Remisson Aniceto

Remisson Aniceto

n. , Nova Era (MG)

Perfil
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Desatino


Olho-te e não te vejo.
Não és mais o que antes vi.
Procuro ver o que desejo
e desejo o que houve em ti.
 
Tudo é mudado, tudo é estranho...
Tudo difere do que vivemos.
A imaginar como fomos nos pomos
e tão alheios de nós nos percebemos...
 
À hora morta, é morto o riso
e do vento a ladainha nos ouvidos
insiste que o Amor é preciso
mas não adianta: estamos perdidos.
 
O tempo é escuro... a voz não fala...
No alvorecer dos belos dias
deixamos os sonhos. Nada nos abala.
Só nos resta agora a alma fria...
 
É mudo o meu ser mas não mudei.
Duas almas opostas no mundo.
Quando tu dormiste, acordei.
Vejo um corredor escuro e sem fundo...
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Biografia
Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.

Poemas

70

Elmano no retorno a Portugal


Ó Gil, o que me fizeste, ingrato irmão?
Eu tão longe da minha gentil Lisboa
(no Rio, em Damão, Macau, Cantão e Goa)
e me roubaste de Gertrúria o coração?
 
Lutei tanto, fui soldado, fui tenente,
até doente estive em terras deAlbuquerque.
Almejava sorte e glórias, mas moleque
entreguei-me à boêmia vida no oriente.
 
Seguindo a rota de Camões mundo afora,
busquei riqueza e um nome ilustre emoutras terras.
De que valeu? Esforço vão... foi tudoembora...
 
Se não tenho Gertrúria, mais nadaimporta.
"Já Bocage não sou!..." Tudose encerra
quando a esperança está morta.
523

Ave


Ontem, vi um pássaro no estertor damorte.
As asas não içavam o frágil corpo.
Das pernas - finos gravetos - esvaía afirmeza.
Peguei-o e não o senti: já não havia
movimentos, apenas imperceptíveis tentativas internas.
E eu, que sempre, tantas vezes,
desejei alçar voo como as aves
e desfrutar da liberdade da altura,
senti-me inútil...
Aquele pequenino ser, naquele momento
quisera sê-lo para transpor
as barreiras da liberdade.
463

No berço


Dizem que nasci
e que foi um sucesso,
mas não entendi.
Pois também ouvi
que agora o tempo escorre,
que é só retrocesso,
que quando se nasce se morre.
Foi mesmo o que ouvi?
Nasci ou morri?
Que estranho processo...
352

O amante

Finda o dia e já 'scurece...
Horas vespertinas em que divago
no meu leito inda sem flores. 
Estou lúcido e tu me apareces. 
Espera! que a dor não trago 
e ainda há dia em minha vida. 
Minha mente está caduca 
e vazio é o saco escrotal das minhas palavras. 
Quisera ejaculá-las todas, aos borbotões, 
em tua página vermelha e negra... 
Ah! Se não fosses infecunda! 
Transformar-te-ias com a maternidade. 
Reagirei, ó Dona Morte, Viúva Triste, Mulher Fatal! 
E incutirei em tuas veias os versos deste poema, 
marcapasso do meu coração. 
Desposaste Mallarmé, Camões, Bilac... 
Não te contentas? 
A mim, hás de ler-me vivo! 
Ninguém é totalmente insensível à Poesia. 
Assim, absorta em ouvir-me, enamorada, 
amar-te-ei ao ocaso e, antes que anoiteça, 
tendo-te aos meus pés, exausta e subjugada, 
de posse do teu segredo e em prol da Vida, 
matar-te-ei, ó Dona Morte! 


373

A Rosa dos anjos


Ó Rosa que no Céu estás plantada,
Rosa alva dos meus sonhos arrancada.
Tens a cor da bela nuvem em claro dia,
Perfumando os céus azuis da Fantasia.
 
Ó Rosa santa, das flores mor-rainha,
Tu perfumaste o jardim da vida minha.
Triste Flor na primavera colhida
Por quem de inveja me roubou a fé navida.
 
Etérea Flor, se sem querer foi quepartiste,
Foge do teu anjo guardião nalgumdescuido.
Quem te quer mais que o Céu na Terraexiste.
 
Que a levassem nada fiz por merecer.
Vem, Flor nívea, derramar teu santofluido,
No jardim que sem teu pólen vai morrer.
608

Nec otium


Exausto desta batalha
vou lhe propor um negócio:
enquanto você trabalha
eu permaneço no ócio.
409

Ao censor


Lê e critica meu verso,
que te é permitido fazê-lo.
Só não me prives, te peço,
do direito de escrevê-lo.
475

Origem

Ei-lo
no ventre alfonsino, 
no seco Aleixo das Geraes,
rico de fome e aridez...
427

Substancia


[para Rosangela de Fatima]
 
Mi trovo tante volte pensando a te
E visualizzo la tua perfetta forma didonna,
di giorno a sfiorare le labbra divelluto,
la notte ad accarezzare la seta deicapelli.
Se sei lontano da me, giorno dopogiorno
Ti trasformo nella delizia del fruttoche apprezzo nella frescura dell’acqua che mi sazia la sete.
E nella sostanza che mi permette ildomani.
Posso sentirti nella soave brezzamattutina,
nei primi raggi del sole che miriscaldano
e sempre ti vedo in ogni oggetto, inogni volto,
in ogni goccia di brina della verdeerba
e nel battito delle ali dellerondinelle…
sono piccolino davanti alla tuapresenza
e oscuro nella tua trasparenza,
ma i miei occhi mantengo serrati
mentre il giorno corre,
finchè l’ora vitale non giunge
finchè ti incontro, nata dal nulla,
fiorita, cristallina davanti ai mieiocchi
e bevo dalla tazza delle tue labbra
e mi scaldo al sole del tuo sorriso
e mi sciolgo in infantile allegria
e se ne vanno dal mio volto l’ombra el’amarezza
e tutto ciò che mi fa soffrire quandonon ti ho
Onda che vieni e che vai
E torni nuovamente
E torni a partire
Ma che non si ferma mai
In questo oceano di delizie che è iltuo corpo
Che bagna il mio corpo
Che fa nascere il sole sul mio volto.
E’ la delizia, la dolcezza dei mieigiorni
E ad ogni ora ti aspetto
Per regnare sempre nella mia vita.
 
Per la traduzione in lingua italianaringrazio Ena Villani (http://www.enavillani.com) ed isuoi amici.
469


 
Viver não me importa:
minha Rosa está morta!
 
Secou no jardim
com falta de mim.
 
A vida em comum
fez nós dois sermos um.
 
Ela partiu ontem à tarde:
fiquei só a metade.
 
Aspiro o tormento
que vem com o vento.
 
Perdi minha calma:
fugiu com sua alma.
 
A morte é a esperança,
não quero a lembrança.
 
Voltar não resolve,
sua vida não volve.
 
Ficar não consola,
a dor me assola.
 
Seguir é inútil
na estrada tão fútil.
 
Quero que anoiteça
e não mais amanheça.
 
Viver não me importa:
minha Rosa está morta!
327

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