Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

611

Estações


Agosto escoou-se num longo esperar!
Enquanto setembro, com jeito e com graça,
derrama-se em flores por tudo que passa
e o vento carrega os perfumes e o ar

recende as fragrâncias sutis que entrelaça,
juntando buquês, num só e mesmo lugar,
carrego comigo a missão de juntar
as flores diversas que encontro na praça.

E o gosto passado da vida que escapa
que some sem traços, sem pontos no mapa,
descarta setembro e outros tempos virão,

nos meses do outono que traz outra etapa;
e ao fim da estiagem, que as forças solapa,
delícias de inverno! – a melhor estação.


Nilza Azzi
76

Estalo (back to me)


Enquanto segue a estrada em curvas certas
e a vida estica o fio e tece a teia
não sei o que fazer de minhas tolas
das minhas todas dores sem sentido
porque não tenho abraço nem abrigo

A gruta que me abriga escura e funda
esconde as ilusões nas dobras tortas
das paredes que acolhem o meu grito
sem que haja brilhos toscos pelo teto

Além desse perigo sempre incerto,
há um segredo atrás da paisagem
e todas as esmolas que recebo
não enchem o meu prato de vontades

Falta coragem de subir a escada
e a forma clara desse céu azul
não traz dentro de si um pássaro
uma esperança ou voo silencioso
que povoe o vácuo das alturas

Se os campos verdes se mostraram antes
e as aves tristes gorjearam tanto
não há beleza em certos horizontes
e as luzes não se acendem, não por mim

Mas não encontro a forma de chorar
enquanto os pirilampos fazem festa

Nilza Azzi
73

Esgrafia


Deixei-me cativar por velho mestre
e seu grande domínio da poesia,
o seu lirismo excelso, herança ancestre,
pela forma ideal em que vivia...

Sigo as pegadas vivas, qual pedestre
que busca compreender o mundo e, um dia,
em meio ao primitivo tom rupestre,
depara a obra-prima que arrepia.

Nas brumas das eternas madrugadas,
tento manter as pálpebras cansadas,
abertas aos poemas que não li.

Bebo as palavras, rimas das mais belas,
a impregnar de beleza, todas elas,
os versos que encontrei aqui e ali.

Nilza Azzi
71

Dores de amor


Por medo desse amor, senti-me ao desamparo
e duvidei de mim, das bênçãos e das graças.
Olhei ao meu redor; com mostras tão esparsas,
soprei ao coração: – O amor nunca foi claro!

Nos tempos de paixão, há pares pelas praças
e, em noites de luar, em meio ao brilho raro,
insetos a voar, aos sonhos meus, comparo:
– Anseiam pela luz que, as asas, despedaça...

Existem mais confins, nos campos, vastos, ermos,
do espaço de aflição de quem se fez cativo,
do que na solidão do leito dos enfermos.

Quem ama sabe disso: – o amor, fogo abrasivo,
anula a nossa força; impõe os próprios termos
e traz, sem livre escolha, a dor sem lenitivo.

Nilza Azzi

 
51

Espelho


Se a dor é o mal que encrua na garganta
e a vida, mais que em beco sem saída,
nos deixa em meio à angústia desmedida
que fere o coração e o desencanta...
E se um espelho escuta o que é confesso
e manda longe os males, e os espanta,
além do tempo vago do regresso,
remói a lucidez, quem sabe quanta
será, de tal palavra, a força vã.
Se a voz procura a terra prometida,
não tem entanto a crença no amanhã,
pois tudo o vento leva nessa lida.

E o sol que tinge as nuvens do poente,
espelha a morte, a tudo indiferente.

Nilza Azzi
76

Dimensão Paralela


Existe um chão sem formas onde piso,
chão das maiores dores e tormentos,
onde estás, não estás, e o paraíso
foge do alcance toda vez que tento

chegar mais perto. E perco meu juízo,
porque o amor não sabe ser isento.
Há uma sede em tal chão e o que preciso
é chorar junto ao mar, secar ao vento,

como roupa em varal, sem resistir,
sem receio do tempo ou do porvir;
apenas roupa, sem nada por dentro.

E, desse ponto, o céu parece perto,
tão lindo, tão azul e tão deserto,
salvo uma nuvem solta, bem no centro.

Nilza Azzi
58

Visita


Quando, nas madrugadas, o silêncio
da minha sala enche o espaço mudo,
do céu escuro, dos confins extensos,
surgem fantasmas, sombras de veludo,
a evolar-se pelo ar, como os incensos.

A forma transparente envolve tudo
num halo triste; cobre o mundo denso.

Seria a poesia quem visita,
vestida de mistérios, de segredos,
a solidão eterna da alma aflita?

Tão doce, faz brilhar meus olhos quedos,
a sílfide atraente, assim bendita,
que afasta para longe os velhos medos
e traz a inspiração, e eleva, e agita...

Temente de que o dia a leve embora,
fecho as janelas, logo apago a luz,
cerro meus olhos, repudio a aurora,
pois a visão da deusa me seduz.

Busco a palavra, pois ela me escora;
à  sua bênção quero fazer jus
e escrevo versos, como o faço agora.

Nilza Azzi
58

Dunas


Quando a distância for uma certeza
e entre nós não houver nenhum liame,
escreva versos e ao mundo proclame
que a alma é coisa das mais indefesas...

E sequer uma lágrima derrame;
a luz do seu olhar mantenha acesa.
No amor não há derrota nem vexame;
é ele o grande herdeiro da Beleza.

Quando as areias frias do deserto
erguerem dunas cada vez mais perto,
descarte logo o que sobrou de mim.

Em pedacinhos rasgue aquela folha
e a direção do vento não escolha;
que apenas ele possa dar-me um fim.

Nilza Azzi
169

Cisma


Quando ele passa por mim naquela esquina,
no carro preto, entretido em seu trajeto,
meu coração bate forte e, mais completo
é o sentimento de vida que me anima.

Toda manhã faço um voto e assim decreto:
– Devo mudar a postura matutina!
Esqueço logo a tristeza, minha sina,
quero fazer da conquista o meu projeto...

Mas lá vai ele, esquecido deste mundo,
enquanto eu busco mais ar, respiro fundo,
nesta emoção traiçoeira que me abala.

Só sei que um dia, vou ter na minha sala,
bem ante a mim, meu olhar estupefato,
numa almofada, a fofura desse gato.

Nilza Azzi
51

ainda assim


se entre nós houvesse uma certeza
e a vida me ensinasse o que fazer
quando a paixão me dói de tão acesa
e o corpo quer cumprir o seu saber

se as dores que vivi e as que virão
coubessem numa concha perolada
e depois do fim na mesma estrada
a nos unir restasse a solidão

se tudo fosse apenas o punhal
a doer na carne tanto e tanto
que já não mais coubesse nem espanto

por reviver o mesmo e velho mal
meu bem, ainda assim serias luz
um brilho que me atrai e me seduz


nilza azzi
58

Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!