Mar revolto
Há um soneto que permeia minha vida,
tal ferida com casquinha que se arranca,
como tranca de uma porta sem saída,
casca morta que cutuco feito santa...
É um poema que mantenho vivo em mim,
nesse tema que alimento com cautela,
pois não quero ver alento no meu fim,
em ferrenho aguilhoar. Eu fujo dela,
dessa insana tentação de poesia.
Que ousadia! Só quer ter o meu querer,
mas não cedo, não vou dar braço a torcer.
Afinal, só lero-lero não resolve!
Quero mesmo o tal um poema livre e solto,
mas navego feito nau num mar revolto...
Nilza Azzi
Reflexos
Dos cantos onde esteve emaranhado,
meu verso se livrou. Isso é passado.
Um pessegueiro solta as flores róseas!
Por entre os galhos, ora abertos, cose-as,
atônita, a formosa borboleta...
Enquanto um tico-tico faz pirueta,
a cada vez que soa um canto triste,
mais luz banha o pomar e o som consiste
nos restos que sobraram, nos ruídos
dos ecos dos lamentos não retidos.
O certo é que me vejo nesse espelho,
com ares de feliz, não me assemelho
a um brilho de cristal. Rastro hialino,
ao longe, sou um vulto pequenino.
Nilza Azzi
Faíscas
Estrelas desse céu, noturno e magnífico,
segredos que guardais, contai-me, por favor!
Acaso vós sabeis por que vos dignifico,
por que vos tenho amor e a vós procuro expor
o sentimento atroz – não pode haver pior –
de alguém que busca a luz, mas segue como um cego,
nas trevas que jamais desfaz ao seu redor?
Espanta-me essa dor, sou fraca, isso eu não nego,
diante do que traz a mim o amor possível;
da dor sem salvação, da busca de um conforto.
Certeza de viver de um modo que deploro,
saudade de um querer; será que um dia tive-o?
Viver esse sem fim (o estado de absorto),
no amor que chega a mim, tal chuva de meteoros.
Nilza Azzi
Requerer
Entre infinitas formas de querer,
este querer me escolhe, sem que eu queira,
como se fosse dono do meu ser,
sem pejo, diz que é só uma brincadeira...
Que não me preocupe com sofrer,
nenhum dos sofrimentos vem na esteira,
das mais perfeitas fontes do prazer,
quando o prazer é coisa corriqueira.
Mas como confiar num inimigo,
alguém que já se sabe é fraudulento?
A entrega que me pede não consigo!
Não quero mais a dor, isso eu lamento.
A falta de anuência, em que me estribo,
conduz ao ponto do indeferimento.
Nilza Azzi
Teus olhos
Quero envolver-te em óleos perfumados,
fazer-te ouvir o coro celestial
e revelar sem pejo, os meus pecados,
em liberdade ter o teu aval...
Talvez andar à toa, no jardim
da tua infância, lá, onde brincavas
e resgatar o brilho, a luz enfim,
banhar teus olhos com água de malvas.
Depois chorar por eles o meu pranto
e recolher as lágrimas salgadas.
Bem devagar, cantar um acalanto...
Daquelas gotas, quando enfim geladas,
fazer compressas e cuidar entanto,
de admirá-los, tal como me agrada.
Nilza Azzi
Reflexividade
Quando o ar está limpo e ouço o sino
da igreja do meu bairro, a cada hora,
acredito que o tempo vai-se embora
em busca de algum sonho peregrino,
porém, para evitar um desatino,
o tempo faz pensar que é sempre agora,
enquanto a própria vida ele devora,
a certos intervalos, sibilino...
Contudo, nessa trama, o que me espanta
e faz calar o verbo na garganta
é o peso da ilusão sobre este mundo:
− Premidos pela urgência do presente,
caímos num abismo tão profundo
que a vida chega a ser indiferente.
Nilza Azzi
Deserto
Areia e mais areia, esse horizonte
estranhamente alonga e distancia
o fim dessa aridez, sem que desponte
lugar em que repouse esta agonia.
E o sol, capaz de ser da vida a fonte,
também semeia a morte em pleno dia.
Não há qualquer abrigo ali defronte;
o olhar procura um pouso e nada espia.
E cruza a caravana dos mil sonhos,
seguida dos pensares mais medonhos,
deserto interminável, vasto, extenso...
Abaixo dessa areia umbrosa, escura,
talvez se esconda um poço e porventura
aplaque a antiga sede por silêncio.
Nilza Azzi
Desfastio
Perder-te trouxe a dor que ainda me pega,
no meio desta angústia tola e cega.
Foi como aquela tela que se apaga
– o filme terminou e morre a vaga.
A dor nos faz crescer, alguém alega,
mas choro sempre foi demais piegas.
O risco, conferido pela adaga,
traduz – aqui se faz, aqui se paga...
Na testa permanece aquela ruga.
A lágrima escapou, um lenço enxuga!
Murmuro minha prece – quieta – rogo.
O corpo, então, contrito, feito viga,
prossigo, cônscia – sei que ninguém liga –
e a fome de viver me assalta logo.
Nilza Azzi
Despedida
Não foi um grande amor, o que eu senti por ti.
Também não foi paixão; paixões não são assim...
Nem mesmo foi razão do meu melhor poema;
foi simples ilusão que um dia chega ao fim.
Não sei se dependeu de mim esse desfecho
se a vida é que nos traz tais peças porque quer
passar-nos as lições ainda não sabidas
difíceis de aprender, para qualquer mulher.
Amor eu não senti, e afirmo sem receio:
– Jamais meu coração ficou partido ao meio.
Nilza Azzi
Devaneio
Eu e você, nós dois, sob o chuveiro,
e a lembrança das horas que passamos:
como bambus ao vento nossos ramos,
a balançar na chuva o dia inteiro.
Se me deste prazer, se nos amamos,
como se fosse em nós amor primeiro,
guardo comigo o doce do teu cheiro;
a viva sensação dos teus reclamos.
Depois, foi dos teus braços o conforto,
o teu jeito de rir, meu chapéu torto,
ao café da manhã, pãezinhos quentes,
essa delícia inquieta da ventura,
o corpo em alvoroço que procura,
nos mesmos velhos ritos, novas lentes.
Nilza Azzi