poetarocha

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Rafael Rocha nasceu no ano de 1949 no Recife/PE onde ainda hoje está radicado. É jornalista, poeta e escritor. Em sua trajetória intelectual foi premiado duas vezes pela Academia Pernambucana de Letras (APL).

Perfil
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VINDA Do livro “Meio a Meio” – 1981

Cheguei perto de vários crepúsculos
E de imensos ventos traiçoeiros
Sem saber falar a verdade do amor branco.
No dia em que cheguei fui repartido
Em muitas partes distintas.
Deram-me o silêncio e eu recusei.
Cheguei quando a noite roubava territórios ao dia
E quando vozes fracas ricocheteavam nos muros:
Deram-me uma solidão perdida e eu recusei.
De tantas outras vezes fui repartido
Porém construí minha solidão própria.
Senti-me imensidade de olhos gastos
Mãos vazias e grandes pés sem conforto.
Disseram-me que eu partisse
Deram-me o amor gasto pelo dólar
E então eu decidi ficar e chegar de novo
Com os braços abertos para o vento e às montanhas.
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Biografia
Rafael Rocha nasceu no ano de 1949 no Recife/PE onde ainda hoje está radicado. É jornalista, poeta e escritor. Em sua trajetória intelectual foi premiado duas vezes pela Academia Pernambucana de Letras (APL). A primeira vez, no ano de 1988, com o prêmio Leda Carvalho, de ficção, pelo seu livro de contos O Espelho da Alma Janela. A segunda vez, no ano de 2011, recebeu Menção Honrosa, também da Academia Pernambucana de Letras, prêmio Vânia Souto Carvalho, pelo seu romance Olhos Abertos para a Morte. Antes, no ano de 1986 recebeu Menção Honrosa da Academia de Letras e Artes de Araguari/MG, pelo seu conto Grãos de Terra Sobre. Tem seis livros publicados, Meio a Meio (poesias, 1979 - esgotado), A Última Dama da Noite (romance, 2002 - esgotado), O Espelho da Alma Janela (contos, 2009 - esgotado), Marcos do Tempo (poesias, 2010), Olhos Abertos para a Morte (romance, 2012) e Poetas da Idade Urbana (poesias, 2013, em parceria com os poetas Genésio Linhares e Valdeci Ferraz).

Poemas

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A NOITE – Rafael Rocha – Do livro “Marcos do Tempo” (2010)

A noite pede o sonho a quem dela se enamora
A quem dela faz o prazer antes da aurora
Nascer e incrementar o ritmo do amor
Esse delírio em um corpo feminino
Nascido do cupido com jeito de menino
Cuja seta alcança e fere com ardor.
A noite é um feitiço onde relampeja a vida
E mata desejos febris da alma suicida
Misturando frieza e calor numa paixão
Altera o destino do corpo de um triste
E mostra o além que dentro dele existe
Máximo de sonho dentro da amplidão.
A noite traz anseios de fêmea desgarrada
Piscando estrela a dizer-se apaixonada
Num beijo, numa cerveja, num ócio incrível!
Espantando a poeira da ilusão no peito humano
Cantando a lua e o plágio de um desengano
Quando tudo se lhe pensava impossível!
À noite os poetas desenrolam versos loucos
E nesses desvarios mergulham feito moucos
Em suas próprias existências buscando iludir.
Somente à noite nascem os versos desvairados
Concorrendo com as rimas dos aedos condenados
À sina de sonhar, amar, viver e o tempo usufruir.
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SONHO – Rafael Rocha (Do livro “Felizes na Dor” – Tributo a Charles Bukowski)

dava para sonhar...

pele e pelos e boca e olhos e o que viesse a mais
talvez o sonho habitante de outro sonho
dentro de meu cérebro embriagado
a cidade é linda na madrugada vazia
o rio corre em seu leito à procura do mar
e homens e mulheres reais e simples noitejam
conhecendo luzes de bares e de postes
sentindo pele e pelos e bocas e olhos
dá para sonhar...
ela sentou-se ao meu lado à mesa
acendeu um cigarro e ficou fitando a fumaça
depois deu-se a olhar para mim
depois suspirou aquele suspiro de resignação

dava para sonhá-la...

dentro da beleza da madrugada vazia
um gole de cerveja a deslizar pela garganta
um toque de dedos e de mãos
um beijo...
quase não escutei a sua voz pedindo
o anseio de irmos para um outro lugar
onde pudéssemos concatenar coisas reais
e menos provisórias que numa mesa de bar
meus olhos se puseram em seus olhos
vi como os dela estavam cansados
sentimo-nos dois párias perdidos na rua
tendo a mesa de bar como o centro do mundo
acendi um cigarro e olhei a fumaça
suspirei resignado
dava para sonhá-la...
a cidade se punha em alto pedestal para o prazer
nossas bocas se encontraram em vertigem
e ela pediu de novo o espaço de um outro lugar
para ganhar beijos e carinhos em outros lugares
mais amplos do que a sua boca vermelha e carnuda
eu estava ousando sonhá-la
mas ela me sonhava como se eu fosse esperança
e eu era apenas um bêbado dentro da noite
um solitário bêbado dentro da noite
nem merecia sonhá-la...
não sei como as névoas da madrugada deixaram
as suas marcas no outro dia
mas a cama continuava vazia como sempre
se a sonhei
não a devia ter sonhado...
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O AMOR - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

O amor nasce e cresce inseguro
No caminho da carne e da memória
Cresce como que sem alimento
Cheio de sutilezas e anseios
A deslizarem pelo sangue
Em todos os poros do corpo.
O amor é um verso ilusório
Escrito nas células. Criado aos borbotões.
Tem uma esplêndida violência de vida
Mas apenas aporta no cais
Quando a carne do corpo pede
Carícias e prazeres de luxúria.
O amor é um navio singrando
Mares tempestuosos e desconhecidos
E na hora teatral de atracar no porto
Faz-se pronto para jogar a âncora
Buscando sustentar o poder
De uma harmonia inexistente
O amor traz no vértice de homens e mulheres
O instrumento da eternidade do mundo.

294

RABISCOS PARA UMA EXPLICAÇÃO DE AMOR - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Tudo que conquisto eu mereço
E do amor que ofereço
Trago o brinde do começo
Sem esperar seu fim.
Sonho iluminado que atravessa
Todos os caminhos da promessa
E que nunca cessa
De brilhar dentro de mim.
Não sei se verás como ele vem.
Será que verás o seu também?
Mas não obrigarei ninguém
A sentir igual a mim.
Por isso eu quero agora
Ter você a toda hora
Sem esperar a aurora
Pois eu não penso em partir.
Portanto estarei presente
No seu abraço quente
Ou num beijo diferente
A dizer como sonhar.
Você sentirá minha alma pura
Cancelando qualquer velha amargura
Ouvindo com emoção a minha jura:
É tão maravilhoso amar!
Você terá de aceitar essa verdade.
Irei fazer o maior alarde
Pois não quero chegar tarde
A lhe envolver no anseio meu.
Eu sei o quanto ele vale a pena
Como agora nesta canção pequena
Rabiscada naquela noite amena
Quando sua ternura me envolveu.
Pode acreditar: serei a sua planta
Mesmo a seca no Nordeste sendo tanta
E os falsos líderes digam: Não adianta
Tentar sequer plantar.
Serei seu caso de nordestinado
Mandacaru alado
Solo esturricado
Para você irrigar.
E pássaro num voo libertino
Vou ao encontro do seu destino
Escrevo pelos poros nosso hino
E rabisco de amor a explicação:
Mulher Nordeste, viva nos meus braços.
Mulher Recife, vem voar nos meus espaços.
Você envolta em coloridos laços
Para fazer feliz meu coração.

303

TODOS QUE AINDA ESTÃO VIVOS - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Todos que ainda estão vivos têm em mãos
As verdades cruéis da vida e de seus momentos
Amores perdidos e deixados e esquecidos.
Todos que ainda estão vivos estão perdidos
E ao reclamarem dos antigos sentimentos
Recriam saudades de instantes velhos e vãos.
Todos que ainda estão vivos trazem nas memórias
Naufrágios e salvações nos caminhos da tristeza
Não veem como o mar é belo e desperdiçado
Como aquele amor antigo. Amor abandonado
Que um dia foi imagem de graciosa beleza
Até perder o rumo no desenrolar de suas histórias.
Todos que ainda estão vivos mantêm as esperanças
Da imortalidade dentro de nossa velha atmosfera
Ainda que saibam como as verdades os desprezam
Ao vestirem as roupas dos deuses que veneram
E perdidamente insanos morrem sem a dor sincera
Daqueles que choram o passado das últimas crianças.
Morrem os que tentam ficar vivos como salvadores!
Morrem na dor de si mesmos. Eternos perdedores!

263

RAPAZES - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Vivos e amplos na estrada das intempestivas vidas
Numa terra onde leis divinas são desvarios
Criados pelos fantoches das mentes carcomidas
Como se existindo para satisfazer desvios
Dois rapazes dão-se as mãos e recriam grandes ondas
De amores e paixões e de mil sonhos em brasas
Colam as bocas e apesar dessas mentes hediondas
Amam a vida dentro e fora das ruas e das praças!
E vão cantando a canção dos livres hemisférios
Sendo sexos iguais e gêmeos são etéreos
Espaços da verdade a curtir o que a vida diz
Ainda que os malditos veneradores das desgraças
Caiam sobre eles tentando incutir suas carapaças
Eles riem e cantam conservando o amor feliz!

322

PARTIDA - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Um dia partirei! E dirás ao ficares só:
"- Ele se foi e de nós nada mais resta!
Nosso amor foi uma breve e bela festa
Sem ele a vida ser-me-á apenas pó!"
Um dia partirás! Eu direi no meu dissabor:
"- Ela se foi, mas deixou uma ternura
Feito saudade a marcar a sepultura
D'onde a vida marcará a minha dor!"
Ambos iremos caminhar ao fim dos anos
Entre os silêncios dos nossos desenganos
A perseguir nosso restante de ilusões
Vivendo os restos do amor onipresente:
Filhos criados pelo sangue persistente
Com a marca extrema das nossas paixões

278

PROVERBIAL - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Assim, assim, assim...
Esta noite eu reparto
O pedaço que resta
Do sossegado verso
Cultivado como festa
Na solidão do quarto
Onde está imerso
Ingênuo/íntimo trabalho
A vida me arrasta
Para mostrar se eu valho
Se não, digam-me: - Basta!
Tento fazer-me estoico
Assim, assim, assim...
Com alguma coisa de heroico
Se a poesia não bastar
Podem pedir outros verbos
Para rimar/conjugar
Com os advérbios
Delirante/distante/adiante
Ainda que os provérbios
Prefiram o verbo amar

272

REVELAÇÃO - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Revelam os fantasmas
Sombras do meu quarto escuro:
- Do outro lado da meia-noite
Habitam sonhos proibidos!
Assim eu já prevejo as canções
Dos vampiros e lobisomens
Saindo às ruas em busca de sangue
E dos seres corrompidos
Pois nas lidas da meia-noite
Com a primeira hora...
Entre as nuvens dos sonhos
Voejam as fantasmagorias
Guardadas por certo
Pelas vontades das almas penadas
Nos jazigos das tristezas
Onde jazem todos os sem amor
Nesses recantos indivisíveis
Das trevas mais poderosas
Habitam fantasmas de homens
Sem consciência própria
Buscadores de sonhos vãos
E de terras mil vezes prometidas
Iludidos pelas doutrinas dos deuses
E pelas ideologias inomináveis

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BEIJO - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Se eu beijar a sua boca e você gostar desse carinho
A excitação será intensa e impossível de esquecer
Escreverei um poema para ser lido bem baixinho
Sussurrando em seus ouvidos o gosto desse prazer
Do sentimento que ora vivo e da luxúria que ora sinto
Minha boca em sua boca a salivar meu bem querer
Deglutindo o sabor do sal e lentamente descobrindo
Os desejos poderosos para muito mais viver
Se beijar a sua boca faz nascer o encantamento
Serei o homem pronto para criar essa paixão
Na sua carne e na sua pele e um novo sentimento
Que persiga os meus momentos com a mais fina obsessão
Se eu beijar a sua boca e você gostar desse carinho
E mergulhar em transe louco toda dentro em mim
Prometo para sempre invadir cada espaço do seu ninho
E amar com intensidade sem jamais querer ter fim

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Comentários (1)

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Gilberto Nogueira de Oliveira
Gilberto Nogueira de Oliveira

Seus poemas são maravilhosos, amigo Rafael. Parabéns.