Inocência
Percorrendo descalço as areias da praia soltas,
Desvendo tesouros que se escondem a meus pés,
De mil e uma conchinhas trazidas pelo mar,
De tantas cores e feitios diferentes e iguais,
Esforço-me em nada pisar e estragar ao andar,
Imaginei-as todas juntas alternadas num colar,
E fiquei a descobrir a quem o poderia ofertar,
Continuei sempre em frente sem nunca parar,
As conchas com o cândido discriminar corrompidas,
No desabrochar da inocência perdida ao vazar das marés,
Alimentaram-me a pobre alma de sofismas inalienáveis,
Anseios paulatinos de idolatradas hegemonias fabuladas,
O resto são lamentos por não julgar ninguém prendado,
E o tempo ter irremediavelmente por mim passado,
Sonhei naquele magnífico colar me ter enforcado,
Fiel assessor do acaso em lembranças de condenado.
Lisboa, 21-10-2013
Tenho Frio
Fiquei ao acaso entregue,
Ao destino abandonado,
Tenho tanto frio meu amor,
Embala-me no teu afago.
Condoído no desgosto,
Do nosso desencontro,
Tão desafortunado,
Num mito enregelado.
Sinto o frio do desamparo,
E só das tuas saudades,
Do sorriso com que ontem,
Me enfeitiçaste de harmonia.
Eu para aqui largado,
Só à tua espera,
Sonho acordado,
Na tua quimera.
Lisboa, 2-11-2013
Serei Eu
Sou infeliz inacabado,
Deserdado de amor,
Alma inculta desavinda,
No meu coração desocupado,
Entregue apenas à austera dor,
Serei Eu ainda?
Lisboa, 26-9-2013
Soturna Noite
A longa noite mal iluminada,
Onde cerrei os olhos cansados,
Já ia longa a madrugada,
E eles ainda molhados.
A noite que me viu nascer,
Onde retorno todos os dias,
Faz-me lembrar as núpcias,
Quando nela vier a morrer.
A noite onde perscruto a paz,
No silêncio que me induz idolatrado,
Acaricia-me prostrado e fugaz,
O sono chega finalmente apressado.
A última noite esbatida eterna,
A grande ausência de sombra,
A longa solidão em mim tão terna,
Envolto em perene penumbra.
Lisboa, 26-9-2013
Fim Da Linha
O fim da linha alcançado,
O rosto da condição humana desvendado,
A viagem ulterior desmarcada,
O livro maldito incendiado,
A verdade desencontrada,
A vontade ludibriada.
O engano que é viver,
Ficou descoberto,
A trama a tecer,
Ficará em aberto,
Só no morrer,
Serei completo.
A voz tresmalhada despontou,
Por entre palavras soltas,
O meu coração falou,
Coisas loucas,
A criança em mim chorou,
Como poucas.
Lisboa, 27-9-2013
Irrelevância Contida
Irrelevante em absoluto eu sou,
Chacinado pela inconstância,
O enfado que o meu andar pisou,
Foi infeliz mera circunstância.
Quando nos deparamos com o vazio,
Da essência desmaterializada ao ínfimo,
E nos deparamos com o afundar do navio,
Na falência incrédula do ideal homónimo.
A vetusta pequenez do nosso orgulho,
Que nos alimenta com nada o nosso ego,
Resta-nos no indesejado último mergulho,
Que nos venham pregar o derradeiro prego.
Sou tão pequenino pois sou,
Irei para donde vim é certo,
O tempo à minha passagem soçobrou,
Acabando assim finalmente o incerto.
Lisboa, 27-9-2013
Ecos Ao Longe
A tosca e estridente voz que ecoa sem parar,
Na minha mente desventurada a latejar,
Erróneos ideais que fiz descambar por fim,
Das entranhas insalubres do âmago de mim.
Os fantasmas em que eu sobrevivi,
Em percalços de quimeras infantis,
Não resistirei ao tempo que antevi,
De searas ondeantes ao vento pueris.
O luar que me inundou de belas alegorias,
Na ultrajante soturnidade em que vivia,
Banhou-me de evanescentes sabedorias,
Que desfeiteei no engodo da lascívia.
Ecos ao longe que ouço sem nunca parar,
Enfatizam as sementes iníquas perseguidoras,
Que não me largam o meu triste e ledo descerrar,
Embebido em desconsoladas mágoas demolidoras.
Lisboa, 30-9-2013
Angustiosamente Só
A angustia em que parecerei,
Desconsola-me a alma inerte,
Tão acompanhado de nada fiquei,
Talvez dos lamentos me liberte.
Quando os sentidos definharem,
Ficarei apenas por aqui deitado,
Deixarei as horas a passarem,
E morrer assim tão deleitado.
As preces todas que eu esquecerei,
Inglórias promessas vãs e longínquas,
De avessas hordas que vingarei,
Nas últimas despedidas improfícuas.
Saberei eu um dia,
Voar e voar ao alto,
Para longe da monotonia,
Na fobia do último salto.
Lisboa, 30-9-2013
Fatalidades
Fatalidade em que se tornou o meu destino,
Desavindo na plenitude da alma austera,
Vã procura de amor e carinho no divino,
Esquecidos na fundura duma cratera.
Fatalidade das águas do rio a correrem,
Pacientes a correr na sua previsibilidade,
Tão belas as águas cristalinas não saberem,
A desesperança da minha inútil saudade.
Fatalidade da beleza que emanas sem querer,
Aprofundadamente subtil de tons alternados,
Enfeitiçaste as nuvens do céu sem antever,
E elas abençoaram os desertos afortunados.
Fatalidade do longo caminho a percorrer,
Aos tropeções inebriado na cúpula do sentir,
Solitário na amargura do meu derradeiro ser,
Prescrito ao sabor da inocência ao me extinguir.
Lisboa, 30-9-2013
E Nada Sobrou
Dissequei a alma aos bocados,
E nada sobrou,
Procurei desesperançado,
E nada ficou,
Sonhei com flores frondosas,
E todas murcharam,
Naveguei por mares agitados,
E eles serenaram,
Fugi da vida inteira,
E ela partiu,
Viajei ao meu interior,
E reflecti,
Melancolicamente embevecido indaguei,
E nada encontrei,
Desejei ousar o mundo,
E eu aqui encarcerado,
As nuvens sorriram-me alegres,
E eram apenas miragem,
As estrelas ao alto piscavam,
E eu em espanto serenei.
Lisboa, 27-9-2013