Lista de Poemas

Fragmentos

Dorme, que a vida é fracionada em dias e noites 
como o sol que nasce e morre a cada dia. 
Vive intensamente tuas dezenas, centenas 
ou milhares de dias e dorme, dorme serenamente 
para talvez despertar para um novo dia, uma nova vida, 
vida dividida em vidas, 
como quando abrem-se as cortinas e, 
primeiro ato, cena um, a vida entra em ação! 
E, segundo ato, segunda cena,
vários atos e várias cenas 
e o pano desce. 
Noite. 
No seguinte dia, se se vive, reinicia-se 
involuntariamente a mesma peça 
em vários atos, 
em várias cenas 
com talvez o mesmo e mais outro e outro elenco. 
Em cena encena naturalmente
que a vida é fracionada em tomos, 
dorme, vive, vive e dorme serenamente, 
que na medula da vida tudo surge de repente, 
sem preparo, sem rubricas. 
Tanta coisa 
nascemorrenascemorrenascemorrenasce... 
todos os dias, todas as noites. 
Isto, enquanto há olhos, vê-se. 
E se não se acorda, sabe-se? 
Atores de palcos antigos, de peças passadas, 
de lidos tomos, de atos findos 
ainda não me disseram.
837

Para ver-te

Estás inteira dentro em mim.
Basta para tanto um pensamento.
A ilusão da esperança faz-me viver:
a mentira bem contada satisfaz...
Não te vejo há muito, há muito
e muito tempo...
Talvez nunca te tenha visto,
mas minha mente diz o contrário,
insiste com argumentos que a razão
não ousa combater.
Não é preciso que estejas aqui...
O vento acaricia com mãos invisíveis
e és parte dele, atravessando as frinchas,
sussurrando delícias aos meus ouvidos.
Não é preciso que estejas aqui, não...
Para que eu te veja, bastam-me
os olhos do pensamento...
506

Deus

                                                                                                         
                                                                                                            s
                                                                                                            u
                                                                                                            e
                                                                                                  s u e e u s
                                                                                                            e
                                                                                                            u
                                                                                                            s
687

Um outro país

Quando você chegar
deve encontrar um outro país,
ser recebido por um povo que diz
ter orgulho da sua nação.
Quando você chegar
deve encontrar um país diferente,
confiante na força da sua gente,
moderno, seguro, sem corrupção.
Quando você chegar
ouvirá histórias de um país encantado,
de um povo forte, feliz, inspirado,
que lutou como um bicho acuado
por trabalho, saúde, casa e educação.
Quando você chegar,
menino ou menina,
ainda haverá vestígios da revolução,
nos jornais, nas revistas,
nos cartazes escritos à mão,
das passeatas, dos brados, daquela canção
cobrando o respeito à sua gente sofrida.
De um povo que, cansado do seu pesadelo,
saindo às ruas de forma atrevida,
fazendo sua guerra sem o uso do aço,
somente com sua voz e a força dos braços,
libertou-se por fim daquela opressão.
Quando você chegar
será – menino ou menina – bem mais feliz
do que sua mãe, seu pai, seus irmãos,
que lutaram tanto pra lhe deixar um país
grandioso, belo, liberto, viril,
como sempre deveria ter sido o Brasil.


648

Nostalgia

Helena? Helena? Onde 'stás agora?
Apesar do pouco tempo da partida,
a lembrança me castiga, faz ferida
e a tristeza solidária me namora.

Onda calma de sono me invade
quando oscilo sobre a rede no quintal.
Teus beijos... teus abraços... teu rosto divinal...
que saudade, Helena! Que saudade!

Tremor vago o meu corpo já domina,
ao sentir que a bela fantasia
s´esvaece logo que o sonho termina.

E quem entende a minha dor, o meu desgosto
e a escassez que há em mim de alegria,
é o zéfiro que banha o meu rosto.
555

Fantasia

Para Rosangela de Fátima

Ó bela Flor, purpúrea, serena,
de sutil formosura, eflúvio de rosas...
Desvelada Flor, sublime, amena,
mescla escarlate das veias ardorosas.

Ó infinita Flor, plácida, aérea,
rubra Flor dos meus anseios...
Visão indelével, magicamente etérea,
lampejo de cor dos devaneios...

Ó Ros'angelical, rósea Flor mirim,
fulgente glória dos meus sonhos,
cobre-me com pétalas carmim!

Ó majestosa Flor, pujante e sincera,
sê real! Dissipa a névoa do medonho,
ó inefável Flor de Quimera...
518

Os dançarinos

Melancólica e sonolenta, eis a lua,
flutuando sobre as águas do oceano.
Alheio a tudo, imerso na noite e no mundo,
meu pensar também vaga neste plano.
 
Ei-la, imagem erradia na pista do mar,
entrando, dançando, bailando nas ondas vadias.
Minha imagem também entra, dança, baila,
embalada pela aquátil melodia.
 
Qual casal de dançarinos da esperança,
vestidos de amor e de alegria
deslizamos sobre as águas nessa dança.
 
Já desperta e alvacenta, eis a lua,
causadora dessa bela fantasia
que nos tira do real e nos flutua
527

Terapia do riso absurdo

Contraídos o risório e o zigomático,
explode em ti sonora gargalhada.
Do veneno do teu riso tão elástico
minhas cordas também são contagiadas.

Tudo em ti é motivo de euforia
e até o vento faz-me cócegas passando.
De tudo rimos e na falsa alegria
o teu riso com o meu riso vai rimando.

Com o riso tu me enganas e eu te engano.
Se sorrimos, damos bah! para a tristeza.
Riamos, que o riso encobre o dano.

Devemos rir, pois só o riso nos sobeja.
Serão bobos? vão dizer. Somos insanos!
E talvez rindo, a triste Morte não nos veja
559

O amante

Finda o dia e já 'scurece...
Horas vespertinas em que divago
no meu leito inda sem flores. 
Estou lúcido e tu me apareces. 
Espera! que a dor não trago 
e ainda há dia em minha vida. 
Minha mente está caduca 
e vazio é o saco escrotal das minhas palavras. 
Quisera ejaculá-las todas, aos borbotões, 
em tua página vermelha e negra... 
Ah! Se não fosses infecunda! 
Transformar-te-ias com a maternidade. 
Reagirei, ó Dona Morte, Viúva Triste, Mulher Fatal! 
E incutirei em tuas veias os versos deste poema, 
marcapasso do meu coração. 
Desposaste Mallarmé, Camões, Bilac... 
Não te contentas? 
A mim, hás de ler-me vivo! 
Ninguém é totalmente insensível à Poesia. 
Assim, absorta em ouvir-me, enamorada, 
amar-te-ei ao ocaso e, antes que anoiteça, 
tendo-te aos meus pés, exausta e subjugada, 
de posse do teu segredo e em prol da Vida, 
matar-te-ei, ó Dona Morte! 


356

Partida

Devo partir hoje,
o mais tardar amanhã.
E não quero que me vejas hoje,
para não guardares de mim uma saudade triste,
uma saudade recente,
pois agora estou assim, triste,
por saber que hoje, o mais tardar amanhã,
não poderei mais te ver.
Quero que guardes de mim
uma lembrança feliz de ontem,
quando rimos, quando brincamos,
quando meus olhos brilhavam ao te ver,
quando eu ainda não sabia que ia partir.
Não quero te ver hoje,
para que guardes de mim
apenas o que viste ontem nos meus olhos
e o que sentiste no meu corpo.
Quero que fique contigo
apenas o que levarei de ti comigo:
alegria, alegria, alegria!
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Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.