Lista de Poemas
Reverso
Como ela pode assim ignorar-me,
não perceber do quanto sou capaz
e resistir à força do meu charme?
Essa mulher tem muito orgulho, mas
antes que note, ou que dispare o alarme,
conhecerá a dor, não terá paz.
Mesmo que um dia venha a odiar-me,
irei em frente, sem voltar atrás.
Toda vingança é doce e eu sei disso;
que pouco a pouco ela perca o viço
e, já sem forças, dobre-se a meus pés...
E assim que a vir, vencida e submissa,
serei senhor de todas as delícias,
ao lhe dizer enfim: − Tu nada és!
Nilza Azzi
82
Natividades
O amor é feito amor,
num dia.
Mesmo sem esperança,
a alegria brota.
Sete crianças,
numa praia de areia
branca,
convidavam
para a festa
de seus sete anos...
Tudo era a carícia calma
do sol no corpo
e a sagração da vida
ali mesmo se fazia.
Sete vezes sete,
é curta a espera,
quando o amor
torna-se amor sem tempo
e pronto!
Nilza Azzi
34
Passageira
Notei um esquilo, correndo na mata,
a cauda curvada, num 'esse' preciso.
O olhar muito vivo redondo arrebata.
Nos verdes do bosque, mal via seu piso.
Subiu na nogueira e, uma noz entre as patas,
passou a comer, sem sinal nem aviso...
A vida ao redor, descansava pacata,
os galhos dançavam ao vento indeciso.
Assim a paixão, emoção passageira,
é cena fugaz na paisagem da vida,
um parco alimento das nossas vontades
e marca perene da dor tão primeira.
A força mais forte, no tempo esquecida,
fatal ilusão, que nos mata e se evade.
Nilza Azzi
30
Descartes
O incomensurável espanto
gastar-se em êxtase e contemplação
um universo não cabe num poema
nem em anos contados aos bilhões
sejam máquinas ou mentes humanas
quanto a notar a harmonia das galáxias
guardar o sagrado...
Finito no tempo é o que pensam
o universal conterá em seus limites
todos os universos
mas sempre haverá poesia
Nilza Azzi
25
luzes
já cedo acordou Lucinda
bem antes do sol surgir
na barriga leva ainda
o filho que irá parir
as dores da vida brinda
qual bebesse um elixir
não chega o sol ao nadir
e a tarefa dá por finda
coseu uma peça linda
um cueiro de zefir...
nilza azzi
34
Assim foi que chorei...
"No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho"
(Carlos Drummond de Andrade)
(Carlos Drummond de Andrade)
No meio do caminho estava ela
e não era a pedra, era a palavra
foi quando tudo deixou de ser simples
e o meu horizonte escureceu
A palavra não era a pedra
nem o caminho do meio
era o meio e o caminho
era o meio do caminho
era tudo que se via
Não havia como desviar
impossível um ar de indiferença
uma simulação de que não vi
Não! Prosseguir sem enfrentá-la
nem pensar, nem sequer uma chance
de agir como a água e contornar
passar ao lado, assobiando baixo
sem um ai ou mesmo um arrepio...
Era o obstáculo real
o reconhecimento de que escarnecia
da natural forma de dizer-se
ainda assim pensei em algum truque
a forma mais banal de solução
Pensei em dar um salto, ultrapassar
a sua arrogância, o desacato
porém aquela força intimidou-me
desisti do trajeto bloqueado
Se não puder vencê-la, dizem todos...
Juntei-me à palavra atravessada
deixei crescer o nó pela garganta
e rolei em regato vida afora
Nilza Azzi
84
Órfã
Hoje o mundo jaz, de um modo tão pequeno,
que eu me vejo só, em meu jardim secreto.
Sei, de pai e mãe, o que é perder o afeto;
sei o que é um adeus – quisera sofrer menos!
Herdo esta ilusão de um ninho mais seleto,
pleno de prazer, tão cálido e sereno,
que não sei viver distante desse reino.
Faço a minha lei; governo por decreto.
Meu casulo, enfim, é o berço em que, dormente,
tenho em minhas mãos o sonho da semente
e meu coração, que desconhece o medo,
segue a procurar a terra prometida.
Ao que chegue a vez, escolho uma saída:
– tens, ó solidão, um gosto amargo e azedo.
Nilza Azzi
36
Gota d'água
"Só percebemos o valor da água, depois que a fonte seca"
(Provérbio Popular)
será
que cai
se esvai
assim
sem que
ninguém
pense em
seu fim?
porém
se vai
ao chão
em vão
já lá
não há
quem vê
perder
valor
sem fim!
mas a
secar
o lago
o rio
pensei
então
só vai
chegar
pra mim...
e quem
virá
depois
de nós
só vai
poder
viver
se for
lhe dar
valor.
nilza azzi
48
Pequenas questões
O que será...
o que será poético mesmo sem ter metro
e mesmo ainda que lhe falte rima
a lua, as estrelas, uma flor, o arco-íris
o sentimento que me escreve
o escrever a desvendar as emoções
ou será essa vontade de saber por que existo nesse mundo
um vazio nas entranhas
uma voz
um saber sem palavras repetidas pelas pautas e entrelinhas
a poeira ao sol
cristais de gelo, folhas orvalhadas, manhãs com neblina
a garoa de São Paulo
minhas lágrimas
o chão de um deserto depois da chuva
as nuvens do céu a alterar as formas que eu invento
um sorriso...
O que será dessa estátua de sal em que tornei o meu reflexo
um grito ou uma súplica
uma vontade de fazer valer o proibido
Nilza Azzi
55
Id
De onde sairão os pensamentos fortes
que vencerão as mortes além da lousa fria
se as luas derrubadas nas montanhas
não mais terão o encanto
da perene luz vadia?
Dos velhos lobos que uivavam nas campinas
já não ressoam mais as vozes estranhas.
Das formas tamanhas e espectrais
os muitos barcos no cais
restarão apenas sombras inofensivas
e a lembrança enevoada das gradivas
fenecerá com seu último espanto.
Se não chega para tanto, a primavera desistiu talvez...
Entre os absurdos e as auroras existiria um mundo, ou sonhei?
Se não há lei que torne a realidade menos cruel
desisto de esperar, deponho a pena.
Deuses dos desertos visitados
falam dos pecados e fujo em pânico.
Sem céu a clarear-me a nova estrada
a equivocada estrela no horizonte
some sem que aponte campos verdes ou florestas
e as pequenas flores da giestas caem ao chão sem sentido
sem mesmo aspirar-lhes o perfume
qualquer criatura mais sensível.
Debruço-me sobre o precipício das vaidades
e a vertigem atinge onde me alcança.
Perdeu-se uma criança que já não tinha medo
e a experiência de morrer apenas começou...
Nilza Azzi
que vencerão as mortes além da lousa fria
se as luas derrubadas nas montanhas
não mais terão o encanto
da perene luz vadia?
Dos velhos lobos que uivavam nas campinas
já não ressoam mais as vozes estranhas.
Das formas tamanhas e espectrais
os muitos barcos no cais
restarão apenas sombras inofensivas
e a lembrança enevoada das gradivas
fenecerá com seu último espanto.
Se não chega para tanto, a primavera desistiu talvez...
Entre os absurdos e as auroras existiria um mundo, ou sonhei?
Se não há lei que torne a realidade menos cruel
desisto de esperar, deponho a pena.
Deuses dos desertos visitados
falam dos pecados e fujo em pânico.
Sem céu a clarear-me a nova estrada
a equivocada estrela no horizonte
some sem que aponte campos verdes ou florestas
e as pequenas flores da giestas caem ao chão sem sentido
sem mesmo aspirar-lhes o perfume
qualquer criatura mais sensível.
Debruço-me sobre o precipício das vaidades
e a vertigem atinge onde me alcança.
Perdeu-se uma criança que já não tinha medo
e a experiência de morrer apenas começou...
Nilza Azzi
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Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!