Lista de Poemas

Galáctica


Meu namorado colhe estrelas, tece os ramos
que me oferece, azuis clarinhos, cintilantes...
Dispõe tapetes só de flores onde estamos,
onde sorvemos luz e amor, a cada instante.
Sua presença traz ao mundo a cor dourada;
faz coração vibrar num sentimento puro.
ele é presente, ele é passado, ele é futuro.
Meu namorado põe a luz no meu olhar
e o mundo faz girar veloz à minha volta;
com devoção conduz minh’alma a apreciar
a imensidão... Tal qual um raio, ela se solta
dessa prisão e, sem temer mais coisa alguma,
alcança os sonhos das venturas, uma a uma.

Nilza Azzi

 
68

Entrelaços


Entre laços de amor me embaracei
e não fiz fita – fui demais sincera.
Como se o mundo não tivesse lei,
nesse entrelace, eu esqueci quem era.

Teci laços de flores, primaveras
deixei pelos caminhos que passei
e, quando o som de passos reverbera,
a alma pronta espera por seu rei.

Risquei os corações entrelaçados,
os nomes desenhados com espinho,
num tronco, bem à beira do caminho.

Deixei tudo que prende no passado:
Os laços sejam belos  e perfeitos,
mas possam desmanchar, com certo jeito.

Nilza Azzi
136

Desafio


O que diria o Amor, à nossa volta,
ao constatar que nos queremos tanto?
– Esbarraria mudo em tal encanto,
a se abrasar nas chispas que ele solta,

o nosso amor, alheio ao seu espanto,
e, embevecido, em calma contravolta,
nos seguiria e nos faria escolta,
para aprender de si um novo canto.

E o que será que nós, assim perdidos,
em tal enlevo, ao susto de Cupido,
como resposta ao deus, teríamos feito?

Ao sermos um, os dois, em nosso leito,
e ao lhe sorrir, qual fôssemos crianças:
– Que tal ser sonho  em fúlgida bonança?

Nilza Azzi
49

A cartomante


Ela agitou a bola e olhou bem fundo;
logo explicou, tudo é ilusão da mente
e sei por que é assim, exatamente,
é que te opões ao bom e velho mundo.

Tu sofres tanto, quando ninguém sente
a solidão e a dor, cada segundo,
se nessa opinião eu me aprofundo,
é porque és forte, além de renitente.

Mas ninguém leva um fardo além das forças!
Se acreditar em Maya leva adiante
e nos solapa a paz de cada instante,

mesmo que finjas e a visão distorças,
o que o cristal revela, sem embargo,
é que essa escolha deixa gosto amargo.

Nilza Azzi
64

Livro das horas


O outono retornou. De Vésper, às completas,
cintila já uma luz, no vasto escuro, ao passo
que a noite, protetora, acolhe num abraço,
abrigo encantador das obras insurretas.

À terça, à sexta, à nona, ouvir a homilia,
ao frágil coração, dita os sagrados hinos.
Fiz votos de louvor e aceitação divinos,
meu elevado amor, que a mim reconcilia.

Horas em sucessão, quais contas peroladas,
passam por minhas mãos, desde o primeiro raio
da aurora que as transforma em verdes esmeraldas.

A veste faiscante, a chama, o alvorar
e o Salmo que ressoa, das matinas às laudas,
correm da fonte ao rio, sem nunca desviar. 

Nilza Azzi

(tradução do Soneto Mestre)
Livre d'heures - Couronne de sonets
Luce Bühler - Péclard
e-mail: dieter-o-buhler@bluewin.ch
39

A dança cósmica


Convém entrar na dança criativa
deste momento, o único presente,
e na roda lembrar que assim faz Shiva
em movimento eterno, permanente.

E enquanto dança e a natureza aviva,
em seu cabelo a forma de um crescente,
já  conduz outra força, a destrutiva,
e tudo volta ao caos de anteriormente.

O mestre, que é senhor do espaço e tempo,
e vive em reclusão nos Himalaias,
dançando sobre a neve é que ele ensaia

o antigo ritual; nesse entretempo,
logo o gelo derrete e um fio esguio
d‘água alimenta a vida – e forma um rio.

Nilza Azzi
54

Balada do amor além do tempo


O sol se foi, a tarde é quente,
ao longe canta o sabiá,
e o meu amor que vive ausente,
por onde andou, onde andará?
Mas o que importa? É indiferente
se o coração nem se entristece,
procura a paz e tão somente
vive da ausência e cede à prece.

E a solidão é a consulente,
pensa em escolhas, mas não há
na vida, um dom que represente
a garantia; o que nos dá,
depois nos tira. E segue em frente,
quem mais souber ou quem merece
e, por saber-se impermanente,
vive da ausência e cede à prece.

E o que será do ser ingente,
como escapar da força má
que assombra a alma, persistente,
não cede e nunca cederá?
Tudo é acaso, um acidente,
pois quem de amor, pobre, padece,
não tem futuro, nem presente;
vive da ausência e cede á prece.

Ofertório
A ti senhor e confidente,
mais te diria se pudesse
a trovadora que, silente,
vive da ausência e cede à prece.

Nilza Azzi 
76

O tigre


Dorme, sob essa pele espessa e quente,
e sonha devagar, sonha sem pressa,
fera que só conhece, do presente,
esta calma aparente e apenas essa.

No interior da pupila, em cada lente,
rememora a savana e assim regressa
à paz mais essencial, enquanto sente
o mundo que evolui dessa promessa.

Na perfeição que a natureza pinta,
carrega, das espécies, tão distinta,
a marca que lhe coube por herança,

cada detalhe em preto sobre o branco...
Visão tão surreal, chega a ser franco,
o brilho desse olhar que o tigre lança.

Nilza Azzi
55

Lapso


Quando seu coração cansou do sobressalto  
e a voz da sua mente ousou falar mais alto,  
o Amor sentiu a dor infame da ousadia:  
murchou de uma só vez, os sonhos que floria.  

Cupido recolheu as flechas, pois tomara,  
quisera para si a pétala mais cara,  
da rosa ainda fresca, incólume perfume.  
– Depois quedou no ninho, a pobre ave implume!  

Passou um tempo assim, nas asas da crisálida,  
mas, da transformação, cingiu a forma válida,  
no afã de reviver a intrépida aventura;  

a vida sem amor é triste, vaga, escura...  
– Desperta, ó bel Cupido e atira as tuas setas,  
destina a criatura às núpcias seletas.  

Nilza Azzi
46

Abandono


Hoje abandono o canto da poesia;
escolho uma palavra e vou pra farra,
ajunto-lhe a segunda, que me esbarra,
e uma terceira, ah, quase me fugia...

Em cada esquina, alguma se desgarra
atrás de si estende a sombra esguia;
samba no pé, desfila a fantasia
depois se vai, fazendo uma algazarra.

E a poesia, esse ideal tão nobre,
nessas palavras já não se descobre;
vistas do avesso, repudia as três.

Quando retorno, não me reconhece
e me abandona, tira-me a benesse,
e o meu sentido esvai-se de uma vez.

Nilza Azzi
44

Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!