Negação
O vento sopra baixo e faz tremer as folhas,
o tempo está suspenso e aponta a transição,
a luz também declina, as horas lentas vão...
Procuro o teu afeto. Espero que me acolhas.
A tarde é morna, o Sol sumiu naquele vão,
o vento sopra o céu, as nuvens formam bolhas
e logo mais o quarto enluará e, então,
meu canto largo ao vento. Espero que o recolhas.
Mas não, não quero isso, a Lua me aconselha
a contemplar no céu a estrela mais vermelha,
a entender que o sonho é construído assim,
na pretensão rasteira e o meu repúdio à guerra,
porque, se a solidão, qualquer mortal desterra,
jamais aceito a posse — é força estranha a mim!
Nilza Azzi
Porto
Quando Augusto sorriu, foi o bastante...
– Armadilha de amor – fez-me cativa!
Do seu beijo, bebi doce saliva,
sem querer me perdi. Fui mais adiante.
No frescor das manhãs de Sol radiante,
a caminho da escola, eu, sempre viva,
era a mulher fatal, a eterna diva,
era enfim sedutora, embora infante.
Quando Augusto partiu, sem mais aviso,
restou-me suportar a triste história,
sofrer, sentir a alma merencória.
Mas não vou dar a mão á palmatória.
É só saber poupar e ter juízo...
– Nas terras d’além-mar, um dia piso!
Nilza Azzi
Atrás daquela nuvem
Atrás daquela nuvem vai meu sonho,
tão longe quanto pode o meu afeto
e deste meu amor vai tão repleto
− são doces esperanças que transponho.
Se a nuvem leva o sonho que projeto,
a terra me parece um céu risonho
e mais e mais na luz do amor me enfronho,
e assim tento alcançar-te, meu dileto.
Porém se sonho e nuvem são alados,
o sonho que carrega meus cuidados
não é, como essa nuvem, passageiro.
Aquilo que encontrei em ti tão forte
é mais do que sonhei por minha sorte,
é nuvem, sonho, céu de que me abeiro.
Nilza Azzi
Bambu
Essa forma que existe e que é de fato
um ato impreciso e coerente
confirma que paguei, foi bem barato
o preço pela graça do presente.
O centro do episódio, esse eu relato,
nas formas de um evento delinquente,
chegou de mim bem perto e pago o pato,
enquanto essa poeira não se assente.
Suzana abusou da confiança
que nela sempre tive, e da amizade...
Soprou aos quatro ventos que sou má.
Porém, não há verdade e se é que a há,
na certa, nova dúvida me invade:
− Bambu, se sopra o vento, ele balança?
Nilza Azzi
Barragem
Não foi do teu amor que eu me salvei,
também não foi da pena que deixaste...
O amor quando aparece quer ser lei,
mas flor não se sustenta sem ter haste.
O porto dessa ilha, à qual cheguei,
é abrigo que me poupa do desgaste.
Aqui já não há trono nem há rei,
não há qualquer corrente que me arraste.
As águas são mais calmas. Enseadas
permitem desfrutar de um mar seguro,
repleto de piscinas naturais.
Lembranças permanecem represadas,
contidas com firmeza atrás do muro
e a dor calou, à força, quaisquer ais.
Nilza Azzi
Apuro
Sumir-se enfim, se não existe em nós
mais esperanças de seguir adiante,
mas entender que, por um breve instante,
de um sonho, pôde revelar-se a voz.
Seguir a luz, a esfera delirante,
tocar o céu, perdê-lo logo após
– reconhecer que a dor é mais veloz
e a alegria, o tempo de um flagrante.
Depois saber que nada do que passa
pode alterar a nossa irrelevância,
ou afastar de nós a velha sina...
À ilusão, roubar-lhe a eterna graça,
por relegar ao limbo, o sonho e a ânsia...
Elevar a tristeza à dor mais fina.
Nilza Azzi
Assim foi que chorei...
"No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho"
(Carlos Drummond de Andrade)
No meio do caminho estava elae não era a pedra, era a palavrafoi quando tudo deixou de ser simplese o meu horizonte escureceuA palavra não era a pedranem o caminho do meioera o meio e o caminhoera o meio do caminhoera tudo que se viaNão havia como desviarimpossível um ar de indiferençauma simulação de que não viNão! Prosseguir sem enfrentá-lanem pensar, nem sequer uma chancede agir como a água e contornarpassar ao lado, assobiando baixosem um ai ou mesmo um arrepio...Era o obstáculo realo reconhecimento de que escarneciada natural forma de dizer-seainda assim pensei em algum truquea forma mais banal de soluçãoPensei em dar um salto, ultrapassara sua arrogância, o desacatoporém aquela força intimidou-medesisti do trajeto bloqueadoSe não puder vencê-la, dizem todos...Juntei-me à palavra atravessadadeixei crescer o nó pela gargantae rolei em regato vida aforaNilza Azzi
Banalidades
Um fantasma rondava no escuro,
com seu hálito fétido, impuro.
Desviei dessa sombra e me pus
ao resguardo, debaixo da luz.
No momento, vencidos apuros,
tenho o lápis nas mãos, bem seguro,
e procuro afinal fazer jus!
Aos teus pés a promessa depus:
– Editar um poema elevado,
cujas rimas se põem lado a lado.
Meu estilo parece propício,
mas a verve não tem tal finesse.
A verdade depressa aparece:
– O soneto é uma arte de ofício.
Nilza Azzi
Fratura
Partiu-se a porcelana em mil pedaços,
a bela estatueta, o bibelô...
A vida também tem vários fracassos
e assim, nossa amizade não durou.
Distâncias separaram nossos passos,
findou-se aquele jogo de ioiô...
Os bens da criatura são escassos,
é fato e a natureza o revelou.
Com força inabalável e segura
desfez-se a esperteza desse engodo,
porque sou bem difícil de enganar.
Sinais, os pressenti, peguei no ar,
suspeitos, a passar por mim a rodo,
e assim foi-se a quimera, um dia pura.
Nilza Azzi
Duvido que você saiba
Duvido que você saiba
me explicar o que aqui fiz.
Se o texto, com seus segredos,
sumiu, diante do nariz,
ou ficou no vão dos dedos.
Quero ver você agora
vir salvar-me dos meus medos!
Duvido que você saiba
o que eu senti agora.
Quando jorra o chafariz,
a lágrima se evapora,
mesmo se nos faz feliz?
Quero ver você agora
escapar por esse triz!
Duvido que você saiba
ler piada sem sorrir.
Se um quarto é inteiro
quando é feito pra dormir,
deter fogo sem aceiro...
Quero ver você agora,
contar tempo sem dinheiro!
Duvido que você saiba
cortar a água com faca,
tirar o leite das pedras,
onde encontrar uma paca,
porque uma nuvem empedra...
Quero ver você agora
achar onde o vento medra!
Duvido que você saiba
que não morre uma amizade,
nem mesmo quando se crê
que tempo mata a saudade
daquilo que não se vê...
Quero ver você agora
entender o que aqui lê!
Duvido que você saiba
viver em ilha deserta
e ainda achar alguém
na hora e medida certa
e não duvidar de ninguém...
Quero ver você agora
trocar tostão por vintém!
Nilza Azzi