Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.
Helena? Helena? Onde estás agora?
Apesar do pouco tempo da partida,
a lembrança me castiga, faz ferida
e a tristeza solidária me namora.
Onda calma de sono me invade
quando oscilo sobre a rede no quintal.
Teus beijos... teus abraços... teu rosto
divinal...
que saudade, Helena! Que saudade!
Tremor vago o meu corpo já domina,
ao sentir que a bela fantasia
s'esvaece logo que o sonho termina.
E quem entende a minha dor, o meu
desgosto
e a escassez que há em mim de alegria,
é o zéfiro que banha o meu rosto.
461
Só o tempo passa...
... e foi assim que cheguei:
despojado de tudo,
sentimentos, atos, ilusões
e esperanças.
Em busca de um novo mundo.
Deixei por sobre os ombros
vales, montanhas, seres ocos,
prostitutas mulambentas,
criancinhas remelentas...
Adiante, séculos e séculos após
surgiu o novo mundo
e lá me vi,
nu de ilusões e esperanças,
entre criancinhas remelentas
e prostitutas mulambentas...
469
Entrega
Floreios, floreios, floreios...
Pra quê tantos floreios?
Eu renuncio, já estou cheio!
Cheio da vida e da esperança,
cheio da música, cheio da dança
inútil das horas e da falsa bonança.
Farto das festas, dos hurras!, vivas,
dos tapinhas destes convivas.
Cansado da lengalenga dos meus amigos.
Serão amigos... ou inimigos?
Só quero a paz de estar só
e a solidão da minha paz.
Não quero um ombro, não quero o dó.
Mereço uma placa de “aqui jaz...”
Quero a carícia da terra fresca;
que ela me abrace e eu adormeça...
485
Elmano no retorno a Portugal
Ó Gil, o que me fizeste, ingrato irmão?
Eu tão longe da minha gentil Lisboa
(no Rio, em Damão, Macau, Cantão e Goa)
e me roubaste de Gertrúria o coração?
Lutei tanto, fui soldado, fui tenente,
até doente estive em terras de
Albuquerque.
Almejava sorte e glórias, mas moleque
entreguei-me à boêmia vida no oriente.
Seguindo a rota de Camões mundo afora,
busquei riqueza e um nome ilustre em
outras terras.
De que valeu? Esforço vão... foi tudo
embora...
Se não tenho Gertrúria, mais nada
importa.
"Já Bocage não sou!..." Tudo
se encerra
quando a esperança está morta.
520
Estrangeiro
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
Estrangeiro sou e não ardo.
Meu corpo segue em névoa calma.
Não carrego nenhum fardo:
não sofre quem não tem alma.
Piso as pedras do caminho
livre, só, sem rumo certo.
E por ser assim -sozinho-
nada é longe, nada é perto...
Estou aqui, além, aquém,
não importa meu destino;
se não me espera ninguém,
meu viver é peregrino.
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
Ser estranho é ser feliz,
é ter tudo e não ter nada,
ser mestre e aprendiz,
tendo a casa na estrada.
Vai, alma, não voltes mais!
Vê se te aportas noutro porto.
Ser assim muito me apraz:
não ser vivo nem ser morto...
Se meu corpo não tem alma,
minh'alma um corpo não tem.
Tal estado hoje me acalma;
a ela não sei se convém.
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
Sou meio-termo inteiro,
animal de consciência;
sou ar puro e passageiro,
que de si não dá ciência.
Minh'alma foi carcereira
do corpo, as rédeas tomava.
Fingia ser companheira
enquanto só regras ditava.
Perdi amor e felicidade,
que a ela não interessava.
Hoje há paz e não saudade
da alma que o corpo matava.
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
é que longe, aquém das serras,
alma me abandonou...
Desalmado sou, bem sei,
estou solto e desgarrado,
livre do mundo, da lei,
sem presente e sem passado.
Minh'alma já foi bem tarde
se perder por outros lados.
Faço tudo sem alarde:
sem alma não há pecado.
Vai, alma, pedir pousada
em corpo que te receba.
Sou feliz e não me agrada
te encontrar pelas veredas.
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
É bom que eu seja assim,
como nuvem passageira..
Que o mundo não saiba de mim.
Sou quem não fede nem cheira.
Fui louco, tolo, bastardo,
a alma de mim fez desdém.
Leitores, compreendam meu fado:
a alma jamais fez-me bem.
Serei o que queiram que eu seja.
Se quiserem, serei ninguém.
Sou o novo que viceja
do que já foi velho. Amém!
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
468
Parentes
À maldade dos afins estando sujeitos,
Maldade de tio, irmão e cunhado,
Ainda que mal não lhes tenhamos feito,
Abramos os olhos, tenhamos cuidado...
São mui gordos os olhos dos parentes
Em cima de todo sucesso que temos;
Dão-nos conselhos, estão sempre
presentes,
Aos poucos nos matam e tarde percebemos
A inveja oculta, bem como a ofensa
De quem à nossa frente se fez tão
bondoso.
Quando vaza o fel a gente até pensa:
Meu Deus! Como causa tristeza e nojo
Quem só malefícios no peito condensa!
- A cobiça se esconde em fino estojo...
345
Cinzas
Na rua
a moça passa,
os carros passam,
adiante tudo passa...
Só eu não passo!
De repente,
qual ilusão de ótica,
itinerante e órfã de sorte
minha vida passa,
ilógica,
sob a visão cinérea
da morte.
494
Jardín
Acerquémonos,
pues, querida,
en
medio del camino,
soñando nuevos y viejos sueños,
que
todavía ellos - los sueños -
no
tienen edad ...
Seamos
niños en un jardín de rosas
porque
quiero quedarme contigo en la tierra
y
dar gloria a las otras flores
más
pequeñas que tú,querida.
Gloria
a ti, Rosa!
Quiero
sentir tu perfume,
acariciar
sus ramas
y
poco a poco llenar
de
besos sus hermosos pétalos...
Tú y
yo,
un
jardín de sueños
donde
me alimento
con
tu aroma de sol y de luna...
Sueño?
Y
por qué, Dios mío, este sueño,
como
muchos otros
y
para mi mayor gloria
no
puede convertirse en realidad?
363
Origem
Ei-lo no ventre alfonsino, no seco Aleixo das Geraes, rico de fome e aridez...
425
Criatura
Qu'imagem é esta de mulher que me
persegue,
vinho suave que – eu sequioso – me
embriaga,
que teima em existir por mais que eu
negue,
me abraça, me incendeia e logo se apaga?
Ave branca que atravessa meu caminho
e cruel, com seus beijos me amordaça,
me faz enlouquecer com seus carinhos,
depois me abandona – esvoaça...
Por que me segues tanto, ó criatura,
vinda de um sonho antigo ou do futuro,
me dás a ilusão duma ventura
depois me deixas só no quarto escuro?
E assim, abandonado os dias passo,
fechado, longe de tudo, enfadonho,
ansiando pelas noites quando abraço
a doce imagem dela quando sonho.