Lista de Poemas

ainda assim


se entre nós houvesse uma certeza
e a vida me ensinasse o que fazer
quando a paixão me dói de tão acesa
e o corpo quer cumprir o seu saber

se as dores que vivi e as que virão
coubessem numa concha perolada
e depois do fim na mesma estrada
a nos unir restasse a solidão

se tudo fosse apenas o punhal
a doer na carne tanto e tanto
que já não mais coubesse nem espanto

por reviver o mesmo e velho mal
meu bem, ainda assim serias luz
um brilho que me atrai e me seduz


nilza azzi
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Deserto


Areia e mais areia, esse horizonte
estranhamente alonga e distancia
o fim dessa aridez, sem que desponte
lugar em que repouse esta agonia. 

E o sol, capaz de ser da vida a fonte,
também semeia a morte em pleno dia.
Não há qualquer abrigo ali defronte;
o olhar procura um pouso e nada espia.

E cruza a caravana dos mil sonhos,
seguida dos pensares mais medonhos,
deserto interminável, vasto, extenso...

Abaixo dessa areia umbrosa, escura,
talvez se esconda um poço e porventura
aplaque a antiga sede por silêncio.

Nilza Azzi
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Destino


Quando parti, levando a minha trouxa
e te deixei, plantado em teu assento,
o coração batia mais violento;
a alvorada era uma mancha roxa.

E, se eu estava lúcida a contento,
a minha vida,  já desfeita e chocha,
me parecia estúpida e tão frouxa;
não mais continha graça nem alento.

Mas, ao dobrar a esquina, tudo foi
mudando e, assim, eu vi que estava certa,
pois, se ao sair larguei a tua oferta,

o teu pedido, agora o que mais dói
é ter tornado a minha vida incerta,
mas essa é mesmo a sina do poeta.

Nilza Azzi
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Devaneio


Eu e você, nós dois, sob o chuveiro,
e a lembrança das horas que passamos:
como bambus ao vento nossos ramos,
a balançar na chuva o dia inteiro.

Se me deste prazer, se nos amamos,
como se fosse em nós amor primeiro,
guardo comigo o doce do teu cheiro;
a viva sensação dos teus reclamos.

Depois, foi dos teus braços o conforto,
o teu jeito de rir, meu chapéu torto,
ao café da manhã, pãezinhos quentes,

essa delícia inquieta da ventura,
o corpo em alvoroço que procura,
nos mesmos velhos ritos, novas lentes.

Nilza Azzi
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Desejos


Quero, do amor, a parte mais preciosa,
a porção mais real e verdadeira;
quero do amor, apenas que me queira
e não me deixe triste e desditosa.

E quero amar sem medos e sem pejos,
quero esquecer de mim, viver a entrega
que sabe ser completa e, amor, não nega
doçuras e o ardor tão benfazejos.

Quero abraçar teu corpo e, do teu cheiro,
fazer o meu perfume predileto
e que entre nós não haja qualquer veto.

Quero sonhar o sonho por inteiro
– que, presa enfim ao teu abraço forte,
esqueça o mundo, nada mais me importe.

Nilza Azzi
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Dantesco


Havia monstros azuis incandescentes
e outros vermelhos, girando ao meu redor.
Havia dor, muita dor, nesse ambiente,
de um tipo tal que não deve haver pior

e a luz perfeita de um céu indiferente
a incidir sobre a pedra do altar-mor.
Era o inferno de Dante à minha frente?
Era pior que eu pensara e bem maior.

Tornava em bênção a pena mais temida
e a sujeição pela espera, num suplício.
– Seguir sem fim, condição da prória vida!

Como sofrer fosse um fardo vitalício
e aquele horror –  um fantasma suicida –
uma cilada na estrada, um precipício.

Nilza Azzi

 
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Derrota


Guardei a minha força, meu tesouro,
no castelo secreto, na alma fria;
naquele sonho inerte que anuncia:
– dos bens, apenas um é duradouro.

E digo, é bem discreta esta alegria,
porém tem um sabor imorredouro.
Um dia, do crisol, emerge o ouro;
previu-se já que assim é que seria.

Na busca por sentido, a vida escoa,
na luta entre as forças, claro, opostas,
na ânsia de ganhar qualquer pessoa.

Se Atlas leva o mundo em suas costas,
sou fraca de uma forma que destoa...
Sucumbo à tal tarefa a mim imposta.


Nilza Azzi
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Desidratação


Destrói o que seria o seu jardim em flor
e deixa, em todo espaço, um ar de desencanto...
Não há mais alegria e nem perfume. É tanto
o mal que prevalece e lhe desbota a cor.

Morreu desde a raiz, a vida desse canto;
dos ares da esperança, a dor não vai dispor.
Retrato em branco e preto, a forma bicolor
revela a emoção, melhor que a cor, garanto.

Contudo, na lembrança, a rosa permanece
e o seu perfume apraz à mente desgarrada,
do bem que alimentou, da ausente clorofila.

A cena do passado, a imagem que desfila,
indica que perdeu vitalidade e nada
sobrou daquele amor, lembrança de outra espécie.

Nilza Azzi
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Cisma


Quando ele passa por mim naquela esquina,
no carro preto, entretido em seu trajeto,
meu coração bate forte e, mais completo
é o sentimento de vida que me anima.

Toda manhã faço um voto e assim decreto:
– Devo mudar a postura matutina!
Esqueço logo a tristeza, minha sina,
quero fazer da conquista o meu projeto...

Mas lá vai ele, esquecido deste mundo,
enquanto eu busco mais ar, respiro fundo,
nesta emoção traiçoeira que me abala.

Só sei que um dia, vou ter na minha sala,
bem ante a mim, meu olhar estupefato,
numa almofada, a fofura desse gato.

Nilza Azzi
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Dimensão Paralela


Existe um chão sem formas onde piso,
chão das maiores dores e tormentos,
onde estás, não estás, e o paraíso
foge do alcance toda vez que tento

chegar mais perto. E perco meu juízo,
porque o amor não sabe ser isento.
Há uma sede em tal chão e o que preciso
é chorar junto ao mar, secar ao vento,

como roupa em varal, sem resistir,
sem receio do tempo ou do porvir;
apenas roupa, sem nada por dentro.

E, desse ponto, o céu parece perto,
tão lindo, tão azul e tão deserto,
salvo uma nuvem solta, bem no centro.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!