Rafael Rocha nasceu no ano de 1949 no Recife/PE onde ainda hoje está radicado. É jornalista, poeta e escritor. Em sua trajetória intelectual foi premiado duas vezes pela Academia Pernambucana de Letras (APL). A primeira vez, no ano de 1988, com o prêmio Leda Carvalho, de ficção, pelo seu livro de contos O Espelho da Alma Janela. A segunda vez, no ano de 2011, recebeu Menção Honrosa, também da Academia Pernambucana de Letras, prêmio Vânia Souto Carvalho, pelo seu romance Olhos Abertos para a Morte. Antes, no ano de 1986 recebeu Menção Honrosa da Academia de Letras e Artes de Araguari/MG, pelo seu conto Grãos de Terra Sobre. Tem seis livros publicados, Meio a Meio (poesias, 1979 - esgotado), A Última Dama da Noite (romance, 2002 - esgotado), O Espelho da Alma Janela (contos, 2009 - esgotado), Marcos do Tempo (poesias, 2010), Olhos Abertos para a Morte (romance, 2012) e Poetas da Idade Urbana (poesias, 2013, em parceria com os poetas Genésio Linhares e Valdeci Ferraz).
Lista de Poemas
OLINDA - Do livro “Marcos do Tempo” - 2010
Olinda do frevo maior
Ofício de minha canção
Onde buscando o amparo
Fiz milagres nunca vistos
Pedindo ao carmo da virgem
O brilho da luz do farol
No bairro novo do sonho
Numa casa recém-caiada
Em um varadouro sem fim
Nasceu a história maciça
Do jardim atlântico novo
Onde o doce rio desemboca
E de onde os bultrins da vida
Chamam homens/mulheres pra mim
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VINDA Do livro “Meio a Meio” – 1981
Cheguei perto de vários crepúsculos
E de imensos ventos traiçoeiros
Sem saber falar a verdade do amor branco.
No dia em que cheguei fui repartido
Em muitas partes distintas.
Deram-me o silêncio e eu recusei.
Cheguei quando a noite roubava territórios ao dia
E quando vozes fracas ricocheteavam nos muros:
Deram-me uma solidão perdida e eu recusei.
De tantas outras vezes fui repartido
Porém construí minha solidão própria.
Senti-me imensidade de olhos gastos
Mãos vazias e grandes pés sem conforto.
Disseram-me que eu partisse
Deram-me o amor gasto pelo dólar
E então eu decidi ficar e chegar de novo
Com os braços abertos para o vento e às montanhas.
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BEIJO - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”
Se eu beijar a sua boca e você gostar desse carinho
A excitação será intensa e impossível de esquecer
Escreverei um poema para ser lido bem baixinho
Sussurrando em seus ouvidos o gosto desse prazer
Do sentimento que ora vivo e da luxúria que ora sinto
Minha boca em sua boca a salivar meu bem querer
Deglutindo o sabor do sal e lentamente descobrindo
Os desejos poderosos para muito mais viver
Se beijar a sua boca faz nascer o encantamento
Serei o homem pronto para criar essa paixão
Na sua carne e na sua pele e um novo sentimento
Que persiga os meus momentos com a mais fina obsessão
Se eu beijar a sua boca e você gostar desse carinho
E mergulhar em transe louco toda dentro em mim
Prometo para sempre invadir cada espaço do seu ninho
E amar com intensidade sem jamais querer ter fim
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RABISCOS PARA UMA EXPLICAÇÃO DE AMOR - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”
Tudo que conquisto eu mereço
E do amor que ofereço
Trago o brinde do começo
Sem esperar seu fim.
Sonho iluminado que atravessa
Todos os caminhos da promessa
E que nunca cessa
De brilhar dentro de mim.
Não sei se verás como ele vem.
Será que verás o seu também?
Mas não obrigarei ninguém
A sentir igual a mim.
Por isso eu quero agora
Ter você a toda hora
Sem esperar a aurora
Pois eu não penso em partir.
Portanto estarei presente
No seu abraço quente
Ou num beijo diferente
A dizer como sonhar.
Você sentirá minha alma pura
Cancelando qualquer velha amargura
Ouvindo com emoção a minha jura:
É tão maravilhoso amar!
Você terá de aceitar essa verdade.
Irei fazer o maior alarde
Pois não quero chegar tarde
A lhe envolver no anseio meu.
Eu sei o quanto ele vale a pena
Como agora nesta canção pequena
Rabiscada naquela noite amena
Quando sua ternura me envolveu.
Pode acreditar: serei a sua planta
Mesmo a seca no Nordeste sendo tanta
E os falsos líderes digam: Não adianta
Tentar sequer plantar.
Serei seu caso de nordestinado
Mandacaru alado
Solo esturricado
Para você irrigar.
E pássaro num voo libertino
Vou ao encontro do seu destino
Escrevo pelos poros nosso hino
E rabisco de amor a explicação:
Mulher Nordeste, viva nos meus braços.
Mulher Recife, vem voar nos meus espaços.
Você envolta em coloridos laços
Para fazer feliz meu coração.
299
ÓCIO DO SÁBADO LOUCO – Rafael Rocha - Do livro “Meio a Meio” (1981)
Meu humor está mal-humorado
Neste sábado...
Por onde andam as amigas
Que não vêm bem-humorar o meu humor?
Andam por aí bêbadas de cama?
Bêbadas de orgasmos?
Bêbadas de suor?
Por onde andam meus amigos
Que vêm bem-humorar o meu humor?
Andam por aí bêbados de vertigens?
Bêbados do vazio?
Bêbados do só?
Meu humor está cheio de bile
Neste sábado...
Não há cerveja
Não há boemia
Nem poesia de cama
Nem poesia de bar
Este sábado está louco
Vai matar-me de ócio este sábado
283
SOLIDÃO – Rafael Rocha – Do livro “Marcos do Tempo” (2010)
Sorridente
Ao meu lado deitada
Vestida de nada
Eis minha solidão.
Decifrá-la é a charada
Anda nua na estrada
Ela é demente
No meio da multidão
Descubro o imanente
Ser solitário é doer
Mas é estar presente
No viver.
E a solidão vive
Abalroa minha história
E nem existe glória
De ausência.
Fecho a porta do quarto.
E ela grita: - Não tardo!
Irei no sonho comentar
O nosso fardo.
Loucura!
Não posso nem fugir!
Basta sentir
O só que não tem cura.
Minha solidão
Habita a solidão
Criada na razão
Desta canção.
238
O POETA E O VINHO – Rafael Rocha - Do livro “Meio a Meio” (1981)
É uma coisa bem própria dos poetas
O beber vinho amargo como a vida
E amar a própria vida como um vinho
Na amplidão de todas as mulheres
É uma coisa muito própria dos poetas
Perder as forças em todo amanhecer
Ouvir o silêncio precisando de escuta
Ao sabor do sangue de uvas entre os lábios
Beber a vida é coisa própria de poetas
Escutar pela saliva um aroma puro
De noites amplas onde o vinho é uma música
Que torna um instante de hoje em dois instantes
O poeta é um bêbado que sorve o hoje
Não discute os problemas do amanhã
É uma estrela mergulhada em um cálice
Que a morte beberá após a vida
273
RAPAZES - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”
Vivos e amplos na estrada das intempestivas vidas
Numa terra onde leis divinas são desvarios
Criados pelos fantoches das mentes carcomidas
Como se existindo para satisfazer desvios
Dois rapazes dão-se as mãos e recriam grandes ondas
De amores e paixões e de mil sonhos em brasas
Colam as bocas e apesar dessas mentes hediondas
Amam a vida dentro e fora das ruas e das praças!
E vão cantando a canção dos livres hemisférios
Sendo sexos iguais e gêmeos são etéreos
Espaços da verdade a curtir o que a vida diz
Ainda que os malditos veneradores das desgraças
Caiam sobre eles tentando incutir suas carapaças
Eles riem e cantam conservando o amor feliz!
319
SONHO ARDENTE – Rafael Rocha – Do livro “Marcos do Tempo” (2010)
Na tua pele clara
Acendo a loucura
Urdo um segredo
A invadir os poros
Beijo teus seios
Sou tua criança
Recém-nascida
Deste agora
Tua boca palpita
À espera do beijo
A língua sedenta
Pede meu sabor
Na flor do ventre
Deposito a água
Da saliva amarga
Lábios contra lábios
O gemido ecoa
A pele pede bis
E nós viajamos
Nesses acordes
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SOLIDÃO RECIFENSE – Rafael Rocha - Do livro “Meio a Meio” (1981)
Amigos, eu tinha um poema nos arquivos da memória
Mas ele se escondeu lá no bairro de Santo Antônio
Entre os gabaritos ociosos dos arranha-céus da Guararapes
E como era já tarde veio o sono
O eco do Capibaribe como se chorasse
Um passado inverno que o verão escondeu
Atravessei a tarde devagar com meus soluços
E toda a mendicidade estendia as mãos raquíticas
Eu era muito mais mendigo do que todos
E via o Recife como um morto
O amor das suas ruas entranhado no meu amor morto
A dor que era minha entranhada no Recife morto
E eu voltava de um dia que nada fora
Senão uma dor e um amor perdido nessas calçadas
Um amor construído sob o brasão desta cidade
Sob suas estrelas e suas auroras e suas noites
E hoje adormecendo consumiu-se meu esteio
Um dia a mais ou outro dia qualquer não fará falta
A cidade será sempre a mesma
Cada vez mais acrescentada de dor e ódio
E de um brilho ínfimo das auroras inúteis
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Comentários (1)
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Gilberto Nogueira de Oliveira
Seus poemas são maravilhosos, amigo Rafael. Parabéns.