poetarocha

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Rafael Rocha nasceu no ano de 1949 no Recife/PE onde ainda hoje está radicado. É jornalista, poeta e escritor. Em sua trajetória intelectual foi premiado duas vezes pela Academia Pernambucana de Letras (APL).

Perfil
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SONHO – Rafael Rocha (Do livro “Felizes na Dor” – Tributo a Charles Bukowski)

dava para sonhar...

pele e pelos e boca e olhos e o que viesse a mais
talvez o sonho habitante de outro sonho
dentro de meu cérebro embriagado
a cidade é linda na madrugada vazia
o rio corre em seu leito à procura do mar
e homens e mulheres reais e simples noitejam
conhecendo luzes de bares e de postes
sentindo pele e pelos e bocas e olhos
dá para sonhar...
ela sentou-se ao meu lado à mesa
acendeu um cigarro e ficou fitando a fumaça
depois deu-se a olhar para mim
depois suspirou aquele suspiro de resignação

dava para sonhá-la...

dentro da beleza da madrugada vazia
um gole de cerveja a deslizar pela garganta
um toque de dedos e de mãos
um beijo...
quase não escutei a sua voz pedindo
o anseio de irmos para um outro lugar
onde pudéssemos concatenar coisas reais
e menos provisórias que numa mesa de bar
meus olhos se puseram em seus olhos
vi como os dela estavam cansados
sentimo-nos dois párias perdidos na rua
tendo a mesa de bar como o centro do mundo
acendi um cigarro e olhei a fumaça
suspirei resignado
dava para sonhá-la...
a cidade se punha em alto pedestal para o prazer
nossas bocas se encontraram em vertigem
e ela pediu de novo o espaço de um outro lugar
para ganhar beijos e carinhos em outros lugares
mais amplos do que a sua boca vermelha e carnuda
eu estava ousando sonhá-la
mas ela me sonhava como se eu fosse esperança
e eu era apenas um bêbado dentro da noite
um solitário bêbado dentro da noite
nem merecia sonhá-la...
não sei como as névoas da madrugada deixaram
as suas marcas no outro dia
mas a cama continuava vazia como sempre
se a sonhei
não a devia ter sonhado...
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Biografia
Rafael Rocha nasceu no ano de 1949 no Recife/PE onde ainda hoje está radicado. É jornalista, poeta e escritor. Em sua trajetória intelectual foi premiado duas vezes pela Academia Pernambucana de Letras (APL). A primeira vez, no ano de 1988, com o prêmio Leda Carvalho, de ficção, pelo seu livro de contos O Espelho da Alma Janela. A segunda vez, no ano de 2011, recebeu Menção Honrosa, também da Academia Pernambucana de Letras, prêmio Vânia Souto Carvalho, pelo seu romance Olhos Abertos para a Morte. Antes, no ano de 1986 recebeu Menção Honrosa da Academia de Letras e Artes de Araguari/MG, pelo seu conto Grãos de Terra Sobre. Tem seis livros publicados, Meio a Meio (poesias, 1979 - esgotado), A Última Dama da Noite (romance, 2002 - esgotado), O Espelho da Alma Janela (contos, 2009 - esgotado), Marcos do Tempo (poesias, 2010), Olhos Abertos para a Morte (romance, 2012) e Poetas da Idade Urbana (poesias, 2013, em parceria com os poetas Genésio Linhares e Valdeci Ferraz).

Poemas

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SONHO ARDENTE – Rafael Rocha – Do livro “Marcos do Tempo” (2010)

Na tua pele clara
Acendo a loucura
Urdo um segredo
A invadir os poros
Beijo teus seios
Sou tua criança
Recém-nascida
Deste agora
Tua boca palpita
À espera do beijo
A língua sedenta
Pede meu sabor
Na flor do ventre
Deposito a água
Da saliva amarga
Lábios contra lábios
O gemido ecoa
A pele pede bis
E nós viajamos
Nesses acordes
300

PRELÚDIO – Rafael Rocha - Do livro “Meio a Meio” (1981)

É meia-noite e estão tantos ao meu lado
Muitos riem e esvaziam os copos
Tratam de frivolidades
E não vale a pena falar do tempo
Eu fumo meu cigarro
Eu olho para todos. Espero...
Todos são provisórios
E em todos não haverá indestrutibilidade
É meia-noite...
Como acho amarga essa madrugada depressiva!
Saudades de coisas nunca feitas noutros dias
Angústia de ter sido trêmulo no perigo
Áspero na quietude do vento
Tentei enclausurar nas mãos a verdade
Para amigar-me com os homens
Infelizmente, a fome andava nas cercanias
O mundo estava desordenado
E assim que passou o tempo
Eu pereci e nós perecemos
E não escapamos do poder dos patrões
Eu podia pouco com isso
Eu preferia não ser eu. Penso que preferia
Tanto porque escolhi a não violência
A justiça e a alegria e o sol e a paciência...
Mas era pequeno o meu limite
E quase tudo ficava tão longe...
Longe dos nossos pés desesperados
E perto de nós só a revolta e os carrascos e a fome
Desculpem-me vocês: eu não tive forças
Prepararam errado o caminho da nossa realidade
E eu não pude ser o outro que tantos queriam,
Ainda quero que os objetivos pequenos continuem na penumbra
E que todos esqueçam essas futilidades
Eu quero todos rindo e esvaziando os copos
Não vale mesmo a pena falar do tempo sem sol
É mais de meia-noite...
Fumando eu espero...
Não adianta falar das nossas fraquezas
Se o governo da pátria acaricia assassinos.
242

REVELAÇÃO - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Revelam os fantasmas
Sombras do meu quarto escuro:
- Do outro lado da meia-noite
Habitam sonhos proibidos!
Assim eu já prevejo as canções
Dos vampiros e lobisomens
Saindo às ruas em busca de sangue
E dos seres corrompidos
Pois nas lidas da meia-noite
Com a primeira hora...
Entre as nuvens dos sonhos
Voejam as fantasmagorias
Guardadas por certo
Pelas vontades das almas penadas
Nos jazigos das tristezas
Onde jazem todos os sem amor
Nesses recantos indivisíveis
Das trevas mais poderosas
Habitam fantasmas de homens
Sem consciência própria
Buscadores de sonhos vãos
E de terras mil vezes prometidas
Iludidos pelas doutrinas dos deuses
E pelas ideologias inomináveis

305

O POETA E O VINHO – Rafael Rocha - Do livro “Meio a Meio” (1981)

É uma coisa bem própria dos poetas
O beber vinho amargo como a vida
E amar a própria vida como um vinho
Na amplidão de todas as mulheres
É uma coisa muito própria dos poetas
Perder as forças em todo amanhecer
Ouvir o silêncio precisando de escuta
Ao sabor do sangue de uvas entre os lábios
Beber a vida é coisa própria de poetas
Escutar pela saliva um aroma puro
De noites amplas onde o vinho é uma música
Que torna um instante de hoje em dois instantes
O poeta é um bêbado que sorve o hoje
Não discute os problemas do amanhã
É uma estrela mergulhada em um cálice
Que a morte beberá após a vida

274

TODOS QUE AINDA ESTÃO VIVOS - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Todos que ainda estão vivos têm em mãos
As verdades cruéis da vida e de seus momentos
Amores perdidos e deixados e esquecidos.
Todos que ainda estão vivos estão perdidos
E ao reclamarem dos antigos sentimentos
Recriam saudades de instantes velhos e vãos.
Todos que ainda estão vivos trazem nas memórias
Naufrágios e salvações nos caminhos da tristeza
Não veem como o mar é belo e desperdiçado
Como aquele amor antigo. Amor abandonado
Que um dia foi imagem de graciosa beleza
Até perder o rumo no desenrolar de suas histórias.
Todos que ainda estão vivos mantêm as esperanças
Da imortalidade dentro de nossa velha atmosfera
Ainda que saibam como as verdades os desprezam
Ao vestirem as roupas dos deuses que veneram
E perdidamente insanos morrem sem a dor sincera
Daqueles que choram o passado das últimas crianças.
Morrem os que tentam ficar vivos como salvadores!
Morrem na dor de si mesmos. Eternos perdedores!

261

NOITE COMO ASSUNTO – Rafael Rocha - Do livro “Meio a Meio” (1981)

Não! Não sejam necessárias as reminiscências
Minhas noites sempre têm mais luzes
Maiores multidões de segredos
Muitas e imensas solidões
Para início de conversa eis as estrelas:
Tão separadas umas das outras que dá pena vê-las
Mensageiras de sinais ignorados do cosmos infinito!
Não!
Recordações passadas não são necessárias
Para construir um poema para a noite/hoje
Com o tempero incerto da noite/amanhã
Faço isso com minhas ideias.
Simplesmente!
A noite tem mais luzes e mais abrigos
Recantos onde todos curtem sorrisos e tristezas
Possui feminilidade e perfumes
Bares abertos
Ouvidos atentos para milhões de lábios
A noite tem próprios refúgios:
Locais onde podemos argumentar sem medo
Ruas desertas para ouvir/curtir a madrugada
Vias onde caminhamos ao acaso
Com e sem possibilidade de retorno
Há o cais do meretrício
Desaguadouro de mágoas em ventres amplos
E ainda os botecos das ruas estreitas
(fétidos de fezes e de urina)
Com seus imensos braços abertos
Cadeiras, mesas, copos, garrafas
Refrões claros e escuros
Muitas mãos gesticulando
Outras compassadas em eterna espera
Toda uma completa vivência da noite/hoje
Nalguma batucada vibrátil
Compasso de algum beijo
No tilintar dos copos em elevação ritual
Existem despedidas provisórias
Existem despedidas sem nexo
Existem despedidas amargas e eternas
E todos parecem na espera ilusória de algum sol...
266

DISTÚRBIOS DA NOITE VAZIA – Rafael Rocha – Do livro “Marcos do Tempo” (2010)

De uma longa distância...
À distância...

Certo amigo um dia falou sobre essa estrofe incompleta...
A longa e a distância.
Como definir ambas?

A longa pode estar perto, disse ele.
A distância pode estar aqui e lá nos alpendres do Himalaia.

Portanto, eu estou aqui nesta crônica fugidia.
De uma distância longa...
Dos confins do Himalaia ao perto de mim.

Não venham trazer lições poéticas e prosaicas para mim
Ainda que eu saiba que preciso muito de poesia e de prosa
Mas não preciso das poesias e das prosas dos esquisitos
Eu assino as minhas.

Drummond disse:
"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo..."
Vinicius disse:
"..Quero só que vivas em mim como a fé nos desesperados"...
Neruda disse:
"Eu não quero amada, que nada nos reúna que não nos una nada..."
E disse Cecília:
"Que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo..."

Nada melhor que o que me disse um amigo poeta:
"A estrada da vida é curta, mas continue a segui-la....."
Ou Paul Éluard:
"Não é a noite que te falta, mas o seu poder..."

Meus amigos, meus irmãos, meus camaradas...
Meus companheiros de luta...
Onde a minha poesia que já não tenha sido feita por outros irmãos poetas?

Ah, o querido Maiakovski das minhas instâncias de louco:
"Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
Firme
Fiel
E verdadeiramente".

E por que não podemos vangloriar esse poeta da luta?

"Não estamos alegres,
É certo,
Mas também por que razão
Haveríamos de ficar tristes?"

Por que razão?

De uma longa distância
A poesia criou asas e formou-se mulher
E trouxe um homem para ser outro homem
Trouxe-o para ser poeta
Para se vangloriar
De todas suas atitudes de homem.

Como bem disse Charles Bukowski;
"Os grandes poetas morrem em penicos fumegantes de merda".

Tenho amigos poetas que sabem dizer poesia como o lobo a uivar para a lua.
Tenho mulheres amigas poetas que sabem dizer poesia...

Ah...
Mas as mulheres todas já são poesia, isso eu não nego.
As mulheres são poesia pura, desde as mais tenras de idade até as vovós.

Diz o poeta Robson Sampaio:
".... nessa hora furtiva da manhã tardia, haverá mulheres a chegar e tantas outras a partir..."

Mas a distância é longa, não?

Meu amigo Valdeci Ferraz revela:
"Na noite dos meus quinze anos
Eu era triste e não sabia..."

Como será que ele vai descobrir essa querela na noite eterna?

Na longa distância....
Ah, na distância longa dos seus dias....
Por aqui eu fico, tal e qual Neruda,
"Ah, é hora de partir.... Ah, abandonado...."
Ou mesmo tal e qual todos os poetas do mundo,
ou mesmo tal e qual aqueles que se fazem de poetas para enganar os tolos...

Não é nada demais a gente ter saudades da gente.
Jamais serão demasiadas essas saudades.

A distância é tão longa...
249

PROVERBIAL - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Assim, assim, assim...
Esta noite eu reparto
O pedaço que resta
Do sossegado verso
Cultivado como festa
Na solidão do quarto
Onde está imerso
Ingênuo/íntimo trabalho
A vida me arrasta
Para mostrar se eu valho
Se não, digam-me: - Basta!
Tento fazer-me estoico
Assim, assim, assim...
Com alguma coisa de heroico
Se a poesia não bastar
Podem pedir outros verbos
Para rimar/conjugar
Com os advérbios
Delirante/distante/adiante
Ainda que os provérbios
Prefiram o verbo amar

271

ÓCIO DO SÁBADO LOUCO – Rafael Rocha - Do livro “Meio a Meio” (1981)

Meu humor está mal-humorado
Neste sábado...
Por onde andam as amigas
Que não vêm bem-humorar o meu humor?
Andam por aí bêbadas de cama?
Bêbadas de orgasmos?
Bêbadas de suor?
Por onde andam meus amigos
Que vêm bem-humorar o meu humor?
Andam por aí bêbados de vertigens?
Bêbados do vazio?
Bêbados do só?
Meu humor está cheio de bile
Neste sábado...
Não há cerveja
Não há boemia
Nem poesia de cama
Nem poesia de bar
Este sábado está louco
Vai matar-me de ócio este sábado
284

O AMOR - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

O amor nasce e cresce inseguro
No caminho da carne e da memória
Cresce como que sem alimento
Cheio de sutilezas e anseios
A deslizarem pelo sangue
Em todos os poros do corpo.
O amor é um verso ilusório
Escrito nas células. Criado aos borbotões.
Tem uma esplêndida violência de vida
Mas apenas aporta no cais
Quando a carne do corpo pede
Carícias e prazeres de luxúria.
O amor é um navio singrando
Mares tempestuosos e desconhecidos
E na hora teatral de atracar no porto
Faz-se pronto para jogar a âncora
Buscando sustentar o poder
De uma harmonia inexistente
O amor traz no vértice de homens e mulheres
O instrumento da eternidade do mundo.

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Comentários (1)

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Gilberto Nogueira de Oliveira
Gilberto Nogueira de Oliveira

Seus poemas são maravilhosos, amigo Rafael. Parabéns.