Sentido
Poeta sozinho no escuro,
com crânios de estimação
ao lado, às folhas do mundo
na perícia de um escrivão.
À procura de um fascínio.
Aquele que dá vasão a tudo,
acusado por morticínio,
limpa a alma do sujo
agir dos homens, mas
na contramão do fugir,
concomitante, ele apraz;
a ínfima fagulha do existir.
Confunde amor e ódio,
regurgita o instinto de viver
enquanto afirma o ópio:
feito seu poema: renascer.
A Queda
A dúbia ressaca moral que corrói o pulmão, secando o ar corrompido pelas tentativas falhas de se reerguer. Minha ourobouros devorando o próprio pecado na medida que se satisfaz. Estou intoxicado pelo vírus da enganação, como Apóstolo Paulo diz: ‘’Porque haverá homens amantes de si mesmos… desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural’’, homem com a pomba branca morta no peito, sou mais que ímpio; desobediente e ingrato pelas oportunidades. Não suporto mais olhar o reflexo penoso de um sujeito acabado. Sorriso falso machuca a arcada dentária, não está dando mais para dissimular. O fim está próximo e a redenção me foi tirada antes do nascimento. Relógio temporal vai morrendo conforme as belas gotículas d’água escorrem as mudas. Tudo tende a entropia do absoluto, a verdade do início, do meio e do homem.
Falso super-homem
I: Imaginativa
Ele está aqui, mais ácido do que nunca, do mais alto amargor ele volta das cinzas. Das profundezas do amor fati, do açoite moral, levanta da lama e vai aos céus. Os raios cortam a garganta dos incrédulos. Sua destreza ontológica deixa rachaduras no solo, estremece os vermes para logo em seguida pisoteá-los. A sociedade não poderia esperar por isso, até cogitou sua inexistência, todavia, as águas começaram a escurecer como quando em outrora, Alexandre o Grande, prematuro guerreiro, banhou-se. Ele também deleitou-se nessas águas, contudo, dessa vez em enxofre e lava; a piromania moral é tão alta que ele não se permite ser infectado pelos limites do bem e mal. O homem mais perigoso chegou, todos os saúdam em gloriosus dei: ave Übermensch, magnânimo rei.
II: Arrogantia
Tudo está abaixo de mim, eu sou o homem do futuro, a força e bravura são meu domo espiritual. Venci os dragões draconianos políticos. Como Luís XVI, todos decapitados pela navalha beatitude. Sou o império romano, malejo os deuses sob meus pés, como uma criança pueril dirige a vida da colônia de formigas, sabendo que as matará somente pela diversão. Destemido e amortal, as únicas leis prorrogadas em minha autocracia.
III: Decadentia
Eu queria ser como o Übermensch, desbravar os mares da moral, domar os anseios do ressentimento. Sou um soberbo megalomaníaco, na imaginação, a quimera transmuta a dor em prazer. Horas no formato super-homem, onde as configurações do ego me levam na sinergia nietzschiana. Simples homem mais fatigado que ressentidos esperando o pós-vida, depressivo homem malhando seus ossos na melancolia de um dia perdido. Levanto do caixão, como praxe, a monótona vida me aguarda. Não sou um além-homem, nunca serei, tudo em vão. O fim me é benéfico como o fel de abelha, assim como a causa final de um objeto é sua predeterminação. Quero me matar imediatamente porque a transvaloração dos valores é utópica, inefável como o fantástico Deus, um mero ideal para um amanhã.
O Cubículo
O mundo como um cubo mágico, onde as paredes são vértices — limitam a criatividade. A criatividade: delimitada pelas cores destoantes dos cômodos, ceção dada pela superficialidade. A soberba de achar o esquema lógico cobrindo o painel da razão. Razão: conceito vazio trancado e zombado pelas seis faces do quadrado. Seis emoções básicas que modelam meu ser a uma forma euclidiana; cólera por não sair do cubículo. Tristeza por se autodeterminar nesta posição. Alegria pela possibilidade de destruir este sólido. Nojo pelo bolor comendo não só os cantos do cubo, mas meu espírito. Surpresa por se surpreender em como as coisas são incertas. Medo por acabar sendo esmagado pelo fruto da displicência.
Morte ao sol
Estrela de Rá, sua existência
a mim, é tartamuda!
Seu calor derrete meu humor,
congela meu bem-estar,
estoura o fragor dos tímpanos e
homicida meu amor a ti.
Vossa luz derrama lágrimas
do velcro que separa o bem
e o mal; a vinda da lua: bênção
que socorre a enfermidade.
Soando rancor nas estranhas
dos meus podres órgãos.
O eclipse é a esperança final
de um tempo agradável.
A morte do deus-sol é a missa
que clamo aos domingos.
Minha barganha é sofrer no
calor de meus ossos, quando
volto ao meu caixão escuro.
Ao menos lá não existe
O idiota sol.
Repressão Poética
Caminhando entre versos perdidos
na mão, os papiros ditando as regras
da razão. Sílabas nas construções,
nos grandes muros, sermões;
exército marchando a pátria
poética, cantarolando na mira
de rima noética.
Ele atira contra a vanguarda:
sangra o civil em desalento.
Exaure sua mágoa, escreve
antologia de lamento, e apaga
o macabro livro, suspira...
vidas perdidas um dia.