Desafio
O que diria o Amor, à nossa volta,
ao constatar que nos queremos tanto?
– Esbarraria mudo em tal encanto,
a se abrasar nas chispas que ele solta,
o nosso amor, alheio ao seu espanto,
e, embevecido, em calma contravolta,
nos seguiria e nos faria escolta,
para aprender de si um novo canto.
E o que será que nós, assim perdidos,
em tal enlevo, ao susto de Cupido,
como resposta ao deus, teríamos feito?
Ao sermos um, os dois, em nosso leito,
e ao lhe sorrir, qual fôssemos crianças:
– Que tal ser sonho em fúlgida bonança?
Nilza Azzi
Dantesco
Havia monstros azuis incandescentes
e outros vermelhos, girando ao meu redor.
Havia dor, muita dor, nesse ambiente,
de um tipo tal que não deve haver pior
e a luz perfeita de um céu indiferente
a incidir sobre a pedra do altar-mor.
Era o inferno de Dante à minha frente?
Era pior que eu pensara e bem maior.
Tornava em bênção a pena mais temida
e a sujeição pela espera, num suplício.
– Seguir sem fim, condição da prória vida!
Como sofrer fosse um fardo vitalício
e aquele horror – um fantasma suicida –
uma cilada na estrada, um precipício.
Nilza Azzi
Deserto
Areia e mais areia, esse horizonte
estranhamente alonga e distancia
o fim dessa aridez, sem que desponte
lugar em que repouse esta agonia.
E o sol, capaz de ser da vida a fonte,
também semeia a morte em pleno dia.
Não há qualquer abrigo ali defronte;
o olhar procura um pouso e nada espia.
E cruza a caravana dos mil sonhos,
seguida dos pensares mais medonhos,
deserto interminável, vasto, extenso...
Abaixo dessa areia umbrosa, escura,
talvez se esconda um poço e porventura
aplaque a antiga sede por silêncio.
Nilza Azzi
A cartomante
Ela agitou a bola e olhou bem fundo;
logo explicou, tudo é ilusão da mente
e sei por que é assim, exatamente,
é que te opões ao bom e velho mundo.
Tu sofres tanto, quando ninguém sente
a solidão e a dor, cada segundo,
se nessa opinião eu me aprofundo,
é porque és forte, além de renitente.
Mas ninguém leva um fardo além das forças!
Se acreditar em Maya leva adiante
e nos solapa a paz de cada instante,
mesmo que finjas e a visão distorças,
o que o cristal revela, sem embargo,
é que essa escolha deixa gosto amargo.
Nilza Azzi
O tigre
Dorme, sob essa pele espessa e quente,
e sonha devagar, sonha sem pressa,
fera que só conhece, do presente,
esta calma aparente e apenas essa.
No interior da pupila, em cada lente,
rememora a savana e assim regressa
à paz mais essencial, enquanto sente
o mundo que evolui dessa promessa.
Na perfeição que a natureza pinta,
carrega, das espécies, tão distinta,
a marca que lhe coube por herança,
cada detalhe em preto sobre o branco...
Visão tão surreal, chega a ser franco,
o brilho desse olhar que o tigre lança.
Nilza Azzi
Abandono
Hoje abandono o canto da poesia;
escolho uma palavra e vou pra farra,
ajunto-lhe a segunda, que me esbarra,
e uma terceira, ah, quase me fugia...
Em cada esquina, alguma se desgarra
atrás de si estende a sombra esguia;
samba no pé, desfila a fantasia
depois se vai, fazendo uma algazarra.
E a poesia, esse ideal tão nobre,
nessas palavras já não se descobre;
vistas do avesso, repudia as três.
Quando retorno, não me reconhece
e me abandona, tira-me a benesse,
e o meu sentido esvai-se de uma vez.
Nilza Azzi
Livro das horas
O outono retornou. De Vésper, às completas,cintila já uma luz, no vasto escuro, ao passoque a noite, protetora, acolhe num abraço,abrigo encantador das obras insurretas.À terça, à sexta, à nona, ouvir a homilia,ao frágil coração, dita os sagrados hinos.Fiz votos de louvor e aceitação divinos,meu elevado amor, que a mim reconcilia.Horas em sucessão, quais contas peroladas,passam por minhas mãos, desde o primeiro raioda aurora que as transforma em verdes esmeraldas.A veste faiscante, a chama, o alvorare o Salmo que ressoa, das matinas às laudas,correm da fonte ao rio, sem nunca desviar. Nilza Azzi
(tradução do Soneto Mestre)Livre d'heures - Couronne de sonetsLuce Bühler - Péclarde-mail: [email protected]
A dança cósmica
Convém entrar na dança criativa
deste momento, o único presente,
e na roda lembrar que assim faz Shiva
em movimento eterno, permanente.
E enquanto dança e a natureza aviva,
em seu cabelo a forma de um crescente,
já conduz outra força, a destrutiva,
e tudo volta ao caos de anteriormente.
O mestre, que é senhor do espaço e tempo,
e vive em reclusão nos Himalaias,
dançando sobre a neve é que ele ensaia
o antigo ritual; nesse entretempo,
logo o gelo derrete e um fio esguio
d‘água alimenta a vida – e forma um rio.
Nilza Azzi
Lapso
Quando seu coração cansou do sobressalto
e a voz da sua mente ousou falar mais alto,
o Amor sentiu a dor infame da ousadia:
murchou de uma só vez, os sonhos que floria.
Cupido recolheu as flechas, pois tomara,
quisera para si a pétala mais cara,
da rosa ainda fresca, incólume perfume.
– Depois quedou no ninho, a pobre ave implume!
Passou um tempo assim, nas asas da crisálida,
mas, da transformação, cingiu a forma válida,
no afã de reviver a intrépida aventura;
a vida sem amor é triste, vaga, escura...
– Desperta, ó bel Cupido e atira as tuas setas,
destina a criatura às núpcias seletas.
Nilza Azzi
Balada do amor além do tempo
O sol se foi, a tarde é quente,
ao longe canta o sabiá,
e o meu amor que vive ausente,
por onde andou, onde andará?
Mas o que importa? É indiferente
se o coração nem se entristece,
procura a paz e tão somente
vive da ausência e cede à prece.
E a solidão é a consulente,
pensa em escolhas, mas não há
na vida, um dom que represente
a garantia; o que nos dá,
depois nos tira. E segue em frente,
quem mais souber ou quem merece
e, por saber-se impermanente,
vive da ausência e cede à prece.
E o que será do ser ingente,
como escapar da força má
que assombra a alma, persistente,
não cede e nunca cederá?
Tudo é acaso, um acidente,
pois quem de amor, pobre, padece,
não tem futuro, nem presente;
vive da ausência e cede á prece.
Ofertório
A ti senhor e confidente,
mais te diria se pudesse
a trovadora que, silente,
vive da ausência e cede à prece.
Nilza Azzi