Lista de Poemas

EGO

Sem poder escolher
por abnormal nascença,
de minhas senciências neuronais
- entre o real e o imaginário -

inauguro, reinauguro e devasso
todas as possibilidades
para que se tornem
minhas;

com o poder de escolha
que veio depois,
de minhas retinas cegas
vejo tudo que se me
faço tornar meu;

com minha boca afiada
pronuncio tudo que me apraz,
ou não,
do exato ponto,
do qual tudo me pertence.

E tudo isso
que andais a ler
nestes mal traçados versos
por aqui

- e que, por vezes,
até elogias sem muito
deles entender -,

não passa do reflexo
de meu angustiante e degredado
aprisionamento.

O que não podeis ver
é que, dentro, há um grito de desespero
pela impossível libertação
de meu próprio eu:

"Deixem-me sair!"
141

ETERNAS AUSÊNCIAS!

E agora,
com ambos ausentes,
tu e eu:

que horizontes
merecerão teu olhar
angelical;

e que falésias
abrigarão, do cão,
as sombras
e o pau?
99

ETERNIDADE!

Ando com tanta
vontade e tao desejoso
de me plantar, de alguma forma,
no infinito

que nem as dores,
nem as angústias e os sofrimentos,
nem os tempestuosos mares,

nem os constantes
e seguidos tropeços e sofrimentos
pelos quais tenho passado
nesta vida,

nem a iminente hora
da morte conseguem evitar
meus delírios dementes!
116

NUM LONGÍNQUO CREPÚSCULO!

Num longínquo crepúsculo,
ele se sentou nunca cadeira de mogno
e começou a enrolar, lentamente,
seu cigarro de palha:

as mãos calejadas
pareciam ter se transformado
em rijos e estranhos cascos,
com seus tentáculos cansados;

à pele envelhecida,
corriam tantas falésias
que lhe encobriam estórias
e nativas sardas.

Ele gostava ver o pôr-do-sol
dando baforadas
como que a assistir às últimas
luzes do espetáculo,

como que a me ensinar
como são frágeis
as cortinas de fumaça.


181

AS VERDADES DO EGO!

Não gosto mesmo
das verdades proferidas pelo ego,
elas são como recusar pecados
regozijando dissimuladas
inocências:

no que se refere às flores,
especificamente,
prefiro, por obviedade,
as sem-nomes e as que ainda
não conheça;

porque já não sonho mais
com as que se me apresentam
nobres e puritanas,

enquanto povoam os discursos
dos menestréis falantes
e pousam, com suas bocetas,
pelas hastes dos tentilhões
passantes.
101

POR QUE TE PERDI?

Porque te amar
era me mutilar de paz e de sossego,

porque te amar
era como visitar céus e infernos
em dias, respectivamente, de prazer
e de desespero,

porque nunca consegui
vencer os venenos que me aplicaste aos poucos,
nem os fantasmas que criaste
em mim

porque te amar era tão impossível
como tentar acender um sol em uma chuvosa
hiemal e escura madrugada!
105

EU SEMPRE TE REPARAVA

Ainda me lembro
de quando estavas ali,
despercebida

- entre flores e cravos -;

ao longe,
teus lábios faziam
graciosas curvas sem que dissesses
uma palavra,

tuas pétalas
bailavam ao vento,
fazendo-me sonhar a nuvem
protegida.

Estranhamente
já se me tornavas vital,
mesmo antes que te percorresse
as sensuais margens,

e me naufragasse na puerícia
de tua alma.
139

ABISMO

Somos bipolares,
sempre divididos em duas partes,

uma que sonha, outra que sofre,
uma que se dá ao mundo,
outra que quer devorá-lo,

uma esperança eterna
à beira de um definitivo naufrágio,

uma graça,
um pecado, um amor
incontido rancor, o alívio,
a dor:

sim, em tudo somos ambíguos
e bipolares esceto quando caímos no abismo
de nós mesmos, porque deste
não se sai vivo!
97

AMOR VIOLADO!

Eu te olhava
como um cão escondido,
com medo de ser escurraçado
a qualquer momento,

tu dizias me amar,
mas não a meu lado humanamente
canina;

eu passei muitas
madrugadas sem dormer, sonhando
com uma chance de te amar
sem gosto de dor
ou de lágrimas;

eu beijei tua boca,
entre tuas pernas abertas,
teus seios e tua alma;

eu juro que
tentei de tudo para termos algum
pedaço plantado
na eternidade,

mas acabei mesmo
foi naufragado em meio a um monte
de destroços, de vazios
e de nadas!
109

CONTRASTE!

É visível
que não gostam
- esses mascarados puristas
de plantão -

de quando
me aproximo demasiadamente
de suas apresentações
maestrinas:

tremeluzem,
alguns menestréis franzem
as sobrancelhas
em ira;

algumas mariposas
jogam os cabelos para trás,
fingindo desdém.

Às vezes, curvam-se
o raso chão,
atirando-me pedras verbalizadas
contra as sombras

- em vão -,

e revelando que,
por detrás dos disfarces,
há exatamente que estou ali
para evidenciar:

a verdadeira
- ou dela a falta -
face.
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Comentários (7)

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fernanda_xerez

SEMPRE SUSPREENDE-ME COM TUA INESGOTÁVEL INSPIRAÇÃO. AMO TEUS POEMAS PARA A FLOR DE INVERNO, sinceramente. Saudações Alenarinas da Flor*

fernanda_xerez

Por tudo, mais uma vez, obrigada! ¨¨¨¨¨Beijo_Flor*

Trivium
Trivium

Olá, cara. Gostei bastante desta poesia tua. Você com partilha suas poesias em algum outro site que não este?

fernanda_xerez

E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.

fernanda_xerez

Lindo e provocante!