Lista de Poemas

NAS HORAS DA TARDE

Eu busco nas horas da tarde
Porque se finda tão rápido o dia
E deixa em mim tanta melancolia
Enquanto ardo o olhar no lusco-fusco

Momentos quando a alma transcende
A linha já nem clara nem escura
Turva indecisa e atrevida mistura
De indecifráveis cores no horizonte

Seria esperança saudade ou ânsias
Ausências ou mera inconstância
Desse peito de amor ardente

Ou nada seria além do decadente
Estado do sol que esmorece cruel
Largando esse rasgo de lembranças?


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LEITURA

Certa feita adentrei um olhar
E lá dentro daqueles olhos dos quais nem lembro a cor
Havia um mar intenso aclarado e profundo
Tão grave como fosse um grito inconformado de escritor

Caminhei devagar pelas bordas retinas
Até redescobrir sob as pálpebras
O relicário das imagens resguardadas

Então desabotoei as cortinas que ofuscavam a mente
E como se abrissem torneiras e portas e janelas
Surgiram impagáveis linhas
Em quintais sem reservas e muro

Retornei espalhando gotas enroladas em luzes
Que espanavam do lado escuro de incríveis paisagens
Douradas e raras coleções de palavras lidas
Escritas sobre as paginas de um livro a minha frente


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PERDER-SE NO CEGO AMOR

              Paulo Sérgio Rosseto

O amor sempre acaba na hora incerta
Como botijão que seca no fazer do almoço
Como água que falta em meio ao banho
Net que falha na transação do boleto
E Deus que ignora fazendo-se moco

Em resumo nada mais estranho eu
Nem acho ser desprezo a chama que apaga
Nem relaxo a omissão em lavar-se
Ou pretexto deixar de quitar a dívida
Ou Deus postar-se indiferente e tolo

Porém o amor esvair-se não perdoo
Quisera que voltasse acondicionado
Em cápsulas compactas ou compressas
Ou que o usássemos como pomada
Para cicatrizar tantas fissuras abertas

Quisera que o amor fosse ainda pano
E suportasse os ventos loucos nas velas
Sem importar-se com a textura do tecido
E as tatuagens riscadas nas rusgas da pele
Falseada pelos tantos tempos idos

E que não pudéssemos enganar-nos da perda
Dilaceradora da alma putrefata moída
Sendo assim desenganar-se da própria dor sofrida
Ao sustentar que amar é o maior dom da vida
Retrataria perder-se no cego amor seria merda

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GENEROSIDADE

Se o cotidiano causa-te melancolia
Repense tua trajetória
O que fazes dia a dia
Depois reverte as máximas
Dos gestos que pedem sem que apregoe
Para tudo o que aprece e agracia

Estende as mãos à frente do teu corpo
No maior possível esticar dos braços
Para que nem saibas ou veja
Une os dedos nas palmas em conchas
E deixa que de bênçãos se encham
Depois emborque-as e abençoe
E com os olhos ternos agradece

Não guardes para ti
Nem desperdice
Apenas deixe que a chama inunde
E derrame por si


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EU TANTO DISSE TE AMO

               Paulo Sérgio Rosseto

Eu tanto disse te amo 
Porém a tão poucas 
Que a minha boca passou a omitir 
A pronúncia dessa oração

Acostumou-se a ficar calada 
Para não ser repetitiva oração
Afinal com qual propósito tanto dizer 
Uma óbvia expressão a um único par de ouvidos 
Já sabedor do que viria escutar

Chegou um tempo em que sequer os lábios balbuciavam
E outro tempo cujos pensamentos e coração
Disso nem mais se ocupavam

Até que os meus tímpanos lá no íntimo do martelo
Souberam auscultar na meada da imprudência
De ti o que a minha língua silenciara

Hoje
Todo  esse meu ser te fala

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TRÊS LAGOAS

Era eu menino e moravam caudalosos rios à minha frente
Tão longos, intermitentes, profusos, infindos e soltos
Em cujas margens verdes de silêncio ouvíamos absortos
O passar das horas nos longos trens sobre os nossos brios

Era eu crescido em meio às desertas largas ruas de areias
Que de uma calçada à outra mal se ouviam os clamores do futuro
Incompreendíamos os porquês de tanta luz e a tatearmos no escuro
À procura dos sonhos que regessem as nossas jovens veias

Agora longe, atrás do tempo que escoara por aqueles trilhos
Ancorei meu barco num falso porto refestelado de saudades
Onde tudo é pedra, pressa, asfalto, agito, instância sem volta

Ainda existem rios porem não mais com as mesmas aguas
Permanecem as ruas mas estas ignoram toscas verdades
De que envelhecem os olhos mas as valsas ainda sonham-te

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VENTANIAS

                              Paulo Sérgio Rosseto

Tão fraca essa chuva desacompanhada de vento
Proveio certamente de alguma nuvem dispersa
Fugidia da madrugada de alguma noite sem graça
Estanque sobre o telhado acima da minha cabeça

Não que não mereça que meu derredor se molhe
Com essa calmaria própria dos bem-aventurados
Porém estou acostumado a solavancos constantes
Tanto que me estranha tamanha bonança repentina

Sou eu afeito de trovões e ventanias da montanha
Que sacolejam e soçobram insanos restolhos de asas
Absurdamente inconstantes entre abas e serpentinas

Ousaria dizer que minha casa é de pedra incólume bruta
Plantada sobre sólidos e poderosos alicerces da lida
Mas oh - despreparada à suave nudez de uma brisa!

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O QUE DEFENDO PORQUE CREIO

Convença-me com qualquer palavra
Peça com veemência
A ti disporei todos os sentidos
Ouvidos
Para que inteire da tua sentença

Somente não exija que compadeça
Não há complacência quando se força
A teimosia insensata em acreditar
Consentir
Nem que adiante se arrependa

Hoje talvez conceba certos arroubos
Diferentemente do que outrora entendia
Damo-nos ao direito de repensar
Antever
Essa surtada e disforme dicotomia

Somos todos imperfeição de conceitos
O que defendo porque creio
Não deveria colocar-me acima
Sobreposto
Ao oposto dos teus preceitos

Quando será que dissolveremos
Essa farsa açodada
Sufocante cegueira de cadafalsos
Dissimulados
Que nos põem tão pequenos descalços

Por isso tenho medo de dormir
Em dias semelhantes e tão iguais
Que afugentam nossas historias
Experiências
Ato supremo da razão do existir


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CERTAS VONTADES

Tenho certas vontades
Que ninguém acreditaria se as contasse
Tão inimagináveis que certamente surpreenderia

Mas o que seriam os anseios
Senão se evidentes o viço para a imaginação fértil
O alimento essencial da curiosidade alheia

No entanto tudo deixa de ser desejo
Quando calo as suas possibilidades
Ao primeiro pasmo que sobeja

Fervilha em mim qualquer coisa razoável
Dessas que instigam e incendeiam
Pelo simples fato de tornar-se exposta

Ante ao que sonho e vivencio
Há um abismo de considerações falhas
E é por elas que vivo buscando respostas


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ABELHINHA PEQUETELLA

Você me olha cochilar?

Claro olho
Por todos os lados do colo
Observo teu sono

Se eu dormir você olhará também meus sonhos?

Ah
Os dormidos serão sempre vossos
E talvez não os enxergue
Exceto se conta-los

Então vê
Porque agora vou sonhar
Depois te falo
Para que sejam nossos

Aninho em teu colo
No cantinho dos teus braços
Adormeço
Cada sono é um carinho
De ninar
De recomeço

Fico pensando se mereço
 
Merecemos!

Dormimos assim
Sempre vigiados viajamos
Subindo e descendo
Os degraus de uma escada
Por entre os caminhos
Do nada

Do nada?
Então teu colo feito um leito
De rio límpido e manso
Onde descanso colado ao teu peito
Nada seria?

A um momento
O abraço fecundo transborda o futuro
Depois acordamos
E os braços se abrem
Arrebentam os muros
Nos dão passagem para o mundo

Precisaria mais dois mil anos
Para entender essa luz
E bilhões de relâmpagos
Todos acesos no breu
Para brilhar agora mais que os olhos teus

Fecha-os
Nana
Que a existência é lâmina
Intensa chama
Reluz
Ilumina

Me diz sem poesia
Felicidade é isso?
Quase choro
Vê a lágrima de alegria...

Sim é isso

Mas virão também incertos dias
Que passarão ardendo

Eu ainda não conheço as cidades tristes
Dizem que elas existem
Alguém me falou delas
Onde os adultos se divertem zombando os pequeninos

São cidades sem estrelas
Sem portas e janelas
Onde as ruas desconhecem as esquinas

Mas eu não tenho medo das cidades tristes
Porque penso que todo mundo lá dentro
É bem maior que elas

O milagre da vida não é somente
O cerne de uma célula
E sim um grão de todo amor que houver
No entorno dela

Então entendemos as idas e vindas
Tristezas e alegrias
Encontros e perdas
Fome e fartura
As fraquezas
A coragem
Menos dos insanos e da covardia

Precisaria de mais corações então
Para guardar tantas imagens
Armazenar as emoções
Preservar a vida
Os exemplos maus e bons

Pois a vida é quem nos grava
E nos leva a passeio nessa esfera

Quando acordar e sair do teu colo
Me levarás pela mão pelos céus
Pelos mares
Nos caminhos?

Se a minha mão não te levar
Os teus sonhos te levarão
E neles poderás assegurar as certezas
Postas em teu coração
E aprenderás a caminhar sozinha

Você tem asinhas
Voa para onde quer no planeta
Deve conhecer toda a terra
Os jardins mais belos
Todas as flores
E o encantamento das cores

Ih
Eu não sou sozinha
Tenho colméia
Além disso trabalho
Eu não sou rainha
E ainda que fosse
Trabalharia
A vida não são só passeios

Continue sonhando
Depois vá brincar

Estarei aqui enquanto dormes
Com meus ferrões a postos
A te vigiar
Quando acordar volto pra rua
Atrás de flores
Polinizar

Você tem asinhas
Me voaria até a lua?
Queria ver de perto as estrelas
Devem ser ainda mais belas
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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.