Lista de Poemas

Migração

Nos leitos em que se deita minha canoa,
nas águas pouco profundas, deveras calmas,
navegam alienadas diversas almas:
–  A vida nessas paragens já não é boa.

Nas linhas que desenharam a minha palma,
no curso desse remanso tudo destoa
e o canto repete em ecos a mesma loa:
– À margem do sentimento, a dor se espalma.

Nos sonhos, onde flutuam desejos tristes
e a capa da realidade não vê futuro,
estranho, por meus sentidos, tudo que existe.

À falta de algo mais belo, intenso e puro
a sombra, parada ao lado, a tudo assiste:
– Resvalo no meu murmúrio e a esconjuro.

Nilza Azzi
34

Canto escuro

Perene aquela dor, e aparecia,
conforme uma tristeza, colorida
das cores desbotadas desta vida,
sem graça, sem prazer, sem alegria.
A trégua nunca vem e nos traz paz,
porém se tudo passa, a dor também
e, mesmo, nesta terra de ninguém,
nenhuma das escusas satisfaz.
O medo mais guardado tinha forma
das noites sem luar. Era tremendo!
E, desde os velhos tempos, vinha sendo
o vácuo poderoso que transtorna.

          Inútil esconder, negar seu nome,
         — a praga nos devasta e nos consome.

Nilza Azzi

28

Gotas

Indiferentes descem pelo vidro,
gotas de chuva, num país perdido.
Chora a vidraça, embaça aquela mágoa,
a água escorre e vai pela enxurrada.

Uma rajada e a chuva desce em ondas,
estronda o vento com seu assobio.
Um arrepio ― ondulam as cortinas ―
e  névoas finas cobrem as montanhas.

Como não fossem sanhas tolas minhas
― a linha fina ainda escorre em gotas ―
sigo sozinha, vou um ponto abaixo

e quando encaixo o sol à minha porta,
na rua torta onde a chuva mora,
demora o choro nas lágrimas quentes.

Nilza Azzi

 
41

Dupla-face

Meu coração é uma rocha esburacada:
– em cada nicho, uma ausência que faz falta.
Se algum detalhe importante se ressalta,
são as lembranças de quem, cruzando a estrada,

logo partiu, mas deixou-me a sua marca.
Meu coração é um canteiro em floração
e cada flor, que ali brota, é com razão,
fundamental ao conjunto que ele abarca.

É dupla-face o que eu trago no meu peito:
– um coração pelo avesso e, por direito,
apaixonado, amoroso e, sim, completo.

E nesse estofo as nuances que coleto,
de quem perpassa essas vias, são presentes,
presença ímpar – valores permanentes.


Nilza Azzi
 

 

Nilza Azzi

51

Atropelo

Nunca me amou, aquele que dissera
que me amaria sempre. – Foi um sonho!
Visão que traz a luz da primavera,
no entanto passa e deixa um frio medonho.

Mas não existe amor –  e sou sincera! –
de uma ilusão as dúvidas exponho...
Porém a dor, a fibra nos tempera,
para enfrentar truísmos enfadonhos.

E quando vejo um par de namorados
estico a vista, procurando ao certo
outras questões para entreter a mente.

Enquanto a vida segue surdamente,
o coração espia, chega perto,
solta um suspiro e morre asfixiado.

Nilza Azzi

33

Desvario

Neste céu sem estrelas da cidade,
quando o manto noturno se entristece
e no azul não mais cabe a menor prece,
a tristeza me assombra e mais me invade.

Tudo é como se aqui já não houvesse
um sinal de amplidão, de liberdade,
e nos fosse negado essa benesse,
de espantar uma dor que não se evade.

E sem ter o que olhar, o que colher;
esperanças de mundos infinitos,
perco em minha garganta qualquer grito.

É um peso, um ensaio de morrer,
uma angústia que cala em minha boca,
quando a noite me deixa meio louca.

Nilza Azzi

20

Por fás e por nefas


Pudesse eu compreender tua presença,
parcela dos meus sonhos, hoje em dia,
poria luz intensa e colorido
por tudo ao meu redor, sem pensar mais.
Procuro passo a passo a solução,
perfaço do meu verso, a longa estrada,
mas a palavra já se vai sem me levar.

Nilza Azzi
29

Gala

O silêncio conversa a sós comigo,
conhece a voz que sabe, mas se cala.
As luas giram roucas, sem perigo,
enfeitam-se as estrelas para a gala.

O céu, de um brilho tolo e muito antigo,
esquece a pertinência de uma escala
e diz: – A imensidão  é meu castigo!
E a vida, haverá meios de imitá-la?

Aquém dessa cortina de poeira,
a cósmica poeira trás o espaço,
instila-se um vazio estranho e denso.

Persigo uma palavra  – ela se esgueira.
Remendo a sombra nua do que faço
e sorvo a inanição de um mundo denso.

Nilza Azzi

77

Solução de continuidade

Caiu no chão, espatifou de vez,
fez-se em mil cacos, nada sobrou dela;
foram-se as flores da blusa amarela,
foi-se o colar de contas, sem porquês.

Nem mesmo houve um óleo-sobre-tela
que eternizasse a face dessa Inês...
Qualquer olhar, senhor de lucidez,
perceberia que morta ela era.

E, uma vez morta, Inês, mais nada havia
da tal boneca que ela fora um dia
e, como tal, brinquedo e nada mais.

Um acidente... tudo se desfaz...
e a vida segue como sempre foi
− primeiro o carro e depois os bois.

Nilza Azzi
55

Desvio

Oh, amor entre os amores
quem me dera não pensasse
não tivesse à frente as dores,
esperanças ou vontades,
tristezas, longas saudades...
Quem me dera, nessas tardes
meio longas, meio frias
não sentisse solidão,
nem tivesse as mãos vazias,
em gestos vagos ao ar,
quem me dera não chorar.

Oh, amor entre essas flores
coloridas pelos campos,
à noite esses pirilampos,
no dia o calor do sol
não encontro distração.
Quem me dera, doce amor
doce encanto, minha luz,
não sentisse a solidão
nem sentisse tua ausência,
em meu olhar vago ao longe,
nos vazios do lugar.

Nilza Azzi
24

Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!