Faíscas
Estrelas desse céu, noturno e magnífico,
segredos que guardais, contai-me, por favor!
Acaso vós sabeis por que vos dignifico,
por que vos tenho amor e a vós procuro expor
o sentimento atroz – não pode haver pior –
de alguém que busca a luz, mas segue como um cego,
nas trevas que jamais desfaz ao seu redor?
Espanta-me essa dor, sou fraca, isso eu não nego,
diante do que traz a mim o amor possível;
da dor sem salvação, da busca de um conforto.
Certeza de viver de um modo que deploro,
saudade de um querer; será que um dia tive-o?
Viver esse sem fim (o estado de absorto),
no amor que chega a mim, tal chuva de meteoros.
Nilza Azzi
Passageira
Notei um esquilo, correndo na mata,
a cauda curvada, num 'esse' preciso.
O olhar muito vivo redondo arrebata.
Nos verdes do bosque, mal via seu piso.
Subiu na nogueira e, uma noz entre as patas,
passou a comer, sem sinal nem aviso...
A vida ao redor, descansava pacata,
os galhos dançavam ao vento indeciso.
Assim a paixão, emoção passageira,
é cena fugaz na paisagem da vida,
um parco alimento das nossas vontades
e marca perene da dor tão primeira.
A força mais forte, no tempo esquecida,
fatal ilusão, que nos mata e se evade.
Nilza Azzi
Dimensões
A fina linha azul que envolve a Terra,
nos limites de nossa atmosfera,
diz: — tudo sob o céu, calor encerra —
e, na medida exata, o reverbera.
A água, condensada sobre a serra,
traz chuva e faz florir a primavera.
Despenca a cachoeira, o lago cerra,
a neve envolve o Sul em luz cinérea.
Em torno de Saturno, antelucano,
Titã nos lembra a Terra primordial,
com líquido num ciclo correlato.
Num mundo penso, hostil , nuvem é fato.
Nos polos, muito gelo. — Sobre o vau,
há mares , lagos, rios — de metano.
Nilza Azzi
Teus olhos
Quero envolver-te em óleos perfumados,
fazer-te ouvir o coro celestial
e revelar sem pejo, os meus pecados,
em liberdade ter o teu aval...
Talvez andar à toa, no jardim
da tua infância, lá, onde brincavas
e resgatar o brilho, a luz enfim,
banhar teus olhos com água de malvas.
Depois chorar por eles o meu pranto
e recolher as lágrimas salgadas.
Bem devagar, cantar um acalanto...
Daquelas gotas, quando enfim geladas,
fazer compressas e cuidar entanto,
de admirá-los, tal como me agrada.
Nilza Azzi
Reflexos
Dos cantos onde esteve emaranhado,
meu verso se livrou. Isso é passado.
Um pessegueiro solta as flores róseas!
Por entre os galhos, ora abertos, cose-as,
atônita, a formosa borboleta...
Enquanto um tico-tico faz pirueta,
a cada vez que soa um canto triste,
mais luz banha o pomar e o som consiste
nos restos que sobraram, nos ruídos
dos ecos dos lamentos não retidos.
O certo é que me vejo nesse espelho,
com ares de feliz, não me assemelho
a um brilho de cristal. Rastro hialino,
ao longe, sou um vulto pequenino.
Nilza Azzi
É um poema!
Nasceu sorrindo e nem lhe dei um tapa!
Logo ele quis engatinhar sem mim...
Se não me cuido, lá vai ele, escapa,
mas, se me deixa cedo, isso é meu fim.
Recém-nascido, gosto de mimá-lo,
em mil cuidados, sempre me desvelo
porque depois que parte, num estalo,
entre nós dois, se rompe qualquer elo.
É meu poema, meu rebento, e é tal
minha alegria quando vem à luz,
como se fosse d’alma a doce voz.
Também parece que é tão natural,
quando o concebo a ideia já reluz,
porém, nos cabe pouco tempo a sós...
Nilza Azzi
Fracasso
Eu já não tenho um coração comigo:
faz muito tempo que ele foi embora.
No seu lugar, tudo que vejo agora
é uma ausência cheia de perigos.
Houvesse a alma e eu não a teria,
porque perdida estive para tudo
e só herdei este silêncio mudo.
– Sou uma sombra estúpida e vazia
e na ilusão de ser o que não sou
sobra uma vida que não há em mim...
Vida sem rumo, que não chega ao fim,
mas que tampouco se concretizou.
Sem coração, não sei compor um verso,
sem alma, então, o sonho é mais perverso.
Nilza Azzi
Sequelas
Num dia, consumiram-se os sorrisos
e a terra não mais viu as primaveras,
as aves não cantaram mais, deveras,
soltavam pios roucos, imprecisos...
E logo após, o céu tornou severas
as cores dos poentes... Indecisos,
nos campos, silenciaram-se os avisos
– a vida remontava às velhas eras.
Era uma cena estranha e sem sentido,
o mundo escuro não sabia a luz,
em nada havia o brilho que seduz.
A dor de um coração desvanecido,
pairava sobre os campos nevoentos,
inertes, silenciosos e sem ventos.
Nilza Azzi
Esperanças
Navega um veleiro, por rumos incertos,
em busca de praias selvagens, tranquilas,
perdidas nas ilhas, bem longe das vilas,
nas águas azuis desses mares desertos,
ausente, o sinal de que tempo encoberto
prometa a beleza do dia toldar.
As aves em bando desenham no ar
sinais sinuosos tão cheios de graça
e conchas e pedras, que a água entrelaça ,
faíscam na areia do fundo do mar.
Sem rota traçada, ao sabor das correntes,
entrega sem medo o caminho a seguir,
e vive o momento, sem qualquer porvir.
Por mares bravios, mais do que transparentes,
já foi seu percurso, ao sol mais ardente,
sem muita esperança de um porto alcançar,
a indiferença das águas sulcar,
até que, cansado de tantos naufrágios,
ousou desdenhar todo e qualquer presságio
e quis saber mais dos encantos do mar.
Assim somos nós! Com os nossos talentos
e, sem descansar, nós seguimos adiante,
entre ondas e vagas da vida inconstante.
Nascidos, já somos expostos ao tempo,
num mundo difícil, assaz violento,
buscamos, sem trégua, a alma aplicar
à vida empenhada no ato de amar...
Quem dera uma ilha de Paz nos aguarde
e ali nos acolha, antes que seja tarde,
o Amor, a galope, na beira do mar!
Nilza Azzi (10/05/2019)
Dor
Se a dor que dói em mim, assim doesse,
doída, como um nada, a doer tanto,
talvez doera só pelo interesse
de que, por fim, não doeria o pranto.
Se a tua ausência já doeu bastante
e doerá, por certo, eternamente,
que doa, de uma vez, lacrimejante,
qual doeriam lágrimas da mente.
E quando a tua dor em mim doía,
tal qual doeram todas, vezes mil,
– deixei doerem por compreensão.
Assim vivo o dorido dia-a-dia,
embora já me doam, dor gentil,
as dores que eu bem sei que doerão.
Nilza Azzi