O Náufrago Penoso
Ocultaria de ossos sangrentos,
a cerimônia festiva dos ventos.
Oh, amada, sua ausência carrega
toneladas de amargor, que nega
a apoteose da paixão, o véu
queimado do suicídio do céu;
tempestade opaca, sussurra
o murmúrio da voz que urra
o tormento dos mares sombrios.
Semeada a vontade de amar, só
o coração morre, a forca do nó,
eliminou a possível retratação
da remota ideia de sublimação.
A folha da árvore de outono
foi-se embora com o sono.
Não consigo mais descansar
quando a alma inferniza meu penar.
Lain
Séculos de armazenamento evolutivo, comportamento recarregado pelas baterias da configuração sociobiológica. A sombra do simulacro no jugo do real permanece, o mito da caverna mais presente do que nunca: eis a história do mundo. Exaustação, exaustação, a nova liturgia do pós-moderno, fatigado por si, escravizado pelo seu Eu-superior; Deus morto, mas mais vivo do que antes, a tecnologia é o evento antecedente à moral, a você e tudo o que ex-siste. Sua forma e essência são fagulhas do seu eu limitado, o seu eu primitivo. Seu protocolo é a sua mixaria de prazer, um amor-ódio denunciado pelo transhumanismo. Você será substituído, iminentemente, pela lei de Moore, os transistores já são a pedra filosofal de uma sociedade. O subúrbio interno de um ser morre diariamente, a vida é transitória e mais incerta do que tudo, tudo é efêmero e muito confuso em simultâneo.
Deus não cabe em um quadro
Deus não cabe em um quadro, muito menos em multiplicidade mística ou religiosa. Hoje sonhei com ele, não era lá como teurgias e artes eclesiásticas da renascença. Um monstro, digno de terror lovecraftiano, com voz gutural falando em semântica desconhecida; algo como Penderecki orquestrava majestosamente bem em seus concertos. Saiu de uma parede como um ectoplasma, ironicamente de uma igreja católica. Regurgitei sua existência em meio cristão, porém, ainda sim, é miúdo comparado a sua essência, por isso, Deus não cabe em caixinhas. O Criador, inefável monte cósmico, permanece fora e dentro do amor, no máximo isso, uma pane-existência que mais faz sentido, diferente de sua manifestação dada pelos humanos; o homem tentou entender, mas falhou e ainda persiste em falhar, porque O Verbo não pode se ofender com palavras mundanas, é cômico a blasfêmia ser um problema. A linguagem é uma simplificação complexificada que permite utilizar uma parte da interatividade cerebral, construir-reconstruir uma nova complexidade discursiva e assim dialogar com a estrutura do real. O Todo Poderoso seria a quintessência da mesquinhez se assim o fosse, mais stricto sensu do que uma norma jurídica. Ele é maior que a psicologização filosófica que faço agora, um mero humano compreendendo a hipertotalidade do Absoluto; a nossa forma de ajuizá-lo é uma lógica a priori advinda da razão limitada, não só pela lógica em si, mas pela delimitação histórica de determinada época. O Absoluto inexiste, apercebido, inconcebível, e isso não é um problema. Deus no máximo é anuente: nós o permitimos ser o que ele é.
Ressurreição
Eu não irei voltar! Não volto ao refúgio carnal que de seu asilo trancafiou-me. Quase um século de volúpia contra meu prazer, cativando a soberba do ego; décadas de ignomínia sob o solo dos ratos beirando minha masmorra. Bastardos do rei, poderoso rei, vilipendiou-me nas frestas da esperança, quando vosso austero coração derretia conforme o batimento de teu filho queimava na peremptória piedade não atendida. Afogado pelo sangue opressivo que cachoava, infelizmente, meu funesto corpo; o mar vermelho de minhas entranhas banha o sol como a vertigem de marte. O céu, sujo céu, que de seu belo eclesiástico e celeste tom, dava vazão à minha atômica misantropia por cada molécula presente na existência. Como eu sacrilégio o viver, não há amor, muito menos carisma em levantar mais um dia. A fatigada e vil dona morte deveria ceifar minha garganta, espalhar minhas folhas de kalanchoe sobre o vento último da solidão; sobrepujar-me a impotência soberana do fim. Gostaria de ser o fantasmagórico assombro que perturba os moradores de alguma região. Velar o espírito podre dos esotéricos ocultistas, sucumbi-los. A morada da importância balsa a força que tenho em saber que posso matar e morrer ao mesmo tempo; dualidade cartesiana imoral. A bandeira de minha nação é meu próprio crânio, meu brasão é meu corpo putrefato, minha honraria é ter deixado a vida de tantos honrados. Sou aquele que peca sem olhar a quem, sou o renegado ignóbil homem que dança na lama preta de um ritual. Nas trevas habito meu mundo, a desgraça teve que ser assim, o caixão teve que ser minha mansão e meu velório teve de ser meu baile de gala que tanto desejei.
Reminiscência
Todo dia infelizmente esqueço de alguma coisa. Quando não é um horário, é um compromisso importante. Me peguei uma vez errando o caminho pro trabalho, sendo que minha rotina é a mesma: passar o café, um pão com manteiga, colocar meu terno e ir ao trabalho. O gerente lá da empresa já pegou muito no meu pé, às vezes porque não lembrava até o número de telefone dos revendedores deles.
Em casa uma vez acordei com uma mulher mexendo nas minhas coisas com uma cara angustiada. Ouvi um barulho na sala e resolvi checar. Vejo uma senhora com vários álbuns de fotos. Eu não lembrava direito o rosto dela, mas não me parecia ser desconhecida. Parecia que já tinha a visto. Foi quando exclamei a ela: ‘’Quem é você!?’’. A velha desmaiou no chão como um bloco. Aí me deu, final e infelizmente, um lapso de memória. Esqueci que aquela era minha mãe e nem vivo eu mais estava.
Infância
Garotinho regou a alegria inebrie,
Afagava seu tronco em seu brincar,
O lavro do cultivo, o fértil desabrochar.
Da terra pura frutou sua ávida febre.
Febre essa que queima sua inquietude,
Quando os feixes luzentes do sol
Dão combustão ao velho farol,
girando seu mundo na erma virtude.
Seu sorriso intuía o ato mais perene
Do mais querido, a inocência tão bela
Seu oceano era uma besteira singela,
Quando chorava ainda ficava tão serene.
Sua angústia era perder, não aceitava,
Menino que falava baixo, voz austera,
Silencioso comitê de sua quimera:
Mas quando fantasiava, sua asa voava.
Curiosamente sendo calado no meio,
Suas amizades não houveram limites,
como cavalos livres sem afoites;
A corrida dos ajustados não teve freio.
Com brinquedos, a fantasia final.
Dormia mais um dia na linha de frente,
Como convertia sua simples mente;
Na guerra contra o batalhão infernal.
O Poema do Morto
No caixão putrefato vou ficar
no ritmo da terra no corpo,
o ditirambo da inércia, matar.
Coveiro consolando o morto,
da funéria sombra etérea,
o divino esqueceu o cadáver
quando deu fruto a matéria;
Mornou a água do precaver,
ignorou as súplicas do filho
do fatídico Cristo-martírio.
Eu deveria sair do mausoléu,
mas, deixei os vermes no fel.
Caminhar no ritmo que a terra
sucumbiu minha veste férrea;
Coagir meu coração a bater
na força de bomba a crescer.
O segmento do meu crânio
quebra justaposto ao ânimo:
o sentimento de persistência
soterrado na clemência.
O Ultimo Conto
Lágrima gelada faz derreter
o anjo da última lápide.
Gesso enfraquecido na força
da batida do último corvo,
na vertigem de sua asa,
a última morte;
nas rosas do último defunto,
o fim da primeira saudade.
Velório do assombro sujeito,
da sexta casa à direita,
donde residia a garota do
véu, aquela que faleceu
jurando vingança.
O pássaro morto no tapete
foi a prova do crime,
ninguém entendeu como,
mas assim foi o funesto fim.
Ela tinha o sonho do matrimônio,
ele, o vil desejo de suprimir.
No vai e vem da sanfona, a música
da vida os ensurdeceu;
o enterro do último corpo lava
a redenção da vingança, enquanto
o céu não obscurecer, a lágrima
reluzente do anjo não findará...
o mar de fogo; o primeiro sofrimento
do último engano.
A Lindeza do Feio
Salvai-os da fuga do belo,
fisionômicos abutres
vivos, perpetuam o zelo
dos noctívagos alvitres;
da estética mundana.
Gárgula esdrúxula em caça
de carne podre, morgado
pela antípoda do bem; crassa.
Revirado o pecado expurgado.
Feiura belíssima dos mancos,
que perambulam o sublime
na estrada longa dos francos.
Ao deleite da agonia, exprime.
Baila-vos na grotesca dança,
no inferno da terra carnal,
ímpio esqueleto balança...
Na festa da beleza banal.