SÓ A VERDADE RESTOU
... já faz muitos
anos que nos descobrimos
as sombras
e percebemos
que, éramos, enfim,
dois demônios que ficávamos
escondidos por aí caçando,
para comer,
a anjos;
faz ainda
mais tempo em que,
sonhar que éramos íntegros
anjos
e que pudéssemos
comungar um amor puro e leal,
era-nos uma eficaz
dissimulação!
NA DESORDEM DOS ESPELHOS
... não há mais
palavras que sirvam para
dizer de algum sentimento
qualquer,
sobretudo
sobre o amor de um homem
a uma mulher:
todas
as boas palavras e promessas
foram abatidas em delirantes
calabouços de carnes,
por isso,
vou apenas mergulhar,
fazer teu som, imaginar teus brilhos,
e desenhar teu corpo
e, silentemente,
ainda virgem, embora não sejas,
te amar!
AS CARTAS QUE NÃO MAIS PODES ME ESCREVER
Aguardarei
uma última carta depois
da última que me
escreveste;
e depois mais uma,
e outra última com tua caligrafia torta,
tal quais as flores que teimam fugir
das bordas de seus jarros,
sem darem chances
de toque aos esquálidos fulcros
das mesas vazias.
E aguardarei,
quem sabe, até alguns últimos beijos
em derradeiros atos
d'amor,
até que a morte
se torne inexoravelmente fatal
entre o caos e o vazio
de nossas frágeis
almas.
A NOITE MAIS DENSA
... sentimento
___ indefinido,
___ estranho.
___ vazio;
uma vontade
fraca como se tudo já
tivesse morrido:
___ naquele inverno,
___ naquele mar,
___ naqueles pedaços de asas
quebradas!
INCERTEZAS
... não ligo
mais para elas,
aliás passarei, com minha última
___ viagem delas:
é-me comunicado
___ um óbito dia 17, sábado,
e recebo
uma mensagem perguntando
se estou aqui da pessoa, de quem dizemter falecido,
___ no dia 19,
exatamente
na hora do programa
___ do pe. Marcelo;
bem,
não importa quando,
mesmo eu pedindo para evitá-lo,
na verdade, tudo já nos era
___ tarde demais!
O JOGO DO AMOR
Sei que não conviria
dizer isso, sobretudo nessa hora
de inquietante indecisão
à nuvem:
mas o amor
é como uma mesa de apostas,
onde se flerta com um
ou outro jogador
dissimulados;
onde se blefa, ou não,
com cartas escondidas
às mãos,
até que elas sejam expostas
em vitórias extaticamente regozijadas
ou em dramáticas
derrotas.
Um pouco depois,
renovam-se os personagens
e se começam novas partidas
em incautos e viciosos
ciclos.
AMOR, SEDUÇÃO E DESEJO!
... não há
amor sem sonhos, fantasias
___ e desejos,
posto que
ele tem que ultrapassar
___ todo humano;
quando
falta alguma dessas
___coisas.
é apenas
um capricho
do ego a tentar reluzir
com a força de um
___incêndio!
ONDE MORA O AZUL?
Noite fria de inverno,
mais uma, e eu a andar pela rua
arrebatado pelo silêncio e pela solidão
da madrugada:
ainda perdido,
como quando era criança
em outras noites frias,
em outras ruas
vazias,
tentando
descobrir quem sou,
tentando me situar
no mundo.
A SURPRESA
Ontem à noite,
ela se vestiu lindamente,
maquiou-se como há muito não fazia
e veio, toda feliz e sorridente,
convidando-me
para sairmos sozinhos - sem nossos filhos -,
o que, de tão raro, deixou-me deveras
com a pulga atrás da orelha.
Depois de uns goles vinho
e de algumas lembranças quase perdidas,
que ela invocara propositadamente,
chamou-me para dançar
quando tocava "The power of love",
com Céline Dion;
e sussurrou-me ao ouvido
se eu sabia que dia era aquele:
forcei a memória fragmentada, estiquei-me todo
para lembrar algo, e só então percebi
que fazia exatamente vinte anos
de nosso casamento.
Percebendo que eu não conseguia
me dissimular na inesperada situação,
em vez de ficar chateada com minha
displicência insípida
- o que lhe era de pleno direito -,
ela deu-me um abraço e um beijo demorados,
afagou-me os cabelos pardos
e disse que sempre houvera me amado;
e eu ali perante a mulher
que, em toda sua vida, foi tocada só por mim,
e a única a quem, em toda minha vida,
sincera e verdadeiramente amei;
a me perguntar,
diante daquele clarão de realidade,
como - mesmo assim - fui capaz de me voar,
canina e escondidamente, por céus tantos terreiros
encharcadose por tantos céus
contaminados.
SER OU NÃO SER HUMANO
Embora não pareça,
o ser humano tenta se simplificar demais
da singularidade máxima
de que surgiu,
e isso se deve,
muito provavelmente,
às inseguranças que temos diante
da imensidade de tal poder
___ incomensurável,
___incontrolável
___ e avassalador.
Ora, pois,
qual a necessidade ou relevância
de nossos ideais, de nossos anseios, de nossos sonhos
e de nossas esperanças,
de nossos desejos,
de nossas concupiscências, de nossas quedas
e de nossos perdimentos,
de nossas virtudes ideais,
de nossos pecados inevitáveis,
e até de nossos deuses,
enfim;
se basta aceitarmo-nos
em nossos espúrios existencialismos,
sem nos atermos tanto a outras explicações
ou crenças quaisquer
- filosóficas, religiosas
ou científicas: todas simplificacionistas
a nos servirem de algum
modo -
que nada mudam da inexorável
e fecunda casualidade cosmológica
que nos gerou?
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*