Mar revolto
Há um soneto que permeia minha vida,
tal ferida com casquinha que se arranca,
como tranca de uma porta sem saída,
casca morta que cutuco feito santa...
É um poema que mantenho vivo em mim,
nesse tema que alimento com cautela,
pois não quero ver alento no meu fim,
em ferrenho aguilhoar. Eu fujo dela,
dessa insana tentação de poesia.
Que ousadia! Só quer ter o meu querer,
mas não cedo, não vou dar braço a torcer.
Afinal, só lero-lero não resolve!
Quero mesmo o tal um poema livre e solto,
mas navego feito nau num mar revolto...
Nilza Azzi
Teus olhos
Quero envolver-te em óleos perfumados,
fazer-te ouvir o coro celestial
e revelar sem pejo, os meus pecados,
em liberdade ter o teu aval...
Talvez andar à toa, no jardim
da tua infância, lá, onde brincavas
e resgatar o brilho, a luz enfim,
banhar teus olhos com água de malvas.
Depois chorar por eles o meu pranto
e recolher as lágrimas salgadas.
Bem devagar, cantar um acalanto...
Daquelas gotas, quando enfim geladas,
fazer compressas e cuidar entanto,
de admirá-los, tal como me agrada.
Nilza Azzi
Fracasso
Eu já não tenho um coração comigo:
faz muito tempo que ele foi embora.
No seu lugar, tudo que vejo agora
é uma ausência cheia de perigos.
Houvesse a alma e eu não a teria,
porque perdida estive para tudo
e só herdei este silêncio mudo.
– Sou uma sombra estúpida e vazia
e na ilusão de ser o que não sou
sobra uma vida que não há em mim...
Vida sem rumo, que não chega ao fim,
mas que tampouco se concretizou.
Sem coração, não sei compor um verso,
sem alma, então, o sonho é mais perverso.
Nilza Azzi
Reflexividade
Quando o ar está limpo e ouço o sino
da igreja do meu bairro, a cada hora,
acredito que o tempo vai-se embora
em busca de algum sonho peregrino,
porém, para evitar um desatino,
o tempo faz pensar que é sempre agora,
enquanto a própria vida ele devora,
a certos intervalos, sibilino...
Contudo, nessa trama, o que me espanta
e faz calar o verbo na garganta
é o peso da ilusão sobre este mundo:
− Premidos pela urgência do presente,
caímos num abismo tão profundo
que a vida chega a ser indiferente.
Nilza Azzi
Estações
Agosto escoou-se num longo esperar!
Enquanto setembro, com jeito e com graça,
derrama-se em flores por tudo que passa
e o vento carrega os perfumes e o ar
recende as fragrâncias sutis que entrelaça,
juntando buquês, num só e mesmo lugar,
carrego comigo a missão de juntar
as flores diversas que encontro na praça.
E o gosto passado da vida que escapa
que some sem traços, sem pontos no mapa,
descarta setembro e outros tempos virão,
nos meses do outono que traz outra etapa;
e ao fim da estiagem, que as forças solapa,
delícias de inverno! – a melhor estação.
Nilza Azzi
Visita
Quando, nas madrugadas, o silêncio
da minha sala enche o espaço mudo,
do céu escuro, dos confins extensos,
surgem fantasmas, sombras de veludo,
a evolar-se pelo ar, como os incensos.
A forma transparente envolve tudo
num halo triste; cobre o mundo denso.
Seria a poesia quem visita,
vestida de mistérios, de segredos,
a solidão eterna da alma aflita?
Tão doce, faz brilhar meus olhos quedos,
a sílfide atraente, assim bendita,
que afasta para longe os velhos medos
e traz a inspiração, e eleva, e agita...
Temente de que o dia a leve embora,
fecho as janelas, logo apago a luz,
cerro meus olhos, repudio a aurora,
pois a visão da deusa me seduz.
Busco a palavra, pois ela me escora;
à sua bênção quero fazer jus
e escrevo versos, como o faço agora.
Nilza Azzi
Dunas
Quando a distância for uma certeza
e entre nós não houver nenhum liame,
escreva versos e ao mundo proclame
que a alma é coisa das mais indefesas...
E sequer uma lágrima derrame;
a luz do seu olhar mantenha acesa.
No amor não há derrota nem vexame;
é ele o grande herdeiro da Beleza.
Quando as areias frias do deserto
erguerem dunas cada vez mais perto,
descarte logo o que sobrou de mim.
Em pedacinhos rasgue aquela folha
e a direção do vento não escolha;
que apenas ele possa dar-me um fim.
Nilza Azzi
Desfastio
Perder-te trouxe a dor que ainda me pega,
no meio desta angústia tola e cega.
Foi como aquela tela que se apaga
– o filme terminou e morre a vaga.
A dor nos faz crescer, alguém alega,
mas choro sempre foi demais piegas.
O risco, conferido pela adaga,
traduz – aqui se faz, aqui se paga...
Na testa permanece aquela ruga.
A lágrima escapou, um lenço enxuga!
Murmuro minha prece – quieta – rogo.
O corpo, então, contrito, feito viga,
prossigo, cônscia – sei que ninguém liga –
e a fome de viver me assalta logo.
Nilza Azzi
Estalo (back to me)
Enquanto segue a estrada em curvas certas
e a vida estica o fio e tece a teia
não sei o que fazer de minhas tolas
das minhas todas dores sem sentido
porque não tenho abraço nem abrigo
A gruta que me abriga escura e funda
esconde as ilusões nas dobras tortas
das paredes que acolhem o meu grito
sem que haja brilhos toscos pelo teto
Além desse perigo sempre incerto,
há um segredo atrás da paisagem
e todas as esmolas que recebo
não enchem o meu prato de vontades
Falta coragem de subir a escada
e a forma clara desse céu azul
não traz dentro de si um pássaro
uma esperança ou voo silencioso
que povoe o vácuo das alturas
Se os campos verdes se mostraram antes
e as aves tristes gorjearam tanto
não há beleza em certos horizontes
e as luzes não se acendem, não por mim
Mas não encontro a forma de chorar
enquanto os pirilampos fazem festa
Nilza Azzi
Degredo
Vejo a Lua surgir no céu mais cedo;
Vênus segue de perto o seu trajeto...
– Dos amores que amei, um predileto,
foi o teu. A verdade a ti concedo!
Uma estrela cintila em seu degredo,
mas aos astros não faço o menor veto;
seja o arco do céu oblongo ou reto,
cabe à alma, a repulsa ao corpo ledo.
Esse lar tão distante, além, sidéreo,
guarda longe de mim toda ventura
e conserva a incerteza do mistério.
Na abismal nebulosa, a cor escura...
Cupido escolhe o dardo e, pois, desfere-o.
– Tenho o chão sob os pés – a dor perdura!
Nilza Azzi