Abandono
Hoje abandono o canto da poesia;
escolho uma palavra e vou pra farra,
ajunto-lhe a segunda, que me esbarra,
e uma terceira, ah, quase me fugia...
Em cada esquina, alguma se desgarra
atrás de si estende a sombra esguia;
samba no pé, desfila a fantasia
depois se vai, fazendo uma algazarra.
E a poesia, esse ideal tão nobre,
nessas palavras já não se descobre;
vistas do avesso, repudia as três.
Quando retorno, não me reconhece
e me abandona, tira-me a benesse,
e o meu sentido esvai-se de uma vez.
Nilza Azzi
Livro das horas
O outono retornou. De Vésper, às completas,cintila já uma luz, no vasto escuro, ao passoque a noite, protetora, acolhe num abraço,abrigo encantador das obras insurretas.À terça, à sexta, à nona, ouvir a homilia,ao frágil coração, dita os sagrados hinos.Fiz votos de louvor e aceitação divinos,meu elevado amor, que a mim reconcilia.Horas em sucessão, quais contas peroladas,passam por minhas mãos, desde o primeiro raioda aurora que as transforma em verdes esmeraldas.A veste faiscante, a chama, o alvorare o Salmo que ressoa, das matinas às laudas,correm da fonte ao rio, sem nunca desviar. Nilza Azzi
(tradução do Soneto Mestre)Livre d'heures - Couronne de sonetsLuce Bühler - Péclarde-mail: [email protected]
Baya
Uma jovem princesa do Oriente,
beleza ímpar, corpo escultural,
apaixonou-se tão perdidamente
– ele era herói a combater o mal.
Peixe Dourado, entanto indiferente,
não compartia sentimento igual;
em sua saga, curvas e vertentes,
buscava unir-se à Rosa, outra vestal.
Havia um rei, um homem mau, tirano,
que a jovem Baya cortejava certo
de tê-la um dia, em seus braços reais.
Sem sonhos, sem vencer o desengano,
foi ela ao cais, a ver o mar de perto,
e da princesa ninguém soube mais...
Nilza Azzi
A dança cósmica
Convém entrar na dança criativa
deste momento, o único presente,
e na roda lembrar que assim faz Shiva
em movimento eterno, permanente.
E enquanto dança e a natureza aviva,
em seu cabelo a forma de um crescente,
já conduz outra força, a destrutiva,
e tudo volta ao caos de anteriormente.
O mestre, que é senhor do espaço e tempo,
e vive em reclusão nos Himalaias,
dançando sobre a neve é que ele ensaia
o antigo ritual; nesse entretempo,
logo o gelo derrete e um fio esguio
d‘água alimenta a vida – e forma um rio.
Nilza Azzi
Prognose
Ninguém pode viver a dor que é minha
ou mesmo compartir minha alegria.
A vida nunca segue a mesma linha
– é cheia de contrastes, eu diria...
Percorro meu caminho, tão sozinha,
vivendo a solidão das companhias
e o mundo, ao me fitar, não adivinha
o quanto a minha alma se arrepia.
Badala o velho sino de uma igreja.
As ruas mais desertas seguem tortas.
Desdobram-se as esquinas dos meus medos.
Confesso ter morrido ainda cedo.
Fechadas, encontrei todas as portas.
Não vejo no futuro um bem, que seja.
Nilza Azzi
Entrelaços
Entre laços de amor me embaracei
e não fiz fita – fui demais sincera.
Como se o mundo não tivesse lei,
nesse entrelace, eu esqueci quem era.
Teci laços de flores, primaveras
deixei pelos caminhos que passei
e, quando o som de passos reverbera,
a alma pronta espera por seu rei.
Risquei os corações entrelaçados,
os nomes desenhados com espinho,
num tronco, bem à beira do caminho.
Deixei tudo que prende no passado:
Os laços sejam belos e perfeitos,
mas possam desmanchar, com certo jeito.
Nilza Azzi
Galáctica
Meu namorado colhe estrelas, tece os ramos
que me oferece, azuis clarinhos, cintilantes...
Dispõe tapetes só de flores onde estamos,
onde sorvemos luz e amor, a cada instante.
Sua presença traz ao mundo a cor dourada;
faz coração vibrar num sentimento puro.
ele é presente, ele é passado, ele é futuro.
Meu namorado põe a luz no meu olhar
e o mundo faz girar veloz à minha volta;
com devoção conduz minh’alma a apreciar
a imensidão... Tal qual um raio, ela se solta
dessa prisão e, sem temer mais coisa alguma,
alcança os sonhos das venturas, uma a uma.
Nilza Azzi
Balada do amor além do tempo
O sol se foi, a tarde é quente,
ao longe canta o sabiá,
e o meu amor que vive ausente,
por onde andou, onde andará?
Mas o que importa? É indiferente
se o coração nem se entristece,
procura a paz e tão somente
vive da ausência e cede à prece.
E a solidão é a consulente,
pensa em escolhas, mas não há
na vida, um dom que represente
a garantia; o que nos dá,
depois nos tira. E segue em frente,
quem mais souber ou quem merece
e, por saber-se impermanente,
vive da ausência e cede à prece.
E o que será do ser ingente,
como escapar da força má
que assombra a alma, persistente,
não cede e nunca cederá?
Tudo é acaso, um acidente,
pois quem de amor, pobre, padece,
não tem futuro, nem presente;
vive da ausência e cede á prece.
Ofertório
A ti senhor e confidente,
mais te diria se pudesse
a trovadora que, silente,
vive da ausência e cede à prece.
Nilza Azzi
O tigre
Dorme, sob essa pele espessa e quente,
e sonha devagar, sonha sem pressa,
fera que só conhece, do presente,
esta calma aparente e apenas essa.
No interior da pupila, em cada lente,
rememora a savana e assim regressa
à paz mais essencial, enquanto sente
o mundo que evolui dessa promessa.
Na perfeição que a natureza pinta,
carrega, das espécies, tão distinta,
a marca que lhe coube por herança,
cada detalhe em preto sobre o branco...
Visão tão surreal, chega a ser franco,
o brilho desse olhar que o tigre lança.
Nilza Azzi
Lapso
Quando seu coração cansou do sobressalto
e a voz da sua mente ousou falar mais alto,
o Amor sentiu a dor infame da ousadia:
murchou de uma só vez, os sonhos que floria.
Cupido recolheu as flechas, pois tomara,
quisera para si a pétala mais cara,
da rosa ainda fresca, incólume perfume.
– Depois quedou no ninho, a pobre ave implume!
Passou um tempo assim, nas asas da crisálida,
mas, da transformação, cingiu a forma válida,
no afã de reviver a intrépida aventura;
a vida sem amor é triste, vaga, escura...
– Desperta, ó bel Cupido e atira as tuas setas,
destina a criatura às núpcias seletas.
Nilza Azzi