Remisson Aniceto

Remisson Aniceto

n. , Nova Era (MG)

Perfil
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Vizinho ilustre


Nova Era é tão perto,
tão perto de Itabira,
que quase vejo Drummond
na Sêrro Verde
na Sêrro Azul.
Mas como vê-lo
onde ele nunca foi?
Ler poema completo
Biografia
Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.

Poemas

70

Chuva/Pluja

Um corpo na mesa-
e lá fora o dia chora
águas de tristeza

-

Un cos a taula -
i allà fora el dia plora
aigües de tristesa

Tradução para o catalão: Pere Bessó
379

Ave


Ontem, vi um pássaro no estertor da morte.
As asas não içavam o frágil corpo.
Das pernas - finos gravetos - esvaía a firmeza.
Peguei-o e não o senti: já não havia
movimentos, apenas imperceptíveis tentativas internas.
E eu, que sempre, tantas vezes,
desejei alçar voo como as aves
e desfrutar da liberdade da altura,
senti-me inútil...
Aquele pequenino ser, naquele momento
quisera sê-lo para transpor
as barreiras da liberdade.
460

Nova Era


Homenagem à minha cidade natal,
no Vale do Aço.
 
Minha cidade é limpa,
é verde amarela azul e branca.
Minha cidade é pequenina
e tem rio,
tem lagoa,
tem São José da Lagoa,
tem vales e serras.
Inda ontem fui lá
e fiquei feliz:
na minha cidade ainda há crianças
brincando na rua...
405

A Rosa dos anjos


Ó Rosa que no Céu estás plantada,
Rosa alva dos meus sonhos arrancada.
Tens a cor da bela nuvem em claro dia,
Perfumando os céus azuis da Fantasia.
 
Ó Rosa santa, das flores mor-rainha,
Tu perfumaste o jardim da vida minha.
Triste Flor na primavera colhida
Por quem de inveja me roubou a fé na vida.
 
Etérea Flor, se sem querer foi que partiste,
Foge do teu anjo guardião nalgum descuido.
Quem te quer mais que o Céu na Terra existe.
 
Que a levassem nada fiz por merecer.
Vem, Flor nívea, derramar teu santo fluido,
No jardim que sem teu pólen vai morrer.
604

Prisão e liberdade

À noite, o rosto nas grades da janela
do colégio interno onde estudava,
perguntei ao padre que cidade era aquela,
toda escura, de onde nada se escutava.

Aos domingos, muita gente lá passeia
e outras, brancas, imóveis _ serão guardas ?
Em novembro de flores fica cheia
e de velas as finas ruas enfeitadas.

_ Que cidade é esta, diz pra mim,
que me atrai com seus noturnos mistérios?
O padre me olha sério e diz por fim:

_ Ali moram reis e rainhas de finados impérios,
ricos, pobres, crianças, todos que dormem, enfim...
Aqueles muros brancos, filho, são os muros do cemitério.
531

Deus

                                                                                                         
                                                                                                            s
                                                                                                            u
                                                                                                            e
                                                                                                  s u e e u s
                                                                                                            e
                                                                                                            u
                                                                                                            s
701

Os dançarinos

Melancólica e sonolenta, eis a lua,
flutuando sobre as águas do oceano.
Alheio a tudo, imerso na noite e no mundo,
meu pensar também vaga neste plano.
 
Ei-la, imagem erradia na pista do mar,
entrando, dançando, bailando nas ondas vadias.
Minha imagem também entra, dança, baila,
embalada pela aquátil melodia.
 
Qual casal de dançarinos da esperança,
vestidos de amor e de alegria
deslizamos sobre as águas nessa dança.
 
Já desperta e alvacenta, eis a lua,
causadora dessa bela fantasia
que nos tira do real e nos flutua
537

Poeminha prático

Hoje ele quer morrer,

só hoje, amanhã não:

amanhã ele quer viver intensamente.

Amanhã ele quererá morrer,

só amanhã, depois não:

depois de amanhã ele supõe

viver intensamente.

E assim ele há de ser eternamente:

morrendo hoje, amanhã não,

querendo sempre o inusitado,

o diferente...

458

No céu de Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá eu é que sou o rei
Lá terei tudo que quero
Na terra que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá eu é que sou o rei
De uma terra encantada
Que um dia abandonei

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá todo mundo é rei
Lá poderei encontrar
Tudo que em vão procurei

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá eu serei feliz
Lá poderei despertar
Na rica Terra do Sem Fim

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá só vive gente boa
Lá, sem cetro e sem coroa
Serei rei e súdito de mim

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá terei uma mulher só minha
Lá todo mundo é feliz
Cada rei com sua rainha

Lá montarei em cavalo
E verei o sol nascer
Lá tenho amigos reais:
Cecília, Carlos, Manuel...

Que me dizem que Pasárgada
Faz divisa com o céu
Onde dá pra ir e vir
Num piscar de olhos

E se algum dia talvez
A tristeza brincar comigo
Querendo em Pasárgada abrigo
Ou se a morte desdenhar

Da alegria de um amigo
Basta eu me lembrar
Que em Pasárgada sou rei
Que lá todo mundo é rei

Vou-me embora pra Pasárgada
De onde um dia saí rei
E desde então me perdi

Vou-me embora pra Pasárgada
De lá não mais sairei
690

Um outro país

Quando você chegar
deve encontrar um outro país,
ser recebido por um povo que diz
ter orgulho da sua nação.
Quando você chegar
deve encontrar um país diferente,
confiante na força da sua gente,
moderno, seguro, sem corrupção.
Quando você chegar
ouvirá histórias de um país encantado,
de um povo forte, feliz, inspirado,
que lutou como um bicho acuado
por trabalho, saúde, casa e educação.
Quando você chegar,
menino ou menina,
ainda haverá vestígios da revolução,
nos jornais, nas revistas,
nos cartazes escritos à mão,
das passeatas, dos brados, daquela canção
cobrando o respeito à sua gente sofrida.
De um povo que, cansado do seu pesadelo,
saindo às ruas de forma atrevida,
fazendo sua guerra sem o uso do aço,
somente com sua voz e a força dos braços,
libertou-se por fim daquela opressão.
Quando você chegar
será – menino ou menina – bem mais feliz
do que sua mãe, seu pai, seus irmãos,
que lutaram tanto pra lhe deixar um país
grandioso, belo, liberto, viril,
como sempre deveria ter sido o Brasil.


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