Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
Quando o sol banhar teu corpo moreno, fazendo-te sentires nas entranhas o calor que faz fervilhar teu sangue em paixões humanas, saibas que em mim o caos ainda estará latejando.
Quando um arco-íris riscar o céu azul, e tu falares inocentemente do lindo dia, pintado em sublimes cores horizonte irreais, saibas que em mim as sombras ainda prevalecerão.
Quando a primavera te chegar em esplendor, e teu coração vibrar com intensidade, em anseios pela energia da vida que brota, saibas que em mim o frio ainda é constante.
Quando o forte vento se acalmar em ti, tornando-se não mais que uma mansa brisa, a tocar suavemente rostos angelicais, saibas que em mim, a tempestade ainda vigora.
Quando encontrares flores sobre sua mesa, e conforto em palavras suaves e amenas, em baixo tom, sussurrando ao teu ouvido, saibas que de mim só emanam perjuros impiedosos.
Quando te embebedares de mentes sãs, que te despertam o desejo incontido, pela conquista do irreal que em ti transcende, saibas que toco corações apenas para devorar corpos.
A isso saibas de mim, porque de ti sei tudo: Por detrás teus discursos com a cabeça soerguida, e do olhar posto na visão entorpecida não te mostram tua fragilidade, análoga à escuridão minha em que adentraste, e escondida em alvas vestes.
E da incapacidade de sofreres dores por te veres a ti própria, jamais foste forte o suficiente para sequer passares do portão que levava a trevas maiores, as quais pudessem demonstrar, sem medos, todas chagas do reino adulterado.
Não aprendeste, meretriz de sonhos perdidos em quimeras tolas, que se toda escuridão iluminada com insustentáveis luzes Torna-se mais negra após suas passagens vilipendiadoras, também toda luz conhecedora de sombras torna-se mais tênue, até que se apague no impiedoso e intrínseco inverno do porvir.
O tempo é o mestre e carrasco dos insolentes regurgitadores e adulteradores de verdades, que afaga a face de manhã, e castiga severamente ao anoitecer. Nele a vida se esvai como prenúncio de um apagamento insolúvel, onde tudo se converge em algo qualquer que não se pode definir.
E de tua pálida luz, inverídica como meus fantasmas, postei-me insolente extirpando-a de minha morada antes que a adentrasses.
Levanta! Lamenta! Chora pelo que te foi subtraído de tua visão! Que teus sôfregos relampejos, moldados para tua própria queda, ainda despercebida, se apaguem com meus escarros pérfidos!
152
TUA LUZ ME CONSOME
De tudo e de todos, ouvia apenas sussurros soçobrados, incapazes de despertar-me do sono em que estava. E como as folhas envelhecidas, levadas pelo vento, de tão fracos e ensurdados, iam-se desapercebidos.
Nem percebi quando ouvi aquela voz suave e negra que foi se instalando em meu ser e penetrando minha alma. Por que permiti que ela me tocasse tão forte cortando minhas noites em sonhos desnudos?
Estou a navegar em mar bravio, entre a densa névoa que me protege da indesejada luz ao horizonte, sem saber até quando conseguirei resistir ao forte desejo que me queima e me consome em delírios.
Procuro saída, desprovido das forças de outrora. Tento esconder-me a alma da bela incensada que deixa, nas noites silenciosas, sua essência inebriante, e, nos sonhos meus, compartilha-me seu amor.
Tornei-me refém de meu pensamento fugidio que teima em voar imaginando um encontro ardente em um vôo impossível. E as cores, que antes não havia,
Agora cintilam fortes, em contornos negros. Nem percebi quando comecei pintar em melodias, no frio de papel, meus sonhos desvairados e perdidos que o mancham de tal forma que a pintura está condenada!
196
EU NOS DECLARO: INDUBITÁVELMENTE SOMOS RATOS SURTGDOS DE UMA RETAL ABERRAÇÃO CÓSMICA!
... vejo vermes,
vejo ratos, vejo cães,
vejo baratas
desdignificados,
vestidos de branco nas igrejas
como se fossem ministros de Nosso
Senhor,
autoconsiderados
privilengiadíssimos filhoos de Deus;
sim, todos os dias
eu vejo os ratos quando saem
e quando voltam para suas cassas,
após desenorarem, mentirem, quebrarem
juramentos e tratos
para ensnarem
a seus filhos como a serem cada
vez mais, sob o escudo do que chazmam
de amor e fé,
como a serem,
ao crescerem, também igualmente
eficazes e sujos ratos, de anjos
disfarçados!
128
SURPRESAS SOMBRIAS
"... com a mente não se brinca, amor, se eu ligar posso fazer coisas ruins";
e eu, que sempre soube o poder da mente, topei a parada;
mas ela parece não ter percebido que eu também a tinha;
resultado: os dois vão pagar no inferno, morrendo de cânceres reciprocamente presenteados!
115
BARCA FURADA
... a imperfeição e a loucura são belas e atraentes
em quem se veste de preto,
cospe luzes com os voláteis verbos
e finge fagulhas que se lhes brotam,
alegando amor e dor, aos olhos!
165
AS CARTAS QUE NÃO MAIS PODES ME ESCREVER
Aguardarei uma última carta depois da última que me escreveste;
e depois mais uma, e outra última com tua caligrafia torta, tal quais as flores que teimam fugir das bordas de seus jarros,
sem darem chances de toque aos esquálidos fulcros das mesas vazias.
E aguardarei, quem sabe, até alguns últimos beijos em derradeiros atos d'amor,
até que a morte se torne inexoravelmente fatal entre o caos e o vazio de nossas frágeis almas.
139
A CHAGA NEGRA
A chaga negra sempre andava no andar de baixo,
mas, quando falava - estranhamente -, parecia fazer uma ligação
para algum cúmplice filha da puta, que conseguira se infiltrar no andar de cima,
pegando emprestado palavras e trapos de faustas e falsas luzes.
208
NA DESORDEM DOS ESPELHOS
... não há mais palavras que sirvam para dizer de algum sentimento qualquer,
sobretudo sobre o amor de um homem a uma mulher:
todas as boas palavras e promessas foram abatidas em delirantes calabouços de carnes,
por isso, vou apenas mergulhar, fazer teu som, imaginar teus brilhos, e desenhar teu corpo
e, silentemente, ainda virgem, embora não sejas, te amar!
124
NÃO ERA UM AMOR DE VERDADE
Trocam-se fluorescentes palavras sobre paz, lealdade, fé e amor verdadeiro;
dividem-se olhares, abraços, sonhos, esperanças e pueris anseios;
para acabarem abraçados em fantasias e concupiscências vadias
com seus paus, bocetas e ebriedades em segredo.
139
NA HORA, NO LUGAR E COM A COMPANHIA ERRADA
... fizemos do chão esplente infinito para nos amar,
sem percebermos que havia outros infinitos se desenhando
e nos desejando por outros lugares,
nesta insana morfologia dos movimentos e dos sentimentos,
perdemos, de nossa própria história, o sublime centro!
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*