Redutibilidades
Reduzido ao cerne da questão primordial,
Reduzido à chama para sempre apagada,
Reduzido ao impuro lamento indulgente,
Reduzido ao fundo da escuridão final,
Reduzido à minha rebelião castrada,
Reduzido à imensidão de toda a gente.
Reduzido à tua voz angelical perene e leal,
Reduzido ao meu cansaço enfastiado,
Reduzido a um botão de rosa incolor,
Reduzido a uma longa amizade infiel,
Reduzido a um ardente antigo amor,
Reduzido ao raio de sol enturvado.
Reduzido ao vazio da estrada,
Reduzido ao nada entendido,
Reduzido a um mero caco,
Reduzido à solidão prostrada,
Reduzido a pó ao vento largado,
Reduzido a mim opaco.
Lx, 18-7-2013
O Que vive Em Mim
Tenho em mim a tristeza do choro duma criança triste,
Tenho em mim a solidão dos ostracizados abandonados,
Tenho em mim o meu grito mudo da revolta esquecida,
Tenho em mim o meu sentido da vida vilipendiado,
Tenho em mim o peso ocioso da vossa ignominia,
Tenho em mim o vírus corrosivo da dor latente,
Tenho em mim o entediante síndrome do viver,
Tenho em mim as tempestades sôfregas a trovejar,
Tenho em mim as saudades das falsas memórias,
Tenho em mim o achamento do falso Santo Gral,
Tenho em mim a passar correntes de rios bravos,
Tenho em mim a tua imagem fresca de alva luz,
Tenho em mim os sonhos sentidos nunca vividos,
Tenho em mim o deserto da seca alma exaurida,
Tenho em mim o doce caminho para o abismo,
Tenho em mim o meu próprio destino indefinido,
Tenho em mim os teus perfumados ramos de flores,
Tenho em mim todos os maus anos exorcizados,
Tenho em mim uma bola de sabão passageira,
Que nasceu ofuscada pelas trevas reinantes.
Lisboa, 15-8-2013
Perdidos na Irrelevância
Perdidos ao acordar estremunhados,
Na irrelevância quântica suspirada,
Que navega em mares afogados,
Arriados da essência imaculada.
Perdidos no frio do fim do caminho,
Tão longo tortuoso e demorado,
Que tentamos almejar em vão,
Em longos anos isentos de carinho,
Ignorando quando estar acabado,
Ansiosos por lhes darem a mão.
Perdidos na magnitude do tropel,
Em que vagueamos desligados,
Todos os dias em demandada,
Esquecidos do nosso papel,
Dos dias límpidos perfumados,
Da alegria nunca encontrada.
Lx, 31-7-2013
Parabéns Eremita
Estava expectante e ocupado à espera dos cartões de boas festas, como sempre estava nesses dias especiais de tão inglórios, dos telefonemas de parabenizado, mas nada, rigorosamente nada, estava finalmente esquecido de tudo e todos, ignorado no limbo da indigência social e afectividade condoída.
Cheirava-me a masoquismo serôdio, já que passava ao lado de tudo e de todos, numa irrelevância e desprezo absolutos, também não era de esperar nada de diferente, nem era seu desejo almejar a mais qualquer outra significância, é só uma constatação da indiferença e da náusea que lhes provocava, e o sentimento era recíproco sendo o que perceptivelmente continuava a menos valer.
A sua existência é uma provocação explícita ao próximo, e é com esse sentimento levado ao absurdo que enche o seu âmago, destacava-se assim pelo impropério que era a sua pseudo vida de inaptidões.
Quanto mais radicalizava a sua conduta, mais auto-satisfação lhe preenchia o ego tresloucado.
Os aniversários eram dispensáveis, sempre lhe souberam um tanto para não dizer tudo a Natal, pela melancolia e tristeza que transpareciam e transbordavam ao ver introspectivamente a sua imagem ao espelho nestas datas, numa espécie de auto-reconhecimento ritualizado, como um reflexo de alma perdida na vastidão absoluta da noite escura em que se deixara afundar, agora irreversivelmente aniquilada.
Ou não era Ele o velho eremita, guardador de murmúrios largados ao vento, o suprassumo da decadência anarquista e libertária, da anti sociabilização isolacionista em que ressentidamente se encerrara.
O que lhe pressionava o discernimento eram os muitos anos de não-vida acumulados, era a encarnação da anti-vida, anulando em si qualquer réstia de vitalidade que o pudesse alguma vez rodear.
Os silêncios e a meditação hipnótica são talvez, as únicas e verdadeiras maneiras de atingir o nirvana espiritual e a original sabedoria universal em nós implicitamente induzida, e ele soube-o a custo através da sua irreverência social intolerante que o prescreveu ao abandono, ao esquecimento, ao omisso da sua vida, ao só irrevogável em que se tornou.
O preço que pagou pela réstia de luz que ousou sacar das trevas para seu próprio descontentamento, será eternamente impagável.
Lx, 17-7-2013
A Verdade Do Pensamento Inapto
O senso comum que transparece no correr dos anos,
Galgando margens anteriormente intransponíveis,
Emergindo num turbilhão de abstracções inverosímeis,
Destacando-se na apreensão do inatingível evasivo,
Que percorre intemporalmente as nossas almas errantes,
Percorrendo por abismos insensatos e alienatórios,
Encerrados na escuridão da ignorância absorta,
Libertados doravante pela extinção da percepção ignota,
Viajando no interior do âmago do entendimento elementar,
Que assaz vive intrinsecamente ao nosso redor embutido,
Perdido na fonte do pensamento puro que emana imortal,
Gloriosamente alcançado e infielmente esquecido,
Quando a razão do imperceptível surge em áurea luz,
Que invade indelevelmente o espirito agora enaltecido,
Que ficou associado eternamente ao Cosmos etéreo,
Como parte integrante por direito e dele indissociável,
A verdade que procuramos incessantemente vive em nós,
No fundo da mente mais jocosa, exígua ou inebriante,
Basta procurá-la afincadamente no fundo tortuoso e vazio,
Que habita em nós e deixá-la florescer em terna alva luz.
Lx, 31-7-2013
Empatia Gratuita
Fica-me na memória toda a calma evolada do Mundo,
Que a personagem emanava prescrevendo o horizonte,
Guardada inconscientemente na áurea do seu estar,
A paz de espirito que extravasava do seu âmago doce,
A filosofia incorpórea que fluía na sua presença idílica,
Tão contagioso e apelativo na sua abordagem senil,
Tão sensível no seu modus vivendi desfasado de tudo,
Atraiu-me o desvario da sua tolerância inusitada,
Atraiu-me a sua transfiguração perdida em névoa,
Incompreendida pelo próximo incoerente pueril,
A paz e o sossego ganhos na reflexão introspectiva,
E só talvez achados no fundo duma Alma vencida,
Atingindo o pleno contíguo existencial iluminado,
Contagiando de luz apaziguadora os mais ternos,
libertação advinda do seu desprendimento total,
Afere o nosso discernimento no advento do ser,
Figuras angelicais que povoam os caminhos,
Percorridos em renúncia evocando o Amor,
A todos a minha infinita e gratuita simpatia.
Lx, 26-6-2013
Volátil Presente
Ulteriormente falando, temos o exemplo perfeito do grande Fernando Pessoa e dos seus submundos ficcionais, todos eles criados para responderem gnosiologicamente às grandes questões filosóficas, isto apesar da sua virtualidade inerente.
Mas não deixa de ser irreal o futuro como mera ilusão dum possível presente vindouro, e tal como o passado transfiguram-se pela transcendência do sujeito que a subjectiva.
A matéria transforma-se moldando-se ao longo do tempo sendo sempre a mesma, o futuro são recriações espácio-temporais que desejamos à matéria poder vir a ocupar de determinada forma posteriormente.
O passado e futuro tendem a confrontar-se no nosso imaginário, diluindo-se numa mescla mais parecida com um sonho induzido de um déjà-vu.
Não se pode dissociar a tríade: tempo, espaço e matéria. Pois elas são unas e indivisíveis e formam o todo cognoscível.
Diria que o presente é a linha do horizonte de eventos que pauta a relatividade do espaço-tempo emergido da singularidade primordial.
Agora é verdade também, que o homem como ser observador dinâmico, tem a capacidade de percorrer todo esse leque de percepções intemporais, pois afinal é o único com esse dom ou "maldição" que dá pelo nome de consciência.
Os mundos ilusórios retratados pelos poetas desenrolam-se no momento presente em que eles os julgam viver metaforicamente, transvazando tanto pelo passado como pelo futuro.
É portanto veramente real nesse preciso instante temporal, o seu mundo contemporâneo irreal imaginário como tal.
Lx, 26-6-2013
Vagabundo
Vagueio na minha inutilidade absurda,
Vagueio na minha viagem interior inacabada,
Vagueio na imensidão do céu estrelado,
Vagueio no vazio da minha plena solidão,
Vagueio ao sabor do frio vento norte,
Vagueio emergindo com as marés mortas,
Vagueio na sofreguidão da profunda dor,
Vagueio quando me perco de mim,
Vagueio quando ouço o tempo sussurrar,
Vagueio quanto mais o vazio contemplar,
Vagueio ao som da música celestial,
Vagueio no teu sorriso em paz,
Vagueio no teu olhar perdido,
Vagueio no teu beijo deixado.
Lx, 18-6-2013
Ausente
Ausente de todos vós me encontro,
Nesta última calma e clara alvorada,
Ausente das cores evanescentes,
Da vossa alegria apaixonada,
Ausente da minha alma penada,
Nesta última e derradeira chamada,
Ausente do amor frustrado,
Pelos poetas tão vangloriado,
Ausente em tempo incerto,
Na mais escura profundidade,
Ausente e desamparado no passado,
De estreitos caminhos que percorri e calquei,
Em busca do futuro idílico sonhado por engano,
O longo e eterno descanso tão almejado,
Num campo lilas de flores por ti perfumado.
Lx, 18-6-2013
Retratados
Instantâneos do passado revelados,
O tempo fechado num momento,
As figuras esquecidas na memória,
Os locais outrora desvendados,
A história pendente num lamento,
O desvanecer da vida inglória.
Os reais fantasmas deambulam mortos,
Nas fotografias reflectidos em sombras,
Há muito esmorecidas e bacentas,
Consumidos em vãos desfalecimentos,
O tempo urge afogado em águas salobras,
No cair final languido dos aristocratas.
Lx,12-6-2013