Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.
Ó Gil, o que me fizeste, ingrato irmão? Eu tão longe da minha gentil Lisboa (no Rio, em Damão, Macau, Cantão e Goa) e me roubaste de Gertrúria o coração?
Lutei tanto, fui soldado, fui tenente, até doente estive em terras deAlbuquerque. Almejava sorte e glórias, mas moleque entreguei-me à boêmia vida no oriente.
Seguindo a rota de Camões mundo afora, busquei riqueza e um nome ilustre emoutras terras. De que valeu? Esforço vão... foi tudoembora...
Se não tenho Gertrúria, mais nadaimporta. "Já Bocage não sou!..." Tudose encerra quando a esperança está morta.
523
Ave
Ontem, vi um pássaro no estertor damorte. As asas não içavam o frágil corpo. Das pernas - finos gravetos - esvaía afirmeza. Peguei-o e não o senti: já não havia movimentos, apenas imperceptíveis tentativas internas. E eu, que sempre, tantas vezes, desejei alçar voo como as aves e desfrutar da liberdade da altura, senti-me inútil... Aquele pequenino ser, naquele momento quisera sê-lo para transpor as barreiras da liberdade.
463
No berço
Dizem que nasci e que foi um sucesso, mas não entendi. Pois também ouvi que agora o tempo escorre, que é só retrocesso, que quando se nasce se morre. Foi mesmo o que ouvi? Nasci ou morri? Que estranho processo...
352
O amante
Finda o dia e já 'scurece... Horas vespertinas em que divago no meu leito inda sem flores. Estou lúcido e tu me apareces. Espera! que a dor não trago e ainda há dia em minha vida. Minha mente está caduca e vazio é o saco escrotal das minhas palavras. Quisera ejaculá-las todas, aos borbotões, em tua página vermelha e negra... Ah! Se não fosses infecunda! Transformar-te-ias com a maternidade. Reagirei, ó Dona Morte, Viúva Triste, Mulher Fatal! E incutirei em tuas veias os versos deste poema, marcapasso do meu coração. Desposaste Mallarmé, Camões, Bilac... Não te contentas? A mim, hás de ler-me vivo! Ninguém é totalmente insensível à Poesia. Assim, absorta em ouvir-me, enamorada, amar-te-ei ao ocaso e, antes que anoiteça, tendo-te aos meus pés, exausta e subjugada, de posse do teu segredo e em prol da Vida, matar-te-ei, ó Dona Morte!
373
A Rosa dos anjos
Ó Rosa que no Céu estás plantada, Rosa alva dos meus sonhos arrancada. Tens a cor da bela nuvem em claro dia, Perfumando os céus azuis da Fantasia.
Ó Rosa santa, das flores mor-rainha, Tu perfumaste o jardim da vida minha. Triste Flor na primavera colhida Por quem de inveja me roubou a fé navida.
Etérea Flor, se sem querer foi quepartiste, Foge do teu anjo guardião nalgumdescuido. Quem te quer mais que o Céu na Terraexiste.
Que a levassem nada fiz por merecer. Vem, Flor nívea, derramar teu santofluido, No jardim que sem teu pólen vai morrer.
608
Nec otium
Exausto desta batalha vou lhe propor um negócio: enquanto você trabalha eu permaneço no ócio.
409
Ao censor
Lê e critica meu verso, que te é permitido fazê-lo. Só não me prives, te peço, do direito de escrevê-lo.
475
Origem
Ei-lo no ventre alfonsino, no seco Aleixo das Geraes, rico de fome e aridez...
427
Substancia
[para Rosangela de Fatima]
Mi trovo tante volte pensando a te E visualizzo la tua perfetta forma didonna, di giorno a sfiorare le labbra divelluto, la notte ad accarezzare la seta deicapelli. Se sei lontano da me, giorno dopogiorno Ti trasformo nella delizia del fruttoche apprezzo nella frescura dell’acqua che mi sazia la sete. E nella sostanza che mi permette ildomani. Posso sentirti nella soave brezzamattutina, nei primi raggi del sole che miriscaldano e sempre ti vedo in ogni oggetto, inogni volto, in ogni goccia di brina della verdeerba e nel battito delle ali dellerondinelle… sono piccolino davanti alla tuapresenza e oscuro nella tua trasparenza, ma i miei occhi mantengo serrati mentre il giorno corre, finchè l’ora vitale non giunge finchè ti incontro, nata dal nulla, fiorita, cristallina davanti ai mieiocchi e bevo dalla tazza delle tue labbra e mi scaldo al sole del tuo sorriso e mi sciolgo in infantile allegria e se ne vanno dal mio volto l’ombra el’amarezza e tutto ciò che mi fa soffrire quandonon ti ho Onda che vieni e che vai E torni nuovamente E torni a partire Ma che non si ferma mai In questo oceano di delizie che è iltuo corpo Che bagna il mio corpo Che fa nascere il sole sul mio volto. E’ la delizia, la dolcezza dei mieigiorni E ad ogni ora ti aspetto Per regnare sempre nella mia vita.
Per la traduzione in lingua italianaringrazio Ena Villani (http://www.enavillani.com) ed isuoi amici.