Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.
os meus calos, aquele sapato furado (único que tenho)
a camisa social onde faltam dois botões,
o meu salário, ou melhor, a falta dele,
o emprego que não tenho,
o pagamento dos impostos em atraso,
as contas de água e de luz,
o cheque sem fundos do supermercado,
as roupas das crianças que já não lhes cabem,
as sandálias surradas da minha esposa,
a comida que não há na mesa...
Tanta coisa para consertar, tanta coisa para comprar,
tanta coisa por fazer, para por em dia,
mas este filho pai-d’égua tem que primeiro
tomar vergonha nesta cara suja!
777
Aborto
Baseado no depoimento de um casalarrependido
Ontem, um tiquinho de nós se foi sem querer, mas por querermos e levou com ele nossa alma, nossa vergonha, nosso pudor, nossa fé e coragem. Ontem, um tiquinho de nós chorou, lutou até o fim e partiu. Partiu os nossos corações, venceu a nossa ignorância, nossa imoral, nossa impiedade. Ontem, um tiquinho de nós se foi, um tiquinho de mim, um tiquinho de ti, uma promessa de amor e felicidade, uma paz infinita... Nós o mandamos embora sem carinho, sem proteção. Ontem, um tiquinho de nós se foi e levou TUDO de nós. Hoje, amanhã e depois e sempre estaremos sós com nossa maldade. Ontem, matamos um tiquinho de nós e morremos TUDO!
878
TAMtos mortos
+ Duas centenas +
TAM tos mortos... (estou certo?) De quem é a culpa? Do homem-máquina? Da máquina-homem? Da máquina-máquina? Ou de todo o maquinário? E o que diz a caixa, a caixa queimada, a caixa “imune” à queda, a preta caixa-preta? Será que gritos, choros, gemidos, ruídos, frases entrecortadas, palavras desmembradas denunciam culpados? De quem é a culpa? Da chuva? Da pista? Da torre? De quem já morreu? E a próxima culpa? De quem há de ser?... Minha? Tua?...
821
Desatino
Olho-te e não te vejo. Não és mais o que antes vi. Procuro ver o que desejo e desejo o que houve em ti.
Tudo é mudado, tudo é estranho... Tudo difere do que vivemos. A imaginar como fomos nos pomos e tão alheios de nós nos percebemos...
À hora morta, é morto o riso e do vento a ladainha nos ouvidos insiste que o Amor é preciso mas não adianta: estamos perdidos.
O tempo é escuro... a voz não fala... No alvorecer dos belos dias deixamos os sonhos. Nada nos abala. Só nos resta agora a alma fria...
É mudo o meu ser mas não mudei. Duas almas opostas no mundo. Quando tu dormiste, acordei. Vejo um corredor escuro e sem fundo...
723
O morredouro
Na minha rua há um morredouro, quasecomo aquele da Irmã Angélica de Bombaim. Lá, tudo é miserável e não háenfermeiras, só moribundos, decadentes, agonizantes, cujas vidas não podem ser saciadas com comidas ou remédios terrenos. As paredes são descarnadas e pequenasvalas serpenteiam entre as enxergas, um acúmulo de sangue, pus, escarros e lágrimas. Tudo forma um quadro de pinturaabstrata, involuntária, de chãos e paredesmulticores, vermentos, com predominância dovermelho. Cães comem pelos cantos e lambem asvalas; não é justo chamá-los de nojentos: nãohá nojo em saciar a fome, há satisfação. Vê-se uma sutil beleza naquelapodridão, naquele concerto de gemidos e lamentos. Oh! Deus! Quando minhas pernasbambearem estarei lá, adepto da loucura poralgumas horas, alguns meses ou até a horaextrema, a critério dos vermes que, quaseimperceptivelmente, já me corroem as entranhas...
691
Vizinho ilustre
Nova Era é tão perto, tão perto de Itabira, que quase vejo Drummond na Sêrro Verde na Sêrro Azul. Mas como vê-lo onde ele nunca foi?
770
PEDRA
PEDRA
Eu sempre pensei que fosse louco. E muitas vezes me disseram que era mesmo, pois eu tinha o hábito de falar com pedras (pedras não falam, seu tonto, e blá, blá, blá...)
Mas todos estávamos enganados. Admirar as pedras, sempre admirei, principalmente as grandes pedras.
Aquelas paredes rochosas das escarpas, muralhas protetoras das ribanceiras, plutônicas e vulcânicas figuras nos barrancos das estradas, sisudas e altivas montanhas branquejantes e acinzentadas na geografia de Minas.
Atraem-me a sua imponência, a sua altivez, a sua impassibilidade diante da ignorância do homem e das agruras do mundo.
Ontem, sentado diante de uma grande pedra, confessei-lhe da minha inveja pela sua postura e sua inteligência.
Disse-lhe ainda da minha vontade de ser pedra, livre do antagonismo humano, objeto imune e indiferente à tristeza e à alegria.
A pedra me disse que eu estava enganado, afirmando do alto da sua sabedoria que ela era o ser mais feliz deste mundo.
Imagem google: Pedra Riscada, localizada em São José do Divino - MG, região que famosa por concentrar os maiores afloramentos de granito do Brasil.
170
Sede
Um homem (?) tem sede, muita sede. Sede quase insuportável. Seus lábios já estão trincados e embranquecidos, a língua grossa, viscosa e pastosa, os olhos, baços. É líquida e certa a única alternativa contra o fim para este homem (?) gerado, nascido e criado na mais inóspita das regiões. Uma região labiríntica onde ele, agora, vê-se completa e irremediavelmente só. Água! Água! Água... água... Inconscientemente refletida no embaciado olhar do homem (?), ao longe uma mínima poça com algumas gotas do líquido. Ele sabe que em outras regiões existe água, muita água, água em abundância sendo mal cuidada, desperdiçada, jogada fora. Mas só lhe basta naquele momento a pocinha que ele parece ver, um mental resíduo da água que lhe furtaram durante a vida inteira. Rastejando, o homem (?) tenta se aproximar da mínima fonte. Mas à sua frente surge o vulto de um homem (!), este bem vestido e com a fome e a sede saciadas. Este homem (!) lhe promete ajuda para que aquela pocinha d'água fique ao alcance dos seus lábios. Mas ele terá que pagar pela ajuda. Sem ter algum dinheiro, o homem (?) ouve que pode ser uma troca, uma barganha, uma promessa. Uma promessa de barganha, um juramento de troca e de entrega. Naquele momento o homem (?) concordaria com qualquer oferta, por mais insidiosa que fosse. Ele já não via e no seu estado nem conseguiria ver nenhuma outra forma de escapar. Mas escapar do quê? Ele não percebia, a sede não lhe permitia perceber qual seria o seu destino ao "assinar" aquele acordo. O único destino que a mente do homem (?) descortinava era aquele caso ela não conseguisse água. E naquela terrível situação ele não conseguia mesmo decidir qual destino escolher. Sede! Sede! Sede! Sede quase insuportável! Os lábios trincados e embranquecidos, a língua grossa, viscosa e pastosa, os olhos baços... e uma minúscula pocinha de água naquela árida imensidão. E entre aquele homem (?) e a salvadora visão, do líquida, um outro homem (!), esperando pela resposta. Diante de tal situação, o que vale a alma de um homem (?) com os lábios trincados e embranquecidos, a língua grossa, viscosa e pastosa, os olhos baços? Sua alma valeria mais do que algumas míseras gotinhas de água?
178
Também quero cantar a mulher que amo
Também posso e quero cantar a mulher que amo, a mulher que quero, a mulher que sempre quis, mulher que sei um dia foi minha, a mulher de quem fui, a mais bela entre todas as mulheres. Posso e quero cantá-la como canto a terra, a água, as nuvens e o ar, assim como canto todas as pequeninas partículas de que é composta a natureza, as minúcias de que são feitas todas as coisas. Há para os outros, na mulher que amo, um mistério que só a mim foi concedido desvendar, pois ela, sabedora do meu amor e da minha paixão, com a sua generosidade me permitiu descortinar o finíssimo véu da sua natureza e me encantar com a incomparável beleza do seu sorriso, a apaixonante carícia das suas mãos, o enlouquecedor perfume da sua pele, a doce suavidade da sua voz, o inebriante sabor da sua boca. Esta mulher, na sua infinita bondade, me ofertou tudo isto e por tudo isto sou feliz. Eis as razões mais do que justas pelas quais senti e continuarei sentindo tanto prazer de cantar a cada segundo da minha vida a mulher que amo, a mulher que confessou estar me esperando, a quem eu confessei que sempre estive e continuo a esperar, a mulher que sabe que estou indo, a mulher que está vindo ao meu encontro. Para nos encontrarmos no meio da estrada, estrada que sem ela tornou-se deserta. Pra nos encontrarmos e em algum recanto só nosso reconstruir a nossa vida. Eis as razões mais do que suficientes para que eu continue a cantar a mulher que amo, até que chegue finalmente o momento do nosso reencontro e o dia amanheça, e a manhã sorria, e os pássaros cantem, e o sol estenda seus raios sobre nós. E a vida mais uma vez nos receba em sua morada e nos faça eternamente felizes.
154
Esperança
"Como esperar me desespera!" Você me confessa, chorando. "Até quando irá a minha espera?" E me repete: "Até quando?"
Até quando teremos que esperar? Não sei até quando, mas confessarei que há muito espero sem me cansar, e de esperar nunca me cansarei.
Sem esperar que a esperança acabe, esperemos quem sabe um gesto, um sorriso de leve, quem sabe?, talvez um outro pequeno manifesto.
Esperemos sempre com alegria, sem desistir nem um só instante. Desistir é o que mais distancia o que já se encontra distante.
Esperemos uma palavra, um gesto, qualquer coisa que nos aproxime, um sorriso, ainda que modesto, algum sinal que nosso peite anime.
Até que o dia por fim amanheça e o sol ilumine o nosso caminho. E que nunca mais a gente esqueça que ninguém pode viver sozinho.