Apenas escrevia ele seus versos E se dizia um livre pensador. Talvez também sonhasse algo melhor Em utopias d'outros Universos.
Poucos liam-lhe os poemas por dispersos E menos d'ele ouviam o alto ardor. Ainda assim passou por corruptor De jovens por uns ditos controversos...
A Ordem clamada pela autoridade Acusou do mais vil charlatanismo Àquele que buscava só verdade.
Mas d'olhos expectantes face ao abismo Prefere antes a morte à liberdade Pelas mãos dos chacais do imbecilismo.
Betim - 28 10 2018
580
AMENIDADES
Sim, falemos do tempo, da cidade; Evitemos falar de tudo o mais... Passemos por dois superficiais Incapazes de ver qualquer verdade.
Tratemo-nos com grande liberdade, Fingindo-nos ao máximo normais. E a sorrir -- nem de menos nem demais -- Como se verdadeira ora a amizade.
Sem passado, presente e nem futuro Busquemos pelo assunto mais seguro N'uma hora de forçada convivência.
E depois, no momento de ir embora Ao nos acompanharmos para fora Esqueçamos-nos já por conveniência.
Betim - 27 10 2018
527
POUCAS E BOAS #PoesiaSim
Se eu disser umas verdades Talvez m'escutem ou não. Quem pediu minha opinião? Como ter tais liberdades Em tempos de incompreensão?
Posso estar errado em tudo, Mesmo assim ouso falar A quem não quer escutar. Mais errado é ficar mudo Ou fingindo concordar:
-- "Distinguir entre nós e eles Prejulgando bons ou maus -- Ou pior -- pondo em degraus: P'ra lobos por sob as peles Justiçar-nos com calhaus!"
"Qual o lado dos sem lado? Dos que, como eu, não s'entendem Juízes do que não compreendem? Enquanto, sem certo ou errado, Muitos aos grandes se vendem..."
"Qual a razão do Irrazoável Que desconhece o respeito? Que bate no próprio peito E jacta-se respeitável, Mas dispara preconceito!..."
"Qual o sentido d'esse ódio Contra quem lhe é diferente? Não parece um presidente... Parece querer o pódio De opressor de sua gente:"
"Começa, a sua limpeza, Em matar "uns trinta mil"... Assim, obtuso e febril, Pondo as cartas sobre a mesa, Se assenhora do Brasil!
"Sim, por Ordem e Progresso, Declarar já terroristas Militantes e activistas... Por fim, fechar o Congresso E torturar esquerdistas."
"Vistas grossas aos perigos De se opor grei contra grei... Eis na República um rei: Se tudo para os amigos, Aos inimigos, a lei!"
"Assim descamba a violência Nos quatro cantos do país. Os pobres, feitos servis, Dobrados sem resistência Pela estultícia dos vis."
"Os artistas, perseguidos; Os intelectuais, vigiados; Os jornais, intimidados; Todos já embrutecidos, Divididos em dois lados..."
"D'um lado os homens de bem, D'outro, os outros (nós?) do mal... Desde quando ser normal Ter medo -- e raiva também! -- D'um governo federal?..."
Eu -- que em lados jamais creio -- Dou a estes versos um fim Que falem melhor de mim... Escolho o lado do meio: Ele não... Poesia sim!
Betim - 26 10 2018
119
DILACERADO
Hoje, o meu coração está ferido Como se cortes fundos pelos pulsos Perdessem-me os sentidos já convulsos Face à completa falta de sentido.
Torturadores, ou algo parecido, Declaram, desde já, presos ou expulsos Oponentes, descrentes e uns avulsos Que marginalizados tenham sido:
-- "Não lutem mais por terra e moradia, Tampouco liberdade d'expressão, Visto que terrorismos hoje em dia!"...
A ordem é o progresso da ilusão Que busca corromper a fantasia De Justiça Social e Comunhão.
Betim - 22 10 2018
598
MAGNO - A história de Alexandre
MAGNO - A história de Alexandre
CANTO PRIMEIRO
I Canto, ó musa, dos grandes o maior! Aquele cujos feitos nunca mais Haverão pelos tempos de igualar. Canto o senhor dos helenos e dos persas, E explorador das Arábias e das Índias!
D'entre todos os homens em seu Fado, Eu canto quem de Vênus tão dilecto Quanto de Marte mais favorecido, Como se não de reis, mas sim de deuses O houvessem concebido para a glória!
II Mas não, musa, não cabe ao menor poeta Cantar, por fim, dos grandes a grandeza... Tampouco lhe compete se arvorar Um cronista de cortes tão distantes No espaço e tempo às suas tortas letras!
Oh sim, como ousa o obscuro lançar luzes Sobre este cujo nome imenso brilha? Como, musa, algum poeta 'inda pretenda D'outro século os transes da Fortuna Que marcaram os dias de Alexandre?
III Ou mesmo, como da Hélade traduzir N'um tardio e vulgar falar latino Que por terras austrais americanas Calhou de florescer exuberante? E como -- para além das conjecturas --
Ter versos onde o velho se renove A iluminar as mentes d'este tempo Que pouco ou nada escutam d'outras eras? Mas haverá ainda d'entre nós Quem aprecie d'épicos o engenho?
IV Deveras... Não sabendo responder Tu silencias, musa, qual dissesses Dever também o poeta se calar... Afinal, que aproveita o homem em ter Vencido todo o mundo se se perde?
Que poderá o poeta contra o Fado Enquanto o próprio herói, em sua história, Sem conhecer derrota é esquecido? Talvez não reste um canto a se cantar Tampouco história alguma a ser contada...
V Se canto, ó musa, é antes teimosia Que talento ou verdade iluminados. Eu canto porque os homens e mulheres Coetâneos de Alexandre n'ele vivem! Eu canto porque os deuses o escolheram
Para levar o saber do Estagirita Às três partes do mundo conhecido: Por África, Ásia e Europa, desde Pela, Avançou até ser tido por Magno Mesmo onde seu domínio não chegou.
VI Mas canto, sobretudo, porque falham Todos os que o tentaram superar... Mesmo quem o epiteto após houvera: Pompeu, Gregório, Leão, Carlos, Alberto... Antes foram desejos d'outras glórias
Do que lumes capazes de ofuscá-lo! À semelhança de astros que pelo Orbe, Transitando em concerto gravemente, Luzem sem contrastar co'a luz mais alta Vista no céu nocturno entre as estrelas.
VII Alexandre, após guerras e poderes, A sua história aos códices da História Tivera assim, por mérito, elevada. Deve o poeta, contudo, não o douto Cantar o homem a além de suas obras.
Certo de que, ao exaltar sua existência, Celebre antes vivências que conquistas E entenda, humanamente, o que é ter Grandeza quando o mundo mais parece Carecer simplesmente de limites.
Betim - 18 10 2018
111
DESAVERGONHADOS
Se entre quatro paredes, nós dois nus Surpreendermos insones a manhã... Eu te olho espreguiçando no divã Reclinada de costas contra a luz.
Tanto teu peito arfante me seduz Que nem cuido se já perco a hora vã Em admirar-te a pele mais louçã Onde os seios a meus beijos fazem jus.
Quando pleno teu corpo se oferece, Logo a Beleza em ti se reconhece Como se Vênus vendo-se no espelho.
Tu me encaras, por fim, em desafio. E eu me entrego a adorar-te horas a fio, Pois diante d'uma deusa me ajoelho.
Betim - 16 10 2018
104
À MANEIRA POÉTICA
À MANEIRA POÉTICA
Não. Nada nunca é errado em poesia… Rimar ou não não garante o poético, ou melhor, nada garante.
Quando o poeta rima é porque exige dos sons das palavras a magia.
Quando ritma, é que ordena as tônicas segundo a respiração.
Quando metrifica apenas põe limite à frase para que não seja nem curta nem longa demais.
Quando não rima, ritma e metrifica, ele deixa as frases buscarem sua própria música.
D'um modo ou de outro, corre o risco de não fazer mais que preencher folhas em branco…
O poeta não escreve como escrevem; não fala como falam, nem poderia! Se o que ele busca é o extraordinário, exigindo das palavras mais que comunicação.
Se isso o faz maldito, que seja: Sim, mil vezes maldito por exigir a leitura atenta! Dez mil vezes por não facilitar a compreensão.
Maldito! Maldito seja!
Por colocar-se como resistência teimosa: Alguém que não vai silenciar enquanto não for silenciado.
Por escrever sem patrão o que lhe vem à cabeça ou que lhe angustia o peito…
(Jamais concordarei serem necessários genocídios para vivermos em paz).
Por que exigir do poeta, portanto, a bênção luminosa da superfície se ele desce às profundezas de si mesmo?
Betim - 15 10 2018
125
MALDITOS! N°2
Facto: Malditos porque mal falados. Porque muito mal lidos; mal descritos... Os bons? Somente os mortos! No passado.
Tantos a maldizer-nos os escritos: -- "Antiquados! Herméticos!! Absurdos!!!" Ou sem nem ler (assim assim): -- "Bonitos..."
Se declamamos, fingem estar surdos; Se publicamos, fingem que são cegos; Um povo sem país igual os curdos:
Poetas... Filhos de sós desassossegos Sempre a vagar sem pátria e sem dinheiro, Indo sobreviver de subempregos;
Ou distante vagando, aventureiro, Que por entre as palavras em vão erra Sem nunca encontrar-se paradeiro.
Hoje, até Ahasverus possui terra! No mesmo confim onde Israel governa E o ismaelita de novo se desterra...
Não os malditos... D'esses é eterna A caminhada errante vida afora Atravessando as noites na taverna.
Ali, já sem saber se ri ou chora, Senta-se e escreve em plena solidão, Alheio mesmo da hora de ir embora.
Eis dos poetas a glória e a maldição: Por fim, indiferentes se são lidos, S'entregarem à própria escuridão.
Pará de Minas - 14 10 2018
104
CÓLICAS
No hotel d'uma cidade bem distante Eu tento parir pedras e opiniões... Em vão rolo de dor sobre os colchões, Enquanto a noite cai extenuante.
Eu saio pelas ruas claudicante, Buscando analgesias pr'os culhões! Ainda que tomado de tensões Nas rugas que carrego no semblante:
A cada rosto estranho que me estranha Percebo minha angústia ser tamanha, Que sequer dignidade tenho mais.
Na farmácia, opioides pela veia Me dobram com seu canto de sereia Certo de que a paz vem tarde demais.
Ibiá - 12 10 2018
596
MALDITOS!
Quem são estes cuja luz fora apagada E, insones, têm nas noites seu refúgio, Atravessando em vão a madrugada?
Só querem ao poetar vago transfúgio Da vida d'esperanças comezinhas, Bem como contra o tédio subterfúgio?
Estes -- que vêm deixar nas entrelinhas Toda sorte de angústias autorais -- O que buscam por horas tão sozinhas?
Por que se fazem poetas? Por que mais Buscam tirar das letras o sublime, Senão por se sentirem sós demais?
Que furtaram aos deuses? Qual o crime Cometido na aurora dos milênios, Cuja pena a escrever nunca os redime?
Sem diferir se néscios ou se gênios, D'onde foi que obtiveram tal saber Que os obriga a versar entre proscênios?
Como estes que escrevem ousam ler Nas linhas d'horizonte um sol errático Por entre arranha-céus ao amanhecer?
Como alguém -- entre excêntrico e lunático -- Gastando a vida inteira com escritos Despidos de qualquer sentido prático?
Malditos! Sete mil vezes malditos! Estes que têm os versos por oráculo Havendo além dos céus mais infinitos...
Malditos os que têm pelo vernáculo Um carinho de artista incompreendido Que se imola no altar do tabernáculo!...
Dom às avessas!... Bênção ao inavido!... À margem das promessas e das glórias, Poetar é desdenhar o conhecido...
É saber inventadas as memórias E de belas mentiras a verdade Pretendida em suas vãs histórias.
Desastrólogos do alto, sejam poetas Malditos pelos séculos dos séculos, No augúrio de catástrofes completas!...