A Magia Em Nós
Quando o irreal se confunde na mente submissa,
São os duendes que soltamos no jardim de cristal,
Quando sondamos o ideal roxo de beleza mistral,
São os mistérios devolutos retratados em missal,
As frias noites mágicas na longínqua lua Larissa.
Quando a magia nasce em nós primogénitos,
Ao mero sabor das lágrimas caídas de espanto,
Quando indiciávamos tanta alegria entretanto,
Caindo inglórios almejando o libertário manto,
Enredados por caminhos sórdidos e estreitos.
Quando a luz nos caiu aos pés lacerados,
De tanto procurar o espirito encoberto,
Quando a ilusão se perdeu no deserto,
Ao ver a alma partir para estado incerto,
A varinha de condão partira-se aos bocados.
A magia que vivia em mim morreu,
Na minha criança desassossegada.
Lisboa, 9-9-2013
Incerteza Crónica
A ausência de dúvidas que me profanou o espírito indigente,
Fiquei à mercê do impagável preço da ignorância dúbia,
Que se instalou indelevelmente no âmago do meu ser,
A incerteza do meu desentendimento das suposições.
Mas eu vi em mim as transmutações imateriais,
Que se desenrolaram no hipocampo do inverosímil,
Quando atravessei a última fronteira do efémero,
Onde espalhei o meu discernimento enviesado,
Atulhado de idiossincrasias falidas de qualquer lógica,
Onde naveguei perdido à tona afogado na grande ilusão.
Sim eu ouvi o derradeiro falseado chamamento,
Dos confins da torpe arbitrariedade sensorial,
Que caminhando sem rumo nem qualquer esperança,
Insinuando tropegamente a exaustão da ausência absoluta,
Que nos espera indubitavelmente no purgatório do esquecimento,
Faz assim jus ao seu temperamento frio e oco de imortalidade.
Lisboa, 27-8-2013
Possessividade
Para L./F.B.
Quero possuir-te literalmente pura e simples,
Navegar ao sabor das curvas no teu corpo nu,
Sentir o desejo da carne febrilmente apelativa,
Esquadrinhar o teu revestimento de peles,
Saborear os teus odores quentes a cacau,
Escondidos no doce da tua boca de diva.
Quero-te só minha no teu sublime esplendor,
Minha querida confidente estremunhada,
Entrar consolante nos teus sonhos inviáveis,
Rir juntos do caricato perfilhado com louvor,
Partilhar a nossa fuga evasiva em debandada,
Prometer-te juras de amor eterno inteligíveis.
Quero-te escondida do resto mundo cobiçador,
Profanar as entranhas castas de prazer animal,
Chamar louca e repetidamente apenas por ti,
Descansar no teu quente regaço apaziguador,
Aproveitar a tua áurea na minha vida minimal,
Foste a única a chorar no dia em que parti.
Lisboa, 5-9-2013
Órfão De Amor
Divagava dissonante nas suas contrariedades,
Olhava de soslaio na penumbra com receios,
Jogava às vidas dos outros nas suas variedades,
Questionava a sua má sorte nos seus anseios.
Exorcizava o vazio nas suas mágoas deleitosas,
Deambulava enfastiado em sordidez mesquinha,
Chorava grandes odes sumidas desgostosas,
Equacionava os entraves da solidão picuinha.
Deleitava-se desconfiante na sombra larga,
Regozijava-se na incredibilidade do destino,
Desamparado e tão mal-amado à ilharga,
Soçobrava desalinhado mas tão cristalino.
Lisonjeado ficava pelo tempo ver passar,
Dorido com as suas limitações afectivas,
Ansiava correr de mãos dadas sem cessar,
Receber os teus doces beijos em dádivas.
Lisboa, 27-8-2013
Isto é o Fim
Será isto o fim?
A minha visão turva da realidade,
As crianças todas sem mães,
A insustentável cruel caminhada,
O romance atrozmente assassinado,
A torrente de lava a esventrar,
Os corpos a definharem sós,
O perpétuo sonho submisso,
A inimaginável dor omissa,
As valas abertas não reclamadas,
O desejado além desmoronado,
As inconfidências mal julgadas,
A implosão dos sonhos almejados,
A imortalidade da ausência de sentido,
O inflectir irreversível da vida,
O triunfo do esquecimento,
O exaltar dos espaços infinitos,
O telúrico caos quântico final,
O extinto amor trespassado,
A consciência ausente eternamente.
Lisboa, 27-8-2013
Sentir a Vida
Sentir a vida a escapar incomensurável,
Vê-la desaparecer aos poucos bramindo,
Ora devagarinho como o Sol a pôr-se,
Ora mais apressadamente como o vento irado,
Senti-la sair de mim em espasmos de espanto,
Ao sabor do bater dum coração alado,
Esvaindo-se no meu sangue derramado,
De vermelho sublinhado e impuro torpor,
Imiscuo-me na ardência da sua volatilidade,
Ritmada e consequentemente inabalável,
No seu estreito caminho para a perdição,
A vida que ousou viver em mim está morta,
Um nado morto abstruso que me habita,
Deambula nua pelo meu corpo prostrado,
Vinca as rugas na minha face trancada,
Augura a minha degenerescência total,
A falência do dueto Corpo-Alma inacabado,
A vida delirante que me assiste o pensar frustrado,
Sinto-a a despedaçar-se no muro que me envolve,
Aconchega-me misericordiosa o garrote ao pescoço,
Tão gentilmente e meiga ela me aconchega no fim,
Quando dá o supremo acto fatídico por terminado.
Lisboa, 18-8-2013
Até Quando II
Até quando o calma que emanas,
Até quando.
Até quando o teu rico esplendor,
Até quando.
Até quando aquele abraço chegado,
Até quando.
Até quando o teu sorriso melado,
Até quando.
Até quando a clausura sensorial,
Até quando.
Até quando a tua longa viagem,
Até quando.
Até quando por ti enamorado,
Até quando.
Até quando preso na tua inocência,
Até quando.
Até quando não me vires chamar,
Até quando.
Até quando contigo não me levares,
Até quando.
Até quando eu para aqui largado,
Até quando,
Onde paras tu? Meu cisne branco enlutado.
Lisboa, 16-8-2013
Pesporrência
Perdoem-me a arrogância dos tolos,
Vestidos de ignominiosos sacrilégios,
Que me habitam a mente letárgica,
Defuntas personagens que imploram,
Sabedoria indecifrável desonrada.
Acolham-me as manias fastidiosas,
De tão grandes feitos inusitados,
Que me percorrem o não ser,
Perdidos no sonho mítico irreal,
Na noite longa em que desapareci.
Ignorem-me as longas preces sem fim,
De tão banais monólogos se tratarem,
Que tal como ladainhas decrepitas,
Inundam de dó insofismável o tempo,
Precioso néctar das vidas falhadas.
Perdoem-me os olhares castrantes,
Perniciosos ases de espadas indolentes,
Afogados na indiferença jactante,
Que me corrompe o pensar latente,
Ferido de inoportunidade circunspecta.
Tolerem-me a filigrana dos meus tormentos,
Tão inexpeditos de ternura eloquente,
Que no meu trilhar cada vez mais pesado,
Me dão tanto mórbido desalento prostrado,
Que convosco insisto em tentar partilhar.
Adivinhem-me as entranhas do infortúnio,
As conspurcadas badaladas dos sinos inertes,
Que anunciam o apocalipse que me infere,
Tão proficuamente desejado na saudade,
Obstinadamente arruinada pela raiz do medo.
O delírio no meu telúrico acordar sabático,
Em que eu julguei um dia vos poder encerrar,
Em vão.
Lisboa, 25-8-2013
Até Quando I
Chorar sem cessar no teu jardim velado,
Onde perduram as recordações perdidas,
Do meu vazio coração só e despedaçado,
Para sempre soltas ao tempo e largadas.
Deixar camuflar os grandes espaços impolutos,
Onde sabiamente nasceram todas as dúvidas,
Que nos preencheram o âmago dos espíritos,
Para no fim sucumbirem num toque de Midas.
Pousar na exuberante tela pintada de mofo,
Onde as figuras pintadas de vida jazem,
Na obscuridade do definhamento espectral,
Para toda a eternidade bisam indeferidas.
Extravasar a melancolia no desencanto do olhar,
Onde pairam as sombras ocas desalinhadas,
Que pululam calcando o meu ébrio imaginário,
Que torturam e apagam o meu discernir cansado.
Lisboa, 16-8-2013
Exorcizai-me
Exorcizai-me dos meus pensamentos impuros,
Exorcizai-me dos meus espectros malignos,
Exorcizai-me dos abismos em que me perdi,
Exorcizai-me dos gritos sofridos lancinantes,
Exorcizai-me das vis tentações carnais,
Exorcizai-me da alma chorada em chaga,
Exorcizai-me dos demónios do existir,
Exorcizai-me do inútil corpo falido,
Exorcizai-me dos pesadelos genocidas,
Exorcizai-me da mente enlouquecida,
Exorcizai-me dos fantasmas que me habitam,
Exorcizai-me da vida empolada em que morri,
Exorcizai-me da sineta lúgubre que sempre ouvi,
Exorcizai-me da indigência mental de que padeci,
Exorcizai-me de todos os anjos da minha guarda,
Exorcizai-me da busca de perguntas sem respostas,
Exorcizai-me do vosso edílico jardim de enganos,
Exorcizai-me do impoluto mas execrado iconoclasta,
Exorcizai-me da moral e bons costumes profanados,
Exorcizai-me finalmente e por fim também de Mim.
Lx, 31-7-2013