Encanto quebrado
"São onze e meia da noite, /e eu quero ficar contigo.
Quero menos paciência /e um pouco mais de loucura..."
(Balada das Onze e Meia)
Joaquim Pessoa
Essa eterna meia hora em que as regras são quebradas. Esse tempo de loucura permitido pelas fadas... Entre a meia e a noite inteira, eu quero ficar contigo.Pois com menos paciência, de decência, um pouco menos, já não se ouvem os galos, só temos a nossa estrada. Entre a meia e a noite inteira me puxas pelos cabelos e eu quero ficar contigo.Entre a meia e a noite inteira, Lua cheia nos lençóis e, na nossa carruagem, escolha do coração, sempre clara é essa imagem tão distante da razão. E nesses trinta minutos, eu quero ficar contigo.Os nossos corpos são frutos, mantenho os olhos enxutos. Chorar o encanto quebrado, o espanto e talvez o olvido, contanto que eu vá embora, são onze e meia da noite, é coisa de meia hora. Será que vais encontrar o cristal ali esquecido?Nilza Azzi
Temporal
Nuvens grossas cinzentas
poeira no ar e ciscos
o vento levanta
O ar abafado pesa
o céu caminha até mim
mais e mais baixo
Ouço o farfalhar das folhas,
ecos de sons desastrosos
as aves já se esconderam
chega a escuridão
O vento aperta o passo
aproxima-se o som dos trovões
procuro um abrigo
resta-me pouco tempo
Nilza Azzi
Expediente
Espanto
não o mesmo de sempre
ou a dor mais antiga
antes o caminho do sonho
límpida esperança das manhãs
nuvens flocadas e brancas
sem prenúncio de tormenta
Súbito
não porque fosse feliz
muito mais por ser real
a vida escorre
amo sem palavras
de um fervor inconfessável
por trás dos meus ombros
os verbos clamam por vez
no silêncio das doçuras primitivas
a maldade atravessa
aquém dos meus limites
não soubesse o desejado
quisera-te sempre
mas luzes estrangeiras
levaram-te em carruagens
Catacrese
atordoadas e sem jeito
ajeitam-se em filas
palavras nascedouras
a fonte verte o líquido
límpido e correto
nada é inocente
num poema reescrito
Nilza Azzi
O vento e a noite
É noite no deserto, a areia dorme fria,
as sombras do luar escorrem pelas dunas,
a brisa vai soprando os grãos em tal quantia,
que a forma do lugar com nada se coaduna.
A abóbada celeste é bela e contraria
a enorme solidão e a sensação diurna
do sol, cuja inclemência e falta de empatia
são mais que uma ameaça e a vida, uma lacuna.
E o vento que segreda aos grãos, em tom suave,
respostas que roubou das asas de uma ave,
refresca ainda mais a senda e o viajante
nem chega a conceber, no entorno delirante,
o quanto o tal segredo o livra do perigo
e, em triste confusão, conversa, a sós, consigo.
Nilza Azzi
elipse
aqui nas profundezas em que vivo
a dor me basta e nada mais preciso
os mares são escuros e vazios
e neles já não desembocam rios
a chuva doce sobre a superfície
não mata o sal e crer nisso é sandice
o sol que esquenta a crista destas águas
não chega ao fundo nem derrete as mágoas
a lua que já produziu poesia
é massa morta e sonhos já não cria
se o sonho é a vil matéria da esperança
a vida sem sentido em mim descansa
nilza azzi
Questões sem razão
Quem diz que a mim pertence a linha do destino
e as formas que traçou na estrada do meu ser?
Quem diz se a vida é minha ou se virá a ser;
não sei do meu viver, com ele eu nunca atino.
E a falta que me faz o amor... Sem jamais ter,
de além do meu jardim, a luz que descortino?
Se nunca mais floresce o sonho genuíno
da súbita paixão que o corpo faz ferver,
o que buscar além da solidão eterna?
Nem mesmo sei qual seja a fé que me governa...
Nilza Azzi
Gota d'água
"Só percebemos o valor da água, depois que a fonte seca"
(Provérbio Popular)
será
que cai
se esvai
assim
sem que
ninguém
pense em
seu fim?
porém
se vai
ao chão
em vão
já lá
não há
quem vê
perder
valor
sem fim!
mas a
secar
o lago
o rio
pensei
então
só vai
chegar
pra mim...
e quem
virá
depois
de nós
só vai
poder
viver
se for
lhe dar
valor.
nilza azzi
Se
Se, quando eu amei, venceu-me o susto,
foi no teu olhar que eu me perdi,
tal se não vivesse mais aqui,
mas na sombra do teu corpo augusto,
tal se o céu se achasse bem ali,
naquele teu abraço em que me ajusto.
Nilza Azzi
Reflexividade
Quando o ar está limpo e ouço o sino
da igreja do meu bairro, a cada hora,
acredito que o tempo vai-se embora
em busca de algum sonho peregrino,
porém, para evitar um desatino,
o tempo faz pensar que é sempre agora,
enquanto a própria vida ele devora,
a certos intervalos, sibilino...
Contudo, nessa trama, o que me espanta
e faz calar o verbo na garganta
é o peso da ilusão sobre este mundo:
− Premidos pela urgência do presente,
caímos num abismo tão profundo
que a vida chega a ser indiferente.
Nilza Azzi
Escuna
Terza rima, inspirada no curta de animação "Bottle", de Kirsten Lepore
Havia o grande mar entre nós dois,também havia o amor e seus mistérios;um mar imenso, vasto e forte, pois...Havia a diferença de hemisfériose toda a solidão dessa lacuna; a dor da ausência e vários medos sérios.Mas, bem na praia, erguia-se uma dunae, dela se avistava, no horizonte,as velas promissoras de uma escuna.Acima da distância, havia a ponte.
Nilza Azz