Lista de Poemas

NOITE COMO ASSUNTO – Rafael Rocha - Do livro “Meio a Meio” (1981)

Não! Não sejam necessárias as reminiscências
Minhas noites sempre têm mais luzes
Maiores multidões de segredos
Muitas e imensas solidões
Para início de conversa eis as estrelas:
Tão separadas umas das outras que dá pena vê-las
Mensageiras de sinais ignorados do cosmos infinito!
Não!
Recordações passadas não são necessárias
Para construir um poema para a noite/hoje
Com o tempero incerto da noite/amanhã
Faço isso com minhas ideias.
Simplesmente!
A noite tem mais luzes e mais abrigos
Recantos onde todos curtem sorrisos e tristezas
Possui feminilidade e perfumes
Bares abertos
Ouvidos atentos para milhões de lábios
A noite tem próprios refúgios:
Locais onde podemos argumentar sem medo
Ruas desertas para ouvir/curtir a madrugada
Vias onde caminhamos ao acaso
Com e sem possibilidade de retorno
Há o cais do meretrício
Desaguadouro de mágoas em ventres amplos
E ainda os botecos das ruas estreitas
(fétidos de fezes e de urina)
Com seus imensos braços abertos
Cadeiras, mesas, copos, garrafas
Refrões claros e escuros
Muitas mãos gesticulando
Outras compassadas em eterna espera
Toda uma completa vivência da noite/hoje
Nalguma batucada vibrátil
Compasso de algum beijo
No tilintar dos copos em elevação ritual
Existem despedidas provisórias
Existem despedidas sem nexo
Existem despedidas amargas e eternas
E todos parecem na espera ilusória de algum sol...
265

O AMOR - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

O amor nasce e cresce inseguro
No caminho da carne e da memória
Cresce como que sem alimento
Cheio de sutilezas e anseios
A deslizarem pelo sangue
Em todos os poros do corpo.
O amor é um verso ilusório
Escrito nas células. Criado aos borbotões.
Tem uma esplêndida violência de vida
Mas apenas aporta no cais
Quando a carne do corpo pede
Carícias e prazeres de luxúria.
O amor é um navio singrando
Mares tempestuosos e desconhecidos
E na hora teatral de atracar no porto
Faz-se pronto para jogar a âncora
Buscando sustentar o poder
De uma harmonia inexistente
O amor traz no vértice de homens e mulheres
O instrumento da eternidade do mundo.

291

TODOS QUE AINDA ESTÃO VIVOS - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Todos que ainda estão vivos têm em mãos
As verdades cruéis da vida e de seus momentos
Amores perdidos e deixados e esquecidos.
Todos que ainda estão vivos estão perdidos
E ao reclamarem dos antigos sentimentos
Recriam saudades de instantes velhos e vãos.
Todos que ainda estão vivos trazem nas memórias
Naufrágios e salvações nos caminhos da tristeza
Não veem como o mar é belo e desperdiçado
Como aquele amor antigo. Amor abandonado
Que um dia foi imagem de graciosa beleza
Até perder o rumo no desenrolar de suas histórias.
Todos que ainda estão vivos mantêm as esperanças
Da imortalidade dentro de nossa velha atmosfera
Ainda que saibam como as verdades os desprezam
Ao vestirem as roupas dos deuses que veneram
E perdidamente insanos morrem sem a dor sincera
Daqueles que choram o passado das últimas crianças.
Morrem os que tentam ficar vivos como salvadores!
Morrem na dor de si mesmos. Eternos perdedores!

260

SONHO – Rafael Rocha (Do livro “Felizes na Dor” – Tributo a Charles Bukowski)

dava para sonhar...

pele e pelos e boca e olhos e o que viesse a mais
talvez o sonho habitante de outro sonho
dentro de meu cérebro embriagado
a cidade é linda na madrugada vazia
o rio corre em seu leito à procura do mar
e homens e mulheres reais e simples noitejam
conhecendo luzes de bares e de postes
sentindo pele e pelos e bocas e olhos
dá para sonhar...
ela sentou-se ao meu lado à mesa
acendeu um cigarro e ficou fitando a fumaça
depois deu-se a olhar para mim
depois suspirou aquele suspiro de resignação

dava para sonhá-la...

dentro da beleza da madrugada vazia
um gole de cerveja a deslizar pela garganta
um toque de dedos e de mãos
um beijo...
quase não escutei a sua voz pedindo
o anseio de irmos para um outro lugar
onde pudéssemos concatenar coisas reais
e menos provisórias que numa mesa de bar
meus olhos se puseram em seus olhos
vi como os dela estavam cansados
sentimo-nos dois párias perdidos na rua
tendo a mesa de bar como o centro do mundo
acendi um cigarro e olhei a fumaça
suspirei resignado
dava para sonhá-la...
a cidade se punha em alto pedestal para o prazer
nossas bocas se encontraram em vertigem
e ela pediu de novo o espaço de um outro lugar
para ganhar beijos e carinhos em outros lugares
mais amplos do que a sua boca vermelha e carnuda
eu estava ousando sonhá-la
mas ela me sonhava como se eu fosse esperança
e eu era apenas um bêbado dentro da noite
um solitário bêbado dentro da noite
nem merecia sonhá-la...
não sei como as névoas da madrugada deixaram
as suas marcas no outro dia
mas a cama continuava vazia como sempre
se a sonhei
não a devia ter sonhado...
389

PARTIDA - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Um dia partirei! E dirás ao ficares só:
"- Ele se foi e de nós nada mais resta!
Nosso amor foi uma breve e bela festa
Sem ele a vida ser-me-á apenas pó!"
Um dia partirás! Eu direi no meu dissabor:
"- Ela se foi, mas deixou uma ternura
Feito saudade a marcar a sepultura
D'onde a vida marcará a minha dor!"
Ambos iremos caminhar ao fim dos anos
Entre os silêncios dos nossos desenganos
A perseguir nosso restante de ilusões
Vivendo os restos do amor onipresente:
Filhos criados pelo sangue persistente
Com a marca extrema das nossas paixões

276

REVELAÇÃO - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Revelam os fantasmas
Sombras do meu quarto escuro:
- Do outro lado da meia-noite
Habitam sonhos proibidos!
Assim eu já prevejo as canções
Dos vampiros e lobisomens
Saindo às ruas em busca de sangue
E dos seres corrompidos
Pois nas lidas da meia-noite
Com a primeira hora...
Entre as nuvens dos sonhos
Voejam as fantasmagorias
Guardadas por certo
Pelas vontades das almas penadas
Nos jazigos das tristezas
Onde jazem todos os sem amor
Nesses recantos indivisíveis
Das trevas mais poderosas
Habitam fantasmas de homens
Sem consciência própria
Buscadores de sonhos vãos
E de terras mil vezes prometidas
Iludidos pelas doutrinas dos deuses
E pelas ideologias inomináveis

304

PROVERBIAL - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Assim, assim, assim...
Esta noite eu reparto
O pedaço que resta
Do sossegado verso
Cultivado como festa
Na solidão do quarto
Onde está imerso
Ingênuo/íntimo trabalho
A vida me arrasta
Para mostrar se eu valho
Se não, digam-me: - Basta!
Tento fazer-me estoico
Assim, assim, assim...
Com alguma coisa de heroico
Se a poesia não bastar
Podem pedir outros verbos
Para rimar/conjugar
Com os advérbios
Delirante/distante/adiante
Ainda que os provérbios
Prefiram o verbo amar

270

UM DIA HAVERÁ... – Rafael Rocha – Do livro “Poetas da Idade Urbana” (2013)

Um dia haverá! Não sei o onde e o quando.
Irão cantar meus versos nos bares e nas ruas
E ouvidos surdos escutarão o pranto
Das solidões e dores tão cruéis e nuas.
Um dia haverá! Não sei o onde e o quando.
Meus versos serão cantados noite e dia
Nos botecos e nos piores antros
De onde os poetas buscavam calmaria.
Haverá um dia! Não sei o onde e o quando.
Outro poeta lerá meus versos em seu viver
E a gritante emoção irá trazer o pranto
Num soneto meu que pensou em escrever
Um dia haverá! Não sei o onde e o quando.
Não estarei mais aqui para saber.
Uma mulher dos meus versos faz um manto
E nele cria novo espaço para renascer.
Um dia haverá
Não sei o onde
Não sei o quando
Um dia haverá
Irão cantar...
273

A NOITE – Rafael Rocha – Do livro “Marcos do Tempo” (2010)

A noite pede o sonho a quem dela se enamora
A quem dela faz o prazer antes da aurora
Nascer e incrementar o ritmo do amor
Esse delírio em um corpo feminino
Nascido do cupido com jeito de menino
Cuja seta alcança e fere com ardor.
A noite é um feitiço onde relampeja a vida
E mata desejos febris da alma suicida
Misturando frieza e calor numa paixão
Altera o destino do corpo de um triste
E mostra o além que dentro dele existe
Máximo de sonho dentro da amplidão.
A noite traz anseios de fêmea desgarrada
Piscando estrela a dizer-se apaixonada
Num beijo, numa cerveja, num ócio incrível!
Espantando a poeira da ilusão no peito humano
Cantando a lua e o plágio de um desengano
Quando tudo se lhe pensava impossível!
À noite os poetas desenrolam versos loucos
E nesses desvarios mergulham feito moucos
Em suas próprias existências buscando iludir.
Somente à noite nascem os versos desvairados
Concorrendo com as rimas dos aedos condenados
À sina de sonhar, amar, viver e o tempo usufruir.
341

ITINERÁRIOS - Rafael Rocha - Do livro Poemas Escolhidos!

(1)
Pelo tempo hei de fazer itinerários
Para o amor que o teu corpo oferta.
Hei de deixar a minha porta aberta
Meu relógio parado e sem horários
Podes chegar ainda hoje de surpresa
Nalgum instante extraordinário
Passar por mim no rumo contrário
Se não vires a minha luz acesa
Teus olhos buscam a poesia fugitiva
Pintada em sonho para te fazer cativa
Nos belos versos que eu nunca fiz
Dizendo meu amor em altos brados
Conjugados nos verbos dos passados
Loucos desejos de te fazer feliz
(2)
No caminho quando os meus amores
Marcarem os versos escritos a pedido
Chorarás quando eu tiver partido
Para o mundo escuro e sem cores
Teu belo corpo lembrará (arrependido)
Nada ter feito contra os dissabores
Ter arrancado do teu jardim as flores
Plantadas num poema entristecido
E ao releres estes versos desleixados
Conhecerás os desejos procurados
Da eterna busca de um poeta aprendiz
E a lágrima por teus olhos derramada
Irá molhar a flor rubra abandonada
Na tumba fria a tentar criar raiz

(3)
Olho teu corpo adormecido aqui na cama
Marcando as curvas entre os lençóis
E sinto o quanto eu e tu fomos heróis
Vivendo ambos na vida o eterno drama
De saber: sempre curtindo sóis a sós
Mas nossa louca paixão ainda chama
Hoje trazendo apenas o holograma
Do passado longínquo para nós
Toco a pele! Sinto os lábios entreabertos
Como à espera da água dos desertos
Sem oásis a iludir o sonho feliz
E aos beijos recriamos nossa história
Indo ao longe e trazendo à memória:
O quanto a vida é uma meretriz!

(4)
Nos caminhos novos sangues recriados
Marcam genes onde ambos laboramos
Durante as horas em que mergulhamos
Na paixão louca dos apaixonados
E se um dia itinerários lhes pensamos
Eles seguem caminhos desmembrados
Apagando nossos rumos dos passados
Criando rotas que não as deixamos
Mas algo resta desses seres insistentes
Tal a ternura e o amor polivalentes
Trazendo a nós o bem que lhes condiz
De belos filhos e pessoas consistentes
Feitas das carnes e das nossas mentes
Onde a paixão deixou marcada a cicatriz

(5)
Relógio então parado e sem horários
Há de restar na vida mais incerta
Inda que eu deixe essa porta aberta
O tempo já marcou os itinerários
Não mais precisa o amor da luz acesa
Nem vai passar no meu rumo contrário
Já lá se foi o instante extraordinário
A vida agora não traz nova surpresa
Conjugamos nos verbos dos passados
Paixão e amor em poemas destacados
E até hoje nada em terra nos desdiz
Sua mente agora da poesia é cativa
Lembrando o quanto era fugitiva
Ao tentar fazer meu sonho de infeliz

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Comentários (1)

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Gilberto Nogueira de Oliveira
Gilberto Nogueira de Oliveira

Seus poemas são maravilhosos, amigo Rafael. Parabéns.

Rafael Rocha nasceu no ano de 1949 no Recife/PE onde ainda hoje está radicado. É jornalista, poeta e escritor. Em sua trajetória intelectual foi premiado duas vezes pela Academia Pernambucana de Letras (APL). A primeira vez, no ano de 1988, com o prêmio Leda Carvalho, de ficção, pelo seu livro de contos O Espelho da Alma Janela. A segunda vez, no ano de 2011, recebeu Menção Honrosa, também da Academia Pernambucana de Letras, prêmio Vânia Souto Carvalho, pelo seu romance Olhos Abertos para a Morte. Antes, no ano de 1986 recebeu Menção Honrosa da Academia de Letras e Artes de Araguari/MG, pelo seu conto Grãos de Terra Sobre. Tem seis livros publicados, Meio a Meio (poesias, 1979 - esgotado), A Última Dama da Noite (romance, 2002 - esgotado), O Espelho da Alma Janela (contos, 2009 - esgotado), Marcos do Tempo (poesias, 2010), Olhos Abertos para a Morte (romance, 2012) e Poetas da Idade Urbana (poesias, 2013, em parceria com os poetas Genésio Linhares e Valdeci Ferraz).