Remisson Aniceto

Remisson Aniceto

n. , Nova Era (MG)

Perfil
29 083 Visualizações

Vizinho ilustre


Nova Era é tão perto,
tão perto de Itabira,
que quase vejo Drummond
na Sêrro Verde
na Sêrro Azul.
Mas como vê-lo
onde ele nunca foi?
Ler poema completo
Biografia
Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.

Poemas

70

À minha mãe

Quisera hoje ver-te, ó mãe querida,
contigo estar no meu torrão
e te contar da minha Vida,
da dor que me aperta o Coração.

Quisera alegrar teus olhos cansados,
curar da falta a grande ferida
que te faço e me fazes. Já quebrados
os meus planos, minh`alma está partida.

É tão longa a distância, mãe amada,
que me consola esta página amarelada
onde me debruço a chorar o meu tormento.

Contudo, mãe, se são desfeitos os meus planos,
meu Coração, mesmo entre tantos desenganos,
tanto te ama e não te esquece um só momento.
736

Terapia do riso absurdo

Contraídos o risório e o zigomático,
explode em ti sonora gargalhada.
Do veneno do teu riso tão elástico
minhas cordas também são contagiadas.

Tudo em ti é motivo de euforia
e até o vento faz-me cócegas passando.
De tudo rimos e na falsa alegria
o teu riso com o meu riso vai rimando.

Com o riso tu me enganas e eu te engano.
Se sorrimos, damos bah! para a tristeza.
Riamos, que o riso encobre o dano.

Devemos rir, pois só o riso nos sobeja.
Serão bobos? vão dizer. Somos insanos!
E talvez rindo, a triste Morte não nos veja
572

Nostalgia

Helena? Helena? Onde 'stás agora?
Apesar do pouco tempo da partida,
a lembrança me castiga, faz ferida
e a tristeza solidária me namora.

Onda calma de sono me invade
quando oscilo sobre a rede no quintal.
Teus beijos... teus abraços... teu rosto divinal...
que saudade, Helena! Que saudade!

Tremor vago o meu corpo já domina,
ao sentir que a bela fantasia
s´esvaece logo que o sonho termina.

E quem entende a minha dor, o meu desgosto
e a escassez que há em mim de alegria,
é o zéfiro que banha o meu rosto.
566

Mente insana

Bebi da água da imortal nascente
e tal qual ela me tornei:
borbulhante, límpido, uma semente.
Da torrente do que fui mais nada sei.

Refiz a capa, reescrevi o livro todo
da vida. Passaram-se anos, séculos talvez...
O que de mais sério havia foi engodo
desta mente que perdeu a sensatez.

Fiz-me deus sem perceber. De aprendiz,
hoje tenho a verdade e sou a glória.
Quem crer em mim - deus! - será feliz.

"A mentira dos poetas a tudo contamina",
diz Borges em "O Imortal". Serei história?
Real ou fantástico, a mente é quem determina.
584

Miopia

`0-0´
Comprei um óculos futurista
de singular utilidade
Vendo a vista
pela metade
485

Herança

A confecção deste poema foi um caso à parte, diferente dos demais poemas meus, que normalmente levam horas, às vezes dias para ser finalizados. Herança veio de uma golfada; nasceu, se muito, em trinta minutos, já pronto pra se mostrar ao mundo.

E eu morro a cada dia
quando cada coisa morre.
Outrora Deus me socorria;
agora já nã o socorre...

Vai um pássaro, coit adinho,
de hirtas e opacas asas.
Vai com ele um bocadinho
da minha alegria tão rasa.

Vão-se o amigo, o cão, o gato, o boi,
tudo vai nesta infalível jornada.
Só fica a angústia do que foi
na minha memória cansada.

Até um jovem filho se vai
sem mesmo saber pra onde,
na vã liberdade que atrai
e mil armadilhas esconde.

Nenhuma alegria perdura
e todo gozo é passageiro.
Só de tristeza há fartura
todo dia, o ano inteiro...

Quando eu me for [e será breve!]
levarei comigo esta carga.
Não quero que alguém herde
tanta lembrança amarga.
682

Fantasia

Para Rosangela de Fátima

Ó bela Flor, purpúrea, serena,
de sutil formosura, eflúvio de rosas...
Desvelada Flor, sublime, amena,
mescla escarlate das veias ardorosas.

Ó infinita Flor, plácida, aérea,
rubra Flor dos meus anseios...
Visão indelével, magicamente etérea,
lampejo de cor dos devaneios...

Ó Ros'angelical, rósea Flor mirim,
fulgente glória dos meus sonhos,
cobre-me com pétalas carmim!

Ó majestosa Flor, pujante e sincera,
sê real! Dissipa a névoa do medonho,
ó inefável Flor de Quimera...
528

O mendigo

 Os miseráveis, os rotos
são as flores dos esgotos.
                   Cruz e Souza
 
 
Angústia, rejeição e vil loucura
tornaram tua alma tão sombria,
ó poeta imortal, imortal brancura
das essências musicais da Fantasia...
 
Alma de fé profunda, clamorosa,
bálsamo das paixões mais cristalinas,
mar revolto de espumas dolorosas,
nascido em santas terras catarinas.
 
Hoje, sentado lá no etéreo canto,
isento da carnal miséria e do desprezo,
já não te afligem mais a dor e o pranto.
 
Aqui, da cor carrego o amargo peso
e as mesmas ânsias que cantaste tanto.
Mas tenho, qual tiveste, o Sonho aceso!
 
420

Invólucro

Idiota! Não vês que nada és?
Apenas fina capa bolorenta te protege
da podridão. Vermes famintos te rodeiam.

Ignoras que num lance mágico, num segundo apenas
cai por terra toda a altivez e o belo
 papel-presente revela a fétida massa?

O gosto amargo do fel, a visão incerta,
o entortar das pernas, o descontrole total...
tudo é inevitável!

Mais dia menos dia serás presa fácil:
o tempo é impiedoso.

O trágico fim independe de tua vontade.
A arrogância que despejas não passa
de faceta inútil das tuas diversas faces
vãs e mundanas.

Ao sol poente, o rosto murcho e os ossos corroídos
doerão mais do que naqueles que tiveram
a precaução e o bom senso de serem
simples e ocultos.

Restarão teus lindos cabelos...

E que utilidade terão teus cabelos, fios
órfãos e subterrâneos, dispersos, opacos
sobre os ossos?

615

Juramento

Jurei que o meu amor seria eterno
e que alguém me amaria até o fim.
Antes tivesse desejado todo o inferno
só pra mim...


Encontrei uma musa inspiradora
e no início o amor nos fez tão bem!
Poucos anos... eu pequei e ela pecadora
foi também.

Desde então, aquele eterno amor imploro,
mas fatal sina nos persegue vida afora:
presas dos duros laços do amor, eu choro
e ela chora.

O juramento que fiz, ela fizera,
querendo alguém que a amasse eternamente.
Mas o amor eterno é doce quimera
dos dementes...

Prisioneiros fatais de um juramento
que nos mantém os corações tão bem fechados,
sofremos ambos o mesmo tormento
dos condenados.

No entanto, eu juro! - estou bem certo -
que as grades do sofrer serão partidas
e os nossos corações serão libertos,
cada um seguindo livre a sua vida.


535

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.