Remisson Aniceto

Remisson Aniceto

n. , Nova Era (MG)

Perfil
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Desatino


Olho-te e não te vejo.
Não és mais o que antes vi.
Procuro ver o que desejo
e desejo o que houve em ti.
 
Tudo é mudado, tudo é estranho...
Tudo difere do que vivemos.
A imaginar como fomos nos pomos
e tão alheios de nós nos percebemos...
 
À hora morta, é morto o riso
e do vento a ladainha nos ouvidos
insiste que o Amor é preciso
mas não adianta: estamos perdidos.
 
O tempo é escuro... a voz não fala...
No alvorecer dos belos dias
deixamos os sonhos. Nada nos abala.
Só nos resta agora a alma fria...
 
É mudo o meu ser mas não mudei.
Duas almas opostas no mundo.
Quando tu dormiste, acordei.
Vejo um corredor escuro e sem fundo...
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Biografia
Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.

Poemas

70

Esperança

"Como esperar me desespera!"
Você me confessa, chorando.
"Até quando irá a minha espera?"
E me repete: "Até quando?"

Até quando teremos que esperar?
Não sei até quando, mas confessarei
que há muito espero sem me cansar,
e de esperar nunca me cansarei.

Sem esperar que a esperança acabe,
esperemos quem sabe um gesto,
um sorriso de leve, quem sabe?,
talvez um outro pequeno manifesto.

Esperemos sempre com alegria,
sem desistir nem um só instante.
Desistir é o que mais distancia
o que já se encontra distante.

Esperemos uma palavra, um gesto,
qualquer coisa que nos aproxime,
um sorriso, ainda que modesto,
algum sinal que nosso peite anime.

Até que o dia por fim amanheça
e o sol ilumine o nosso caminho.
E que nunca mais a gente esqueça
que ninguém pode viver sozinho.
208

Dimensão

Somos todos grandes porque nascemos grandes,
não porque quisemos, não no sentido visual, não na estética.
Nascemos grandes como nascem todos, indistintamente,
no mesmo peso e na mesma medida,
sem possibilidade de mais crescer ou diminuir.
A proporção que se dá ou se vê nas pessoas
é que leva a essa tolice da classificação,
a esse ser mais ou menos que nos faz olhar por cima
ou erguer submissamente a vista,
como quem pisa e quem serve de chão.
Nascemos grandes como Deus quis
e seremos grandes ainda que não queiramos,
não tendo como mais crescer ou nos apequenar,
como nenhum vivente tem como ser maior
ou menor que a semente da vida.
Se tivéssemos todos - grandes que somos -
a humildade de nos darmos as mãos
e caminhar para um mesmo horizonte,
seríamos felizes e indestrutíveis.
Nenhum de nós há, maior, menor,
mais ou menos importante.
O que pode haver é o que nos espera
sem jamais revelar-se antes da hora.
Por isto nascemos grandes,
para resistir ao agora e aguardar
a divina possibilidade do amanhã.
**
Dimensión
Somos sublimes de nacimiento,
y no por la voluntad propia, ni por la apariencia o la estética.
Nacemos grandiosos, todos por igual, indistintamente,
en el mismo peso y en la misma medida,
sin posibilidad de crecer o disminuir.
La aparente discordancia que se da en las personas
es la que lleva a la simpleza clasificatoria,
a ese sentirnos superiores o inferiores y mirar a los otro por encima
o bajar sumisamente la mirada,
como si unos pisaran y otros sirvieran de suelo.
Nacemos excelsos como Dios quiso
y seremos así aunque no queramos,
sin oportunidad de cambio,
porque a ningún ser vivo le cabe la posibilidad de ser mayor
o más pequeño que lo determinado por la semilla de la vida.
Si tuviéramos todos - magníficos como somos -
la humildad de darnos las manos
y caminar hacia un mismo horizonte,
seríamos felices e indestructibles.
Ninguno destaca por su tamaño,
ni por ser más o menos importante.
Lo que puede suceder es lo que nos espera
sin descubrirse jamás antes de tiempo.
Por eso nacemos crecidos,
para resistir el presente y esperar
la divina dádiva del mañana.

Tradução para o castelhano por Pedro Sevylla de Juana.



481

Frases

Se o amor de mãe é incondicional, como explicar tantas mães que maltratam, abandonam, matam seus filhos, bebês ou já crescidos, em troca não do amor, mas da satisfação sexual que os homens lhes proporcionam?
-
Jamais poderemos estar perto de quem amamos, enquanto nos ausentarmos de nós mesmos
-
Consciente do seu tamanho, o meu coração dividiu-se em bilhões de partes, em pequeninos corações e foi descortinar o mundo, adentrar os peitos vazios de sentimentos
-
No comboio da vida, a juventude é passageira e o tempo cobrador.
-
O erro quando involuntário é natural e tentar reparar, se desculpar e evitar repeti-lo é humano; mas é desalentador ver pessoas  altamente instruídas insistirem repetidamente nos mesmos erros, sentindo prazer nisto, porque lhes é favorável, serem aplaudidas e não sofrerem qualquer punição
-
A vida passa do meu lado e não me vê
-
Meu pai foi um grande pensador, só não sabia escrever
-
Assim como as vitórias nos dão confiança para prosseguir, as derrotas nos preparam para os mistérios de cada amanhã
-
Só depois que a fonte seca se descobre o valor que a água tem; no jardim do amor que é mal cuidado as flores secam também
-
Depois que passei a vida melhorou; a minha não sei, mas a de quem ficou.
-
Quem vive mendigando carinho recebe -como doação- falsos afetos disfarçados em meios abraços
-

661

Canção do mar


Poema onde o mar é o protagonista, percorrendoos continentes, transportando, saudando, cantando, rugindo, protegendo e arrebatando vidas,numa constante, numa ininterrupta viagem.


No mar quase tudo nada
na imensidão que a vista inunda,
no mar quase tudo nada,
nada na superfície, nada n'águas profundas.
No mar quase tudo nada
e o que não nada ou quase nada
quando não boia, afunda...
No globo quase todo mar
na terra quase nada terra,
na vastidão que tudo circunda,
em movimentos ora de paz ora de guerra
quase tudo tudo nada
e tudo tudo é navegar...
Eia! Terras d'além mar!
Eia! Povos d'além mar!
Nada nada é tão perto
nada nada é tão longe
que o mar não possa alcançar.
E tudo que nada segue
no mar onde quase tudo nada.
No ondulado tapete repleto de vida,
na planície azul sem tamanho,
sob o sol ou na noite estrelada
o que não nada é estranho.
E lá no fundo que cores!
Há muito que admirar!
Algas, pedras, peixes, flores,
decorando o fundo do mar...
E esta brisa que delira,
suave perfume do mar
no marulho que enleva,
serena canção de ninar...
                                                                                                                          
Que ninguém passe pela vida
sem conhecer este mar...

E o céu quando beija o mar
seja no norte ou no sul,
que divino, que divino
é este amor vestido de azul...

E o mar quando beija a areia
serpenteia
serpenteia
deixando cobras na areia...
deixando cobras na areia...
Rema rema pescador
e observa os sons do mar.
Rema rema pescador,
no seu barquinho a flutuar,
que a tempestade é um terror
até pra quem sabe nadar.
Quase tudo no mar nada,
quase tudo nada no mar,
quase tudo o mar carrega
no seu diário navegar.

E o mar quando beija a areia
serpenteia
serpenteia
fazendo cobras na areia...
fazendo cobras na areia...
647

Áurea

Faço poemas 
em versos negros 
e versos brancos 
para que todo poema 
seja livre.
554

Canção final


Depois de muito fastio,
da dor cruel da partida,
do pranto intenso o estio
acalmou enfim minha vida.
 
Voltar talvez eu não possa.
Receio uma nova recusa.
- Que foi que houve da nossa
intensa paixão, minha musa?
 
Nem arrisco seguir os teus passos;
só de longe te olhar me contenta.
Um mistério fez o descompasso,
transformando a calma em tormenta.
 
Agora é esperar... triste sina...
Enrolar-me no manto...está frio!...
Tua imagem se esvai na neblina...
Já me embaça o olhar doentio...
530

Nada


Quem pensa que eu vivi, engana-se.  
Quem diz que eu vivi, mente.
Passei apenas...
E passei como se fosse
um nada
que ninguém vê,
que ninguém sente...
413

Juramento

Jurei que o meu amor seria eterno
e que alguém me amaria até o fim.
Antes tivesse desejado todo o inferno
só pra mim...


Encontrei uma musa inspiradora
e no início o amor nos fez tão bem!
Poucos anos... eu pequei e ela pecadora
foi também.

Desde então, aquele eterno amor imploro,
mas fatal sina nos persegue vida afora:
presas dos duros laços do amor, eu choro
e ela chora.

O juramento que fiz, ela fizera,
querendo alguém que a amasse eternamente.
Mas o amor eterno é doce quimera
dos dementes...

Prisioneiros fatais de um juramento
que nos mantém os corações tão bem fechados,
sofremos ambos o mesmo tormento
dos condenados.

No entanto, eu juro! - estou bem certo -
que as grades do sofrer serão partidas
e os nossos corações serão libertos,
cada um seguindo livre a sua vida.


539

Encontro


No “Bar e Café Pessoa” encontreiFernando.
Ele bebericava numa caneca deporcelana,
lendo “O Corvo”. Puxei uma cadeira damesa ao lado
e sentei, observando seu porte magro,alheio a tudo
em redor. Ali, o mundo e o pensamentoeram
somente dele. Sobre a mesa de tampofino,
repousava uma caixa envolta em papelpardo,
com uma etiqueta da Air Portugal. Eledevia ter
chegado há pouco de lá, talvez paravisitar o Reis.
Fiquei observando-o durante longotempo.
Calmamente, após pousar “O Corvo” sobrea mesa,
ele dirige sua atenção a mim, umaexpressão
de desalento no olhar, como a dizer:
- Fui descoberto!
Ouço a voz da garçonete e viro o rosto:
- Sim, traga-me café numa caneca deporcelana.
Volto-me e já não o vejo. Corro até aporta,
perscruto a rua parcamente iluminada.
Não o encontro, ele sumiudefinitivamente.
Retorno à mesa onde ele estivera.
A garçonete se aproxima e repete:
- Não temos caneca de porcelana,senhor.
Abro o pacote que, na pressa, eleesquecera.
Há vários livros, entre os quais um dePoe
que me chama a atenção, intitulado

“Histórias Extraordinárias”.
496

Nova Era


Homenagem à minha cidade natal,
no Vale do Aço.
 
Minha cidade é limpa,
é verde amarela azul e branca.
Minha cidade é pequenina
e tem rio,
tem lagoa,
tem São José da Lagoa,
tem vales e serras.
Inda ontem fui lá
e fiquei feliz:
na minha cidade ainda há crianças
brincando na rua...
411

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