Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

611

Encanto quebrado


"São onze e meia da noite, /e eu quero ficar contigo.
Quero menos paciência /e um pouco mais de loucura..." 
(Balada das Onze e Meia)
Joaquim Pessoa


Essa eterna meia hora  

em que as regras são quebradas.  
Esse tempo de loucura  
permitido pelas fadas...  
Entre a meia e a noite inteira,  
eu quero ficar contigo.

Pois com menos paciência,  
de decência, um pouco menos,  
já não se ouvem os galos,  
só temos a nossa estrada.  
Entre a meia e a noite inteira  
me puxas pelos cabelos  
e eu quero ficar contigo.

Entre a meia e a noite inteira,  
Lua cheia nos lençóis  
e, na nossa carruagem,  
escolha do coração,  
sempre clara é essa imagem  
tão distante da razão.  
E nesses trinta minutos,  
eu quero ficar contigo.

Os nossos corpos são frutos,  
mantenho os olhos enxutos.  
Chorar o encanto quebrado,  
o espanto e talvez o olvido,  
contanto que eu vá embora,  
são onze e meia da noite,  
é coisa de meia hora.  
Será que vais encontrar  
o cristal ali esquecido?


Nilza Azzi
 
73

Temporal


Nuvens grossas cinzentas
poeira no ar e ciscos
o vento levanta

O ar abafado pesa
o céu caminha até mim
mais e mais baixo

Ouço o farfalhar das folhas,
ecos de sons desastrosos 
as aves já se esconderam
chega a escuridão 

O vento aperta o passo
aproxima-se o som dos trovões
procuro um abrigo 
resta-me pouco tempo

Nilza Azzi
72

Expediente


Espanto
não o mesmo de sempre
ou a dor mais antiga
antes o caminho do sonho
límpida esperança das manhãs
nuvens flocadas e brancas
sem prenúncio de tormenta

Súbito
não porque fosse feliz
muito mais por ser real
a vida escorre
amo sem palavras
de um fervor inconfessável
por trás dos meus ombros
os verbos clamam por vez
no silêncio das doçuras primitivas
a maldade atravessa
aquém dos meus limites
não soubesse o desejado
quisera-te sempre
mas luzes estrangeiras
levaram-te em carruagens

Catacrese
atordoadas e sem jeito
ajeitam-se em filas
palavras nascedouras
a fonte verte o líquido
límpido e correto
nada é inocente
num poema reescrito

Nilza Azzi
44

O vento e a noite


É noite no deserto, a areia dorme fria,
as sombras do luar escorrem pelas dunas,
a brisa vai soprando os grãos em tal quantia,
que a forma do lugar com nada se coaduna.
 
A abóbada celeste é bela e contraria
a enorme solidão e a sensação diurna
do sol, cuja inclemência e falta de empatia
são mais que uma ameaça e a vida, uma lacuna.
 
E o vento que segreda aos grãos, em tom suave,
respostas que roubou das asas de uma ave,
refresca ainda mais a senda e o viajante
 
nem chega a conceber, no entorno delirante,
o quanto o tal segredo o livra do perigo
e, em triste confusão, conversa, a sós, consigo.

Nilza Azzi
62

elipse


aqui nas profundezas em que vivo
a dor me basta e nada mais preciso

os mares são escuros e vazios
e neles já não desembocam rios

a chuva doce sobre a superfície
não mata o sal e crer nisso é sandice

o sol que esquenta a crista destas águas
não chega ao fundo nem derrete as mágoas

a lua que já produziu poesia
é massa morta e sonhos já não cria

se o sonho é a vil matéria da esperança
a vida sem sentido em mim descansa

nilza azzi
61

Questões sem razão


Quem diz que a mim pertence a linha do destino
e as formas que traçou na estrada do meu ser?
Quem diz se a vida é minha ou se virá a ser;
não sei do meu viver, com ele eu nunca atino.
E a falta que me faz o amor... Sem jamais ter,
de além do meu jardim, a luz que descortino?
Se nunca mais floresce o sonho genuíno
da súbita paixão que o corpo faz ferver,
o que buscar além da solidão eterna?
Nem mesmo sei qual seja a fé que me governa...

Nilza Azzi
56

Gota d'água


"Só percebemos o valor da água, depois que a fonte seca" 
(Provérbio Popular) 
 

será  
que cai 
se esvai 
assim 
sem que 
ninguém 
pense em 
seu fim?

porém 
se vai 
ao chão 
em vão 
já lá 
não há 
quem vê 
perder 
valor 
sem fim!

mas a 
secar 
o lago 
o rio 
pensei 
então 
só vai  
chegar 
pra mim...

e quem 
virá 
depois 
de nós 
só vai 
poder 
viver 
se for 
lhe dar 
valor. 
 
nilza azzi
56

Se


Se, quando eu amei, venceu-me o susto,
foi no teu olhar que eu me perdi,
tal se não vivesse mais aqui,
mas na sombra do teu corpo augusto,
tal se o céu se achasse bem ali,
naquele teu abraço em que me ajusto.

Nilza Azzi
41

Reflexividade


Quando o ar está limpo e ouço o sino
da igreja do meu bairro, a cada hora,
acredito que o tempo vai-se embora
em busca de algum sonho peregrino,

porém, para evitar um desatino,
o tempo faz pensar que é sempre agora,
enquanto a própria vida ele devora,
a certos intervalos, sibilino...

Contudo, nessa trama, o que me espanta
e faz calar o verbo na garganta
é o peso da ilusão sobre este mundo:

− Premidos pela urgência do presente,
caímos num abismo tão profundo
que a vida chega a ser indiferente.

Nilza Azzi
37

Escuna

Terza rima, inspirada no curta de animação "Bottle", de Kirsten Lepore

Havia o grande mar entre nós dois,

também havia o amor e seus mistérios;
um mar imenso, vasto e forte, pois...

Havia a diferença de hemisférios
e toda a solidão dessa lacuna; 
a dor da ausência e vários medos sérios.

Mas, bem na praia, erguia-se uma duna
e, dela se avistava, no horizonte,
as velas promissoras de uma escuna.

Acima da distância, havia a ponte.

Nilza Azz

67

Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!