Garoa
Esse frio desde cedo, desde ontem,
desde sempre... gela os ossos a doer.
O cinza por sobre o sol,
neblina constante e densa,
a cidade encantada, adormecida,
desabitada de vida aparente.
Névoas correm com o vento,trocam de lugar,
mas não se dispersam, em seu passeio
sobre os contornos difusos de uma ou outra cor,
mas logo retorna o mundo oculto,
que à visão desconforta,
quase desolação.
Adivinha-se em segredo,
cada vida ali presente,
resguardada pela névoa.
Gotas delicadas, pequenas
carícias leves, geladas,
descem suavemente do céu.
Nilza Azzi
O vento e a noite
É noite no deserto, a areia dorme fria,
as sombras do luar escorrem pelas dunas,
a brisa vai soprando os grãos em tal quantia,
que a forma do lugar com nada se coaduna.
A abóbada celeste é bela e contraria
a enorme solidão e a sensação diurna
do sol, cuja inclemência e falta de empatia
são mais que uma ameaça e a vida, uma lacuna.
E o vento que segreda aos grãos, em tom suave,
respostas que roubou das asas de uma ave,
refresca ainda mais a senda e o viajante
nem chega a conceber, no entorno delirante,
o quanto o tal segredo o livra do perigo
e, em triste confusão, conversa, a sós, consigo.
Nilza Azzi
Questões sem razão
Quem diz que a mim pertence a linha do destino
e as formas que traçou na estrada do meu ser?
Quem diz se a vida é minha ou se virá a ser;
não sei do meu viver, com ele eu nunca atino.
E a falta que me faz o amor... Sem jamais ter,
de além do meu jardim, a luz que descortino?
Se nunca mais floresce o sonho genuíno
da súbita paixão que o corpo faz ferver,
o que buscar além da solidão eterna?
Nem mesmo sei qual seja a fé que me governa...
Nilza Azzi
Encanto quebrado
"São onze e meia da noite, /e eu quero ficar contigo.
Quero menos paciência /e um pouco mais de loucura..."
(Balada das Onze e Meia)
Joaquim Pessoa
Essa eterna meia hora em que as regras são quebradas. Esse tempo de loucura permitido pelas fadas... Entre a meia e a noite inteira, eu quero ficar contigo.Pois com menos paciência, de decência, um pouco menos, já não se ouvem os galos, só temos a nossa estrada. Entre a meia e a noite inteira me puxas pelos cabelos e eu quero ficar contigo.Entre a meia e a noite inteira, Lua cheia nos lençóis e, na nossa carruagem, escolha do coração, sempre clara é essa imagem tão distante da razão. E nesses trinta minutos, eu quero ficar contigo.Os nossos corpos são frutos, mantenho os olhos enxutos. Chorar o encanto quebrado, o espanto e talvez o olvido, contanto que eu vá embora, são onze e meia da noite, é coisa de meia hora. Será que vais encontrar o cristal ali esquecido?Nilza Azzi
Descartes
O incomensurável espanto
gastar-se em êxtase e contemplação
um universo não cabe num poema
nem em anos contados aos bilhões
sejam máquinas ou mentes humanas
quanto a notar a harmonia das galáxias
guardar o sagrado...
Finito no tempo é o que pensam
o universal conterá em seus limites
todos os universos
mas sempre haverá poesia
Nilza Azzi
Esperanças
Navega um veleiro, por rumos incertos,
em busca de praias selvagens, tranquilas,
perdidas nas ilhas, bem longe das vilas,
nas águas azuis desses mares desertos,
ausente, o sinal de que tempo encoberto
prometa a beleza do dia toldar.
As aves em bando desenham no ar
sinais sinuosos tão cheios de graça
e conchas e pedras, que a água entrelaça ,
faíscam na areia do fundo do mar.
Sem rota traçada, ao sabor das correntes,
entrega sem medo o caminho a seguir,
e vive o momento, sem qualquer porvir.
Por mares bravios, mais do que transparentes,
já foi seu percurso, ao sol mais ardente,
sem muita esperança de um porto alcançar,
a indiferença das águas sulcar,
até que, cansado de tantos naufrágios,
ousou desdenhar todo e qualquer presságio
e quis saber mais dos encantos do mar.
Assim somos nós! Com os nossos talentos
e, sem descansar, nós seguimos adiante,
entre ondas e vagas da vida inconstante.
Nascidos, já somos expostos ao tempo,
num mundo difícil, assaz violento,
buscamos, sem trégua, a alma aplicar
à vida empenhada no ato de amar...
Quem dera uma ilha de Paz nos aguarde
e ali nos acolha, antes que seja tarde,
o Amor, a galope, na beira do mar!
Nilza Azzi (10/05/2019)
Aqueles dias
Tenho dias
em que se perdem
todas as minhas guias
e apenas desejo
aquele dia
fora do tempo
do calendário maia
Fere-me a sensação sufocante
dos dias afundados no tempo
em que a ampulheta cósmica
escorre além de banais suposições
Alguns dias como eu queria
que fossem bolhas
sem amanhã
Nilza Azzi
Gota d'água
"Só percebemos o valor da água, depois que a fonte seca"
(Provérbio Popular)
será
que cai
se esvai
assim
sem que
ninguém
pense em
seu fim?
porém
se vai
ao chão
em vão
já lá
não há
quem vê
perder
valor
sem fim!
mas a
secar
o lago
o rio
pensei
então
só vai
chegar
pra mim...
e quem
virá
depois
de nós
só vai
poder
viver
se for
lhe dar
valor.
nilza azzi
Sequelas
Num dia, consumiram-se os sorrisos
e a terra não mais viu as primaveras,
as aves não cantaram mais, deveras,
soltavam pios roucos, imprecisos...
E logo após, o céu tornou severas
as cores dos poentes... Indecisos,
nos campos, silenciaram-se os avisos
– a vida remontava às velhas eras.
Era uma cena estranha e sem sentido,
o mundo escuro não sabia a luz,
em nada havia o brilho que seduz.
A dor de um coração desvanecido,
pairava sobre os campos nevoentos,
inertes, silenciosos e sem ventos.
Nilza Azzi
Devaneio
A esquina do meu desejo
hospeda bela roseira...
Quando vejo os seus botões,
quase prontos a se abrir,
reparo que um céu azul
lhes dá contraste perfeito.
Porém mais além da curva,
depois da velha porteira,
o campo suspira ao vento
e a saudade é verdadeira.
Nilza Azzi