Remisson Aniceto

Remisson Aniceto

n. , Nova Era (MG)

Perfil
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Cara de pau

            Hoje tirei o dia para pensar.
            Pensar nas coisas que tenho para consertar,
            os meus dentes, os dentes dos lá de casa,
            os meus calos, aquele sapato furado (único que tenho)
            a camisa social onde faltam dois botões,
            o meu salário, ou melhor, a falta dele,
            o emprego que não tenho,
            o pagamento dos impostos em atraso,
            as contas de água e de luz,
            o cheque sem fundos do supermercado,
            as roupas das crianças que já não lhes cabem,
            as sandálias surradas da minha esposa,
            a comida que não há na mesa...
            Tanta coisa para consertar, tanta coisa para comprar,
            tanta coisa por fazer, para por em dia,
            mas este filho pai-d’égua tem que primeiro
            tomar vergonha nesta cara suja!
Ler poema completo
Biografia
Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.

Poemas

70

O amante

Finda o dia e já 'scurece...
Horas vespertinas em que divago
no meu leito inda sem flores. 
Estou lúcido e tu me apareces. 
Espera! que a dor não trago 
e ainda há dia em minha vida. 
Minha mente está caduca 
e vazio é o saco escrotal das minhas palavras. 
Quisera ejaculá-las todas, aos borbotões, 
em tua página vermelha e negra... 
Ah! Se não fosses infecunda! 
Transformar-te-ias com a maternidade. 
Reagirei, ó Dona Morte, Viúva Triste, Mulher Fatal! 
E incutirei em tuas veias os versos deste poema, 
marcapasso do meu coração. 
Desposaste Mallarmé, Camões, Bilac... 
Não te contentas? 
A mim, hás de ler-me vivo! 
Ninguém é totalmente insensível à Poesia. 
Assim, absorta em ouvir-me, enamorada, 
amar-te-ei ao ocaso e, antes que anoiteça, 
tendo-te aos meus pés, exausta e subjugada, 
de posse do teu segredo e em prol da Vida, 
matar-te-ei, ó Dona Morte! 


373

Criatura


Qu'imagem é esta de mulher que mepersegue,
vinho suave que – eu sequioso – meembriaga,
que teima em existir por mais que eunegue,
me abraça, me incendeia e logo se apaga?
 
Ave branca que atravessa meu caminho
e cruel, com seus beijos me amordaça,
me faz enlouquecer com seus carinhos,
depois me abandona – esvoaça...
 
Por que me segues tanto, ó criatura,
vinda de um sonho antigo ou do futuro,
me dás a ilusão duma ventura
depois me deixas só no quarto escuro?
 
E assim, abandonado os dias passo,
fechado, longe de tudo, enfadonho,
ansiando pelas noites quando abraço
a doce imagem dela quando sonho.
661

Mente insana

Bebi da água da imortal nascente
e tal qual ela me tornei:
borbulhante, límpido, uma semente.
Da torrente do que fui mais nada sei.

Refiz a capa, reescrevi o livro todo
da vida. Passaram-se anos, séculos talvez...
O que de mais sério havia foi engodo
desta mente que perdeu a sensatez.

Fiz-me deus sem perceber. De aprendiz,
hoje tenho a verdade e sou a glória.
Quem crer em mim - deus! - será feliz.

"A mentira dos poetas a tudo contamina",
diz Borges em "O Imortal". Serei história?
Real ou fantástico, a mente é quem determina.
587

Um outro país

Quando você chegar
deve encontrar um outro país,
ser recebido por um povo que diz
ter orgulho da sua nação.
Quando você chegar
deve encontrar um país diferente,
confiante na força da sua gente,
moderno, seguro, sem corrupção.
Quando você chegar
ouvirá histórias de um país encantado,
de um povo forte, feliz, inspirado,
que lutou como um bicho acuado
por trabalho, saúde, casa e educação.
Quando você chegar,
menino ou menina,
ainda haverá vestígios da revolução,
nos jornais, nas revistas,
nos cartazes escritos à mão,
das passeatas, dos brados, daquela canção
cobrando o respeito à sua gente sofrida.
De um povo que, cansado do seu pesadelo,
saindo às ruas de forma atrevida,
fazendo sua guerra sem o uso do aço,
somente com sua voz e a força dos braços,
libertou-se por fim daquela opressão.
Quando você chegar
será – menino ou menina – bem mais feliz
do que sua mãe, seu pai, seus irmãos,
que lutaram tanto pra lhe deixar um país
grandioso, belo, liberto, viril,
como sempre deveria ter sido o Brasil.


665

Canção final


Depois de muito fastio,
da dor cruel da partida,
do pranto intenso o estio
acalmou enfim minha vida.
 
Voltar talvez eu não possa.
Receio uma nova recusa.
- Que foi que houve da nossa
intensa paixão, minha musa?
 
Nem arrisco seguir os teus passos;
só de longe te olhar me contenta.
Um mistério fez o descompasso,
transformando a calma em tormenta.
 
Agora é esperar... triste sina...
Enrolar-me no manto...está frio!...
Tua imagem se esvai na neblina...
Já me embaça o olhar doentio...
531

Herança

A confecção deste poema foi um caso à parte, diferente dos demais poemas meus, que normalmente levam horas, às vezes dias para ser finalizados. Herança veio de uma golfada; nasceu, se muito, em trinta minutos, já pronto pra se mostrar ao mundo.

E eu morro a cada dia
quando cada coisa morre.
Outrora Deus me socorria;
agora já nã o socorre...

Vai um pássaro, coit adinho,
de hirtas e opacas asas.
Vai com ele um bocadinho
da minha alegria tão rasa.

Vão-se o amigo, o cão, o gato, o boi,
tudo vai nesta infalível jornada.
Só fica a angústia do que foi
na minha memória cansada.

Até um jovem filho se vai
sem mesmo saber pra onde,
na vã liberdade que atrai
e mil armadilhas esconde.

Nenhuma alegria perdura
e todo gozo é passageiro.
Só de tristeza há fartura
todo dia, o ano inteiro...

Quando eu me for [e será breve!]
levarei comigo esta carga.
Não quero que alguém herde
tanta lembrança amarga.
688

Entrega


Floreios, floreios, floreios...
Pra quê tantos floreios?
Eu renuncio, já estou cheio!
Cheio da vida e da esperança,
cheio da música, cheio da dança
inútil das horas e da falsa bonança.
Farto das festas, dos hurras!, vivas,
dos tapinhas destes convivas.
Cansado da lengalenga dos meus amigos.
Serão amigos... ou inimigos?
Só quero a paz de estar só
e a solidão da minha paz.
Não quero um ombro, não quero o dó.
Mereço uma placa de “aqui jaz...”
Quero a carícia da terra fresca;
que ela me abrace e eu adormeça...
490

Partida

Devo partir hoje,
o mais tardar amanhã.
E não quero que me vejas hoje,
para não guardares de mim uma saudade triste,
uma saudade recente,
pois agora estou assim, triste,
por saber que hoje, o mais tardar amanhã,
não poderei mais te ver.
Quero que guardes de mim
uma lembrança feliz de ontem,
quando rimos, quando brincamos,
quando meus olhos brilhavam ao te ver,
quando eu ainda não sabia que ia partir.
Não quero te ver hoje,
para que guardes de mim
apenas o que viste ontem nos meus olhos
e o que sentiste no meu corpo.
Quero que fique contigo
apenas o que levarei de ti comigo:
alegria, alegria, alegria!
602

O teatro

Estreitam-se da nossa Pátria as cercanias,
cresce a fome com a fuga das divisas, ri a peste.
A Nação, outrora honesta, se rende à tirania
de quem ouro recolhe e de poder se veste.

Queixoso é o povo dessa Lei que o oprime;
a sangria corre solta em cada Estado;
quem matou se desculpa e se redime:
a Mão do Poder é branca e sem pecado.

Olhem bem, vejam só os desgraçados.
NEROS se protegem na armadura
dos votos que lhes demos. Fazem festa!

Só nos cabem os ossos rejeitados.
O País é um teatro e A Ditadura
é a peça a que assistimos. Nada resta...


460

Miopia

`0-0´
Comprei um óculos futurista
de singular utilidade
Vendo a vista
pela metade
487

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