Lista de Poemas
É um poema!
Nasceu sorrindo e nem lhe dei um tapa!
Logo ele quis engatinhar sem mim...
Se não me cuido, lá vai ele, escapa,
mas, se me deixa cedo, isso é meu fim.
Recém-nascido, gosto de mimá-lo,
em mil cuidados, sempre me desvelo
porque depois que parte, num estalo,
entre nós dois, se rompe qualquer elo.
É meu poema, meu rebento, e é tal
minha alegria quando vem à luz,
como se fosse d’alma a doce voz.
Também parece que é tão natural,
quando o concebo a ideia já reluz,
porém, nos cabe pouco tempo a sós...
Nilza Azzi
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Reflexos
Dos cantos onde esteve emaranhado,
meu verso se livrou. Isso é passado.
Um pessegueiro solta as flores róseas!
Por entre os galhos, ora abertos, cose-as,
atônita, a formosa borboleta...
Enquanto um tico-tico faz pirueta,
a cada vez que soa um canto triste,
mais luz banha o pomar e o som consiste
nos restos que sobraram, nos ruídos
dos ecos dos lamentos não retidos.
O certo é que me vejo nesse espelho,
com ares de feliz, não me assemelho
a um brilho de cristal. Rastro hialino,
ao longe, sou um vulto pequenino.
Nilza Azzi
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Dor
Se a dor que dói em mim, assim doesse,
doída, como um nada, a doer tanto,
talvez doera só pelo interesse
de que, por fim, não doeria o pranto.
Se a tua ausência já doeu bastante
e doerá, por certo, eternamente,
que doa, de uma vez, lacrimejante,
qual doeriam lágrimas da mente.
E quando a tua dor em mim doía,
tal qual doeram todas, vezes mil,
– deixei doerem por compreensão.
Assim vivo o dorido dia-a-dia,
embora já me doam, dor gentil,
as dores que eu bem sei que doerão.
Nilza Azzi
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Fracasso
Eu já não tenho um coração comigo:
faz muito tempo que ele foi embora.
No seu lugar, tudo que vejo agora
é uma ausência cheia de perigos.
Houvesse a alma e eu não a teria,
porque perdida estive para tudo
e só herdei este silêncio mudo.
– Sou uma sombra estúpida e vazia
e na ilusão de ser o que não sou
sobra uma vida que não há em mim...
Vida sem rumo, que não chega ao fim,
mas que tampouco se concretizou.
Sem coração, não sei compor um verso,
sem alma, então, o sonho é mais perverso.
Nilza Azzi
37
Desfastio
Perder-te trouxe a dor que ainda me pega,
no meio desta angústia tola e cega.
Foi como aquela tela que se apaga
– o filme terminou e morre a vaga.
A dor nos faz crescer, alguém alega,
mas choro sempre foi demais piegas.
O risco, conferido pela adaga,
traduz – aqui se faz, aqui se paga...
Na testa permanece aquela ruga.
A lágrima escapou, um lenço enxuga!
Murmuro minha prece – quieta – rogo.
O corpo, então, contrito, feito viga,
prossigo, cônscia – sei que ninguém liga –
e a fome de viver me assalta logo.
Nilza Azzi
24
Dores de amor
Por medo desse amor, senti-me ao desamparo
e duvidei de mim, das bênçãos e das graças.
Olhei ao meu redor; com mostras tão esparsas,
soprei ao coração: – O amor nunca foi claro!
Nos tempos de paixão, há pares pelas praças
e, em noites de luar, em meio ao brilho raro,
insetos a voar, aos sonhos meus, comparo:
– Anseiam pela luz que, as asas, despedaça...
Existem mais confins, nos campos, vastos, ermos,
do espaço de aflição de quem se fez cativo,
do que na solidão do leito dos enfermos.
Quem ama sabe disso: – o amor, fogo abrasivo,
anula a nossa força; impõe os próprios termos
e traz, sem livre escolha, a dor sem lenitivo.
Nilza Azzi
40
Escassez
Beber contigo um tanto de alegria,
do mesmo copo, em súbita ventura,
e descobrir que és tudo que eu queria,
pois nos teus braços, sinto-me segura,
mas,de ressaca, ter a nostalgia
e palmilhar a via mais escura,
enquanto a solidão me denuncia
a pequenez de toda criatura.
Quando de tanto amor, se tem tão pouco,
em nossas mãos, e muito nos faz falta
o que de puro a vida nos reserva,
o coração, já sem governo e louco,
leva uma vida aleatória, incauta,
tal qual a flor sumida em meio à erva.
Nilza Azzi
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Cogito
Veio a Lua ao meu quintal,
enquanto o Sol foi dormir...
Viu meus sonhos no varal
e, de mim, pôs-se a sorrir:
― O que fazem, pendurados,
os teus sonhos ao sereno?
―Quero tê-los orvalhados,
todos livres de veneno.
― Que venenos podem ter,
os sonhos de um sonhador?
― A ilusão que faz sofrer
e pode matar o amor!
Nilza Azzi
43
Estações
Agosto escoou-se num longo esperar!
Enquanto setembro, com jeito e com graça,
derrama-se em flores por tudo que passa
e o vento carrega os perfumes e o ar
recende as fragrâncias sutis que entrelaça,
juntando buquês, num só e mesmo lugar,
carrego comigo a missão de juntar
as flores diversas que encontro na praça.
E o gosto passado da vida que escapa
que some sem traços, sem pontos no mapa,
descarta setembro e outros tempos virão,
nos meses do outono que traz outra etapa;
e ao fim da estiagem, que as forças solapa,
delícias de inverno! – a melhor estação.
Nilza Azzi
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Esgrafia
Deixei-me cativar por velho mestre
e seu grande domínio da poesia,
o seu lirismo excelso, herança ancestre,
pela forma ideal em que vivia...
Sigo as pegadas vivas, qual pedestre
que busca compreender o mundo e, um dia,
em meio ao primitivo tom rupestre,
depara a obra-prima que arrepia.
Nas brumas das eternas madrugadas,
tento manter as pálpebras cansadas,
abertas aos poemas que não li.
Bebo as palavras, rimas das mais belas,
a impregnar de beleza, todas elas,
os versos que encontrei aqui e ali.
Nilza Azzi
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Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!