Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.
Os miseráveis, os rotos são as flores dos esgotos. Cruz e Souza
Angústia, rejeição e vil loucura tornaram tua alma tão sombria, ó poeta imortal, imortal brancura das essências musicais da Fantasia...
Alma de fé profunda, clamorosa, bálsamo das paixões mais cristalinas, mar revolto de espumas dolorosas, nascido em santas terras catarinas.
Hoje, sentado lá no etéreo canto, isento da carnal miséria e do desprezo, já não te afligem mais a dor e opranto.
Aqui, da cor carrego o amargo peso e as mesmas ânsias que cantaste tanto. Mas tenho, qual tiveste, o Sonho aceso!
424
Jardín
Acerquémonos,pues, querida, enmedio del camino, soñando nuevos y viejos sueños, quetodavía ellos - los sueños - notienen edad ... Seamosniños en un jardín de rosas porquequiero quedarme contigo en la tierra ydar gloria a las otras flores máspequeñas que tú,querida. Gloriaa ti, Rosa! Quierosentir tu perfume, acariciarsus ramas ypoco a poco llenar debesos sus hermosos pétalos... Tú yyo, unjardín de sueños dondeme alimento contu aroma de sol y de luna... Sueño? Ypor qué, Dios mío, este sueño, comomuchos otros ypara mi mayor gloria nopuede convertirse en realidad?
366
Desvario
Maldigo o frio que gela e entorpece, O Sol que arde e queima maldigo; Maldigo a noite que os campos escurece, A Lua que clareia e embeleza maldigo.
Malditos a vida, o amor, o riso, a paz E tudo o que me faz sofrer, maldito! Maldito este a quem nada satisfaz... Imputo a culpa a quem se diz tãomaldito!
Maldita a hora primeira - a donascimento, E todas as outras horas, malditas! Malditos os momentos maus e os bonsmomentos,
Maldito o Inferno, malditos a Terra e oCéu! Todas as coisas que há no mundo,malditas! Maldito eu! maldito eu! maldito eu!
613
Vestuário
Roupas, roupas,
vestimentas,
enganos do corpo,
engodos, farsas.
Panos, panos,
linhos grossos,
fininhos,
obstrução de caminhos...
399
Cinzas
Na rua a moça passa, os carros passam, adiante tudo passa... Só eu não passo! De repente, qual ilusão de ótica, itinerante e órfã de sorte minha vida passa, ilógica, sob a visão cinérea da morte.
498
O novo acordo
Poema escrito quando estava emdiscussão a última Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa
Uma longa viagem me inspira, porquanto enjoado e absorto é quando a palavra transpira. Tomei um avião para o Porto.
Essa história de uniforme que tentam vestir na grafia vai deixá-la mais disforme pra quem, leigo, escrevia.
Do soneto não me enjôo e a mudança deu-me a idéia de escrevê-lo em pleno vôo.
Amanhã, em outro voo, talvez tenha outra ideia quando tiver outro enjoo.
454
Estrangeiro
Sou estranho nesta terra. Estranho? E por que sou? É que longe, aquém das serras, a alma me abandonou...
Estrangeiro sou e não ardo. Meu corpo segue em névoa calma. Não carrego nenhum fardo: não sofre quem não tem alma.
Piso as pedras do caminho livre, só, sem rumo certo. E por ser assim -sozinho- nada é longe, nada é perto...
Estou aqui, além, aquém, não importa meu destino; se não me espera ninguém, meu viver é peregrino.
Sou estranho nesta terra. Estranho? E por que sou? É que longe, aquém das serras, a alma me abandonou...
Ser estranho é ser feliz, é ter tudo e não ter nada, ser mestre e aprendiz, tendo a casa na estrada.
Vai, alma, não voltes mais! Vê se te aportas noutro porto. Ser assim muito me apraz: não ser vivo nem ser morto...
Se meu corpo não tem alma, minh'alma um corpo não tem. Tal estado hoje me acalma; a ela não sei se convém.
Sou estranho nesta terra. Estranho? E por que sou? É que longe, aquém das serras, a alma me abandonou...
Sou meio-termo inteiro, animal de consciência; sou ar puro e passageiro, que de si não dá ciência.
Minh'alma foi carcereira do corpo, as rédeas tomava. Fingia ser companheira enquanto só regras ditava.
Perdi amor e felicidade, que a ela não interessava. Hoje há paz e não saudade da alma que o corpo matava.
Sou estranho nesta terra. Estranho? E por que sou? é que longe, aquém das serras, alma me abandonou...
Desalmado sou, bem sei, estou solto e desgarrado, livre do mundo, da lei, sem presente e sem passado.
Minh'alma já foi bem tarde se perder por outros lados. Faço tudo sem alarde: sem alma não há pecado.
Vai, alma, pedir pousada em corpo que te receba. Sou feliz e não me agrada te encontrar pelas veredas.
Sou estranho nesta terra. Estranho? E por que sou? É que longe, aquém das serras, a alma me abandonou...
É bom que eu seja assim, como nuvem passageira.. Que o mundo não saiba de mim. Sou quem não fede nem cheira.
Fui louco, tolo, bastardo, a alma de mim fez desdém. Leitores, compreendam meu fado: a alma jamais fez-me bem.
Serei o que queiram que eu seja. Se quiserem, serei ninguém. Sou o novo que viceja do que já foi velho. Amém!
Sou estranho nesta terra. Estranho? E por que sou? É que longe, aquém das serras, a alma me abandonou...
470
Entrega
Floreios, floreios, floreios... Pra quê tantos floreios? Eu renuncio, já estou cheio! Cheio da vida e da esperança, cheio da música, cheio da dança inútil das horas e da falsa bonança. Farto das festas, dos hurras!, vivas, dos tapinhas destes convivas. Cansado da lengalenga dos meus amigos. Serão amigos... ou inimigos? Só quero a paz de estar só e a solidão da minha paz. Não quero um ombro, não quero o dó. Mereço uma placa de “aqui jaz...” Quero a carícia da terra fresca; que ela me abrace e eu adormeça...
489
O mais é resto...
Que é cedo dizem, mas não creio... Tudo em mim se desvanece! Carrego do tempo o infortúnio, da taça o vinho é derramado... Perguntas se rio? Não, não rio, não distendem como dantes os músculos da boca. Não são do riso os dentes à mostra, são da loucura, essa megera que o tempo me impôs. Vivo a me consumir nas andanças do pensamento; este ainda me é concedido. Embalsamada a vida, o mais é apodrecido pelo tempo e emoções idas... Não sei no que me fio, se me fio... Minh'alma foi no vácuo do tempo, vaga e estranha era, se a tive. Saídas de mim razão e emoção, ela fugiu. Eu definho... Ela vive.
337
Parentes
À maldade dos afins estando sujeitos, Maldade de tio, irmão e cunhado, Ainda que mal não lhes tenhamos feito, Abramos os olhos, tenhamos cuidado...
São mui gordos os olhos dos parentes Em cima de todo sucesso que temos; Dão-nos conselhos, estão semprepresentes, Aos poucos nos matam e tarde percebemos
A inveja oculta, bem como a ofensa De quem à nossa frente se fez tãobondoso. Quando vaza o fel a gente até pensa:
Meu Deus! Como causa tristeza e nojo Quem só malefícios no peito condensa! - A cobiça se esconde em fino estojo...