Lista de Poemas
Escuna
Terza rima, inspirada no curta de animação "Bottle", de Kirsten Lepore
Havia o grande mar entre nós dois,
também havia o amor e seus mistérios;
um mar imenso, vasto e forte, pois...
Havia a diferença de hemisférios
e toda a solidão dessa lacuna;
a dor da ausência e vários medos sérios.
Mas, bem na praia, erguia-se uma duna
e, dela se avistava, no horizonte,
as velas promissoras de uma escuna.
Acima da distância, havia a ponte.
Nilza Azz
55
Sequelas
Num dia, consumiram-se os sorrisos
e a terra não mais viu as primaveras,
as aves não cantaram mais, deveras,
soltavam pios roucos, imprecisos...
E logo após, o céu tornou severas
as cores dos poentes... Indecisos,
nos campos, silenciaram-se os avisos
– a vida remontava às velhas eras.
Era uma cena estranha e sem sentido,
o mundo escuro não sabia a luz,
em nada havia o brilho que seduz.
A dor de um coração desvanecido,
pairava sobre os campos nevoentos,
inertes, silenciosos e sem ventos.
Nilza Azzi
44
Esperanças
Navega um veleiro, por rumos incertos,
em busca de praias selvagens, tranquilas,
perdidas nas ilhas, bem longe das vilas,
nas águas azuis desses mares desertos,
ausente, o sinal de que tempo encoberto
prometa a beleza do dia toldar.
As aves em bando desenham no ar
sinais sinuosos tão cheios de graça
e conchas e pedras, que a água entrelaça ,
faíscam na areia do fundo do mar.
Sem rota traçada, ao sabor das correntes,
entrega sem medo o caminho a seguir,
e vive o momento, sem qualquer porvir.
Por mares bravios, mais do que transparentes,
já foi seu percurso, ao sol mais ardente,
sem muita esperança de um porto alcançar,
a indiferença das águas sulcar,
até que, cansado de tantos naufrágios,
ousou desdenhar todo e qualquer presságio
e quis saber mais dos encantos do mar.
Assim somos nós! Com os nossos talentos
e, sem descansar, nós seguimos adiante,
entre ondas e vagas da vida inconstante.
Nascidos, já somos expostos ao tempo,
num mundo difícil, assaz violento,
buscamos, sem trégua, a alma aplicar
à vida empenhada no ato de amar...
Quem dera uma ilha de Paz nos aguarde
e ali nos acolha, antes que seja tarde,
o Amor, a galope, na beira do mar!
Nilza Azzi (10/05/2019)
em busca de praias selvagens, tranquilas,
perdidas nas ilhas, bem longe das vilas,
nas águas azuis desses mares desertos,
ausente, o sinal de que tempo encoberto
prometa a beleza do dia toldar.
As aves em bando desenham no ar
sinais sinuosos tão cheios de graça
e conchas e pedras, que a água entrelaça ,
faíscam na areia do fundo do mar.
Sem rota traçada, ao sabor das correntes,
entrega sem medo o caminho a seguir,
e vive o momento, sem qualquer porvir.
Por mares bravios, mais do que transparentes,
já foi seu percurso, ao sol mais ardente,
sem muita esperança de um porto alcançar,
a indiferença das águas sulcar,
até que, cansado de tantos naufrágios,
ousou desdenhar todo e qualquer presságio
e quis saber mais dos encantos do mar.
Assim somos nós! Com os nossos talentos
e, sem descansar, nós seguimos adiante,
entre ondas e vagas da vida inconstante.
Nascidos, já somos expostos ao tempo,
num mundo difícil, assaz violento,
buscamos, sem trégua, a alma aplicar
à vida empenhada no ato de amar...
Quem dera uma ilha de Paz nos aguarde
e ali nos acolha, antes que seja tarde,
o Amor, a galope, na beira do mar!
Nilza Azzi (10/05/2019)
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Teus olhos
Quero envolver-te em óleos perfumados,
fazer-te ouvir o coro celestial
e revelar sem pejo, os meus pecados,
em liberdade ter o teu aval...
Talvez andar à toa, no jardim
da tua infância, lá, onde brincavas
e resgatar o brilho, a luz enfim,
banhar teus olhos com água de malvas.
Depois chorar por eles o meu pranto
e recolher as lágrimas salgadas.
Bem devagar, cantar um acalanto...
Daquelas gotas, quando enfim geladas,
fazer compressas e cuidar entanto,
de admirá-los, tal como me agrada.
Nilza Azzi
29
Requerer
Entre infinitas formas de querer,
este querer me escolhe, sem que eu queira,
como se fosse dono do meu ser,
sem pejo, diz que é só uma brincadeira...
Que não me preocupe com sofrer,
nenhum dos sofrimentos vem na esteira,
das mais perfeitas fontes do prazer,
quando o prazer é coisa corriqueira.
Mas como confiar num inimigo,
alguém que já se sabe é fraudulento?
A entrega que me pede não consigo!
Não quero mais a dor, isso eu lamento.
A falta de anuência, em que me estribo,
conduz ao ponto do indeferimento.
Nilza Azzi
36
Fantasia
Ouvindo um bolero, lembrei de você,
daquela semana passada na praia.
Dos nossos passeios, na luz que desmaia,
ao bulício das ondas, decerto porque,
da grande janela daquele ateliê,
– tão perto ele estava – que ouvia-se (o mar),
com seu vai e vem, a canção entoar...
De nós abraçados, em frente à janela,
ouvindo um bolero, a canção tão singela,
os olhos nos olhos e o cheiro do mar.
E tal era a força daquele momento,
(os beijos e afagos geravam calor),
tornando possível a ausência supor,
nos corpos unidos, de comedimento.
A música traz essa imagem que eu tento,
no meu coração, com vigor aclarar,
tornar mais real essa tela sem par.
E doce era a dança que nós dois dançamos,
bem perto de nós, os lilases, seus ramos,
naquele terraço na beira do mar.
Nilza Azzi
27
Quem foi?
Sobre o leito, os lençóis imaculados,
brancos, pétalas do mais claro linho,
pontas dobradas em ambos os lados;
clara, uma previsão de desalinho.
Salvos da mácula, eu os quis, caiados,
e semeei de flores teu caminho...
Na cabeceira, óleos para agrados,
sinais de meu fervor, escolho e alinho.
Amanheceu, depois de outra manhã,
na alcova resta uma brancura vã,
um branco intenso, estranho ao ambiente.
Resta o tecido, amontoado, à beira
do contraste entre o ébano e a madeira,
e vejo ao teu redor, alvor somente.
Nilza Azzi
39
Reflexividade
Quando o ar está limpo e ouço o sino
da igreja do meu bairro, a cada hora,
acredito que o tempo vai-se embora
em busca de algum sonho peregrino,
porém, para evitar um desatino,
o tempo faz pensar que é sempre agora,
enquanto a própria vida ele devora,
a certos intervalos, sibilino...
Contudo, nessa trama, o que me espanta
e faz calar o verbo na garganta
é o peso da ilusão sobre este mundo:
− Premidos pela urgência do presente,
caímos num abismo tão profundo
que a vida chega a ser indiferente.
Nilza Azzi
26
Faíscas
Estrelas desse céu, noturno e magnífico,
segredos que guardais, contai-me, por favor!
Acaso vós sabeis por que vos dignifico,
por que vos tenho amor e a vós procuro expor
o sentimento atroz – não pode haver pior –
de alguém que busca a luz, mas segue como um cego,
nas trevas que jamais desfaz ao seu redor?
Espanta-me essa dor, sou fraca, isso eu não nego,
diante do que traz a mim o amor possível;
da dor sem salvação, da busca de um conforto.
Certeza de viver de um modo que deploro,
saudade de um querer; será que um dia tive-o?
Viver esse sem fim (o estado de absorto),
no amor que chega a mim, tal chuva de meteoros.
Nilza Azzi
35
Mar revolto
Há um soneto que permeia minha vida,
tal ferida com casquinha que se arranca,
como tranca de uma porta sem saída,
casca morta que cutuco feito santa...
É um poema que mantenho vivo em mim,
nesse tema que alimento com cautela,
pois não quero ver alento no meu fim,
em ferrenho aguilhoar. Eu fujo dela,
dessa insana tentação de poesia.
Que ousadia! Só quer ter o meu querer,
mas não cedo, não vou dar braço a torcer.
Afinal, só lero-lero não resolve!
Quero mesmo o tal um poema livre e solto,
mas navego feito nau num mar revolto...
Nilza Azzi
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Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!