Lista de Poemas

Conotações


Essa palavra fácil, sempre astuta,
que não posso deter no meu palato,
fala por mim, porém nunca me escuta;
essa palavra, com seu ar barato,

com seus vícios, desvios de conduta,
a enorme força nela, eu desacato.
Que venha a mim na arena, absoluta,
para saber quem vai vencer, de fato.

Hei de arrancar-lhe máscaras e vestes,
hei de deixá-la nua, hei de expô-la,
para que nunca mais me faça tola...

Hei de entregá-la às órbitas celestes
e quando enfim tornar a encontrá-la,
que ela me seja clara em grande escala.

Nilza Azzi
37

Espelho


Se a dor é o mal que encrua na garganta
e a vida, mais que em beco sem saída,
nos deixa em meio à angústia desmedida
que fere o coração e o desencanta...
E se um espelho escuta o que é confesso
e manda longe os males, e os espanta,
além do tempo vago do regresso,
remói a lucidez, quem sabe quanta
será, de tal palavra, a força vã.
Se a voz procura a terra prometida,
não tem entanto a crença no amanhã,
pois tudo o vento leva nessa lida.

E o sol que tinge as nuvens do poente,
espelha a morte, a tudo indiferente.

Nilza Azzi
65

Visita


Quando, nas madrugadas, o silêncio
da minha sala enche o espaço mudo,
do céu escuro, dos confins extensos,
surgem fantasmas, sombras de veludo,
a evolar-se pelo ar, como os incensos.

A forma transparente envolve tudo
num halo triste; cobre o mundo denso.

Seria a poesia quem visita,
vestida de mistérios, de segredos,
a solidão eterna da alma aflita?

Tão doce, faz brilhar meus olhos quedos,
a sílfide atraente, assim bendita,
que afasta para longe os velhos medos
e traz a inspiração, e eleva, e agita...

Temente de que o dia a leve embora,
fecho as janelas, logo apago a luz,
cerro meus olhos, repudio a aurora,
pois a visão da deusa me seduz.

Busco a palavra, pois ela me escora;
à  sua bênção quero fazer jus
e escrevo versos, como o faço agora.

Nilza Azzi
47

Degredo


Vejo a Lua surgir no céu mais cedo;
Vênus segue de perto o seu trajeto...
– Dos amores que amei, um predileto,
foi o teu.  A verdade a ti concedo!

Uma estrela cintila em seu degredo,
mas aos astros não faço o menor veto;
seja o arco do céu oblongo ou reto,
cabe à alma, a repulsa ao corpo ledo.

Esse lar tão distante, além,  sidéreo,
guarda longe de mim toda ventura
e conserva a incerteza do mistério.

Na abismal nebulosa, a cor escura...
Cupido escolhe o dardo e, pois, desfere-o.
– Tenho o chão sob os pés – a dor perdura!

Nilza Azzi
19

Dunas


Quando a distância for uma certeza
e entre nós não houver nenhum liame,
escreva versos e ao mundo proclame
que a alma é coisa das mais indefesas...

E sequer uma lágrima derrame;
a luz do seu olhar mantenha acesa.
No amor não há derrota nem vexame;
é ele o grande herdeiro da Beleza.

Quando as areias frias do deserto
erguerem dunas cada vez mais perto,
descarte logo o que sobrou de mim.

Em pedacinhos rasgue aquela folha
e a direção do vento não escolha;
que apenas ele possa dar-me um fim.

Nilza Azzi
158

Luzes vacilantes


Estava o Sol atrás das nuvens escondido,
enquanto a noite além dos montes ia embora...
Iria o dia enfim surgir a qualquer hora,
trazendo a luz e o afã das aves – o alarido!

Estava a Lua, após a noite, mais senhora
dos céus azuis, porque de mim só tem ouvido
o suspirar que vem de um sonho colorido,
em que reverberou a tua voz sonora.

O espaço que mantém a Lua e o Sol distantes
– o mesmo em que a voar, a mente te procura –
conserva-me à mercê do que não sonhei antes...

E sobra então o dom, amada criatura,
de conhecer tão bem as luzes vacilantes,
as variações gentis – do amor, a voz mais pura.

Nilza Azzi

 
42

Estalo (back to me)


Enquanto segue a estrada em curvas certas
e a vida estica o fio e tece a teia
não sei o que fazer de minhas tolas
das minhas todas dores sem sentido
porque não tenho abraço nem abrigo

A gruta que me abriga escura e funda
esconde as ilusões nas dobras tortas
das paredes que acolhem o meu grito
sem que haja brilhos toscos pelo teto

Além desse perigo sempre incerto,
há um segredo atrás da paisagem
e todas as esmolas que recebo
não enchem o meu prato de vontades

Falta coragem de subir a escada
e a forma clara desse céu azul
não traz dentro de si um pássaro
uma esperança ou voo silencioso
que povoe o vácuo das alturas

Se os campos verdes se mostraram antes
e as aves tristes gorjearam tanto
não há beleza em certos horizontes
e as luzes não se acendem, não por mim

Mas não encontro a forma de chorar
enquanto os pirilampos fazem festa

Nilza Azzi
62

Prognose


Ninguém pode viver a dor que é minha
ou mesmo  compartir minha alegria.
A vida nunca segue a mesma linha
– é cheia de contrastes, eu diria...

Percorro meu caminho, tão sozinha,
vivendo a solidão das companhias
e o mundo, ao me fitar, não adivinha
o quanto a minha alma se arrepia.

Badala o velho sino de uma igreja.
As ruas mais desertas seguem tortas.
Desdobram-se as esquinas dos meus medos.

Confesso ter morrido ainda cedo.
Fechadas, encontrei todas as portas.
Não vejo no futuro um bem, que seja.

Nilza Azzi
35

Baya


Uma jovem princesa do Oriente,
beleza ímpar, corpo escultural,
apaixonou-se tão perdidamente
–  ele era herói a combater o mal.

Peixe Dourado, entanto indiferente,
não compartia sentimento igual;
em sua saga, curvas e vertentes,
buscava unir-se à Rosa, outra vestal.

Havia um rei, um homem mau, tirano,
que a jovem Baya cortejava certo
de tê-la um dia, em seus braços reais.

Sem sonhos, sem vencer o desengano,
foi ela ao cais, a ver o mar de perto,
e da princesa ninguém soube mais...

Nilza Azzi

 
41

Despedida


Não foi um grande amor, o que eu senti por ti.
Também não foi paixão; paixões não são assim...
Nem mesmo foi razão do meu melhor poema;
foi simples ilusão que um dia chega ao fim.
Não sei se dependeu de mim esse desfecho
se a vida é que nos traz tais peças porque quer
passar-nos as lições ainda não sabidas
difíceis de aprender, para qualquer mulher.
Amor eu não senti, e afirmo sem receio:
– Jamais meu coração ficou partido ao meio.

Nilza Azzi
36

Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!