Remisson Aniceto

Remisson Aniceto

n. , Nova Era (MG)

Perfil
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Vizinho ilustre


Nova Era é tão perto,
tão perto de Itabira,
que quase vejo Drummond
na Sêrro Verde
na Sêrro Azul.
Mas como vê-lo
onde ele nunca foi?
Ler poema completo
Biografia
Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.

Poemas

70

Esperança

"Como esperar me desespera!"
Você me confessa, chorando.
"Até quando irá a minha espera?"
E me repete: "Até quando?"

Até quando teremos que esperar?
Não sei até quando, mas confessarei
que há muito espero sem me cansar,
e de esperar nunca me cansarei.

Sem esperar que a esperança acabe,
esperemos quem sabe um gesto,
um sorriso de leve, quem sabe?,
talvez um outro pequeno manifesto.

Esperemos sempre com alegria,
sem desistir nem um só instante.
Desistir é o que mais distancia
o que já se encontra distante.

Esperemos uma palavra, um gesto,
qualquer coisa que nos aproxime,
um sorriso, ainda que modesto,
algum sinal que nosso peite anime.

Até que o dia por fim amanheça
e o sol ilumine o nosso caminho.
E que nunca mais a gente esqueça
que ninguém pode viver sozinho.
204

Dimensão

Somos todos grandes porque nascemos grandes,
não porque quisemos, não no sentido visual, não na estética.
Nascemos grandes como nascem todos, indistintamente,
no mesmo peso e na mesma medida,
sem possibilidade de mais crescer ou diminuir.
A proporção que se dá ou se vê nas pessoas
é que leva a essa tolice da classificação,
a esse ser mais ou menos que nos faz olhar por cima
ou erguer submissamente a vista,
como quem pisa e quem serve de chão.
Nascemos grandes como Deus quis
e seremos grandes ainda que não queiramos,
não tendo como mais crescer ou nos apequenar,
como nenhum vivente tem como ser maior
ou menor que a semente da vida.
Se tivéssemos todos - grandes que somos -
a humildade de nos darmos as mãos
e caminhar para um mesmo horizonte,
seríamos felizes e indestrutíveis.
Nenhum de nós há, maior, menor,
mais ou menos importante.
O que pode haver é o que nos espera
sem jamais revelar-se antes da hora.
Por isto nascemos grandes,
para resistir ao agora e aguardar
a divina possibilidade do amanhã.
**
Dimensión
Somos sublimes de nacimiento,
y no por la voluntad propia, ni por la apariencia o la estética.
Nacemos grandiosos, todos por igual, indistintamente,
en el mismo peso y en la misma medida,
sin posibilidad de crecer o disminuir.
La aparente discordancia que se da en las personas
es la que lleva a la simpleza clasificatoria,
a ese sentirnos superiores o inferiores y mirar a los otro por encima
o bajar sumisamente la mirada,
como si unos pisaran y otros sirvieran de suelo.
Nacemos excelsos como Dios quiso
y seremos así aunque no queramos,
sin oportunidad de cambio,
porque a ningún ser vivo le cabe la posibilidad de ser mayor
o más pequeño que lo determinado por la semilla de la vida.
Si tuviéramos todos - magníficos como somos -
la humildad de darnos las manos
y caminar hacia un mismo horizonte,
seríamos felices e indestructibles.
Ninguno destaca por su tamaño,
ni por ser más o menos importante.
Lo que puede suceder es lo que nos espera
sin descubrirse jamás antes de tiempo.
Por eso nacemos crecidos,
para resistir el presente y esperar
la divina dádiva del mañana.

Tradução para o castelhano por Pedro Sevylla de Juana.



477

O novo acordo


Poema escrito quando estava em discussão a última Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa
 
 
Uma longa viagem me inspira,
porquanto enjoado e absorto
é quando a palavra transpira.
Tomei um avião para o Porto.
 
Essa história de uniforme
que tentam vestir na grafia
vai deixá-la mais disforme
pra quem, leigo, escrevia.
 
Do soneto não me enjôo
e a mudança deu-me a idéia
de escrevê-lo em pleno vôo.
 
Amanhã, em outro voo,
talvez tenha outra ideia
quando tiver outro enjoo.
451

Nada


Quem pensa que eu vivi, engana-se.  
Quem diz que eu vivi, mente.
Passei apenas...
E passei como se fosse
um nada
que ninguém vê,
que ninguém sente...
411

O mais é resto...


Que é cedo dizem, mas não creio...
Tudo em mim se desvanece!
Carrego do tempo o infortúnio,
da taça o vinho é derramado...
Perguntas se rio? Não, não rio,
não distendem como dantes os músculos
da boca. Não são do riso os dentes
à mostra, são da loucura,
essa megera que o tempo me impôs.
Vivo a me consumir nas andanças do
pensamento; este ainda me é concedido.
Embalsamada a vida, o mais é apodrecido
pelo tempo e emoções idas...
Não sei no que me fio, se me fio...
Minh'alma foi no vácuo do tempo,
vaga e estranha era, se a tive.
Saídas de mim razão e emoção,
ela fugiu. Eu definho...
Ela vive.
333

Ave!


Por todas as Marias do mundo, ave
pelas mulheres cheias de graça, ave
por todas as benditas mulheres, ave
pelos seus frutíferos ventres, ave
por todas as mães ardorosas, ave
pelos pais e pelos seus filhos, ave
pelos sorrisos e pelos abraços, ave
pelos apertos de mãos, ave
pelo inocente olhar das crianças, ave
por todas as famílias unidas, ave
pelo trabalho e pelo descanso, ave
pelo alimento do corpo e da alma, ave
pelas tristezas e alegrias, ave
por todos os pássaros do céu, ave
pelos rios e pelas matas, ave
pelos desertos e pelos mares, ave
pelos vales e pelas montanhas, ave
pelos ventos e pela chuva, ave
pelo sol e pela lua, ave
pela natureza e as criaturas, ave
pelo bem que move a vida, ave
pela vida e pela morte, ave
por aquele que tudo criou, ave
pelas nossas orações,
Ave!
487

Vestuário


Roupas, roupas, 
vestimentas, 
enganos do corpo, 
engodos, farsas. 
Panos, panos, 
linhos grossos, 
fininhos, 
obstrução de caminhos...
396

Áurea

Faço poemas 
em versos negros 
e versos brancos 
para que todo poema 
seja livre.
550

No berço


Dizem que nasci
e que foi um sucesso,
mas não entendi.
Pois também ouvi
que agora o tempo escorre,
que é só retrocesso,
que quando se nasce se morre.
Foi mesmo o que ouvi?
Nasci ou morri?
Que estranho processo...
350

Desvario


Maldigo o frio que gela e entorpece,
O Sol que arde e queima maldigo;
Maldigo a noite que os campos escurece,
A Lua que clareia e embeleza maldigo.
 
Malditos a vida, o amor, o riso, a paz
E tudo o que me faz sofrer, maldito!
Maldito este a quem nada satisfaz...
Imputo a culpa a quem se diz tão maldito!
 
Maldita a hora primeira - a do nascimento,
E todas as outras horas, malditas!
Malditos os momentos maus e os bons momentos,
 
Maldito o Inferno, malditos a Terra e o Céu!
Todas as coisas que há no mundo, malditas!
Maldito eu! maldito eu! maldito eu!
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