Lista de Poemas

PEDRA

PEDRA

Eu sempre pensei que fosse louco. 
E muitas vezes me disseram que era mesmo, 
pois eu tinha o hábito de falar com pedras
(pedras não falam, seu tonto, e blá, blá, blá...)

Mas todos estávamos enganados. 
Admirar as pedras, sempre admirei, 
principalmente as grandes pedras.

Aquelas paredes rochosas das escarpas,
muralhas protetoras das ribanceiras,
plutônicas e vulcânicas figuras
nos barrancos das estradas,
sisudas e altivas montanhas
branquejantes e acinzentadas 
na geografia de Minas.

Atraem-me a sua imponência, a sua altivez, 
a sua impassibilidade diante da ignorância 
do homem e das agruras do mundo.

Ontem, sentado diante de uma grande pedra, 
confessei-lhe da minha inveja 
pela sua postura e sua inteligência.

Disse-lhe ainda da minha vontade de ser pedra, 
livre do antagonismo humano, objeto imune 
e indiferente à tristeza e à alegria.

A pedra me disse que eu estava enganado, 
afirmando do alto da sua sabedoria 
que ela era o ser mais feliz deste mundo.

Imagem google: Pedra Riscada, localizada em São José do Divino - MG, região que famosa por concentrar os maiores afloramentos de granito do Brasil.
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Dimensão

Somos todos grandes porque nascemos grandes,
não porque quisemos, não no sentido visual, não na estética.
Nascemos grandes como nascem todos, indistintamente,
no mesmo peso e na mesma medida,
sem possibilidade de mais crescer ou diminuir.
A proporção que se dá ou se vê nas pessoas
é que leva a essa tolice da classificação,
a esse ser mais ou menos que nos faz olhar por cima
ou erguer submissamente a vista,
como quem pisa e quem serve de chão.
Nascemos grandes como Deus quis
e seremos grandes ainda que não queiramos,
não tendo como mais crescer ou nos apequenar,
como nenhum vivente tem como ser maior
ou menor que a semente da vida.
Se tivéssemos todos - grandes que somos -
a humildade de nos darmos as mãos
e caminhar para um mesmo horizonte,
seríamos felizes e indestrutíveis.
Nenhum de nós há, maior, menor,
mais ou menos importante.
O que pode haver é o que nos espera
sem jamais revelar-se antes da hora.
Por isto nascemos grandes,
para resistir ao agora e aguardar
a divina possibilidade do amanhã.
**
Dimensión
Somos sublimes de nacimiento,
y no por la voluntad propia, ni por la apariencia o la estética.
Nacemos grandiosos, todos por igual, indistintamente,
en el mismo peso y en la misma medida,
sin posibilidad de crecer o disminuir.
La aparente discordancia que se da en las personas
es la que lleva a la simpleza clasificatoria,
a ese sentirnos superiores o inferiores y mirar a los otro por encima
o bajar sumisamente la mirada,
como si unos pisaran y otros sirvieran de suelo.
Nacemos excelsos como Dios quiso
y seremos así aunque no queramos,
sin oportunidad de cambio,
porque a ningún ser vivo le cabe la posibilidad de ser mayor
o más pequeño que lo determinado por la semilla de la vida.
Si tuviéramos todos - magníficos como somos -
la humildad de darnos las manos
y caminar hacia un mismo horizonte,
seríamos felices e indestructibles.
Ninguno destaca por su tamaño,
ni por ser más o menos importante.
Lo que puede suceder es lo que nos espera
sin descubrirse jamás antes de tiempo.
Por eso nacemos crecidos,
para resistir el presente y esperar
la divina dádiva del mañana.

Tradução para o castelhano por Pedro Sevylla de Juana.



465

Nec otium


Exausto desta batalha
vou lhe propor um negócio:
enquanto você trabalha
eu permaneço no ócio.
391

Chuva/Pluja

Um corpo na mesa-
e lá fora o dia chora
águas de tristeza

-

Un cos a taula -
i allà fora el dia plora
aigües de tristesa

Tradução para o catalão: Pere Bessó
366

Ave!


Por todas as Marias do mundo, ave
pelas mulheres cheias de graça, ave
por todas as benditas mulheres, ave
pelos seus frutíferos ventres, ave
por todas as mães ardorosas, ave
pelos pais e pelos seus filhos, ave
pelos sorrisos e pelos abraços, ave
pelos apertos de mãos, ave
pelo inocente olhar das crianças, ave
por todas as famílias unidas, ave
pelo trabalho e pelo descanso, ave
pelo alimento do corpo e da alma, ave
pelas tristezas e alegrias, ave
por todos os pássaros do céu, ave
pelos rios e pelas matas, ave
pelos desertos e pelos mares, ave
pelos vales e pelas montanhas, ave
pelos ventos e pela chuva, ave
pelo sol e pela lua, ave
pela natureza e as criaturas, ave
pelo bem que move a vida, ave
pela vida e pela morte, ave
por aquele que tudo criou, ave
pelas nossas orações,
Ave!
476

Transe


Há uma estafa fastidiosa a inebriar-me os sentidos, maquiando qualquer vestígio de repentino júbilo, 
modorrenta preguiça mental que subtrai de mim toda esperança de manter-me ereto, 
inexplicável lentidão dos movimentos que minimiza e estatifica...
Fuga momentânea das palavras, subdivididas em sílabas desconexas, ininteligíveis; 
ansiosa necessidade de recostar-me ao primeiro apoio com o qual me deparo; uma palidez
mórbida a recobrir-me a face, tal qual um chinês embebido em éter...
Um querer e não poder abrir os olhos - uma nesga que seja - e vislumbrar, 
ainda que momentaneamente, um átimo da luz que me circunda; 
uma dor tão profunda! tão profunda! que não se sente, mas, ainda assim, 
enraizada no subconsciente...
Um suspiro (antes um expiro) que não parece deixar outro atrás de si. 
Em suma, um cansaço de existir...
397

Elmano no retorno a Portugal


Ó Gil, o que me fizeste, ingrato irmão?
Eu tão longe da minha gentil Lisboa
(no Rio, em Damão, Macau, Cantão e Goa)
e me roubaste de Gertrúria o coração?
 
Lutei tanto, fui soldado, fui tenente,
até doente estive em terras de Albuquerque.
Almejava sorte e glórias, mas moleque
entreguei-me à boêmia vida no oriente.
 
Seguindo a rota de Camões mundo afora,
busquei riqueza e um nome ilustre em outras terras.
De que valeu? Esforço vão... foi tudo embora...
 
Se não tenho Gertrúria, mais nada importa.
"Já Bocage não sou!..." Tudo se encerra
quando a esperança está morta.
507

Estrangeiro


Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
 
Estrangeiro sou e não ardo.
Meu corpo segue em névoa calma.
Não carrego nenhum fardo:
não sofre quem não tem alma.
 
Piso as pedras do caminho
livre, só, sem rumo certo.
E por ser assim -sozinho-
nada é longe, nada é perto...
 
Estou aqui, além, aquém,
não importa meu destino;
se não me espera ninguém,
meu viver é peregrino.
 
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
 
Ser estranho é ser feliz,
é ter tudo e não ter nada,
ser mestre e aprendiz,
tendo a casa na estrada.
 
Vai, alma, não voltes mais!
Vê se te aportas noutro porto.
Ser assim muito me apraz:
não ser vivo nem ser morto...
 
Se meu corpo não tem alma,
minh'alma um corpo não tem.
Tal estado hoje me acalma;
a ela não sei se convém.
                                                                                                                                                                                                                            
                                                                                                                           
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
 
Sou meio-termo inteiro,
animal de consciência;
sou ar puro e passageiro,
que de si não dá ciência.
 
Minh'alma foi carcereira
do corpo, as rédeas tomava.
Fingia ser companheira
enquanto só regras ditava.
 
Perdi amor e felicidade,
que a ela não interessava.
Hoje há paz e não saudade
da alma que o corpo matava.
 
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
é que longe, aquém das serras,
alma me abandonou...
 
Desalmado sou, bem sei,
estou solto e desgarrado,
livre do mundo, da lei,
sem presente e sem passado.
 
Minh'alma já foi bem tarde
se perder por outros lados.
Faço tudo sem alarde:
sem alma não há pecado.
 
Vai, alma, pedir pousada
em corpo que te receba.
Sou feliz e não me agrada
te encontrar pelas veredas.
 
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
 
                                                                                                                        
É bom que eu seja assim,
como nuvem passageira..
Que o mundo não saiba de mim.
Sou quem não fede nem cheira.
 
Fui louco, tolo, bastardo,
a alma de mim fez desdém.
Leitores, compreendam meu fado:
a alma jamais fez-me bem.
 
Serei o que queiram que eu seja.
Se quiserem, serei ninguém.
Sou o novo que viceja
do que já foi velho. Amém!
 
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
455

Coração


Vi o Coração quando jovem, quando puro,
rindo e sonhando dia e noite, noite e dia,
como se a Vida, a Morte, o claro e o escuro
se resumissem em prazer e alegria.
 
Hoje, velho e partido pela Vida amargurada,
sem glórias, sem ânsias, sem desejos,
vesano órgão, cambaleia pela estrada,
sem sonhos e algente de sobejo.
 
Melhor fora Coração não ter havido:
sem este ingrato o peito seria
de sentimentos e tramoias desprovido.
 
Antes, vi aurora de intensa euforia.
Agora, tendo a Vida esmorecido,
só vejo a Morte, lúgubre, sombria...
424

Nova Era


Homenagem à minha cidade natal,
no Vale do Aço.
 
Minha cidade é limpa,
é verde amarela azul e branca.
Minha cidade é pequenina
e tem rio,
tem lagoa,
tem São José da Lagoa,
tem vales e serras.
Inda ontem fui lá
e fiquei feliz:
na minha cidade ainda há crianças
brincando na rua...
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Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.