bolero, lembrei de você,
daquela semana passada na praia.
Dos nossos passeios, na luz que desmaia,
ao bulício das ondas, decerto porque,
da grande janela daquele ateliê,
– tão perto ele estava – que ouvia-se (o mar),
com seu vai e vem, a canção entoar...
De nós abraçados, em frente à janela,
ouvindo um bolero, a canção tão singela,
os olhos nos olhos e o cheiro do mar.
E tal era a força daquele momento,
(os beijos e afagos geravam calor),
tornando possível a ausência supor,
nos corpos unidos, de comedimento.
A música traz essa imagem que eu tento,
no meu coração, com vigor aclarar,
tornar mais real essa tela sem par.
E doce era a dança que nós dois dançamos,
bem perto de nós, os lilases, seus ramos,
naquele terraço na beira do mar.
Nilza Azzi
Quem foi?
Sobre o leito, os lençóis imaculados,
brancos, pétalas do mais claro linho,
pontas dobradas em ambos os lados;
clara, uma previsão de desalinho.
Salvos da mácula, eu os quis, caiados,
e semeei de flores teu caminho...
Na cabeceira, óleos para agrados,
sinais de meu fervor, escolho e alinho.
Amanheceu, depois de outra manhã,
na alcova resta uma brancura vã,
um branco intenso, estranho ao ambiente.
Resta o tecido, amontoado, à beira
do contraste entre o ébano e a madeira,
e vejo ao teu redor, alvor somente.
Nilza Azzi
Dor
Se a dor que dói em mim, assim doesse,
doída, como um nada, a doer tanto,
talvez doera só pelo interesse
de que, por fim, não doeria o pranto.
Se a tua ausência já doeu bastante
e doerá, por certo, eternamente,
que doa, de uma vez, lacrimejante,
qual doeriam lágrimas da mente.
E quando a tua dor em mim doía,
tal qual doeram todas, vezes mil,
– deixei doerem por compreensão.
Assim vivo o dorido dia-a-dia,
embora já me doam, dor gentil,
as dores que eu bem sei que doerão.
Nilza Azzi