Remisson Aniceto

Remisson Aniceto

n. , Nova Era (MG)

Perfil
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Desatino


Olho-te e não te vejo.
Não és mais o que antes vi.
Procuro ver o que desejo
e desejo o que houve em ti.
 
Tudo é mudado, tudo é estranho...
Tudo difere do que vivemos.
A imaginar como fomos nos pomos
e tão alheios de nós nos percebemos...
 
À hora morta, é morto o riso
e do vento a ladainha nos ouvidos
insiste que o Amor é preciso
mas não adianta: estamos perdidos.
 
O tempo é escuro... a voz não fala...
No alvorecer dos belos dias
deixamos os sonhos. Nada nos abala.
Só nos resta agora a alma fria...
 
É mudo o meu ser mas não mudei.
Duas almas opostas no mundo.
Quando tu dormiste, acordei.
Vejo um corredor escuro e sem fundo...
Ler poema completo
Biografia
Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.

Poemas

70

Prisão e liberdade

À noite, o rosto nas grades da janela
do colégio interno onde estudava,
perguntei ao padre que cidade era aquela,
toda escura, de onde nada se escutava.

Aos domingos, muita gente lá passeia
e outras, brancas, imóveis _ serão guardas ?
Em novembro de flores fica cheia
e de velas as finas ruas enfeitadas.

_ Que cidade é esta, diz pra mim,
que me atrai com seus noturnos mistérios?
O padre me olha sério e diz por fim:

_ Ali moram reis e rainhas de finados impérios,
ricos, pobres, crianças, todos que dormem, enfim...
Aqueles muros brancos, filho, são os muros do cemitério.
535

Poeminha prático

Hoje ele quer morrer,

só hoje, amanhã não:

amanhã ele quer viver intensamente.

Amanhã ele quererá morrer,

só amanhã, depois não:

depois de amanhã ele supõe

viver intensamente.

E assim ele há de ser eternamente:

morrendo hoje, amanhã não,

querendo sempre o inusitado,

o diferente...

459

Miopia

`0-0´
Comprei um óculos futurista
de singular utilidade
Vendo a vista
pela metade
487

Invólucro

Idiota! Não vês que nada és?
Apenas fina capa bolorenta te protege
da podridão. Vermes famintos te rodeiam.

Ignoras que num lance mágico, num segundo apenas
cai por terra toda a altivez e o belo
 papel-presente revela a fétida massa?

O gosto amargo do fel, a visão incerta,
o entortar das pernas, o descontrole total...
tudo é inevitável!

Mais dia menos dia serás presa fácil:
o tempo é impiedoso.

O trágico fim independe de tua vontade.
A arrogância que despejas não passa
de faceta inútil das tuas diversas faces
vãs e mundanas.

Ao sol poente, o rosto murcho e os ossos corroídos
doerão mais do que naqueles que tiveram
a precaução e o bom senso de serem
simples e ocultos.

Restarão teus lindos cabelos...

E que utilidade terão teus cabelos, fios
órfãos e subterrâneos, dispersos, opacos
sobre os ossos?

617

Deus

                                                                                                         
                                                                                                            s
                                                                                                            u
                                                                                                            e
                                                                                                  s u e e u s
                                                                                                            e
                                                                                                            u
                                                                                                            s
703

Partida

Devo partir hoje,
o mais tardar amanhã.
E não quero que me vejas hoje,
para não guardares de mim uma saudade triste,
uma saudade recente,
pois agora estou assim, triste,
por saber que hoje, o mais tardar amanhã,
não poderei mais te ver.
Quero que guardes de mim
uma lembrança feliz de ontem,
quando rimos, quando brincamos,
quando meus olhos brilhavam ao te ver,
quando eu ainda não sabia que ia partir.
Não quero te ver hoje,
para que guardes de mim
apenas o que viste ontem nos meus olhos
e o que sentiste no meu corpo.
Quero que fique contigo
apenas o que levarei de ti comigo:
alegria, alegria, alegria!
601

Fantasia

Para Rosangela de Fátima

Ó bela Flor, purpúrea, serena,
de sutil formosura, eflúvio de rosas...
Desvelada Flor, sublime, amena,
mescla escarlate das veias ardorosas.

Ó infinita Flor, plácida, aérea,
rubra Flor dos meus anseios...
Visão indelével, magicamente etérea,
lampejo de cor dos devaneios...

Ó Ros'angelical, rósea Flor mirim,
fulgente glória dos meus sonhos,
cobre-me com pétalas carmim!

Ó majestosa Flor, pujante e sincera,
sê real! Dissipa a névoa do medonho,
ó inefável Flor de Quimera...
531

Poema furtivo

O poeta ao falar de si fala dos outros,
que cada um tem um quê do outro.
Tudo é como se fosse um amarrio de cordas
seguidas, compassadas, continuadas.
O poeta ao falar dos outros fala de si,
que cada um outro tem um quê de nós,
cada um vive a vida alheia sem saber
e morre na morte do outro.
Cada poema é impessoal, é de todos,
ainda que impregnado de evidências da mão.
O meu seu poema dele não existe.

500

Herança

A confecção deste poema foi um caso à parte, diferente dos demais poemas meus, que normalmente levam horas, às vezes dias para ser finalizados. Herança veio de uma golfada; nasceu, se muito, em trinta minutos, já pronto pra se mostrar ao mundo.

E eu morro a cada dia
quando cada coisa morre.
Outrora Deus me socorria;
agora já nã o socorre...

Vai um pássaro, coit adinho,
de hirtas e opacas asas.
Vai com ele um bocadinho
da minha alegria tão rasa.

Vão-se o amigo, o cão, o gato, o boi,
tudo vai nesta infalível jornada.
Só fica a angústia do que foi
na minha memória cansada.

Até um jovem filho se vai
sem mesmo saber pra onde,
na vã liberdade que atrai
e mil armadilhas esconde.

Nenhuma alegria perdura
e todo gozo é passageiro.
Só de tristeza há fartura
todo dia, o ano inteiro...

Quando eu me for [e será breve!]
levarei comigo esta carga.
Não quero que alguém herde
tanta lembrança amarga.
687

Para ver-te

Estás inteira dentro em mim.
Basta para tanto um pensamento.
A ilusão da esperança faz-me viver:
a mentira bem contada satisfaz...
Não te vejo há muito, há muito
e muito tempo...
Talvez nunca te tenha visto,
mas minha mente diz o contrário,
insiste com argumentos que a razão
não ousa combater.
Não é preciso que estejas aqui...
O vento acaricia com mãos invisíveis
e és parte dele, atravessando as frinchas,
sussurrando delícias aos meus ouvidos.
Não é preciso que estejas aqui, não...
Para que eu te veja, bastam-me
os olhos do pensamento...
520

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