Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.
Lista de Poemas
Herança
A confecção deste poema foi um caso à parte, diferente dos demais poemas meus, que normalmente levam horas, às vezes dias para ser finalizados. Herança veio de uma golfada; nasceu, se muito, em trinta minutos, já pronto pra se mostrar ao mundo.
E eu morro a cada dia
quando cada coisa morre.
Outrora Deus me socorria;
agora já nã o socorre...
Vai um pássaro, coit adinho,
de hirtas e opacas asas.
Vai com ele um bocadinho
da minha alegria tão rasa.
Vão-se o amigo, o cão, o gato, o boi,
tudo vai nesta infalível jornada.
Só fica a angústia do que foi
na minha memória cansada.
Até um jovem filho se vai
sem mesmo saber pra onde,
na vã liberdade que atrai
e mil armadilhas esconde.
Nenhuma alegria perdura
e todo gozo é passageiro.
Só de tristeza há fartura
todo dia, o ano inteiro...
Quando eu me for [e será breve!]
levarei comigo esta carga.
Não quero que alguém herde
tanta lembrança amarga.
670
Invólucro
Idiota! Não vês que nada és?
Apenas fina capa bolorenta te protege
da podridão. Vermes famintos te rodeiam.
Ignoras que num lance mágico, num segundo apenas
cai por terra toda a altivez e o belo
papel-presente revela a fétida massa?
O gosto amargo do fel, a visão incerta,
o entortar das pernas, o descontrole total...
tudo é inevitável!
Mais dia menos dia serás presa fácil:
o tempo é impiedoso.
O trágico fim independe de tua vontade.
A arrogância que despejas não passa
de faceta inútil das tuas diversas faces
vãs e mundanas.
Ao sol poente, o rosto murcho e os ossos corroídos
doerão mais do que naqueles que tiveram
a precaução e o bom senso de serem
simples e ocultos.
Restarão teus lindos cabelos...
E que utilidade terão teus cabelos, fios
órfãos e subterrâneos, dispersos, opacos
sobre os ossos?
605
O teatro
Estreitam-se da nossa Pátria as cercanias,
cresce a fome com a fuga das divisas, ri a peste.
A Nação, outrora honesta, se rende à tirania
de quem ouro recolhe e de poder se veste.
Queixoso é o povo dessa Lei que o oprime;
a sangria corre solta em cada Estado;
quem matou se desculpa e se redime:
a Mão do Poder é branca e sem pecado.
Olhem bem, vejam só os desgraçados.
NEROS se protegem na armadura
dos votos que lhes demos. Fazem festa!
Só nos cabem os ossos rejeitados.
O País é um teatro e A Ditadura
é a peça a que assistimos. Nada resta...
cresce a fome com a fuga das divisas, ri a peste.
A Nação, outrora honesta, se rende à tirania
de quem ouro recolhe e de poder se veste.
Queixoso é o povo dessa Lei que o oprime;
a sangria corre solta em cada Estado;
quem matou se desculpa e se redime:
a Mão do Poder é branca e sem pecado.
Olhem bem, vejam só os desgraçados.
NEROS se protegem na armadura
dos votos que lhes demos. Fazem festa!
Só nos cabem os ossos rejeitados.
O País é um teatro e A Ditadura
é a peça a que assistimos. Nada resta...
443
Classificado
Contrata-se um assassino, um matador de aluguel
que tenha na profissão bastante experiência.
Deve ser frio, calculista, insensível e cruel.
Exige-se carta de referência.
Quem o trabalho puder assumir,
favor encontrar-me na mais triste praça.
Direi que a vítima não vai reagir,
que é homem semimorto, descartável e sem graça.
Mas que seja certeiro o tiro ou o golpe do punhal:
não quero que o ferido se arrependa.
Melhor no coração, pra ser fatal.
Depois, já não haverá dor ou ferida.
E que o contratado não se surpreenda
ao saber que o pagamento é a minha vida
639
Encontro
No “Bar e Café Pessoa” encontrei Fernando.
Ele bebericava numa caneca de porcelana,
lendo “O Corvo”. Puxei uma cadeira da mesa ao lado
e sentei, observando seu porte magro, alheio a tudo
em redor. Ali, o mundo e o pensamento eram
somente dele. Sobre a mesa de tampo fino,
repousava uma caixa envolta em papel pardo,
com uma etiqueta da Air Portugal. Ele devia ter
chegado há pouco de lá, talvez para visitar o Reis.
Fiquei observando-o durante longo tempo.
Calmamente, após pousar “O Corvo” sobre a mesa,
ele dirige sua atenção a mim, uma expressão
de desalento no olhar, como a dizer:
- Fui descoberto!
Ouço a voz da garçonete e viro o rosto:
- Sim, traga-me café numa caneca de porcelana.
Volto-me e já não o vejo. Corro até a porta,
perscruto a rua parcamente iluminada.
Não o encontro, ele sumiu definitivamente.
Retorno à mesa onde ele estivera.
A garçonete se aproxima e repete:
- Não temos caneca de porcelana, senhor.
Abro o pacote que, na pressa, ele esquecera.
Há vários livros, entre os quais um de Poe
que me chama a atenção, intitulado
“Histórias Extraordinárias”.
479
Entrega
Floreios, floreios, floreios...
Pra quê tantos floreios?
Eu renuncio, já estou cheio!
Cheio da vida e da esperança,
cheio da música, cheio da dança
inútil das horas e da falsa bonança.
Farto das festas, dos hurras!, vivas,
dos tapinhas destes convivas.
Cansado da lengalenga dos meus amigos.
Serão amigos... ou inimigos?
Só quero a paz de estar só
e a solidão da minha paz.
Não quero um ombro, não quero o dó.
Mereço uma placa de “aqui jaz...”
Quero a carícia da terra fresca;
que ela me abrace e eu adormeça...
475
Realeza
Por que em tudo quanto vejo cuido vê-la?
Por que não fico um segundo desta vida
sem pensar na minha amada e esquecê-la,
se é uma jóia que pra mim está perdida?
A cada fim de semana tão sofrido
me transformo nas flores que lhe oferto,
mágica forma que creio ter aprendido
para vê-la, pra senti-la, pra estar perto...
Abdico hoje da tristeza,
do sofrer e da amargura abdico,
qual um rei que não quer na dor a realeza.
E como antes para tê-la eu me dedico,
para ser rei, mas rei feliz e tenho certeza:
quando a tiver, serei de todos o mais rico
437
Juramento
Jurei que o meu amor seria eterno
e que alguém me amaria até o fim.
Antes tivesse desejado todo o inferno
só pra mim...
Encontrei uma musa inspiradora
e no início o amor nos fez tão bem!
Poucos anos... eu pequei e ela pecadora
foi também.
Desde então, aquele eterno amor imploro,
mas fatal sina nos persegue vida afora:
presas dos duros laços do amor, eu choro
e ela chora.
O juramento que fiz, ela fizera,
querendo alguém que a amasse eternamente.
Mas o amor eterno é doce quimera
dos dementes...
Prisioneiros fatais de um juramento
que nos mantém os corações tão bem fechados,
sofremos ambos o mesmo tormento
dos condenados.
No entanto, eu juro! - estou bem certo -
que as grades do sofrer serão partidas
e os nossos corações serão libertos,
cada um seguindo livre a sua vida.
e que alguém me amaria até o fim.
Antes tivesse desejado todo o inferno
só pra mim...
Encontrei uma musa inspiradora
e no início o amor nos fez tão bem!
Poucos anos... eu pequei e ela pecadora
foi também.
Desde então, aquele eterno amor imploro,
mas fatal sina nos persegue vida afora:
presas dos duros laços do amor, eu choro
e ela chora.
O juramento que fiz, ela fizera,
querendo alguém que a amasse eternamente.
Mas o amor eterno é doce quimera
dos dementes...
Prisioneiros fatais de um juramento
que nos mantém os corações tão bem fechados,
sofremos ambos o mesmo tormento
dos condenados.
No entanto, eu juro! - estou bem certo -
que as grades do sofrer serão partidas
e os nossos corações serão libertos,
cada um seguindo livre a sua vida.
524
Só
Viver não me importa:
minha Rosa está morta!
Secou no jardim
com falta de mim.
A vida em comum
fez nós dois sermos um.
Ela partiu ontem à tarde:
fiquei só a metade.
Aspiro o tormento
que vem com o vento.
Perdi minha calma:
fugiu com sua alma.
A morte é a esperança,
não quero a lembrança.
Voltar não resolve,
sua vida não volve.
Ficar não consola,
a dor me assola.
Seguir é inútil
na estrada tão fútil.
Quero que anoiteça
e não mais amanheça.
Viver não me importa:
minha Rosa está morta!
314
Transição
É tão fria a cova e tão escuro o horto
onde depositam meu corpo doente!
_ Como a cova é fri a se o corpo é morto?
A partir de agora s ó a alma sente...
Ah! Esta cama rude onde estou deitado
e este quarto escuro e tão bem fechado!
Tento levantar, mas estou tão cansado...
Que rumor é esse ali no quarto ao lado?
Há um jardim bem perto: sinto o odor das flores.
Quero levantar, mas estou tão cansado...
Estou tão cansado mas não sinto dores.
E o rumor aumenta ali no quarto ao lado.
_ Desçam o caixão! _ diz alguém lá fora.
Quem morreu enquanto estive dormindo?
Bem perto da porta ouço alguém que chora,
lamentando a sorte de quem vai partindo.
Quero levantar, faço força tamanha
mas tenho as mãos inertes e o corpo duro.
Agora o padre reza numa língua estranha,
enquanto fico preso neste quarto escuro.
Está caindo terra sobre o telhado.
Parece que o mundo está desabando...
Falta-me o ar neste quarto fechado
e lá fora há um a multidão chorando.
Sinto um trem or leve, um breve arrepio...
Já quase nada mais estou sentindo.
Por que não me tiram deste quarto frio?
Alguém morreu enquanto estive dormindo.
É tão fria a cova e tão escuro o horto
onde depositam meu corpo doente!
_ Como a cova é fria se o corpo é morto?
A partir de agora só a alma sente...
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