Lista de Poemas

ARTEIRO

                    Paulo Sérgio Rosseto

Colhi de um singelo canteiro de praça 
Aveludadas pétalas e esguias ramas 
Quem sabe também tão cheias de densa ansiedade 
Por deitarem-se suaves na palma da tua mão
Morar entre a graça serena dos teus dedos leves
Que acolhem por safira qualquer pedra não rara

E rosas brancas vermelhas amarelas
Agrupadas em buques em teu abraço calmo
E jasmins e hortênsias e orquídeas nobres
Margaridas e dengosas violetas de rua
Roubadas ligeiro da flora de agosto
Para fabricar alegrias e enfeitar as janelas
Desenhar teu corpo e os quintais da alma 
Que contemplam recobrem e perfumam teus braços

Sou esse serviçal catador de folhas
Rastelando entre sílabas secas e versos soltos
Atrás do tempo enquanto me resta a sede
De versejar a vida feita de escolhas verdes
E antes que finde o outono e desça o inverno
Continuo feito saúva carregando flores
Para dentro da completa íris dos teus desertos
Porque sei que isto acende teu riso e serena tuas horas
E te tornas jardim de aroma e cores
Brincando na relva carpida de corpo inteiro
Molhada de contentamento pelo miúdo orvalho
Que te ampara deseja viceja e atura

Porque em setembro terás tanta fartura
Que esquecerás de mim teu menino arteiro

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NO PAÍS ONDE MORO

No país onde moro
Tudo é incrivelmente notório:
Todos choram de alegria
Locupletam-se de bondade
Esmoecem de emoção
Relaxam com a extrema candura
Amofinam-se de intenso amor
Esbabacam de paixão
Afrouxam de felicidade
Derretem de benevolência
Intrigam de generosidade
Amolecem de gratidão
Amuam de tanto rir
Enfadam de bonança
Desolam de tanta fartura
Entristecem-se de apaziguados
Escaramujam de galhardia
Agitam de benquerência
Adoecem de mansidão

E arreados de otimismo
Morre-se momento a momento
De extremo prazeroso altruísmo
Venturosa fraternidade
E inefável contentamento

Tudo está portanto translúcido
No estado de espírito
Daquele país tão bonito
Onde todos tem o hábito
De imaginar a mesmice
Da peculiaridade que se tornara
O mundo em que se convive e acredita
E interrogam - porquê egoisticamente
Apenas eu o habito
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BRINQUEDOTECA

Velhos brinquedos amontoados
Faltando asas rodas braços cordas
Empoeirados sem cores
Mas ainda mantendo pilhas vivas
De prazeres encantoados
Encantados entoados
Cantados catados

Raros e abençoados momentos
Recolhidos pelas mesmas mãos que brincaram
Guardados agora no interior das lembranças
Na brinquedoteca da sala das liturgias
Num quarto de vida
Entre caixas e gavetas do depósito
Em caixotes canecas copos bacias

Brinquedos de pau plástico pedra papel
Arame enferrujado sem cobiça
Alguns milagrosamente inteiros
Não menos brincados mas intactos
Porque nem tudo se quebra ou esvai
Ainda que use abuse conserta-se distrai

Há um indizível cordão que os prende e interpõe
Amarra um ao outro por novelos e nós
Com eles foram construídas estradas cidades famílias
Fazendas casinhas cozinhas estádios circos escolas
Indefinidas certezas de que tudo é possível
Desde ontem até hoje e após
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LAMENTO

Lamento pelos que ainda a aplaudem
Não renegam teus atos e acolhem as sandices que decretas
Que se debruçam e pactuam contigo sobre o visgo que amordaça
Que obrigam que se desfile em fila e marchem cegos
Que se siga sob o perverso e o descalabro
Desalinhados sob as intempéries e o desalento

Não é este o vento nem o cantar da aurora que almejo
Porque não se questiona nem protesta, apenas vão
Acolchoados às divisas que fingem entrever
Ainda que sentem que usurpas, contaminas com escarnio
Mas o que é a troça senão
O fato de tripudiar sobre os sonhos
E a sede de quem apenas pede

Tenho vergonha pelo respeito que perderas
Como feiras desertas ou salas às traças
Sem ideias, lógica, de planos partidos, sem regra
Desapropriada de quaisquer sentidos caprichosos
No passar dos dias, no perder da massa
Onde tudo se esvai, dilui, entorna, desagrega

Quando a ordem entretanto serpentear teu andor
E deparar tua pobre face podre sobre o espelho praticável
Espero que sintas desconfortável, ridícula
O quanto estás nua, sem ética, desumana, solitária
Porque verás as joias que costumavam brilhar, opacas
As insígnias que a reverenciavam, decompostas
E os aventais dobrados ao meio
Desafiando o teu nefasto despudor
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UM TANTO DE MIM

Estou ensaiando escrever as minhas memórias
Mas lembro-me tão pouco de tudo

Apenas que havia ruas sem calçadas e vastos nacos de areia
Por onde saltava descalço para não empoeirar as ideias

Mangueiras imensas que sombreavam formigueiros
Com galhos repletos de ninhos amplamente habitados

Porteiras às vezes abertas por onde escapavam os temerosos sonhos
Conversas e cumprimentos entre uma barranca e outra do rio

Capins e flores rasteiras, quiçaça, cheirosas goiabas maduras
Guavira, guariroba, ipês, angelim, manjericão

Mãos que acenavam dizendo vem - nunca de adeus
Corais de insetos, aves e animais que se recolhiam por nome

Buscava a forquilha perfeita para um bom estilingue
E pedaços quaisquer de corda ou condão para armar arapucas

Não sentia fome, nem sede, nem esperança de crescer
Apenas a qualquer hora e momento uma irresistível vontade de pecar

As casas eram pequeninas, grande o tamanho dos dias
E os dias eram maiores que o ar que respirava

Não havia rastros, seguia apenas exemplos
Sem guias, cabrestos, rédeas, normas, leis, ordens

Estou tentando explanar minhas lembranças
Mas sinto que as esqueci guardadas por entre folhas no chão

Será imensamente mais fácil perguntar a você
Quem sabe um tanto de mim
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DEPRESSÃO URBANA

A depressão urbana
Não vai a noite à praça
Não passeia pela calçada
Não traz a seresta nos dedos
Nunca solta a voz
Não suporta a sombra
Teme o samba
Reserva-se da madrugada
Esconde os fantasmas
Dorme o fim de semana

Desconexa os novos rumos
Não reza medita ou se benze
Até brisa apaga seu incenso
Ninguém vê que não ri
Não se ouve seu surdo
Não canta nenhuma cantiga

Rebelde e só
A depressão urbana
É maçã sem perfume
Revolve-se nesse abscesso
Nessa demência, nesse reverso
A rigidez do absurdo não se suporta
Triste arquitetura que não se entende
Estraçalha seu avesso mambembe
E somente esse estado de morbidez
Arrasta, deprime, destroça sórdida
Pisa, caça, arrasa e a lambe

As cidades angustiadas erguem tanto
Que deprimem sua gente lépida
Em condomínios imaginários
Que as desfazem cidadãs
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METADE DA ÁGUA DOS MARES

Metade da água dos mares é lágrima fútil
Outro tanto saliva dos escárnios no mundo
Assim vontade e desprezo liquidificam-se
Distraindo as levadas por embates profundos
Lavando as honras em maré fértil

Por isso suspiram avivadas as incertezas
Resguardando em trincheiras os continentes
Apartando as milícias aos milênios
Cumprindo os íntimos sinais da natureza
Reformulando a seu modo tempo e cotidiano

Seres blindados optam chorar sem molhar as areias
Desconhecem a convergência das comoções
Não trazem no pranto essa gênese avara
Nem provocam as marolas e as tempestades
Não vivenciam as delicias das ilusões

Eu loucamente quando choro revolvo oceanos
Com a futilidade dos meus desenganos e paixões
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RESTAURAÇÃO

O altíssimo soberano - aquele que nunca dormiu
Envelheceu desconhecendo o sono
Cochilando apenas recostado à necessidade
De manter-se peremptoriamente acordado
Partiu solidário para longa odisseia
Antes que o caos retomasse o infinito

Assim reimplantou moradas entre quintais
Presas às balaustradas e cercas dos caminhos
Junto aos pomares à beira dos frágeis riachos
Cujas águas inquietas e rasteiras
Voltaram seguir em busca dos sonhos
E das inconstâncias dos oceanos

Vigiou os conceitos das plataformas
Erguidas à procura do destino ideal
Mantendo-se atento aos mínimos gestos
Dos astros no macro espaço entre as esferas
Que circundam e orbitam os planetas
Diante das plateias angelicais

Resguardou o porvir de todos os povos
Recolhendo as possibilidades do desprazer
Eliminando as desventuras da realidade
Convencendo a natureza de que é preciso
Tão quanto necessário e premente
Zelar atento aos ditames dos céus

Soldou os hemisférios circundando os mares
Realinhou as geleiras nas montanhas verbais
Reposicionou novamente todas as espécies nos habitats
Intercalou com noites os claros do sol nascente
Retornando a espera pelo amanhã e depois
O sublime exercício nato da paciência diária

Aí sim ao final da estanque tarefa de restauração
Na manhã do bilionésimo milênio ou algo assim
Contemplando a morada completamente refeita
A missão cumprida e finda a jornada em seu jardim
Descansou por sete dias em sono profundo
Num belo domingo como humano e não deus
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UM VENTO HOMEM

O vento é redoma impune escondida
A mente é quem cria sua própria vida
Tem ar alimento dos pés o do vento
Nem homem nem nada
É tudo um evento

É
Foi assim
Rodando rodando
Que a vida começou

É
Foi assim
Parando parando
Que a vida se acabou

É
Bem assim
Morrendo morrendo
Que tudo iniciou
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PROVÉRBIOS

Mercador de sentimentos e provérbios
Rebusco palavras aos quilos
Desde as formosas às peregrinas
Das pequeninas às mais intensas
Refinadas, densas, sublimes, enciumadas
Palavras ditas impensadas, que pesam
Quantas vezes necessário

- Subliminares, divinas, necessárias
Insossas, complexas, inclusive mal ditas
Trucidadas pelas intenções
Espetadas em frases desconexas, gaguejadas
Impronunciáveis, malfadadas, semitônicas
Moduladas em versos empíricos
Recolhidas dentre as mais pudicas sílabas
Recheando frases oclusas, pareadas
Em todos os dialetos e idiomas

Compro-as enciclopediadas ao atacado
Em arquivos e livros empilhados feito containers
Com acentos ou débeis recontos desprovidos motivacionais
Onde não se assenta nem se acentua mas significam pelo fim
Destas que os cancioneiros compõem os seus temas
E as amas sussurram às crias sob o silêncio do sono

Palavras incandescentes, próximas ou distantes
Das que resultam das experiências dos pensamentos singulares
Pluralizadas, grafadas em papéis doentes, ou banhadas a ouro
Incautas, redistribuídas por fictícias pautas, pausadas
Confidenciais, manuscritas, acondicionadas em compêndios
Históricas, atenuadas, presentes, absorvidas na leitura
E as animalescas vomitadas pela hermética da ira

Também as sinônimas e as justas à razão
Que repreendem e até mesmo humilham
Que perambulam entre a escória e o fedor
Alvejadas, cansadas por não terem sido tão ditas
Propaladas, preparadas para o ludibrio
Impressas, impregnadas da razão cautelar
Compiladas em extensas teses expressando o obvio
Ou díspares monossilábicos que insinuam guerra e barbárie

As catalogadas pelos sábios, doutos pensadores e nos tribunais
Rebuscadas na intrínseca genialidade na verve dos oradores nos sublimes púlpitos
Vistas nos conceitos e preceitos das bulas morfológicas dos senados
Desapercebidas e desapropriadas nas ocultas entrelinhas contratuais
Sistêmicas, conjeturais, carnavalescas, infectadas de adjuntos
Preconceituosas, carnais, comichadas, úmidas, secas, engolidas
Aficionadas por antagonismos, sem rumo e rimas
Bem aventuradas, apocalípticas, consonantes, adverbiais

Não somente as negocio sem sentimentos
Mas oferto-as labiais, transigentes e lapidadas
Não as capto ou sirvo como molécula e matéria
Elas sim inocentes me tomam rasteiras
Espumam entre a saliva, a língua, diafragma e dentes
E se fazem prediletas nas infinitas orações
Presentes deste universo racional que tudo fala
Ainda que emudecidas calem os horizontes
Desde sempre, amanhã e ontem semeadas

Sim sou mercador de sentimentos
Por onde intransponível a insensatez escorre
Negociador nato de provérbios e nesgas palavras
Enquanto se respira e ora pelo cálice, o acaso e o agora
Porque ornarão o espelho da indizível lápide
Do dorso um dia frágil que a seu tempo morre

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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.